ESCOLA DA DIVINA VONTADE - DÉCIMA NONA SEMANA DE ESTUDOS

 MEDITAÇÃO

VOLUME 1

(140) Depois destas palavras meu coração adquiriu tanta força, que pouco ou nada sofri pela perda desse confessor que tanto bem tinha feito a minha alma. Foi assim que mudei confessor e
voltei ao que me confessava quando era pequena. Seja sempre bendito o Senhor, que se serve desses mesmos caminhos que a nós parecem contrários e que quase como que deveriam levar um dano a nossa alma, para nosso maior bem e para sua glória. Assim aconteceu que comecei a abrir-lhe a minha alma, porque até esse momento não tinha dito nada a nenhum, por quanto me dissessem não o conseguia, mas bem mais impotente me via para dizer as coisas de meu interior, era tanta a vergonha que sentia ao só pensar em dizer estas coisas, que me era mais fácil dizer os mais feios pecados. De onde veio isto, não sei dizer, por parte do confessor acho que não, porque ele era muito bom, me inspirava confiança, era doce e paciente para escutar, tomava cuidado detalhado de minha alma, tinha o olhar em tudo para que se pudesse caminhar direito. Por parte minha tampouco, porque sentia um obstáculo em minha alma e tinha toda a vontade de vencê-lo e de saber ao menos como pensava o confessor, mas me sentia impossibilitada de fazê-lo. Eu acredito que foi uma permissão do Senhor.

(141) Então, encontrando-me com o novo confessor, comecei, pouco a pouco a abrir meu interior, o Senhor muitas vezes me ordenava que manifestasse ao confessor o que Ele me dizia, e quando eu não o fazia, o Senhor me repreendia severamente e às vezes chegava a me dizer que se não o fizesse, Ele não viria mais; isto é para mim a pena mais amarga, diante da qual todas as outras penas não me parecem mais do que fios de palha; por isso, tanto era o temor de que não voltasse mais, que fazia quanto mais podia manifestar meu interior. É verdade que às vezes me custava muito, mas o medo de perder o meu amado Jesus fazia-me superar tudo. Por parte do confessor também me via empurrada a lhe dizer de onde provinha tal estado meu, o que me acontecia quando estava naquele adormecimento e qual era a causa; agora me ordenava manifestar, agora me obrigava com preceito de obediência, e logo me punha diante o temor de que pudesse viver na ilusão e no engano, vivendo para mim mesma, enquanto que se o manifestasse ao sacerdote poderia estar mais segura e tranqüila, e que o Senhor jamais permite que o sacerdote se engane quando a alma é obediente. Assim, Jesus Cristo me empurrava por um lado e o confessor por outro; às vezes me parecia que se punham de acordo entre eles. Assim pude chegar a manifestar meu interior. Isto não o fazia o confessor anterior, não me fazia nenhuma pergunta, não tratava de saber que coisas me aconteciam naquele estado de dormência, pelo que eu mesma não sabia como começar a falar destas coisas. O único cuidado que tomava era que estivesse resignada, uniformizada ao Querer de Deus, que suportasse a cruz que o Senhor me tinha dado, tanto que se às vezes me via um pouco perturbada, experimentava grande desgosto;

(142) Depois aconteceu que passei cerca de outro ano com este confessor, no mesmo estado dito acima, mas como sabia de onde provinha esse estado de sofrimento, me dizia que quando Jesus Cristo quisesse que me viessem os sofrimentos, fosse pedir a ele a obediência para sofrer.
Recordo que uma manhã depois da comunhão o Senhor me disse:

(143) "Filha, são tantas as iniqüidades que se comete , que a balança de minha Justiça está por transbordar. Deve saber que pesados flagelos farei cair sobre os homens, especialmente uma
feroz guerra na qual farei massacre da carne humana". "Ah sim", continuou quase chorando, "Eu dei os corpos aos homens a fim de que fossem tantos santuários onde Devia ir me deleitar, mas os transformaram em esgotos de imundícies, e é tanta a peste que me obrigam a estar longe deles.
Vê a recompensa que recebo diante de tanto amor e tanta dor que sofri por eles. Quem foi tratado como Eu? Ah, nenhum, mas quem é a causa? É o tanto amor que tenho. Por isso vou tentar com os castigos"

2-24
Maio 19, 1899

A humildade dá a certeza dos favores celestiais.

(1) Esta manhã tive receio de que não fosse Jesus, mas o demónio que me queria enganar. Então Jesus veio e, vendo-me com este temor, disse-me:
(2) "A humildade é a certeza dos favores celestiais. A humildade veste a alma de tal segurança, que as astúcias do inimigo não penetram dentro. A humildade põe a salvo todas as graças celestiais, tanto, que onde vejo a humildade faço correr abundantemente qualquer tipo de favores celestiais. Por isso não queira preocupar-se por isto, senão com olho simples olhe sempre em seu interior se está investida pela bela humildade, e de todo o resto não se preocupe".
(3) Depois fez-me ver muitas pessoas religiosas, e entre elas, sacerdotes, também de santa vida, mas por quanto bons fossem, não havia neles esse espírito de simplicidade para crer nas tantas graças e nos tantos diversos modos que o Senhor tem com as almas. E Jesus me disse:
(4) "Eu me comunico aos humildes e aos simples porque logo crêem em minhas graças e as têm em grande estima, ainda que sejam ignorantes e pobres; mas com estes outros que você vê Eu sou muito relutante, porque o primeiro passo que aproxima a alma a Mim é o crer; então acontece que estes, com toda a sua ciência, doutrina e até santidade, nunca provam um raio de luz celestial, isto é, caminham pelo caminho natural e jamais chegam a tocar nem sequer por um momento o que é sobrenatural. Esta é também a causa de por que no curso de minha vida mortal não houve nem sequer um douto, um sacerdote, um poderoso em meu seguimento, senão todos ignorantes e de baixa condição, porque quanto mais humildes e simples, são também mais fáceis a fazer grandes sacrifícios por Mim".

3-21
Dezembro 27,1889

A caridade deve ser como um manto que deve cobrir as ações

(1) Jesus continua a fazer-se parecer como sombra e como raio. Enquanto me encontrava num mar de amargura pela sua ausência, num instante fez-se ver-me dizendo:
(2) "A caridade deve ser como um manto que deve cobrir todas as tuas ações, de modo que tudo deve resplandecer de perfeita caridade. O que significa esse desgosto quando não sofres? Que a tua caridade não é perfeita, porque o sofrer por amor meu e o não sofrer por meu amor, sem a tua vontade, tudo é o mesmo".
(3) E desapareceu deixando-me mais amarga do que antes, querendo tocar uma nota muito delicada para mim, e que Ele mesmo me infundiu. Então depois de ter derramado amargas lágrimas em meu estado miserável, e pela ausência de meu adorável Jesus, Ele voltou e me disse:
4) Com as almas justas me porto com justiça, antes as recompenso duplamente por sua justiça, favorecendo-as com as graças maiores e falando-lhes com palavras justas e de santidade".
(5) No entanto, eu estava tão confusa e má, que não me atrevia a dizer uma só palavra, aliás, continuava a derramar lágrimas sobre a minha miséria. E Jesus, querendo dar-me confiança
colocou sua mão sob a minha cabeça para levantá-la, porque eu não a sustentava, e acrescentou:
(6) "Não temas, Eu sou o escudo dos atribulados".
(7) E desapareceu.

4-19
Outubro 14, 1900

O perigoso flagelo dos burgueses. Só a inocência atrai a misericórdia e mitiga a justa indignação.

(1) Esta manhã me sentia tão aturdida, que não reagia, nem podia ir como o habitual em busca de meu sumo Bem. De vez em quando se movia dentro de mim e se fazia ver, e me abraçando toda e compadecendo me dizia:
(2) "Pobre filha, tens razão de não poder estar sem Mim, como poderias viver sem teu amado?"
(3) E eu, perturbada por suas palavras, disse: "Ah, meu amado, que duro martírio é a vida por os intervalos em que sou obrigada a estar sem Ti. Tu mesmo o dizes, que tenho razão nisto, e logo
me deixas?"
(4) E ele se escondeu como se não quisesse que ouvisse o que me dizia, e eu fiquei de novo no meu tumulto, não podendo dizer mais nada; e, vendo-me de novo, turbada, disse:
(5) "Tu és todo o meu contentamento, no teu coração encontro o verdadeiro repouso e, repousando, sinto nele as mais queridas delícias".
(6) E eu, sacudindo-me de novo, disse-lhe: "Também para mim Tu és todo o meu contentamento, tanto que todas as outras coisas não são para mim senão amarguras".
(7) E Ele retirando-se de novo me deixou meio a falar, ficando mais perturbada que antes, e assim continuou esta manhã, parecia que tinha vontade de jogar um pouco. Depois disto me senti fora de mim mesma, e vi que vinham pessoas desconhecidas vestidas de burgueses, e as pessoas ao vê-las, todas se horrorizavam e davam um grito de espanto e de dor, especialmente as crianças, e diziam: "Se estes nos caem em cima, para nós tudo terminou", e acrescentavam: "Escondam as jovens; pobre juventude se chega às mãos destes". Então eu, dirigindo-me ao Senhor lhe disse:
"Piedade, misericórdia, afasta este flagelo tão perigoso para a mísera humanidade, te movam a compaixão as lágrimas da inocência".
(8) E Ele: "Ah! minha filha, só pela inocência tenho consideração pelos outros, só ela me arranca a misericórdia e mitiga minha justa ira".

5-21
Outubro 12, 1903

Significado da coroação de espinhos.

(1) Esta manhã, vi o meu adorável Jesus, coroado de espinhos, e, vendo-o naquele modo, disse-lhe: "Doce Senhor meu, por que vossa cabeça invejou a vosso flagelado corpo que havia sofrido tanto e tanta sangue tinha derramado, e não querendo a cabeça ficar atrás do corpo, honrado com o adorno do sofrer, instigaste a si mesmo os inimigos a coroar-se com uma coroa de espinhos tão dolorosa e tempestuosa?".
(2) E Jesus: "Minha filha, muitos significados tem esta coroação de espinhos, e por quanto disse fica sempre muito por dizer, porque é quase incompreensível à mente criada o por que minha
cabeça quis ser honrada com ter sua porção distinta e especial, não geral, de um sofrimento e espalhamento de sangue, fazendo quase concorrência com o corpo, o por que foi que sendo a cabeça que une todo o corpo e toda a alma, de modo que o corpo sem a cabeça é nada tanto que se pode viver sem os outros membros, mas sem a cabeça é impossível, sendo a parte essencial de todo o homem, assim é verdade, que se o corpo peca ou faz o bem, é a cabeça que dirige, não sendo o corpo outra coisa que um instrumento, então, devendo minha cabeça restituir o regime e o domínio, e merecer que nas mentes humanas entrassem novos céus de graças, novos mundos de verdade, e destruir os novos infernos de pecados, pelos quais chegariam a tornar-se vis escravos de vis paixões, e querendo coroar a toda a família humana de glória, de honra e de decoro, por isso quis coroar e honrar em primeiro lugar a minha humanidade, embora com uma coroa de espinhos dolorosíssima, símbolo da coroa imortal que restituía as criaturas, removida pelo pecado.
Além disso, a coroa de espinhos significa que não há glória e honra sem espinhos, que não pode haver jamais domínio de paixões, aquisição de virtudes, sem sentir-se perfurar até dentro da carne e do espírito, e que o verdadeiro reinar está no doar-se a si mesmo, com as picadas da mortificação e do sacrifício; ademais estes espinhos significavam que verdadeiro e único Rei sou Eu, e somente quem me constitui Rei do próprio coração, goza de paz e felicidade, e Eu a constitui rainha de meu próprio reino. Além disso, todos aqueles rios de sangue que brotavam de minha cabeça eram tantos riachos que ligavam a inteligência humana ao conhecimento de minha supremacia sobre eles".
(3) Mas quem pode dizer tudo o que ouço dentro de mim? Não tenho palavras para expressá-lo; antes o pouco que disse me parece haver dito incoerente, e assim creio que deve ser ao falar das coisas de Deus, por quanto alto e sublime um possa falar, sendo Ele incriado e nós criados, não se pode dizer de Deus mais que balbucios.

6-23
Março 4, 1904

A alma deve viver no alto. Quem vive no alto não pode ser danificado.

(1) Encontrando-me muito aflita e sofredora pela perda de meu bom Jesus, assim que o vi me disse:
(2) "Minha filha, tua alma deve tratar de ter o vôo da águia, isto é, morar no alto, sobre todas as coisas baixas desta terra, e tão alto, que nenhum inimigo a possa prejudicar, porque quem vive no
alto pode ferir os inimigos, mas não ser ferida. E não só deve viver no alto, mas deve tratar de ter pureza e acuidade de olhos semelhantes aos da águia. Assim, tendo esta vista e vivendo no alto, com a acuidade de sua vista penetra as coisas divinas, não de passagem, senão mastigando-as até fazer delas seu alimento predileto, desgostando-se de qualquer outra coisa, mas também penetra as necessidades do próximo e não teme descer entre eles e fazer-lhes o bem, e se for necessário põe sua própria vida. E com a pureza da vista, de dois amores faz um, o amor de Deus tal deve ser a alma se quer me agradar".

7-20
Junho 15, 1906

Toda a Vida Divina recebe vida do amor.

