ESCOLA DA DIVINA VONTADE - QUINTA SEMANA DE ESTUDOS

 MEDITAÇÃO DOS TRECHOS

VOLUME 1 - 

(30) Lembro-me de uma manhã, quando ele me falava sobre a mesma virtude, ele me disse que por falta de humildade havia cometido muitos pecados, e que se eu tivesse sido humilde, eu teria ficado mais perto dele e não teria feito tanto mal; ele me fez entender como o pecado era feio, a afronta que este miserável verme tinha feito a Jesus Cristo, a ingratidão horrenda, a impiedade enorme, o dano que tinha vindo a minha alma. Fiquei tão espantada que não sabia o que fazer para reparar, fazia algumas mortificações, pedia outras ao confessor, mas poucas me eram concedidas, assim que todas me pareciam sombras e não fazia outra coisa que pensar em meus
pecados, mas sempre mais estreita a Ele. Tinha tanto medo de me afastar dele e de agir pior que antes, que eu mesma não sei explicar. Não fazia outra coisa quando me encontrava com Ele que dizer-lhe a pena que sentia por havê-lo ofendido, pedia-lhe sempre perdão, agradecia-lhe porque tinha sido tão bom comigo, e dizia-lhe de coração: "Olha, oh! Senhor o tempo que perdi, enquanto poderia ter te amado". Então não sabia dizer outra coisa senão o grave mal que tinha feito; finalmente, um dia repreendeu-me e disse:
Esqueço-me das culpas. Esqueço-me das culpas.

(31) "Não quero que penses mais nisto, porque quando uma alma se humilhou, convencida de ter feito mal e lavado a sua alma no sacramento da confissão e está disposta a morrer antes de me ofender, pensar nisso é uma afronta à minha Misericórdia, é um impedimento para a estreitar ao meu Amor, Porque ela procura sempre, com a sua mente, envolver-se na lama do passado e impede-me de a fazer voar para o Céu, porque sempre com essas ideias se fecha em si mesma, se é que procura pensar nelas. E além disso, olha, Eu já não me lembro de nada, eu esqueci perfeitamente; você vê alguma sombra de rancor da minha parte?"

(32) E eu dizia-lhe: "Não, Senhor, és tão bom". Mas sentia partir-me o coração de ternura.
(33) E Ele: "E bem, quererás manter diante destas coisas?"
(34) E eu: "Não, não, não quero".
(35) E Ele: "Pensemos em amar-nos e em contentar-nos mutuamente".
(36) Daí em diante não pensei mais nisso, fazia quanto mais podia por satisfazê-lo e lhe pedia que Ele mesmo me ensinasse o modo como devia fazer para reparar o tempo passado. E Ele me dizia:
Imitação da sua Vida. Imitação da vida de Jesus.
(37) "Estou pronto a fazer o que tu queres. Olha, a primeira coisa que eu disse que queria de ti era a imitação da minha Vida, assim que vejamos o que te falta".
(38) "Senhor", dizia-lhe, "me falta tudo, não tenho nada".
(39) "E bem", dizia-me: "Não temas, pouco a pouco faremos tudo, Eu mesmo conheço como és fraco, mas é de Mim que deves tomar força". (Não me lembro em ordem, mas como posso dizê-lo)

2-4
Março 14, 1899

Jesus refugia-se no coração e chora a sorte das criaturas. A alma faz de tudo para consolá-lo e chora junto com Jesus.

(1) Esta manhã o meu dulcíssimo Jesus, transportando-me juntamente com Ele, fazia-me ver a multiplicidade dos pecados que se cometem, e eram tais e tantos, que é impossível descrevê-los; via também no ar uma estrela de tamanho desmesurado, e em sua circunferência continha fogo negro e sangue; infundia tal temor e espanto ao olhá-la, que parecia que fosse menor mal a morte do que viver em tempos tão tristes. Em outros lugares se viam os vulcões, que abrindo outros tantos crateras deviam inundar até os povos vizinhos; viam-se também gentes sectárias que irão favorecendo os incêndios, etc. Enquanto isso via, meu amável mas aflito Jesus me disse:

(2) "Viu o quanto me ofendem e o que tenho preparado? Eu me retiro do homem".
(3) E enquanto isto dizia, nos retiramos os dois na cama, e via que neste retirar-se de Jesus, os homens se punham a fazer ações mais feias, mais homicídios, em uma palavra, me parecia ver gente contra gente. Quando nos retiramos, parecia que Jesus se metia em meu coração e começou a chorar e a soluçar dizendo:

(4) "Ó homem, quanto te amei! Se você soubesse o quanto me dói ter que te punir! Mas a isto me obriga minha justiça. Oh homem, oh homem, quanto choro e me dói sua sorte!"
(5) Depois dava desabafo ao pranto e de novo repetia as palavras. Quem pode dizer a dor, o temor, o rasgo que se fazia em minha alma, especialmente ao ver Jesus tão aflito e chorando?
Quanto mais podia esconder a minha dor, e para o consolar, dizia-lhe: "Ó Senhor, para que nunca castigues os homens! Esposo Santo, não chores, tal como fizestes outras vezes assim farás agora, derramarás em mim, far-me-ás sofrer a mim, e assim vossa justiça não vos obrigará a castigar as nações". E Jesus continuava chorando e eu repetia: "Mas escuta-me um pouco, não me pusestes nesta cama para que seja vítima pelos demais? Por acaso não estive disposta a sofrer as outras vezes para evitar os castigos às criaturas? Por que agora não querem me fazer caso?" Mas com todas as minhas pobres palavras Jesus não se acalmava de chorar, então não podendo resistir mais, também eu rompi em pranto dizendo: "Senhor, se vossa intenção é punir aos homens, não me dá o ânimo ver sofrer tanto as criaturas, por isso, se verdadeiramente quereis mandar os flagelos e meus pecados não me fazem merecer mais o sofrer eu em lugar dos demais, quero ir ao Céu, Não quero estar mais sobre esta terra".
(6) Depois veio o confessor e tendo-me chamado à obediência, Jesus retirou-se e assim terminou.

(7) Na manhã seguinte continuava a ver Jesus retirado em meu coração, e via que as pessoas vinham até dentro de meu coração e o pisavam, o colocavam sob os pés. Eu fazia quanto mais podia para libertá-lo e Jesus dirigindo-se a mim me disse:

(8) "Vês até onde vai a ingratidão dos homens? Eles mesmos me obrigam a castigá-los, sem que possa fazer de outra maneira. E tu, minha querida, depois de me teres visto sofrer tanto, te sejam mais amadas as cruzes e sinta como deleites as penas".

3-5
Novembro10, 1889

A obediência ao confessor.

(1) Depois de ter passado alguns dias em contenda com Jesus, porque eu queria ser desatada e Ele não queria, agora se fazia ver que dormia, agora me impunha silêncio; finalmente esta manhã, enquanto o vi, Via o confessor que me ordenava absolutamente que me fizesse desatar por Jesus, e isto mais de uma vez, mas Jesus não fazia caso, e eu obrigada pela obediência lhe disse: "Meu amável Jesus, quando te opuseste à obediência? Não sou eu que quero ser desatada, é o confessor que quer que me faças sofrer a crucificação, por isso rende-te a esta virtude tão predileta por Ti, que entretém toda a tua vida, e formou o último elo, unindo tudo em um o sacrifício da cruz".

(2) E Jesus: "Tu queres fazer-me violência tocando-me esse elo que uniu a Divindade e a humanidade, e formou um só elo, que é a obediência".

(3) E, enquanto isto dizia, assumiu o aspecto de Crucificado e, quase forçado pelo poder sacerdotal, tive a participação das dores da crucificação. Seja sempre bendito o Senhor e seja tudo para sua glória. Assim parece que fiquei desatada.

4-5
Setembro 12, 1900

Sofrimento impiedoso, Jesus a alivia. Maquinações de revoluções contra a Igreja.