(1) Depois de ter esperado muito, meu bendito Jesus veio como relâmpago e me disse:
(2) "Minha filha, toda a Vida Divina, pode-se dizer que recebe vida do amor: O amor a faz gerar, o amor a faz produzir, o amor a faz criar, o amor a faz conservar e dá contínua vida a todas suas operações, assim se não tivesse amor, não agiria e não teria vida. Agora, as criaturas não são outra coisa que faíscas saídas do grande fogo de amor Deus, e sua vida recebe vida e atitude de obrar desta faísca, assim que também a vida humana recebe vida do amor; mas nem todos se servem dela para amar, para obrar o belo, o bom, para todo o seu agir, mas transformando esta faísca usam-na: Quem para amar a si mesmo, quem às criaturas, quem às riquezas, e quem até às bestas, tudo isto com grande desagrado do seu Criador, que tendo feito sair estas faíscas de seu grande fogo, anela recebê-las todas de novo em Si, mas mais engrandecidas, como tantas outras imagens de sua Vida Divina. Poucos são aqueles que correspondem à imitação de seu Criador. Por isso amada minha ame-me e faça que também sua respiração seja um contínuo ato de amor para Mim, para fazer que desta faísca se possa formar um pequeno incêndio, e assim
desafogar ao amor de seu Criador".

8-19
Novembro 23, 1907
Se a alma sofre distrações na comunhão, é sinal de que não se deu toda a Deus.

(1) Tendo-me inteirado por uma pessoa, que facilmente se distraía na comunhão, estava dizendo em meu interior: "Como é possível distrair-se estando Contigo? Não fica toda absorvida em Ti?"

Depois, encontrando-me em meu habitual estado, estava fazendo minhas habituais coisas internas, e via como se quisesse entrar em mim alguma distração, e a Jesus bendito que pondo suas mãos impedia que entrasse, e depois me disse:
(2) "Minha filha, se a alma sofre distrações, distúrbios, é sinal de que não se deu toda a Mim, porque quando a alma se deu toda a Mim, sendo minha coisa sei ter bem guardado meu dom;
enquanto que, quando em virtude do livre arbítrio não me dão tudo, Eu não posso ter essa custódia especial, e sou obrigado a sofrer as coisas irritantes que perturbam minha união com elas, enquanto que quando é toda minha, a alma não faz nenhum esforço para estar tranquila, o empenho é todo meu para não deixar entrar nada que pudesse perturbar nossa união".

9-19
Novembro 2, 1909

Não olhar o passado mas o presente.

(1) Continuando meu habitual estado, estava pensando em minhas coisas passadas, e o bendito Jesus fazendo-se ver me disse:
(2) "Minha filha, não olhe o passado, porque o passado já está em Mim e pode te servir de distração, e pode te fazer errar o pouco caminho que te resta fazer, porque esse virar o passado te faz afrouxar o passo para o presente caminho, e por isso perdes tempo e não fazes mais caminho.
Ao contrário, olhando apenas para o presente, você terá mais coragem, você estará mais estreita Comigo e fará mais caminho, e não passará perigo de errar".

10-21
Maio 19, 1911

A confiança arrebata Jesus. Ele quer que a alma se esqueça de si mesma e se ocupe só  d’Ele.

(1) Continuando meu habitual estado, meu sempre amável Jesus se fazia ver todo aflito, e eu estava junto a Ele para compadecê-lo, amá-lo, abraçá-lo e consolá-lo com toda a plenitude da confiança, e meu doce Jesus me disse:
(2) "Minha filha, tu és o meu contentamento, assim me agrada, que a alma se esqueça de si mesma, de suas misérias, que se ocupe só de Mim, de minhas aflições, de minhas amarguras, de meu amor, e que com toda confiança se esteja junto a Mim. Esta confiança me arrebata o coração e me inunda de muita alegria, porque como a alma se esquece de si por Mim, assim Eu esqueço tudo por ela e a faço uma só coisa para Mim, e chego não só a dar-lhe, mas a fazer-lhe tomar o que quer. Ao contrário a alma que não esquece tudo por Mim, mesmo suas misérias e se quer estar ao redor de Mim com todo respeito, com temor e sem a confiança que me arrebata o coração, e como se quisesse estar com temerosa compostura Comigo e toda reservada, a este tal nada lhe dou e nada pode tomar, porque falta a chave da confiança, da liberdade, da simplicidade, coisas todas necessárias, para Mim para dar, e para ela para tomar; portanto, com as misérias vem e com as misérias fica".

11-23
Junho 9,1912
Para a alma que faz a Divina Vontade e vive do Querer Divino não há mortes.

(1) Sentindo-me um pouco sofredor estava dizendo a meu sempre amável Jesus: "Quando me levarás Contigo? Ah, logo Jesus, faça que a morte me tire esta vida e me reúna Contigo no Céu!"

(2) E Jesus: "Minha filha, para a alma que faz minha Vontade e vive em meu Querer não há nem existem mortes. A morte está para quem não faz a minha vontade, porque deve morrer a tantas
coisas: a si mesmo, às paixões, à terra; mas quem faz a minha vontade não tem a que coisa morrer, já está habituado a viver do Céu, não é outra coisa que deixar seus trapos, como um que deixasse os vestidos de pobre para vestir-se com as vestes de rei para deixar o exílio e chegar à pátria, porque a alma que faz minha Vontade não está sujeita à morte, não tem juízo, sua vida é
eterna, O que a morte devia fazer, o amor o fez antecipadamente, e o meu Querer reordenou tudo em Mim, de maneira que não tenho do que julgá-la. Por isso esteja em minha Vontade, e quando menos pensar te encontrarás em minha Vontade no Céu".


MEDITAÇÃO

20. Partida de Jerusalém. O aspecto místico de Maria. A importância da oração para Maria e José.

28 de março de 1944.

Estamos em Jerusalém. Eu a reconheço bem agora, com suas estradas e suas portas.
Os dois esposos se dirigem ao Templo, em primeiro lugar. Reconheço a estalagem, onde José deixou o burrinho, no dia da Apresentação no Templo. Agora também é ali que ele deixa os dois
burros, depois de tê-los feito comer e beber, e vai adorar o Senhor, com Maria.
Depois voltam para fora. Pelo que parece, Maria e José vão para uma casa de pessoas conhecidas.
Lá fazem uma refeição, e Maria descansa até a volta de José, que chega acompanhado de um velhinho.

– Este homem vai pelo mesmo caminho por onde vais. E é muito pouco o que terás de andar sozinha, para chegar à casa de tua parenta. Podes confiar nele, que eu o conheço.
Montam de novo nos burrinhos, e José sai acompanhando Maria até à porta da cidade (não aquela pela qual entraram, mas uma outra). Lá, eles se saúdam e Maria vai sozinha com o
velhinho, que fala tanto mais, quanto José falava menos, interessando-se por mil coisas. Maria vai-lhe respondendo com muita paciência.

Agora ela tem, na parte dianteira de sua sela, o pequeno baú, que antes tinha sido sempre levado pelo jumento de José, e não mais com o manto grande. Nem mesmo o xale, pois ele está dobrado sobre o baú, e Maria está muito bonita, em sua veste azul escura, com o seu véu branco, que a protege do sol. Como está bonita!
O velhinho deve ser um pouco surdo porque, para fazer-se ouvir por ele, Maria precisou falar bem alto, ela que sempre costuma falar em voz baixa. Mas ele agora ficou cansado. Esgotou todo o seu repertório de perguntas e de notícias, e está cochilando sobre a sela, deixando-se guiar pelo jumento, que conhece bem a estrada.
Maria aproveita-se bem dessa trégua para recolher-se em seus pensamentos, e rezar. Deve ser uma oração, que está cantando em voz baixa, ao olhar o céu azul, com os braços sobre o peito, um semblante abrasado e feliz por uma emoção interior.
Não vejo mais nada.

Também agora, quando a visão me fica suspensa, como aconteceu ontem, fico com a mãe junto de mim, bem visível para a minha vista interior, e tão nítida, que posso descrever a cor rosada leve de sua face, não muito cheia, mas suavemente delicada, o vermelho vivo de sua pequena boca, o luzir doce de seus olhos azulados, entre o loiro escuro de seus cílios.

Posso dizer como os seus cabelos, repartidos no alto da cabeça, descem delicadamente com três ondulações de cada lado, até cobrirem a metade das pequenas orelhas rosadas, desaparecendo, com o seu ouro pálido e brilhante, atrás do véu que lhe cobre a cabeça. Estou vendo-a com o manto na cabeça, vestida com a sua veste de seda paradisíaca e com seu manto leve como um véu, embora opaco, feito do mesmo tecido que a veste.

Esta veste é ajustada ao seu pescoço por uma bainha, da qual sai um cordão, cujas pontas formam um laço na frente, na base do pescoço, e está apertada à altura da cintura, por um cordão mais grosso, sempre de seda branca, que desce ao longo de cada lado com duas borlas nas pontas.
Posso dizer também que, ajustada como está ao pescoço e à cintura, a veste forma sobre o peito sete pregas redondas e frouxas, o único enfeite de sua roupa castíssima.

Posso dizer ainda da castidade que emana do aspecto todo de Maria, de suas formas tão delicadas e harmoniosas, que a tornam tão angelicalmente, mulher.

E, quanto mais a olho, tanto mais eu sofro, pensando em quanto a fizeram sofrer, e fico perguntando, a mim mesma, como puderam deixar de ter piedade dela, tão mansa e gentil, tão delicada, até em seu próprio aspecto físico. Eu a fico olhando, e torno a ouvir os gritos do Calvário, também contra ela, com todas as zombarias e gracejos grosseiros. Todas as maldições, dirigidas a ela, por ser a mãe do condenado. Vejo-a bela e tranqüila, agora. Mas o seu aspecto de hoje não me desfaz a lembrança de suas trágicas feições, naquelas horas de agonia, e o seu semblante desolado em sua casa em Jerusalém, depois da morte de Jesus. Eu queria poder acariciá-la e beijá-la em sua face tão rósea e delicada, para tirar com o meu beijo aquela recordação de pranto que certamente ela, como eu, também tem. É inimaginável a paz que sinto ao té-la perto de mim. Penso que morrer, vendo-a, seja doce, e até mais do que a mais doce hora desta vida. Nesse tempo em que eu não a via assim, toda para mim, sofri a sua ausência, como a ausência de uma mãe. Agora sinto de novo a inefável alegria, que foi minha companheira em dezembro e nos primeiros dias de janeiro. Estou feliz, não obstante ter visto os tormentos da Paixão, que lançam sobre toda a minha felicidade um véu de dor.

É difícil dizer e fazer compreender o que eu experimentei e o que aconteceu a 11 de fevereiro, desde a tarde em que vi Jesus sofrer em sua Paixão. Foi uma visão que me mudou radicalmente. Morresse eu agora, ou daqui a cem anos, aquela visão permaneceria sempre igual na intensidade e nos efeitos. Antes, eu pensava nas dores de Cristo. Agora, eu as vivo, porque basta-me uma palavra, uma imagem, para eu sofrer de novo tudo o que sofri naquela tarde, horrorizando-me com aquele seu desolado padecimento. Mesmo quando nada me faz recordar aquilo, sinto essa recordação me atormentar.
Maria começa a falar e eu me calo.
Maria diz:

“Vou falar pouco, porque estás muito cansada, ó minha pobre filha.

Somente quero chamar a tua atenção, e a de quem estiver lendo, sobre o hábito constante de José, e meu também, de dar sempre o primeiro lugar à oração. Cansaço, pressa, desgostos, ocupações eram coisas que não impediam as orações, pelo contrário, a ajudavam até. Ela era sempre a rainha das nossas ocupações. O nosso conforto, a nossa luz, a nossa esperança. Se nas horas tristes, a oração era um conforto, nas horas felizes, era um canto. Mas era sempre a amiga constante de nossa alma. Era ela que nos fazia desprender-nos da terra deste exílio,
elevando-nos ao Céu, nossa Pátria.

Não somente eu, que já tinha Deus dentro de mim, não precisava senão olhar para o meu interior, para adorar o Santo dos santos, mas também José se sentia unido a Deus quando rezava, porque a nossa oração era adoração verdadeira, com todo o nosso ser que se fundia em Deus, adorando-O e sendo por Ele abraçado.
Olhai bem, mesmo assim, eu que tinha em mim o Eterno, não me senti isenta de prestar um reverente obséquio ao Templo. A santidade mais alta não exime ninguém de sentir-se nada diante de Deus, e de humilhar esse nada, pois o Senhor no-lo permite, em um contínuo hino de louvor à Sua glória.

Sois pobres, fracos, defeituosos? Invocai a santidade do Senhor: “Santo, 20.7 Santo Santo!”. Clamai por Ele, Santo bendito, sobre a vossa miséria. Ele virá e derramará sobre vós a sua santidade. Sois santos e ricos de merecimentos aos Seus olhos? Invocai, do mesmo modo, a santidade do Senhor. Essa santidade é infinita e fará crescer sempre mais a vossa. Os anjos, seres que estão acima das fraquezas da humanidade, não cessam um instante de cantar o seu “Sanctus”, e a beleza sobrenatural deles aumenta, cada vez que invocam a santidade de nosso Deus. Imitai os anjos.

Não vos priveis nunca da proteção da oração, contra a qual ficam embotadas as armas de satanás, as malícias do mundo, os apetites da carne e as soberbas da mente. Não deponhais nunca esta arma, pela qual se abrem os céus, de onde chovem graças e bênçãos.
A terra está precisando de um banho de orações para limpar-se das culpas que atraem os castigos de Deus. Mas, como são poucos os que rezam, esses poucos precisam rezar como se fossem muitos, multiplicando as suas orações vivas, para fazerem delas o total necessário para se obter a graça pedida. Orações vivas, são as temperadas com verdadeiro amor e com sacrifício.

Que tu, minha filha, sofras, principalmente porque o teu sofrimento,  unido ao meu e ao de Jesus, torna-se uma coisa boa, agradável a Deus, com muitos merecimentos. Gosto muito do teu amor de compaixão. Queres dar-me um beijo? Beija as chagas de meu Filho. Embalsama-as com o teu amor. Eu senti espiritualmente as dores, a angústia e a aflição causadas pelos flagelos, pelos espinhos e pela tortura dos cravos e da cruz. Mas, de modo igual, eu sinto espiritualmente todas as carícias feitas ao meu Jesus: são beijos dados a mim. Depois, vem. Eu sou a rainha do céu. Mas sou sempre a mãe…”.
E estou feliz.


EXPLICAÇÕES IMPORTANTES
CAPÍTULO 16
HÁBITOS DAS VIRTUDES COM QUE O ALTÍSSIMO DOTOU A ALMA DE MARIA SANTÍSSIMA. PRIMEIROS ATOS QUE DELAS PRATICOU NO SEIO DE SANT¨ANA. A MÃE DE DEUS COMEÇA A ME DAR DOUTRINA PARA SUA IMITAÇÃO.

Maria recebe as torrentes de graça

225. Dirigiu Deus a impetuosa corrente de sua divindade (SI 45,5), para alegrar esta mística cidade da alma santíssima de Maria. Fê-la brotar da fonte de sua infinita sabedoria e bondade, que 0 levara a depositar nesta divina Senhora, os maiores tesouros de graças e virtudes, jamais vistas e concedidas a qualquer outra criatura.
A hora de lhos entregar em posse, foi o mesmo instante em que ela começou a existir. Então realizou o Onipotente, com plena satisfação e gosto o desejo que, desde a eternidade, conservava
como suspenso até chegar o tempo propício para satisfazê-lo. Assim o fez este fidelíssimo Senhor, derramando na alma santíssima de Maria, no instante de sua conceição, todas as graças e dons, em tão eminente grau, como nenhum santo, nem todos juntos puderam receber, nem língua humana pode explicar.

As virtudes teologais

226. Como esposa que descia do céu (Ap 21, 2) foi adornada com todo gênero de hábitos infusos. Não foi, porém, necessário que desde logo os exercitasse todos, mas somente aqueles que podia e convinha ao estado em que se encontrava no seio materno.
Em primeiro lugar, foram as virtudes teologais, fé, esperança, e caridade que têm Deus por objeto. Exercitou-as imediatamente, conhecendo a Divindade por modo altíssimo da fé; todas as suas
perfeições e infinitos atributos, a Trindade e a distinção das Pessoas, sem que este conhecimento impedisse outro que recebeu do mesmo Deus, conforme logo direi.
Exerceu também a virtude da esperança, que aspira a Deus como objeto de toda a bem-aventurança e último fim.
Aquela alma santíssima logo se elevou com intensíssimos desejos de a Ele se unir, sem interromper um só instante esta inclinação, para se voltar a outra coisa.
A terceira virtude, a caridade que se dirige a Deus como infinito e sumo bem, praticou no mesmo instante com tal intensidade e estima da Divindade, que a tão iminente grau não poderão chegar todos os serafins com seu maior ardor e virtude.

As virtudes morais, naturais

227. As outras virtudes que adornam e aperfeiçoam a parte racional da criatura, teve-as no grau correspondente às teologais. As virtudes morais e naturais, teve-as em grau milagroso e sobrenatural.
Muito mais altamente, na ordem da graça, recebeu os dons e frutos do Espírito Santo.
Recebeu ciência infusa e hábitos de todas as artes naturais e conheceu todo o natural a sobrenatural que conveio à grandeza de Deus. Desde o primeiro instante, no ventre materno, foi mais sábia, mais prudente, mais ilustrada e capaz de Deus e de todas as suas obras, do que todas as criaturas têm sido nem serão eternamente, exceto seu Filho santíssimo.
Esta perfeição consistiu não somente nos hábitos que lhe foram infundidos em tão alto grau, mas também, em seus respectivos atos de acordo com sua condição e excelência, e conforme naquele instante os pôde exercitar mediante o poder divino, que nisso não se cingiu a outra lei, senão a de seu divino beneplácito.

Maria pratica as virtudes teologais

228. A respeito de todas as virtudes e graças, e seu exercício, muito se falará no decurso desta história da vida santíssima de Maria. Aqui explicarei somente algo do que praticou no instante de sua conceição, com os hábitos que lhe foram infundidos e a luz na qual então os recebeu.
Com os atos das virtudes teologais, conforme falei; pela virtude da religião e as demais cardeais que lhe seguem, conheceu a Deus em si mesmo, e como Criador e Remunerador. Com heróicos atos o reverenciou, louvou e agradeceu por havê-la criado. Amou-O, temeu-O, adorou-O, oferecendo-lhe sacrifício de magnificência, louvor e glória pelo seu Ser imutável.
Conheceu os dons que recebia, ainda que alguns lhe foram ocultos, e afetuosamente agradeceu a todos com profunda humildade e prostrações corporais, não obstante o pequenino corpo que
então possuía no seio materno. Com estes atos mereceu mais naquele estado do que todos os santos no cume da perfeição e santidade.

Conhecimento da divindade

229. Além dos atos da fé infusa, recebeu outro conhecimento do mistério da divindade e santíssima Trindade. Não a viu intuitivamente, naquele instante de sua conceição, ao modo dos bem-aventurados Viu-a abstrativamente com outra luz ' visão inferior à visão beatífica, porém superior a todos os outros modos com que Deus pode se manifestar e se manifesta ao entendimento criado.
Foram-Ihe dadas umas espécies da Divindade tão claras e manifestas que nelas conheceu o ser imutável de Deus, e Nele todas as criaturas, com maior luz e evidência do que uma criatura é conhecida por outra.
Foram estas espécies como um espelho claríssimo, no qual resplandecia toda a Divindade e nela as criaturas. Com esta luz e espécies da natureza divina viu e conheceu todas em Deus, com maior distinção e clareza que, por outras espécies e ciência infusa, as conhecia em si mesmas.

Conhecimento das criaturas

230. Por todos estes modos, conheceu desde o instante de sua conceição todos os homens e os anjos com suas ordens, dignidades e operações, e todas as criaturas irracionais com suas naturezas e propriedades.
Conheceu a criação, estado e ruína dos anjos; a justificação e glória dos bons, a queda e castigo dos maus; o primeiro estado de Adão e Eva em sua inocência, o engano e miséria que o pecado produziu nos primeiros pais, e por elas a toda a descendência humana; o propósito da vontade divina para repará-lo e como essa reparação se aproximava, dispondo-se a ordem e natureza dos céus, astros, planetas e elementos; conheceu o purgatório, o limbo e o inferno.
Compreendeu que todas as coisas foram criadas pelo poder divino, e por Ele também mantidas e conservadas unicamente por sua infinita bondade, sem delas ter necessidade alguma (2Mc 14, 35).
Acima de tudo, teve altíssima compreensão sobre o mistério que Deus realizaria fazendo-se homem para redimir todo o gênero humano, enquanto deixara os maus anjos sem esse remédio.

Louvor a Deus 

231. Ao passo que a alma santíssima de Maria, no instante em que foi unida ao corpo, ia conhecendo todas estas maravilhas, foi também realizando heróicos atos de virtudes. Louvor, glória,
adoração, humildade, amor de Deus, e dor pelos pecados cometidos contra aquele sumo bem que reconhecia por autor e fim de tantas obras admiráveis.
Ofereceu-se logo como sacrifício aceitável ao Altíssimo, começando desde aquele momento, com fervoroso afeto a bendizê-Io, amá-lo e reverenciá-lo, o quanto viu que nisto faltaram, tanto os maus anjos como os homens.
Aos santos anjos, de quem já era Rainha, pediu que a ajudassem glorificar o Criador e Senhor de todos, e que pedissem também por ela.

Maria e os anjos

232. Mostrou-lhe ainda o Senhor, naquele instante, os anjos da guarda que lhe destinara. Vendo-os, honrou-os com benevolência e os convidou para, alternadamente, louvarem o Altíssimo com
cânticos de louvor. Avisou-lhes que seria este o ofício que desempenhariam com Ela, todo o tempo de sua vida mortal, durante a qual iriam assisti-la e guardá-la.
Conheceu também toda a genealogia e todo o resto do povo escolhi do de Deus, e quão pródigo havia sido sua Majestade nos dons, graças e favores que havia concedido aos seus patriarcas e profetas.
Aquele corpozinho, no instante em que recebeu a alma santíssima, era tão pequeno que mal se poderiam perceber seus sentidos exteriores. Apesar disso, para não faltar excelência alguma
das que poderiam engrandecer a escolhida para Mãe de Deus, ordenou seu poder que chorasse ao conhecer a queda do homem. Derramou lágrimas no seio de sua mãe, pela dor que lhe causou o conhecimento da gravidade do pecado contra o sumo Bem.

Intercessão de Maria pela redenção dos homens

233. Com este milagroso afeto, pediu, logo no primeiro instante de sua existência, a salvação dos homens, começando seu ofício de medianeira, advogada e reparadora.
Apresentou a Deus os clamores dos santos pais e dos justos da terra, para sua misericórdia não adiar mais a salvação dos mortais a quem considerava seus irmãos.
Antes de conviver com eles já -os amava com ardentíssima caridade, e assim que começou a existir, também começou a ser sua benfeitora, graças ao amor divino e fraterno que ardia em seu
abrasado coração.
Estas súplicas foram aceitas pelo Altíssimo com mais agrado que todas as dos santos anjos, e assim foi dado a entender àquela que era criada para Mãe do mesmo Deus. Ainda que por ora Ela
o ignorasse, conheceu, entretanto, o amor de Deus pelos homens e seu desejo de descer do céu para os redimir.
Era justo que para apressar essa vinda, atendesse mais aos rogos e petições daquela criatura para a qual principalmente vinha, e de quem receberia a natureza humana. Nela iria realizar
esta obra, a mais admirável, e a finalidade ultima de todas as outras.

Outras súplicas de Maria

234. No instante de sua conceição pediu também por seus pais naturais, Joaquim e Ana. Antes de os ver com o corpo, viu-os e conheceu-os em Deus, exercitando logo com eles a virtude do amor, reverência e gratidão filial, reconhecendo-os por causa segunda de seu amor natural.
Fez ainda outras muitas súplicas, em geral e em particular, por diversas intenções.
Com a ciência infusa que possuía, compôs cânticos de louvor em sua mente e coração, por haver encontrado na entrada da vida a dracma preciosa (Lc 15, 9) que nós todos perdemos em nossa origem.
Achou a graça que lhe saiu ao encontro (Eclo 15, 2) e a divindade que a esperava nos umbrais da natureza (Sb 6, 15). No primeiro instante de seu ser deparou com o nobilíssimo objeto que moveu e estreou suas potências, porque só para Ele foram criadas. Havendo de ser suas, em tudo e por tudo, eram-lhe devidas as primícias de seus atos, a saber, o conhecimento e o amor divino.
Nesta Senhora não houve, desde que começou a existir, um instante sequer sem o conhecimento de Deus, sem o amor deste conhecimento e sem o merecimento deste amor.
Em tudo isto não houve coisa pequena, nem medidas segundo as leis comuns e regras gerais. Tudo foi grande, onde saiu do Altíssimo para continuar l crescer e chegar a ser tão grande que
s5 Deus fosse maior.
Oh! que formosos passos (Ct 7,1) foram os teus, filha do príncipe, pois com o primeiro já chegaste à Divindade.
Duas vezes formosa (Idem 4, 1) porque tua graça e formosura ultrapassa toda formosura e graça! Divinos são teus olhos (Idem 7, 5) e teus pensamentos são como a púrpura do Rei, pois roubaste seu coração, e ferido (Idem 4, 9) por estes cabelos o enlaçaste, e cativo por teu amor o atraíste ao receptáculo de teu virginal seio e coração.

Maria ultrapassa os Anjos

235. Este foi verdadeiramente o lugar onde a esposa do Rei dormia, e seu coração velava (Idem 5.2). Dormiam aqueles sentidos corporais que apenas tinham a forma natural e nem sequer haviam visto a luz do sol; enquanto aquele divino coração, mais incompreensível pela grandeza de seus dons do que pela pequenez de seu físico, velava no tálamo de sua mãe, na luz da Divindade que o envolvia e abrasava no fogo de seu imenso amor.
Não era conveniente que nesta divina criatura, as faculdades inferiores operassem antes que as superiores da alma, nem que estas tivessem operação inferior ou igual a qualquer outra criatura. Se o agir corresponde ao ser de cada coisa, aquela que sempre era superior a todas na dignidade e excelência, também deveria operar com equivalente superioridade a toda criatura angélica e humana.
Não lhe deveria faltar a excelência dos espíritos angélicos que logo no momento da criação usaram de suas faculdades.
Esta grandeza e prerrogativa se devia a quem era criada para sua Rainha e Senhora, com tanto maior vantagem (Hb 1,5) quanto o nome e ofício de Mãe de Deus excede ao de servo, e o de rainha ao de súdito.
A nenhum dos anjos disse o Verbo, tu és minha mãe, nem algum deles pôde dizer a Ele, tu és meu filho. Somente entre Maria e o Verbo eterno houve esta mútua relação, e por aqui se há de medir e investigar a grandeza de Maria, como o apóstolo mediu a de Cristo.