(1) Continua quase o mesmo, esta manhã ao vir derramou suas amarguras, e eu fiquei tão sofredor que comecei a pedir ao Senhor que me desse a força e que me aliviasse um pouco, porque não podia resistir.
Enquanto estava nisso, veio-me uma luz à mente fazendo que pensasse que cometia pecado ao fazer isto, e além disso, que dirá o bendito Jesus? Enquanto em outras ocasiões lhe roguei tanto que derramasse, desta vez que sem fazer rogar tinha derramado, estava buscando alívio, de parece que me vou fazendo mais má, e chega a tanto minha maldade, que mesmo diante dele mesmo não me abstenho de cometer defeitos e pecados. Então, não sabendo o que fazer para reparar, resolvi dentro de mim que desta vez, para fazer um maior sacrifício e me dar uma penitência a fim de que minha natureza em outra ocasião não ousaria procurar alívio, renunciar à vinda de Nosso Senhor, e se viesse devia lhe dizer: "Não venha amor, tenha compaixão de mim, não me alivie". Assim fiz e passei algumas horas em intenso sofrimento e sem Jesus; quão amargo me parecia. Mas Jesus tendo compaixão de mim, sem que o buscasse veio, e eu logo lhe disse: "Tenha paciência, não venha, que não quero alívio".

(2) E Ele: "Minha filha, estou contente de teu sacrifício, mas tens necessidade de um consolo, de outro modo
desfalecerias."
(3) E eu: "Não, Senhor, não quero alívio".
(4) Mas Ele, aproximando-Se da minha boca, quase à força derramou da sua boca alguma gota de leite doce, que amenizaram o meu sofrimento; quem pode dizer a confusão, a vergonha que sentia diante Dele, esperando-me uma repreensão, mas Jesus como se não tivesse percebido minha falta se mostrava mais afável, mais doce. Eu, vendo-o assim disse: "Meu adorável Jesus, uma vez que derramaste em mim e eu sofro, deves perdoar o mundo, não é verdade?".
(5) E ele: "Minha filha, acreditas que eu derramei tudo em ti? E, além disso, como poderias enfrentar tudo o que de castigo derramarei sobre o mundo? Você mesma viu que aquele pouco que derramei não podia resistir, e se não tivesse vindo te ajudar teria sucumbido, agora, o que seria se derramasse tudo em ti? Minha querida, dei-te a minha palavra, contentar-te-ei em parte".

(6) Depois disto me transportou para fora de mim mesma, no meio das pessoas, e continuava a ver os tantos males, especialmente maquinações de revoluções contra a Igreja, e entre a sociedade, planos para matar o Santo Padre e os sacerdotes. Eu sentia-me dilacerar a alma ao ver estas coisas, e pensava: "Se, jamais seja, chegarem a realizar-se estas maquinações, o que acontecerá? Quantos males virão?" E toda aflita olhei para Jesus, e Ele me disse:
(7) "E daquela revolta que aconteceu aqui, o que você diz?".
(8) E eu: "Qual revolta? No meu país nada aconteceu".
(9) E Ele: "Não te lembras da revolta de Andria?".
(10) "Sim Senhor".
(11) "E bem, parece que é nada, mas não é assim, aquela foi toda uma ocasião, e é um fomento, uma força para outras cidades para mover-se e derramar sangue, causando ultraje às pessoas consagradas, e a meus templos, e como cada um quer mostrar quanto é mais feroz em exaltar o errado, competirão para ver quem pode fazer mais mal".

(12) E eu: "Ah Senhor, dá a paz à Igreja e não permitas tantas desgraças!" E querendo dizer mais, me
desapareceu, deixando-me toda aflita e pensativa.

5-5
Março 24, 1903

Enquanto se é nada, pode-se ser tudo estando com Jesus.