Maria pode ser contemplada, mas não explicada

236. Escrevendo estes segredos do Rei (Tb 12,7), quando já é honorífico revelar suas obras, confesso minha rudeza e limitação de mulher, e me aflijo por falar com termos comuns e vazios que não exprimem o que entendo na luz que, sobre estes mistérios, minha alma recebe.
Necessários seriam, para não ofender tanta grandeza, outras palavras, razões e vocábulos particulares e apropriados, desconhecidos por minha ignorância.
Mesmo se existissem, excederiam e oprimiriam a humana fraqueza.
Reconheça-se, pois, incapaz para fixar a vista neste divino sol, que com raios de divindade desponta no mundo, ainda que encoberto pela nuvem do seio materno de Sant'Ana. Se queremos
que nos dêem licença para ver de perto esta maravilhosa visão, cheguemos livres e despidos: uns da natural covardia, outras do temor e timidez, ainda que seja com pretexto de humildade. Todos, porém, com suma devoção e piedade, afastados do espírito de contenda (Rm 13, 13). Assim nos será permitido ver de perto o fogo da Divindade no meio da sarça, sem a consumir (Êx 2,2).

Maria e a visão de Deus

237. Falei que a alma santíssima de Maria, no primeiro instante de sua puríssima conceição, viu abstrativamente a divina essência, porque não me foi manifestado que visse a glória essencial.
Entendo que este privilégio foi especial para a santíssima alma de Cristo, como devido e resultante de sua união substancial com a Divindade na pessoa do Verbo; nem um só instante deixaria
de estar, pelas faculdades da alma, unida com a Divindade por suma graça e glória.
Como aquele homem, Cristo nosso bem, começou a ser juntamente homem e Deus, também começou a conhecer e amar a Deus como compreensor.
A alma de sua Mãe Santíssima, porém, não estava unida substancialmente à Divindade, e assim não começou a operar como compreenssora, porque entrava na vida como viadora. Mas nesta
ordem, sendo quem era, a criatura mais imediata à união hipostática, recebeu uma visão a Ela proporcionada, e a mais próxima da visão beatífica. Embora inferior a esta, foi superior a todas quantas visões e revelações da divindade tiveram as criaturas, fora da clara visão e fruição da glória.

Em certo modo e por especiais condições porém, a visão da Divindade que gozou a mãe de Cristo naquele primeiro instante, excedeu à visão clara de outros bem-aventurados. Abstrativamente
conheceu Ela, mais mistérios que outros na visão intuitiva. O fato de não ter visto a Divindade face a face naquele momento da conceição, não impede que depois a visse muitas vezes pelo decurso de sua vida, como adiante direi.

DOUTRINA QUE ME DEU A RAINHA DO CÉU SOBRE ESTE CAPÍTULO.

Nossa Senhora começa seu magistério

238. Prometera-me a Rainha e Mãe de Misericórdia que, em chegando a escrever os primeiros atos de suas potências e virtudes, dar-me-ia instrução e doutrina para modelar minha vida ao puríssimo espelho da sua. Esta era a principal finalidade de seus ensinamentos.
Sendo a grande Senhora fidelíssima, assistindo-me sempre com sua divina presença ao me explicar estes mistérios, começou a cumprir sua palavra neste capítulo, falando-me assim:

Vivência da doutrina

239. Minha filha, escrevendo os mistérios de minha santíssima vida, quero que para ti mesma colhas o fruto que desejas. Se com a graça do Altíssimo te dispuseres para me imitar, praticando o
que ouvires, a recompensa de teu trabalho será a maior pureza a perfeição de tua vida.
É vontade de meu Filho Santíssimo que empregues todo esforço para aprender o que eu te ensinar, considerando minhas virtudes e ações com todo apreço de teu coração. Ouve-me com atenção e fé que eu te direi palavras de vida eterna, ensinar-te-ei o mais santo e perfeito da vida cristã e o mais agradável aos olhos de Deus. Com isto ficarás preparada para melhor receber a luz, na qual te serão revelados os ocultos mistérios de minha vida santíssima e a doutrina que desejas.

Primícias para Deus

240. É ato de justiça devida ao Deus eterno que a criatura, ao receber o uso da razão, dirija-lhe seu primeiro impulso para conhecê-lo, amá-lo, reverenciá-lo e adorá-lo como seu Criador, único e
verdadeiro Senhor. Por natural obrigação devem os pais guiá-los com cuidado, para que logo procurem seu último fim e o encontrem aos primeiros atos da razão e vontade.
Com empenho deveriam retirá-los das criancices e erros pueris a que a mesma natureza corrompida propende quando abandonada a si mesma.
Se os pais se antecipassem a prevenir os desvios das inclinações de seus filhos, e desde a infância os fossem instruindo, dando-lhes muito cedo notícia de seu Criador, estariam mais dispostos para logo começar a conhecê-lo e adorá-lo.
Minha santa mãe - que desconhecia minha privilegiada natureza e sabedoria fez isto comigo tão pontualmente que, trazendo-me ainda em seu seio, adorava em meu nome o Criador. Dava-lhe, por mim, suma reverência e ação de graças por me haver criado, suplicando-lhe que me protegesse, guardasse e me desse feliz nascimento.
De igual modo, devem os pais suplicar fervorosamente a Deus que, por sua providência, proporcione a graça do batismo a seus filhos e liberte suas almas da servidão do pecado original.

Fidelidade a Deus

241. Se a criatura racional não houver reconhecido e adorado o Criador ao primeiro uso da razão, deverá fazê-lo no momento em que chegue a conhecer pela fé aquele Ser e único Bem, antes ignorado.
Daí em diante deve a alma trabalhar para nunca perde-lo de vista e sempre temê-lo, amá-lo e reverenciá-lo. Tu, minha filha, deste a Deus esta adoração no decurso de tua vida, mas agora quero que a pratiques com mais perfeição, conforme vou te ensinar.
Fixa a vista interior de tua alma em Deus, o Ser sem princípio e sem fim. Contempla-o infinito em perfeições, a única e verdadeira santidade, o sumo bem. É o objeto nobilíssimo da criatura, quem deu existência a tudo quanto é criado e sem ter necessidade de nada, tudo sustenta e governa.
É a perfeita beleza, sem mancha nem defeito algum. Eterno no amor, verdadeiro nas palavras, fidelíssimo nas promessas, o que deu a própria vida entre tormentos, pelo bem de suas criaturas, sem que alguma o haja merecido.
Nesta imensa amplidão de bondade e benefícios, espraia teu olhar e ocupa tuas faculdades, sem esquecê-lo nem afastá-lo de ti, porque com tal conhecimento do sumo bem, seria grosseria e
deslealdade esquecê-lo com detestável ingratidão. Esta seria a tua, se depois de haver recebido luz divina superior à comum e ordinária da fé infusa, teu entendimento e vontade se desviassem do caminho do amor divino.
Se alguma vez, por fragilidade, o fizeres, volta quanto antes à sua procura, e humilhada adora o Altíssimo dando-lhe honra, magnificência e louvor eterno. Sabe que praticar isto, por ti e por todas as demais criaturas, deves considerar tua obrigação e desempenhá-la cuidadosamente como quero.

Exemplo de Maria Santíssima

242. Para te exercitares com mais fervor, considera em teu coração o meu exemplo: aquela primeira visão do sumo bem me feriu o coração de amor e a Ele me entreguei toda para jamais perdê-lo. Apesar de tudo, vivia sempre solícita e não sossegava, esforçando-me para chegar até o âmago de meus desejos e afetos. Sendo infinito o objeto, tampouco o amor há de ter fim e descanso enquanto não chegar à sua posse.
Em seguida ao conhecimento de Deus e de seu amor, deves conhecer-te a ti mesma, meditando em tua pequenez e vileza.
Adverte que estas verdades, bem entendidas e freqüentemente meditadas, produzem divinos efeitos nas almas.

Oração da filha à Virgem

243. Senhora minha, de quem sou escrava e a quem de novo me dedico e consagro: não é sem razão que ansiosamente desejava meu coração este dia, para conhecer, graças à vossa maternal dignação, a inefável alteza de vossas salutares palavras. Confesso, minha Rainha, de todo meu coração que não tenho nenhuma boa obra para merecer este benefício por recompensa. A de escrever vossa vida santíssima, julgo tão grande ousadia que se não fosse por obedecer à vossa vontade e a de vosso Filho, jamais mereceria perdão.
Recebei, minha Senhora, este sacrifício de louvor e falai que vossa serva ouve (lRs 3,10). Soe, dulcíssima Senhora minha, vossa suavíssima voz aos meus ouvidos (Ct 2,14), pois tendes palavras de vida (Jo 6, 69). Continuai vossa doutrina e luz para que meu coração se dilate no mar imenso de vossas perfeições e tenha digno motivo para louvar o Todo poderoso.
Arda em meu peito o fogo que vossa piedade acendeu para eu desejar o mais santo, o mais puro e o mais aceito da virtude aos vossos olhos.

Sinto, todavia, na parte inferior, a lei repugnante de meus membros (Rm 7,23) que retarda e embaraça o meu espírito, e tenho razão para temer me impeça o bem que Vós, piedosa Mãe, me ofereceis.
Olhai-me, pois, como filha, ensinai-me como discípula, corrigi-me como serva e constrangei-me como escrava, quando eu afrouxar e resistir. Não o desejo voluntariamente, mas por fragilidade poderei recair.
Elevar-me-ei ao conhecimento do Ser de Deus, com sua divina graça governarei meus afetos para se enamorarem de suas divinas perfeições e unida a Ele não o deixarei (Ct 3,4). Vós, porém,
Senhora e Mãe da Sabedoria e do amor formoso (Eclo 3,4), pedi a vosso Filho não me desampare, pela liberalidade com que agraciou vossa humildade (Lc 2, 48), Rainha e Senhora de toda a criação.


MEDITAÇÃO

Tomo 1 Vida Intima de Ns Senhor Jesus Cristo-85

Tomo 1 Vida Intima de Ns Senhor Jesus Cristo-86

Tomo 1 Vida Intima de Ns Senhor Jesus Cristo-87

Tomo 1 Vida Intima de Ns Senhor Jesus Cristo-88

Tomo 1 Vida Intima de Ns Senhor Jesus Cristo-89

EM CAMINHO

Passada a noite nos padecimentos e tendo eu tratado com meu Pai sobre os interesses de meus irmãos e obtido para eles numerosas graças, ao despontar o dia, Maria e José puseram-se de novo a caminho, tendo antes feito os habituais louvores e agradecimentos ao Pai. Via a querida Mãe e José em tanta pobreza, em tanta aflição, sem terem com que se reconfortar e apenas possuírem com que se resguardar naquele campo desolado, sem socorro algum. Tendo eles caminhado um grande trecho, cansados e aflitos, pedia ao Pai se dignasse enviar-lhes algum auxílio, por meio de seus anjos. O Pai o fez, e à hora da refeição, fizeram-na com muitas lágrimas de júbilo, vendo a divina bondade tão atenta e solícita em provê-los. Reconfortados, cantaram hinos de louvor ao Pai. Cantava a dileta Mãe tão suavemente que os próprios anjos, ao ouvi-la, ficavam encantados, e era muito agradável ao Pai. Ofereci os seus e os meus agradecimentos ao Pai, os quais eram-lhe muito gratos, e supliquei-lhe se dignasse socorrer a todos aqueles que se achassem em necessidade semelhante e inclinar sua bondade a auxiliar de modo admirável a todos os que sofrem por seu amor e para porem a salvo a própria alma.

JÚBILO DE JESUS

Prosseguia esta viagem com grande júbilo, por saber tal ser a vontade do Pai, donde redundaria tanta glória para Ele; enquanto eu me detinha na nação de pessoas infiéis, muitíssimos conheceriam meu Pai através de minha permanência lá, e abandonada a idolatria, se converteriam e adorariam o verdadeiro Deus. Oferecia a viagem realizada com tanto júbilo ao Pai, e suplicava-lhe que em virtude dela se dignasse dar fortaleza, virtude e espírito aos meus irmãos mais fiéis, e inspirar ao coração deles, com poderoso impulso, que fossem aos países dos infiéis para converterem e reduzirem as almas, por exortações, ao conhecimento e à adoração do verdadeiro Deus; e desse tanta força e virtude à palavra deles que chegassem a penetrar no íntimo de seus corações e de suas mentes, e concorresse com a sua poderosa graça para que deixassem com ânimo pronto a idolatria. Orei com grande instância, grande afeto e desejo da salvação das almas sepultadas na ignorância. Ao Pai muito agradou esta minha súplica e prece, e desde então prometeu-me o cumprimento de tal postulado e vi como, na verdade, o executaria perfeitamente. Vi aqueles que corresponderiam à vocação dada por meu Pai e como se esforçariam pela conversão dos infleis com tal prontidão e constância, sacrificando-se a si mesmos pela glória do desta Pai e a salvação do próximo. E via o grande fruto que colheriam a pregação. Via todas as fadigas as e as tribulações que suportariam para tal fim, os trabalhos, as perseguições e até a morte para muitos deles. Olhava-os com grande amor e complacência, e agradecia ao Pai por lhe ter agradado enviar-me ao mundo, somente por ver aquelas almas tão amantes de sua glória e de sua honra, e que por Ele trabalhavam, à imitação de mini. Suplicava ao Pai lhes desse cada vez mais nova virtude e fortaleza e fosse para com elas pródigo de graças, fazendo com que toda a criação se sujeitasse a suas ordens, que até as criaturas insensíveis, a enfermidade e a própria morte lhes obedecessem, os demónios fossem sujeitos a seu comando, e todo o inferno temesse e lhes obedecesse; nada, por pior que fosse, tivesse podido prejudicá-los; fizesse-lhes provar a suavidade de seu espírito e o consolo que há de experimentar a alma que se dedica à glória de Deus e à salvação do próximo; fizesse com que não temessem a ferocidade dos mais cruéis tiranos e não dessem valor nem aos tormentos, nem à morte.

Tudo isto pedi por eles ao Pai, com a perseverança até o fim. Com muita benignidade condescendeu o Pai amoroso a quanto eu reclamava, comprazendo-me muito ainda em tais almas, por Ele tão favorecidas e a Ele tão gratas, dando-lhes ainda o consolo do fruto que retiravam de suas fadigas com a conversão de numerosos infiéis e pecadores. Supliquei-lhe também que lhes preparasse recompensa superabundante no Reino dos céus, e todas as almas salvas por seu intermédio servissem-lhes de troféus de glória no céu. O Pai me concedeu tudo com grande liberalidade e o mantém; jamais deixará de fazer o que eu lhe peço e quanto Ele me promete. Vi igualmente a multidão dos infiéis que se converteriam pela pregação evangélica de todos os homens apostólicos. Senti por este motivo um gosto inexplicável; mas como já disse, meu consolo vinha sempre acompanhado de grande amargura; vi ainda a multidão dos infiéis que perseverariam na obstinação e cegueira, não querendo dar crédito à pregação dos homens apostólicos; e como enganados pelo inimigo infernal e por sua vontade perversa, perder-se-iam voluntariamente. Rezei ainda, esposa minha, por todos esses miseráveis e derramei muitas lágrimas de compaixão por suas almas; pensando que para eles a Redenção seria em vão, sentia pesar bem maior, porque não haviam querido se prevalecer de um remédio tão válido para sua eterna salvação, mas quiseram perder-se, quando tinham um modo tão fácil de se salvarem. Quanto me atormentava esta perversidade de serem eles mesmos a causa da própria condenação! Via tantos sofrimentos meus, tantas dores, tantos trabalhos, tantos tormentos em toda a minha Paixão e morte dolorosa. Depois refletia e dizia: "Tudo isto de nada servirá para estes míseros; ao contrário, há de ser-lhes maior tormento'. E então angustiava-me e sentia uma pena inexplicável. O Pai olhava-me com grande piedade e animava-me ao fazer-me ver como não dependia dele nem de mim, enquanto tudo o que era necessário para a salvação deles, se fazia e muito: como queriam eles próprios perder-se, a pena devia ser toda deles, como deles era a Culpa, Enquanto ele, Pai benigno e amoroso, fazia todo o requerido para a salvação, não queriam eles servir-se do remédio para salvar-se. Entregava-os então à sua péssima vontade deliberada.  Pedi, no entanto, se dignasse não abandoná-los até o fim, e com impulsos e inspirações convidasse-os a abraçarem a sua santa Lei; o que me prometeu fazer o Pai amado, e com isto trouxe algum alívio a meu grande pesar. Como acontece quando já se fez todo o possível para curar um doente e, tendo-lhe" aplicado muitos remédios, vê-se que o mal é forte e não quer ceder, Por ser impossível competir com a persistência no mal, assim eu vendo aplicados àquelas almas infelizes todos os remédios mais válidos e poderosos, e elas não quererem  ceder à graça divina, por fim, segundo o vosso modo de entender, ficava em paz, embora meu amor tão forte não deixou, nem deixa jamais, de fazer o necessário por sua eterna salvação. Pedi ainda ao Pai fizesse conhecer a todos que, se quiserem salvar-se, é possível sem restar escusa alguma de não terem sabido, nem conhecido quem fosse o verdadeiro Deus, pois não falta no mundo quem faça com que eles entendam e conheçam, principalmente depois que me encarnei e morri para remir o gênero humano.

PROCURAM ESMOLA EM VÃO.

Depois de alguns dias em tanta necessidade e tribulação, acontecia passarmos por alguma cidade, onde pela necessidade de víveres era preciso entrar e pedir esmola. Algumas vezes se conseguia; outras, não. Quando José entrava na cidade para procurar alguma coisa de comer, eu já sabia que nada arranjaria, e além do cansaço, teria de acréscimo a pena de voltar sem subsídio algum. Sentia por isto grande aflição. Não obstante, não o impedia de ir, para que adquirisse esse mérito. Vendo que aquele povo me negava esmola — muitas vezes ele a pedia por amor de mim, e no entanto lhes era negada — sentia grande pesar. Oferecia-o ao Pai em desconto por aqueles ingratos que muitas vezes vendo o próximo em grande necessidade a pedir-lhes algum socorro por amor de Deus, lho negam com grande crueldade. Ao entrarem, pois, naquelas cidades ingratas, onde não deviam receber outra coisa do que palavras pesadas e descortesia, eu lá entrava, oferecia tudo ao Pai, e suplicava-lhe que, por aquilo que eu tão voluntariamente sofria por seu amor, se dignasse também Ele entrar na alma dos meus irmãos por meio das divinas inspirações, e não considerasse a dureza, a ingratidão e as palavras pesadas deles ao recusarem correspondência às inspirações divinas e negarem a Deus o devido amor, embora o peça com tamanha amabilidade que parece de fato que lhes pede em esmola. Via já que o Pai receberia muitas palavras pesadas de meus irmãos. Apesar disto, suplicava-lhe com muito afeto que não me negasse o que lhe pedia, tendo grande desejo que o Pai fosse amado por todos. Via que se o Pai insistisse nos poderosos impulsos, muitos se haveriam de render e ceder à violência de seu amor. Era minha suprema consolação. E por isso afadigava-me em orar ao Pai, de modo que obtinha o que desejava, se não no todo, ao menos em parte. Naqueles lugares, pois, onde recebia alguma esmola — não digo que a recebia eu, porque a fizessem a mim diretamente, uma vez que eu não a pedia, por não estar ainda em idade de pedi-la, mas porque a que davam a minha dileta Mãe e a José, tinha-a na conta de feita a minha própria pessoa — recebia, portanto, aquela caridade com muita gratidão e por ela agradecia ao Pai e pedia-lhe remunerá-los. Suplicava-lhe ainda se dignasse conceder inúmeras graças aos que se mostram tão liberais para com O próximo necessitado. Agradecia-lhe também da parte dos que, tendo recebido o subsídio de seus benfeitores, mostram-se ingratos, sem ao menos demonstrar ato do gratidão. Rezava que fosse liberal em dispensar as suas graças às almas que se mostram liberais para com Ele, ao dar-lhe tudo o que delas requer, e esta sua liberalidade e prontidão de ânimo, lhes servisse de meio para obterem dele novas graças e favores. Pai tudo me Prometeu, e tudo isso Opera com toda perfeição. E se uma alma encontra-se em escassez de graças divinas, crede com certeza que o motivo se acha em que ela se mostra muito avara com meu Pai; e ao negar-lhe aquilo que em toda a razão se lhe deve, é privada das graças que só por bondade lhe concede o Pai amoroso.

AS BÊNÇÃOS DE JESUS

Em todos os lugares, pois, aonde me conduziram, pedia ao Pai se dignasse dar a sua bênção, deixando também eu, repletos de bênçãos celestes os lugares por onde passava, e muito mais onde entrava e me detinha por algum tempo. Como uma grande personagem da terra, onde se detém, dispensa graças, para que fique a memória de ali haver estado sua pessoa, ora, muito mais eu, Unigênito Filho de Deus, tinha motivo de deixar por onde passava e onde me detinha, a memória de minha pessoa. Tanto mais que justamente fazia aquela viagem a fim de que ficassem santificados todos os lugares, e principalmente aqueles dos quais recebia algum ato de gratidão. Abençoava todos os campos que por muito tempo se tornaram férteis. Muito mais abençoava os povos, pedindo ao Pai que os dispusesse a receber a sua Lei, que viera ensinar. O Pai condescendia a todos os meus postulados. Como então não eram capazes de receber as graças divinas na alma, por serem idólatras, e não havia quem lhes ensinasse o conhecimento do verdadeiro Deus, recebiam a salvação no corpo, ficando livres da enfermidade corporal, embora não soubessem donde lhes vinha aquele bem.

OS IDÓLATRAS ATERRADOS.

No ingresso daqueles lugares, onde havia os simulacros dos demônios, todos caíam por terra e se quebravam. Antes, porém, de entrar ali, pedia ao Pai se dignasse lançar por terra todos os ídolos ali adorados por aqueles povos. O Pai prometia-me faze-lho e eu estava com grande desejo de ali logo entrar. Ao caírem os simulacros, não sabiam as gentes donde isso vinha e ficavam muito maravilhadas. Eu pedia ainda ao Pai que lhes iluminasse o espírito e fizesse com que entendessem não serem aqueles o Deus que deviam adorar. Na verdade, muitos deles ficavam confusos, e especialmente os mais doutos diziam consigo mesmo que de fato aqueles que eles adoravam eram deuses falsos. Muitos, porém, entendiam diversamente, segundo a dureza e obstinação própria; embora em bom número se dispusessem para a verdade que lhes fazia entender a luz da razão ajudada pela graça de meu Pai, para reconhecerem o verdadeiro Deus, desejando ter alguém que lhes fizesse entender isso; depois, com o tempo, não faltou quem o ensinasse. Agradecia ao Pai pelo que se dignara operar naquela cidade por meu amor e para cumprir o meu pedido. Alegrava-me, outrossim, de ver expulsos os espíritos infernais e muito abatido o seu império; quando o inimigo infernal suas forças, a seu partido o mundo todo, viu-se muito abatido em s as pelo poder de meu Pai e de minha pessoa humanada —embora ele não chegasse jamais a entender isso, mas somente tinha suas dúvidas. Regozijava-me muito, como já disse, ao ver tudo o que fazia meu Pai, oferecia-lhe minha alegria e pedia-lhe que o mesmo fizesse nas almas e reinar paixões e os se por meio de sua santa graça, que lançasse por terra todos os ídolos por eles adorados, as paixões e os afetos desordenados que reinam dentro de seus corações e fizesse reinar ali somente o afeto dele, Verdadeiro Deus e Senhor absoluto das almas e dos corações,  prometeu me fazê-lo e efetivamente não falha, mas as criaturas que está tão apegada ao afeto das coisas do mundo, das criaturas e e àquilo que é mais forte, ao amor de si mesma, que, por isto oferece grande resistência à graça divina e impede as obras que meu Pai propôs fazer nela. Não deixa contudo, de fazer, o Pai aquilo tudo que lhe peço, e se não produz efeito por culpa da criatura, o prejuízo será todo dela e há de ser-lhe grande a pena e confusão quando vir a resistência que opôs à graça divina e aos favores celestes.


PARTE 1PARTE 2
12-28
Dezembro 6, 1917
Por que a Jesus jamais podem agradar os atos feitos fora de seu Querer.

(1) Depois de ter recebido Jesus no sacramento, estava dizendo: "Beijo-te com o beijo de teu Querer, Tu não estás contente se te dou somente meu beijo, senão que queres o beijo de todas
as criaturas, e eu por isso te dou o beijo em teu Querer, porque nele encontro todas as criaturas, e sobre as asas de teu Querer tomo todas as suas bocas e te dou o beijo de todos, e enquanto te beijo, te beijo com o beijo de teu amor, a fim de que não com meu amor te beije, senão com teu mesmo amor, e Tu sintas o contentamento, as doçuras, a suavidade do teu mesmo amor nos lábios de todas as criaturas, de modo que atraído por teu mesmo amor, te forço a dar teu beijo a todas as criaturas". Mas quem pode dizer as minhas loucuras que dizia ao meu amável Jesus? Então meu doce Jesus me disse:
(2) "Minha filha, como me é doce ver, sentir a alma em meu Querer; sem que ela o perceba se encontra nas alturas de meus atos, de minhas orações, do modo como Eu fazia estando sobre esta terra, se põe quase a meu nível. Eu em meus pequenos atos encerrava todas as criaturas, passadas, presentes e futuras, para oferecer ao Pai atos completos em nome de todas as
criaturas, nem sequer um respiro de criatura me escapou de ficar fechado em Mim, de outra maneira o Pai poderia ter encontrado exceções em reconhecer as criaturas e todos os atos delas, por não ter sido feitos por Mim nem saído de Mim, e poderia ter-me dito: "Não fizeste tudo nem por todos, tua obra não está completa, não posso reconhecer a todos porque não a todos os reincorporaste em Ti, e Eu quero reconhecer só o que fizeste Tu". Por isso na imensidão de meu Querer, de meu amor e poder, fiz tudo e por todos. Então, como posso gostar das demais coisas, por mais belas que sejam, fora de meu Querer? São sempre atos baixos e humanos e limitados; em troca os atos em meu Querer são nobres, divinos, sem termo, infinitos, qual é meu Querer, são semelhantes aos meus e Eu lhes dou o mesmo valor, amor e poder de meus mesmos atos, os multiplico em todos, Estendo-os a todas as gerações, a todos os tempos. Que me importa que sejam pequenos, são sempre meus atos repetidos e basta; e além disso, a alma se põe em seu verdadeiro nada, não na humildade, na qual sempre se sente algo de si mesma, e como nada entra no Todo e obra Comigo, em Mim e como Eu, toda despojada de si, não prestando atenção nem ao mérito nem ao interesse próprio, mas toda atenta em dar-me satisfação, dando-me domínio absoluto em seus atos, sem querer saber o que faço com eles, só um pensamento a ocupa, viver em meu Querer, pedindo-me que lhe dê tal honra. Eis por que a amo tanto, e todas as minhas predileções, meu amor, são para esta alma que vive em meu Querer; e se amo as demais é em virtude do amor com que amo esta alma e que descende dela, tal como o Pai ama as criaturas em virtude do amor com que me ama a Mim".
(3) E eu: "Como é certo o que Tu dizes, que em teu Querer não se quer nada, nem se quer saber nada. Se se quer fazer algo é só porque o fizeste Tu, sente-se o desejo ardente de repetir as tuas coisas, todo o resto desaparece, não se quer fazer mais nada!".
(4) E Jesus: "E Eu a faço fazer tudo, e lhe dou tudo".