(1) Esta manhã, depois de ter passado dias amargos, o bendito Jesus veio e se divertia familiarmente comigo; tanto que eu acreditava que devia possuí-lo sempre; mas quando estava no melhor, como um relâmpago desapareceu; quem pode dizer minha pena? Sentia-me a enlouquecer, muito mais que estava quase segura que não o perderia mais. Agora, enquanto me consumia em penas, como um relâmpago voltou, e com uma voz sonora e séria me disse:
(2) "Quem és tu que pretendes ter-me sempre contigo?"
(3) E eu, louca como estava, toda atrevida respondi: "Estando Contigo sou tudo, sinto que não sou outra coisa que uma vontade saída do seio do meu Criador, e esta vontade até que esteja unida Contigo, sente a vida, a existência, a paz, todo o seu bem. Sem Ti a sinto sem vida, destruída, dispersa, inquieta, posso dizer que provo todos os males, e para ter vida e não me dispersar, esta vontade saída de Ti busca teu seio, teu centro, e aí quer permanecer para sempre". Parecia que Jesus se enternecia tudo, mas de novo repetiu:

(4) "Mas quem és tu?
(5) E eu: "Senhor, não sou outra coisa senão uma gota de água, e esta gota de água, enquanto se encontra no teu mar, lhe parece ser todo o mar; e se do mar não sair se mantém limpa e clara, de modo a poder estar diante das outras águas; mas se sair do mar se enlameará, e pela sua pequenez se desvanecerá". Todo comovido se inclinou para mim dando-me um abraço e me disse:
(6) "Minha filha, quem quer estar sempre em minha Vontade conserva nela a mim mesma Pessoa, e se bem pode sair de minha Vontade, havendo-a criado livre de vontade, minha potência obra um prodígio fornecendo-lhe continuamente a participação da Vida Divina, e por esta participação que recebe sente tal força e atração de união com a Vontade Divina, que embora o quisesse fazer não o pode fazer, e esta é a contínua virtude da que te falei no outro dia, que sai de Mim para quem faz sempre minha Vontade.

6-5
Novembro 19, 1903

Enquanto se é nada pode ser tudo

(1) Continuando o meu habitual estado, vi dentro de mim o bendito Jesus, e uma luz na minha inteligência que dizia:
(2) "Enquanto se é nada se pode ser tudo, mas em que modo? Torna-se tudo com o sofrimento. Sofrer faz com que a alma se torne pontífice, sacerdote, rei, príncipe, ministro, juiz, advogado, reparador, protetor, defensor. E como o verdadeiro sofrer é o sofrer querido por Deus em nós, se a alma se une em tudo a seu Querer, esta união, unida ao sofrer, faz que a alma impere sobre a justiça, sobre a misericórdia de Deus, sobre os homens e sobre todas as coisas. Agora, assim como a Cristo o sofrer lhe deu todas as mais belas qualidades e todas as honras e ofícios que a natureza humana pode conter, assim a alma, participando no sofrer de Cristo participa das qualidades, das honras e dos ofícios de Cristo, que é o todo".

7-5
Fevereiro 28, 1906

A maior honra que a criatura pode dar a Deus é depender em tudo de sua Vontade Divina. Modo como a Graça se comunica.

(1) Esta manhã, o bendito Jesus assim que se fez ver me disse:

(2) "Minha filha, a maior honra que a criatura pode dar a Deus como Criador, é a de depender em tudo de sua Vontade Divina, e o Criador vendo que a criatura faz seu dever de criatura para com o Criador, comunica-lhe sua Graça".

(3) E enquanto dizia isto, saía uma luz de Jesus bendito e fazia-me compreender o modo como comunica a Graça. E eu compreendia assim: que a alma, por exemplo, sente nela um aniquilamento de si mesma, vê seu nada, sua miséria, inabilitada para fazer nem sequer uma sombra de bem, agora, enquanto se sente neste estado, Deus comunica sua Graça, e a Graça da verdade, Assim que a alma descobre em toda a verdade sem engano, sem trevas, e então o que Deus é por natureza: Verdade Eterna, que não pode enganar, nem ser enganada, a alma o torna por Graça, ou seja, a alma sente um desapego das coisas da terra, vê sua fugacidade, sua instabilidade, vê como tudo é falso, toda podridão, que merecem ser aborrecidas em vez de amadas.