13-19
Setembro 21, 1921

Deus quer dar seus bens a seus filhos. O obrar na Divina Vontade é dia.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, o meu sempre amável Jesus ao vir disse-me:
(2) "Minha filha, em que dolorosas condições me colocam as criaturas. Eu sou como um pai riquíssimo e que ama muito a seus filhos, mas seus filhos são extremamente ingratos, porque enquanto o pai quer vesti-los, estes rejeitam as vestes e querem ficar nus; o pai lhes dá o alimento, e estes querem ficar em jejum, e se comem, se alimentam de alimentos sujos e vis; o pai lhes doa suas riquezas, quer tê-los ao seu redor, lhes dá seu mesmo quarto, e os filhos nada querem aceitar e se contentam em andar errantes, sem teto e pobres.  Pobre pai, quantas dores, quantas lágrimas não derrama! Seria menos infeliz se não tivesse o que dar, mas ter os bens e não ter o que fazer com eles, e ver perecer seus filhos, isto é uma dor que supera qualquer dor. Tal sou Eu, quero dar e não há quem tome, assim que as criaturas são causa de me fazer derramar lágrimas amargas e de ter uma dor contínua; mas você sabe quem enxuga minhas lágrimas e me muda a dor em alegria? Quem quer estar sempre junto Comigo, quem toma com amor e com filial confiança minhas riquezas, quem se alimenta a minha mesma mesa e quem se veste com minhas mesmas vestes; a estes Eu dou sem medida, são meus confidentes e os faço repousar sobre meu próprio seio".

(3) Depois disto me encontrei fora de mim mesma, e via surgir novas revoluções entre partidos e partidos, e como estas serão causa de maiores combates, e meu doce Jesus me disse:
(4) "Minha filha, se não se formam os partidos não podem acontecer as verdadeiras revoluções, especialmente contra a Igreja, porque se não estivesse o partido faltaria o elemento contra o qual se quisesse combater; mas quantos deste partido que aparentemente se diz católico são verdadeiros lobos cobertos com o manto de cordeiros, e darão muitas dores à minha Igreja; muitos crêem que com este partido será defendida a religião, mas será o contrário, e os inimigos se servirão dele para amaldiçoar principalmente contra Ela".

(5) Depois voltei em mim mesma, e era a hora quando meu amado Jesus saía da prisão e era levado de novo diante de Caifás2, eu tentei acompanhá-lo neste mistério, e Jesus me disse:
(6) "Minha filha, quando fui apresentado a Caifás era pleno dia, e era tanto o amor que Eu tinha pelas criaturas, que saía neste último dia diante do pontífice todo deformado, chagado, para receber a condenação de morte; mas quantas penas devia me custar esta condenação, E eu tornava estas penas em dias eternos, com os quais circundava cada uma das criaturas, a fim de que, afastando-a das trevas, cada uma encontrasse a luz necessária para se salvar e punha à sua disposição a minha condenação de morte para que nela encontrassem a sua vida. Assim, cada pena e cada bem que Eu fazia, era um dia a mais que dava à criatura; e não somente Eu, mas também o bem que fazem as criaturas é sempre dia que formam, assim como o mal é noite. Acontece como quando uma pessoa tem uma luz e se encontram perto dela dez, vinte pessoas, apesar de que a luz não é de todas, mas de uma só, as outras gozam da luz, podem trabalhar, ler, e enquanto elas se aproveitam da luz, Não fazem mal à pessoa que a possui. Assim acontece com o bem agir, não só é dia para ela, mas pode fazer o dia a quem sabe quantas outras; o bem é sempre comunicativo e o meu amor não só me incitava a Mim, mas dava a graça às criaturas que me amam de formar tantos dias em proveito dos seus irmãos, por quantas obras boas vão fazendo".

14-19
Abril 6, 1922

Efeitos dos atos feitos no Divino Querer. Na Divina Vontade a alma se põe ao nível de seu Criador.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, o meu doce Jesus transportou-me para fora de mim mesma e fez-me ver multidões de povos que choravam, sem abrigo, em poder da maior desolação; cidades derrubadas, ruas desertas e inabitáveis; não se via outra coisa que montões de pedras e escombros; só um ponto ficava intacto sem ser tocado pelo flagelo, meu Deus, que
pena ver estas coisas e viver! Eu olhava para meu doce Jesus, mas Ele não queria me ver, mas chorava amargamente, e com voz entrecortada pelo pranto me disse:
(2) "Minha filha, o homem pela terra esqueceu o Céu, é justo que lhe venha tirado o que é terra e vá errante sem poder encontrar onde refugiar-se, a fim de que se recorde que existe o Céu. O
homem pelo corpo esqueceu a alma, portanto tudo ao corpo: os prazeres, as comodidades, suntuosidades, o luxo e demais, enquanto a alma está em jejum, privada de tudo e em muitos morta, como se não a tivessem; então é justo que seja privado o corpo, a fim de que se recordem que têm uma alma, mas, oh, como é duro o homem! Sua dureza me obriga a golpeá-lo demais, talvez sob os castigos possa amolecer".

(3) Eu me sentia dilacerar o coração e Ele continuou:
(4) "Tu sofres muito ao ver o mundo querer estremecer, e a água e o fogo sair de seus limites e lançar-se contra o homem, por isso voltemos juntos a tua cama e rezemos juntos pela sorte do
homem. No meu Querer sentirei teu coração palpitante sobre toda a face da terra, que me dará um palpitar por todos, que me diz: Amor'; e enquanto castigar as criaturas, teu batimento se
interporá para fazer que os castigos sejam menos duros, e levem ao tocar-lhes o bálsamo do meu amor e do teu".
(5) Então eu fiquei aflitíssima, muito mais porque ao retirar-nos meu doce Jesus se escondia em meu interior, tão dentro que quase não se fazia sentir mais. Que pena! Que dor! O pensamento dos flagelos me aterrorizava, sua privação me dava penas mortais. Agora, neste estado tratava de fundir-me no Santo Querer de Deus e dizia: "Meu amor, no teu Querer o que é teu é meu, todas as coisas criadas são minhas, o sol é meu, e eu to dou em correspondência, a fim de que toda a luz e calor do sol, em cada raio de luz, de calor, te diga que eu te amo, te adoro, te abençôo, e te peço por todos. As estrelas são minhas, e em cada cintilação de estrela selo meu te amo imenso e infinito por todos. As plantas, as flores, a água, o fogo, o ar, são meus, e eu os
dou em correspondência, para que todos te digam, e em nome de todos, te amo com aquele amor eterno com o qual nos criou". Mas se quisesse dizer tudo me estenderia muito. Então Jesus, movendo-se em meu íntimo, disse-me:
(6) "Minha filha, como são belas as orações e os atos feitos em meu Querer, a criatura se transforma no mesmo Deus Criador e lhe dá a correspondência do que Ele lhe deu. Tudo o criei para o homem e tudo a ele doei. Em minha Vontade a criatura se eleva em seu Deus Criador e o encontra no ato no qual criou todas as coisas para dá-las em dom, e ela, trêmula diante da multiplicidade de tantos dons e não tendo nela a força criadora para poder criar tantas coisas por quanto recebeu, oferece suas mesmas coisas para retribuí-lo em amor. Sol, estrelas, flores, água, fogo, ar, te dei para te dar amor, e você, com reconhecimento os aceitou, e pondo em comércio meu amor me deu a correspondência, assim que sol te dei e sol me deu, estrelas, flores, água, etc., te dei, e você os deu a Mim. As notas do meu amor ressoaram de novo sobre todas as coisas criadas, e com voz unânime me deram o amor que fiz correr sobre toda a Criação.
(7) Em minha Vontade a alma se põe ao nível de seu Criador, e em seu próprio Querer recebe e dá. Oh, que competição entre criatura e Criador! Se todos pudessem vê-la ficariam estupefatos ao ver que em minha Vontade a alma chega a ser um pequeno deus, mas tudo em virtude da potência de minha Vontade".

15-21
Maio 5, 1923
Por quantas vezes a alma entra no Querer Divino, tantos caminhos abre entre o Criador e as criaturas, que servem para encontrar-se com Ele, e neste encontro ela copia as virtudes do seu Criador, absorve em si nova Vida Divina e tudo  o que faz não é mais humano senão divino.

(1) Encontrando-me em meu estado habitual, senti-me atraída fora de mim mesma, mas não via o céu azul nem o sol de nosso horizonte, senão outro céu, todo de ouro, adornado de estrelas de
várias cores, brilhantíssimo mais que sol. Eu me sentia atraída para cima, e abrindo-se diante de mim este céu, encontrei-me ante uma luz puríssima, na qual, submergindo-me, chamei em minha inteligência todas as inteligências humanas, desde onde Adão havia começado, com subtrair-se da Divina Vontade, a romper a união de sua inteligência com a de seu Criador, até o último homem que existirá sobre a terra, e tratava de dar a meu Deus toda a honra, a glória, a submissão, etc., de todas as inteligências criadas, e assim fazia com todos os meus demais sentidos, chamando nos meus todos os das demais criaturas, tudo isto sempre em seu amável Querer, onde tudo se encontra, de onde nada escapa, apesar de no presente não existirem e onde tudo pode ser feito. Então, enquanto isso fazia, uma voz saiu de dentro da imensidão daquela luz dizendo:

(2) "Por quantas vezes a alma entra no Querer Divino para rezar, obrar, amar e outras coisas, tantos caminhos abre entre o Criador e as criaturas, e a Divindade vendo que a criatura se faz caminho para ir a Ela, abre seus caminhos para encontrar-se com sua criatura. Neste encontro ela copia as virtudes de seu Criador, absorve em si sempre nova Vida Divina, se adentra mais nos
eternos segredos do Querer Supremo, e tudo o que faz não é mais humano nela, senão divino, e este obrar divino nela forma um céu de ouro onde a Divindade, Deleitando-se de encontrar o seu agir na criatura, passeia sobre este céu, esperando a criatura para receber seus atos divinos e, portanto, abrir-lhe outros caminhos em sua Divindade, e vai repetindo com grande amor: Eis como em meu querer a criatura se aproxima da minha semelhança, como realiza os meus desígnios, como cumpre a finalidade da Criação".
(3) E enquanto ouvia isto, encontrei-me em mim mesma.

16-21
Setembro 14, 1923
Todas as criaturas giram em torno de Deus, Assim como a terra gira ao redor do sol.

(1) Eu estava pensando como todas as coisas giram em torno do sol, a terra, nós, todos as criaturas, o mar, as plantas, todos, em suma, todos giramos ao redor do sol, e porque giramos ao redor do sol ficamos iluminados, recebemos seu calor, assim que ele reflete seus Raios ardentes sobre todos, e nós, a Criação, toda girando ao seu redor gozamos de sua luz e recebemos parte dos efeitos e bens que o sol contém. Agora, quantos seres giram ao redor do Sol Divino? Todos: todos os anjos, os santos, os homens, todas as coisas criadas, a própria Mama Reina, não tem o primeiro giro, que rapidamente girando em torno Ele absorve todos os reflexos do Sol Eterno? Agora, enquanto isso eu pensei, meu Divino Jesus se moveu em meu interior, e me estreitando toda a Ele me disse:
(2) "Minha filha, foi precisamente esta a finalidade para a qual criei o homem, para que me Girará sempre ao redor, e Eu, como Sol, estando no centro de seu giro devia fazer refletir n'Ele a minha luz, o meu amor, a minha semelhança e toda a minha felicidade; a cada sua volta devia dar sempre novos contentamentos, nova beleza e flechas mais ardentes.

(3) Antes que o homem pecasse minha Divindade não estava oculta ao homem, porque com me girar em torno, ele era meu reflexo, portanto era a pequena luz, era então como conatural que sendo eu o grande Sol, a pequena luz pudesse receber os reflexos da minha; enquanto pecou parou de me girar ao redor, sua pequena luz se escureceu, ficou cego e perdeu a luz para poder ver em carne mortal minha Divindade, por quanto a criatura é capaz, tanto, que ao vir a redimir o homem tomei carne mortal para me fazer ver, não só porque junto com a carne o homem havia pecado, e eu juntamente com a carne devia expiar, senão porque lhe faltavam os olhos para poder ver minha Divindade, tão certo é, que minha Divindade que habitava em minha Humanidade, como relâmpagos e a gotas pôde apenas sair algum raio de luz de minha Divindade. Olhe então que grande mal é o pecado, é perder o homem seu giro em torno de seu Criador, é anular a finalidade de sua criação, é mudar-se de luz em trevas, de belo em horrível, é um tão mal, que com toda a minha Redenção não pude restituir-lhe os olhos para poder ver em carne mortal a minha Divindade, senão somente quando esta carne do homem, desfeita, pulverizada pela morte, ressuscite de novo no dia do juízo.

O que aconteceria se a Criação toda pudesse faltar ao seu giro em torno do sol? Todas as coisas se transtornariam, perderiam a luz, a harmonia, beleza, uma coisa chocaria com a outra, e apesar de haver sol, não girando ao redor dele, o sol estaria para toda a criação como morto. Agora, o homem com o pecado original perdeu seu giro em torno de seu Criador e por isso perdeu a ordem, o domínio de si mesmo, a luz, e cada vez que peca, não só não gira em torno de seu Deus, senão que nem sequer em torno dos bens da Redenção, que como novo sol veio a lhe trazer o perdão e a salvação. Mas você sabe quem não se detém jamais em seu giro? A alma que faz e vive em Minha vontade, ela corre sempre, não se detém jamais e recebe todos os reflexos de minha Humanidade, e também os raios de luz de minha Divindade".

17-23
Novembro 27, 1924

A imutabilidade de Deus, e a mutabilidade das criaturas.

(1) Estava pensando na imutabilidade de Deus e na mutabilidade das criaturas. Que diferença!
Agora, enquanto eu pensava assim, meu sempre benigno Jesus se moveu dentro de mim dizendo:.
(2) "Minha filha, olha, não há ponto onde meu Ser não se encontre, não tenho para onde me mover, nem à direita, nem à esquerda, nem adiante, nem atrás; nenhum vazio existe que não esteja cheio por Mim. Minha firmeza, não encontrando ponto onde não esteja Eu, sente-se inabalável; é minha Imutabilidade eterna. Esta imutabilidade imensa me faz imutável nos prazeres, o que eu gosto, eu gosto sempre; imutável no amor, no gozar, no querer, amada uma vez uma coisa, gozada, querida, não há perigo de que me mude, para mudar deveria restringir minha imensidão, o que não posso nem quero. Minha imutabilidade é a auréola mais bela que coroa minha cabeça, que se estende sob meus pés, que presta eterna homenagem a minha Santidade imutável. Diga-me, há algum ponto onde você não me encontre?".
(3) Enquanto dizia isto, diante de minha mente se fazia presente esta imutabilidade Divina, mas quem pode dizer o que compreendia? Temo dizer desatinos e por isso melhor passo adiante.. Ao
me falar depois sobre a mutabilidade da criatura me dizia:.
(4) "Pobre criatura, como é pequeno seu lugarzinho! E além de pequeno não é nem sequer estável e fixo seu lugar, hoje em um ponto, amanhã atirada a outro; esta é também a causa de que hoje ama, lhe agrada uma pessoa, um objeto, um lugar, e amanhã muda e talvez até despreze o que ontem lhe agradava e amava. Mas você sabe o que torna a pobre criatura mutável? A vontade humana a torna volúvel no amor, nos prazeres, no bem que faz. A vontade humana é aquele vento impetuoso que move a criatura como uma cana vazia a cada sopro, ora à direita, ora à esquerda.
Por isso ao criá-la quis que vivesse da minha Vontade, a fim de que detendo este vento impetuoso da vontade humana, a fizesse firme no bem, estável no amor, santa no agir; queria fazê-la viver no imenso território da minha Imutabilidade, mas a criatura não se contentou, quis seu pequeno lugarzinho e se tornou o brinquedo de si mesma, dos demais e de suas mesmas paixões. Por isso rogo, suplico à criatura que tome esta minha Vontade, que a faça sua a fim de que retorne àquela Vontade imutável de onde saiu, a fim de que não mais volúvel se torne, senão estável e firme. Eu não me mudei, por isso a espero, a anseio, a quero sempre em minha Vontade".

18-22
Janeiro 30, 1926

Morte do confessor. Medo de fazer a própria vontade.

(1) Encontrava-me no máximo da minha aflição pela morte fulminante do meu confessor; às minhas tantas penas internas pelas frequentes privações do meu doce Jesus, quis acrescentar um golpe tão doloroso para o meu pobre coração, me privando daquele que era o único que conhecia minha pobre alma, mas o Fiat Voluntas Tua seja sempre feito, amado e adorado. A terra era indigna de possuir tal pessoa, por isso o Senhor para nos punir o levou ao Céu. Então, em minha imensa amargura de ser deixada sem confessor, não sabendo eu mesma a quem me dirigir, rogava a meu amável Jesus por aquela alma bendita dizendo: "Meu amor, se o tirou a mim, ao menos leve-o Contigo direito ao Céu". E, chorando, dizia-lhe: "Ponho-o na Tua Vontade, Ela contém tudo: Amor, luz, beleza, todos os bens que se fizeram e se farão, a fim de que o purifiquem, o embelezam, o enriqueçam de tudo o que é necessário para estar em tua presença, e assim nada encontrará nele que impeça sua entrada no Céu".
(2) Agora, enquanto fazia isto e dizia, vi diante de mim um globo de luz, e dentro daquela luz a alma do meu confessor que tomava o caminho do Céu, sem me dizer nem sequer uma palavra. Eu
fiquei consolada, sim, por sua sorte, mas extremamente amarga pela minha, e rogava a Jesus que, tendo me tirado o confessor e não tendo eu a quem me dirigir, que por sua bondade me livrasse do aborrecimento que dava ao confessor, mas não como querido por mim, mas como amado por Ele, porque sinto que se Jesus me concedesse como querido por mim, sentiria como se me faltasse a terra debaixo dos pés, o céu sobre a cabeça, o bater do coração, assim para mim seria uma desgraça em vez de uma graça. E toda abandonada na dor oferecia tudo a Jesus para que me desse a graça de cumprir em toda a sua Santíssima Vontade. E Jesus, tendo compaixão da minha dor, estreitou-me toda a Ele e disse-me:.
*(Don Francesco Di Benedictis)
(3) "Minha filha, coragem, não temas, não te deixo, estarei sempre contigo e prometo-te que se nenhum sacerdote quiser prestar-se para a tua assistência, não querendo eles seguir a minha
Vontade, Eu, não porque o queres tu mas porque o quero Eu, livrar-te-ei do seu aborrecimento. Por  isso não temas, que não farei entrar tua vontade de por meio, farei tudo por Mim, serei zeloso mesmo de teu respiro, que não entre nele tua vontade senão só a minha".
(4) Depois, quando a noite chegava, eu sentia tal temor de que o bendito Jesus me surpreenderia e me faria cair no estado de meus sofrimentos habituais, que tremia e chorava; muito mais porque sentia como se eu quisesse que me libertasse, E o bendito Jesus saiu de dentro de mim, e, pondo o seu rosto perto do meu, chorou tanto, que senti o meu rosto banhado pelas suas lágrimas, e soluçando disse-me:.
(5) "Minha filha, tem paciência, recorda que sobre ti pesa a sorte do mundo. Ah, você não sabe o que significa estar neste estado de penas junto comigo nem que seja meia hora ou cinco minutos!
É minha Vida real que se repete sobre a terra, é esta Vida Divina que sofre, que roga, que repara em ti, que translada em ti minha mesma Vontade, para fazer que opere em ti como operava em
minha humanidade; e a você parece pouco?".
(6) E fazendo silêncio continuava chorando. Eu me sentia despedaçado ao ver Jesus chorar, e compreendia que chorava por mim, para me dar a graça de que sua Vontade tivesse seus plenos
direitos sobre mim e que mantivesse íntegra sua Vida em minha alma, e que minha vontade jamais tivesse vida; Assim que suas lágrimas eram para pôr a salvo sua Vontade em minha pobre alma.
Chorava também pelos sacerdotes para lhes dar a sua graça, para que compreendessem as suas obras, a fim de que também eles se prestassem a cumprir a sua Vontade.

19-25

Maio 31, 1926

Diferença entre quem vive no Querer Divino e entre quem está resignado e submetido. A primeira é sol, a outra é terra que vive dos efeitos da luz.

(1) A luz do Divino Querer continua me envolvendo, e minha pequena inteligência enquanto nada no mar imenso desta luz, apenas pode tomar alguma gota de luz e alguma pequena chama das
tantas verdades, conhecimento e felicidade que contém este mar interminável do Eterno Querer, e muitas vezes não encontro as palavras adequadas para colocar no papel aquele pouco de luz, digo pouco em comparação ao tanto que deixo, porque a minha pequena e pobre inteligência toma quanto basta para me encher, o resto devo deixá-lo; acontece como a uma pessoa que se lança no mar, ela fica toda banhada, a água lhe corre por todas as partes, até nas vísceras, mas saindo do mar, O que traz consigo de toda a água do mar? Pouquíssimo, e quase nada em comparação com a água que permanece no mar; e por ter estado no mar, pode talvez dizer quanta água contém, quantas espécies de peixes e sua quantidade que há no mar? Certamente que não, porém saberá dizer aquele pouco que viu do mar. Assim é minha pobre alma. Então meu doce Jesus, enquanto eu estava nesta luz saiu de dentro de mim e me disse:.

(2) "Minha filha, esta é a unidade da luz da minha Vontade, e a fim de que tu a ames sempre mais e te confirmes maioritariamente nela, quero te fazer conhecer a grande diferença que há entre
quem vive em meu Querer, na unidade desta luz, e entre quem se resigna e se submete a minha Vontade, e para te fazer compreender bem te darei uma semelhança no sol que está no céu: o sol, estando na abóbada dos céus, expande os seus raios sobre a superfície da terra; olha, entre a terra e o sol há uma espécie de acordo, o sol em tocar a terra e a terra em receber a luz e o toque do sol. Agora, a terra com receber o toque da luz submetendo-se ao sol, recebe os efeitos que contém a luz, e estes efeitos mudam a face da terra, fazem-na reverdecer, enchem-na de flores, desenvolvem-se as plantas, amadurecem os frutos e tantas outras maravilhas que se vêem sobre a face da terra, produzidas sempre pelos efeitos que contém a luz solar. Mas o sol, com dar seus efeitos não dá sua luz, mas sim, ciumento dela conserva sua unidade, e os efeitos não são duradouros, e por isso se vê a pobre terra agora florida, agora toda despojada de flores, quase a cada estação se muda, sofre contínuas mutações; se o sol desse à terra efeitos e luz, a terra se mudaria em sol e não teria mais necessidade de mendigar os efeitos, porque contendo em si a luz, chegaria a ser dona da fonte dos efeitos que o sol contém. Agora, assim é a alma que se resigna e se submete à minha Vontade, vive dos efeitos que há nela, e não possuindo a luz não possui a fonte dos efeitos que há no Sol do Eterno Querer, e por isso se vêem quase como terra, agora ricas de virtude, agora pobres, e se mudam a cada circunstância, muito mais que se não estão sempre resignadas e submetidas à minha Vontade, seriam como terra que não se quisesse fazer tocar pela luz do sol, porque se recebe os efeitos é porque se faz tocar por sua luz, De outra forma ficaria esquálida, sem produzir nem um fio de erva. Assim ficou Adão depois do pecado, ele perdeu a unidade da luz e portanto a fonte dos bens e efeitos que o Sol da minha Vontade contém, não sentia mais em si mesmo a plenitude do Sol Divino, não descobria mais nele aquela unidade da luz que o seu Criador lhe tinha fixado no fundo da sua alma, do que transmitindo-lhe a sua semelhança fazia dele uma cópia fiel dele. Antes de pecar, possuindo a fonte da unidade da luz com seu Criador, cada pequeno ato seu era raio de luz, que invadindo toda a Criação ia fixar-se no centro de seu Criador, levando-lhe o amor e a correspondência de tudo o que tinha sido feito por Ele em toda a Criação; era Ele que harmonizava tudo e formava a nota de acordo entre o Céu e a terra, mas assim que se subtraiu de minha Vontade, seus atos não eram mais como raios que invadiam Céu e Terra, mas se restringiram quase como plantas e flores no pequeno cerco de seu terreno, assim que perdendo a harmonia com toda a Criação, tornou-se a nota discordante de todo o criado, Oh, como desceu no baixo e chorou amargamente a unidade da luz perdida, que elevando-o sobre todas as coisas criadas fazia de Adão o pequeno deus da terra!

(3) Agora minha filha, pelo que te disse pode compreender que viver na minha Vontade é possuir a fonte da unidade da luz da minha Vontade, com toda a plenitude dos efeitos que nela há, assim que surge em cada ato seu a luz, o amor, a adoração, etc., que constituindo ato por cada ato, amor por cada amor, como luz solar invade tudo, harmoniza tudo, concentra tudo em si e como resplandecente raio leva ao seu Criador a correspondência de tudo o que tem feito por todas as criaturas e a verdadeira nota de acordo entre o Céu e a terra. Que diferença há entre quem possui a fonte dos bens que contém o Sol da minha Vontade, e entre quem vive dos efeitos dela! É a diferença que existe entre o sol e a terra; o sol possui sempre a plenitude da luz e dos efeitos, está sempre radiante e majestoso na abóbada do céu, não tem necessidade da terra, e enquanto toca tudo, ele é intangível, não se deixa tocar por ninguém, E, se alguém tivesse a ousadia de o fixar, com a sua luz o eclipsa, o cega e o lança por terra; mas a terra tem necessidade de tudo, faz-se tocar, despojar, e se não fosse pela luz do sol e seus efeitos seria uma tétrica prisão cheia de esquálida miséria. Por isso não há comparação possível entre quem vive em minha Vontade e entre quem se submete a Ela. Assim, a unidade da luz era possuída por Adão antes de pecar e não pôde recuperá-la mais estando em vida; dele aconteceu como terra que gira em torno do sol, que não estando fixa, enquanto gira se opõe ao sol e forma a noite. Agora, para o tornar fixo de novo e poder assim sustentar a unidade desta luz, necessitava-se de um Reparador, e Este devia ser superior a ele, necessitava-se uma força divina para o endireitar, eis a necessidade da Redenção.

(4) A unidade desta luz a possuía minha Celestial Mamãe e por isso mais que sol pode dar luz a todos, e por isso entre Ela e a Majestade Suprema não houve jamais noite nem sombra alguma,
senão sempre pleno dia, e por isso a cada instante esta unidade da luz de meu Querer fazia correr nela toda a Vida Divina que lhe levava mares de luz, de alegrias, de felicidade, de conhecimentos divinos, mares de beleza, de glória, de amor, e Ela como em triunfo levava ao seu Criador todos estes mares como seus, para lhe testemunhar seu amor, sua adoração, e para fazê-lo apaixonar-se por sua beleza, e a Divindade fazia correr outros novos mares mais belos. Ela possuía tanto amor, que como conatural podia amar por todos, adorar e suprir por todos, seus pequenos atos feitos na unidade desta luz eram superiores aos maiores atos e a todos os atos de todas as criaturas juntas, por isso a todos os sacrifícios, as obras, o amor de todas as outras criaturas se pode chamar pequenas chagas frente ao sol, gotículas de água em frente ao mar, em comparação com os atos da Soberana Rainha, e por isso Ela, em virtude da unidade desta luz do Supremo Querer, triunfou sobre tudo e venceu o seu próprio Criador e o fez prisioneiro em seu seio materno.
Ah, só a unidade desta luz de meu Querer que possuía Aquela que imperava sobre tudo, pôde formar este prodígio nunca antes sucedido, e que lhe fornecia os atos dignos deste Prisioneiro
Divino!.
(5) Adão, ao perder esta unidade da luz, transtornou-se e formou a noite, as fraquezas, as paixões, para ele e para todas as gerações. Esta Virgem excelsa, sem jamais fazer sua vontade, esteve sempre direita e de frente para o Sol eterno, e por isso para Ela sempre foi dia e fez despontar o dia do sol de justiça para todas as gerações; Se esta Virgem Rainha não tivesse feito outra coisa senão conservar no fundo da sua alma imaculada a unidade da luz do eterno Querer, teria bastado para nos dar a glória de todos, e a correspondência do amor de toda a Criação. A Divindade, por Seu meio, em virtude de minha Vontade, sentiu-se retornar as alegrias e a felicidade que havia estabelecido receber por meio da Criação, por isso Ela pode se chamar a Rainha, a Mãe, a Fundadora, a Base e Espelho de minha Vontade, no qual todos podem olhar-se para receber dela a vida da minha vontade".
(6) Depois disso eu me senti como embebida desta luz e compreendia o grande prodígio de viver na unidade desta luz do Querer Supremo, e meu doce Jesus, retornando acrescentou:.
(7) "Minha filha, Adão no estado de inocência e minha Mãe Celestial, possuíam a unidade da luz de minha Vontade, não por virtude própria, senão por virtude comunicada por Deus, em troca minha humanidade a possuía por virtude própria, porque nela não só estava a unidade da luz do Supremo Querer, mas também havia o Verbo Eterno, e como Eu sou inseparável do Pai e do Espírito Santo, sucedeu a verdadeira e perfeita bifurcação, que enquanto permaneci no Céu desci no seio de minha Mãe, e sendo o Pai e o Espírito Santo inseparáveis de Mim, também Eles desceram junto comigo e ao mesmo tempo ficaram no alto dos Céus".
(8) Agora, enquanto Jesus me dizia isto, veio-me a dúvida de se as Três Divinas Pessoas haviam sofrido as Três, ou bem só o Verbo, e Jesus retomou a palavra e me disse:.
(9) "Minha filha, o Pai e o Espírito Santo, porque são inseparáveis de Mim, desceram junto Comigo, e Eu fiquei com Eles nos céus, mas o trabalho de satisfazer, de sofrer e de redimir o homem foi tomado por Mim; Eu, Filho do Pai, Aceitei o trabalho de reconciliar Deus com o homem. Nossa Divindade era intangível de poder sofrer a mínima pena, foi minha Humanidade que unida com as Três Divinas Pessoas em modo inseparável, a qual dando-se em poder da Divindade sofria penas inauditas, satisfazia em modo divino, e como a minha humanidade possuía não só a plenitude da minha Vontade como virtude própria, mas o mesmo Verbo, e por conseqüência da inseparabilidade, o Pai e o Espírito Santo, por isso superou em modo mais perfeito tanto a Adão
inocente quanto a minha própria Mãe, porque neles era graça, em Mim era natureza; eles deviam tomar de Deus a luz, a graça, a potência, a beleza; em Mim estava a fonte de onde surgia luz,
beleza, graça, etc., assim que era tanta a diferença entre Mim que era natureza, E entre a minha mãe em que era graça, que Ela estava ofuscada diante da minha humanidade. Por isso minha filha sê atenta, teu Jesus tem a fonte que surge e tem sempre que te dar, e tu sempre que tomar, por quanto possa te dizer acerca de minha Vontade, sempre tenho mais que te dizer, e não te bastará nem a curta vida do exílio, nem toda a eternidade para te fazer conhecer a longa história da minha Suprema Vontade, nem para te numerar os grandes prodígios que há nela".

20-18
Novembro 1, 1926

O que faz o Fiat Supremo em cada coisa criada e as lições que dá às criaturas para vir a reinar no meio delas.

(1) Estava fazendo meu habitual giro em toda a Criação para poder amar, glorificar, como ama e glorifica o próprio Fiat Divino em todas as coisas criadas. Mas enquanto fazia isto pensava: "Meu
doce Jesus me faz girar por toda a Criação, como para alcançar sua Vontade em todos seus atos, fazer-lhes companhia, dar-lhes um meu te amo, um obrigado e um te adoro, e pedir que logo venha seu Reino; mas eu não sei tudo o que faz este Fiat Divino em cada coisa criada, gostaria de saber para que um deles seja meu ato com o seu". Agora, enquanto pensava assim, meu sempre amável Jesus, todo bondade saiu de dentro de mim e me disse:
(2) "É justo que a pequena filha de meu Querer saiba o que faz Aquele de onde veio sua origem.
Tu deves saber que o meu Fiat Eterno não só preenche toda a Criação e é vida de cada coisa criada, mas tem espalhadas todas as nossas qualidades em tudo o que foi criado, porque a Criação devia servir de paraíso terrestre à família humana, e portanto devia ser o eco das bem-aventuranças e felicidades do Céu; se não tivesse contido as alegrias e os contentamentos da Pátria Celestial, como poderia formar a felicidade da pátria terrena? Muito mais que uma era a Vontade, tanto a que beatificava o empírico como a que devia fazer feliz a terra. Agora, queres saber o que faz a minha Vontade no céu, naquele azul que se vê sempre firme e estendido sobre a cabeça de todos e não há ponto em que não se veja o céu, de noite e de dia está sempre no seu posto? Olhe, nossa Vontade tem espalhada nossa eternidade, nossa firmeza que jamais muda, está sempre em seu equilíbrio perfeito, que por nenhuma circunstância jamais muda, e enquanto ama glorifica nossa eternidade, nosso Ser imutável, faz feliz à terra e diz ao homem: Olha, toma por modelo o céu que está sempre estendido sobre tua cabeça, sê sempre firme no bem como eu sou Eu, sempre estendida aqui para te proteger, a fim de que também tu, como segundo céu que está povoado de estrelas, que a teu olho parecem tão unidas ao céu que se pode dizer que as estrelas são filhas do céu, assim também tu se és firme no bem, o céu de tua alma será povoado de estrelas, como tantos partos e filhas tuas.‟ Então, ao fazer teu giro na Criação, quando chegares ao céu, também tu, unida com a nossa Vontade ames e glorifiques a nossa eternidade, o nosso Ser imutável que jamais muda, e pede-lhe que faça firmes as criaturas no bem, a fim de que sejam o reflexo do céu e gozem a felicidade que leva um bem contínuo e jamais interrompido".

(3) Depois, seguindo teu giro no espaço da Criação, chegarás ao sol, astro do céu mais próximo da terra, para levar às criaturas a fonte da felicidade terrena e as semelhanças das bem- aventuranças e gostos da felicidade da Pátria Celestial. Quer então saber o que faz minha Vontade no sol?
Glorifica nossa luz interminável, nossos gostos inumeráveis, ama e glorifica a infinidade de nossas doçuras, as indescritíveis tintas de nossas belezas, e com o seu calor faz eco ao nosso imenso amor. Oh! como nos exalta o sol, ama e glorifica nosso Ser Divino, e assim como nossa Divindade revelada beatifica com atos sempre novos toda a Pátria Celestial, assim o sol, eco fiel de seu Criador, portador celeste da Majestade Suprema, velada por sua luz, na qual minha Vontade domina e reina, leva à terra a felicidade terrena, leva sua luz e seu calor, leva a doçura e os gostos quase inumeráveis às plantas, às ervas, aos frutos, leva a cor e o perfume às flores e tantas variadas tintas de beleza que fazem feliz e embelezam toda a natureza. Oh! como o sol oferece, mais bem minha Vontade no sol, por meio das plantas, dos frutos, das flores, às gerações humanas a verdadeira felicidade terrena, e se não gozam plenamente, é porque se separaram
daquela Vontade que reina no sol e a vontade humana pondo-se contra a Divina destrói sua felicidade.

E minha Vontade velada na luz do sol diz ao homem desde a altura de sua esfera, enquanto ama e louva nossas qualidades divinas: „Sê sempre luz como o sou Eu, em tudo o que você faz, a fim de que a luz te converta tudo em calor e chegues a ser como uma só chama de amor para o teu Criador. Olha para mim, sendo Eu sempre luz e calor possuo a doçura, tão é verdade que a comunico às plantas, e das plantas a ti; também tu, se fores sempre luz e calor possuirás a doçura divina, não terás mais fel e ira em teu ânimo, possuirás os gostos e as várias tintas das belezas do Ser Supremo, serás sol como Eu, muito mais que Deus me fez para ti, e tu foste feito para Ele, portanto é justo que sejas mais sol do que eu.‟ Vê minha filha quantas coisas tens que fazer unida com minha Vontade nessa esfera do sol, tens que louvar, amar e glorificar nossa luz, nosso amor, nossas infinitas doçuras, nossos gostos inumeráveis e nossa beleza incompreensível, e tens que conseguir às criaturas todas as qualidades divinas que contém o sol, a fim de que minha Vontade encontrando as qualidades divinas, em meio a elas venha a reinar desveladamente com seu pleno triunfo em meio às gerações humanas.

E agora minha filha, desçamos à parte baixa da terra, ponhamo-nos no mar onde estão acumuladas massas de águas cristalinas, símbolo da pureza divina, estas águas caminham sempre, não se detêm jamais, não têm voz e murmuram, não têm vida e são fortes, de modo que formam tão altas suas ondas que atropelam e fazem pedaços navios, nações e coisas, e depois que destruíram as coisas que investiram, descem pacíficas em sua praia, como se nada tivessem feito, continuando seu habitual murmúrio. Oh! como a minha Vontade no mar louva, ama e glorifica a nossa força, a nossa força, o nosso movimento eterno que jamais se detém, e se a nossa Justiça forma as suas justas ondas fragrantes para destruir cidades e nações, como mar pacífico depois da tempestade nossa paz jamais é perturbada, e minha Vontade velada pelas águas do mar diz ao homem: Sê puro como estas águas cristalinas, mas se queres ser puro caminha sempre para o Céu, de outra maneira te corromperias como se corromperiam estas águas tão puras se não caminhassem sempre; o murmúrio de tua oração seja contínuo se queres ser forte e potente ao Meu lado, se queres lançar por terra os mais fortes inimigos e a tua vontade rebelde que me impede de revelar-me e sair deste mar para vir reinar em ti e estender em ti o mar pacífico da minha Graça.‟ Será possível que queiras estar debaixo deste mar que tanto me glorifica? Também tu louva, ama e glorifica nossa pureza, nossa potência, força e justiça, unida com minha Vontade que te espera no mar como a filha sua, nosso movimento eterno para as criaturas para fazer-lhes o bem, o murmúrio contínuo do nosso amor por meio das coisas criadas, que enquanto murmura amor, quer a correspondência contínua do murmúrio do amor contínuo das criaturas, e pede a minha Vontade que lhes dê as qualidades divinas que exercita no mar, a fim de que venha a reinar no meio daqueles que a têm rejeitada em toda a Criação. Por isso se queres saber o que faz minha Vontade em toda a Criação, gira nela, e meu Fiat encontrando a sua filha em todas as coisas criadas, se revelará e te dirá o que faz para a Divina Majestade, e a chamada e as lições que quer dar às criaturas".

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