Deus enquanto a alma se sente neste estado, comunica sua Graça, e a Graça do verdadeiro amor e do amor eterno; comunica sua beleza, de tal modo que faz enlouquecer a alma amante, e a alma fica cheia do amor e da beleza de Deus, e então o que Deus é por natureza: Amor e beleza eterna, a alma o torna por Graça, e assim de todas as outras virtudes divinas,
Porque se eu quisesse dizer tudo seria muito longo. Só acrescento que a Graça previne a alma, a excita, mas só se comunica e entra a tomar posse quando a alma mastiga essas verdades e como alimento as engole, por isso nem todos recebem os efeitos ditos acima, porque como relâmpagos, deixam-nos fugir da mente e não lhes fazem um lugar.

8-6
Julho 14, 1907

Tudo na alma deve ser amor.

(1) Continuando o meu habitual estado, por pouco tempo veio o bendito Jesus, e eu sem pensar perguntei:
"Senhor, ontem confessei-me; se tivesse morrido, sendo que a confissão perdoa as culpas, ter-me-ias levado diretamente ao paraíso?"

(2) E Ele: "Minha filha, é verdade que a confissão perdoa as culpas, mas a coisa mais segura e certa para isentar o purgatório é o amor, assim que na alma o amor deve ser a paixão predominante: Amor e pensamento, a palavra, os movimentos, tudo, tudo deve ser envolvido por este amor, e assim, o Amor Incriado encontrando todo amor, absorve em Si o amor criado. De fato, que outra coisa faz o purgatório senão preencher os vazios de amor que há na alma, e quando enche estes vazios a manda ao Céu. Se não há estes vazios, não é coisa que pertença ao purgatório".

9-5
Maio 16, 1909

O sol é símbolo da Graça.

(1) Continuando meu habitual estado, assim que veio o bendito Jesus me disse:
(2) "Minha filha, o sol é como um símbolo da graça, o qual onde encontra vazio, ainda que fosse uma caverna, um subterrâneo, uma fissura, um buraco, desde que estejam vazios e haja alguma pequena abertura para entrar, entra e tudo enche de luz; com isto não diminui sua luz nos outros espaços onde está, e se a luz não ilumina mais, não é que lhe falte a luz, senão que lhe falta o terreno para poder difundir de mais sua luz. Assim é minha graça, mais que sol majestoso envolve todas as criaturas com a sua influência benéfica, mas não entra senão nos corações vazios, e por quanto vazio encontra, tanta luz faz penetrar dentro dos corações.

Mas como se formam estes vazios? A humildade é a pá que escava e forma o vazio; o desapego de tudo, mesmo de si mesmo, é o vazio em si; a janela para fazer entrar a luz da graça neste vazio é a confiança em Deus e a desconfiança de si mesmo; de modo que, porque confia em Deus, o outro tanto expande a porta para fazer entrar a luz e tomar dela maior graça; a guarda que guarda a luz e a engrandece, é a paz".

10-5

Novembro 29, 1910

Jesus é zeloso de que ninguém dê alívio à alma.

(1) Tendo vindo um bom e santo sacerdote, estava um pouco ansiosa porque queria conversar com ele, especialmente sobre meu estado presente para conhecer a Divina Vontade, mas tendo vindo a primeira e a segunda vez, vi que nada se concluía do que eu queria. Agora, tendo recebido a comunhão, toda aflita comunicava ao meu afetuoso Jesus minha grande aflição, dizendo: "Minha vida, meu bem e meu tudo, se vê que só Você é tudo para mim, não encontrei jamais em nenhuma criatura, por quão boa e santa que seja, uma palavra, um consolo, um epílogo a minha mais mínima dúvida, se vê que não deve haver nenhum para mim, mas Você só, só o Todo para mim, e eu sozinha, sozinha, e sempre só para Você, e eu me abandono tudo e sempre em Ti, por quão má sou tem a bondade de me ter entre teus braços e de não me deixar um só instante". Enquanto dizia isto, meu bendito Jesus fazia-se ver que olhava dentro de meu interior, revolvia tudo para ver se havia alguma coisa que a Ele não agradasse, e enquanto revolvia, tomou em suas mãos como um grão de areia branca e o jogou a terra, depois me disse:
(2) "Minha filha amadíssima, é sumamente justo que quem é toda para Mim, somente Eu seja tudo para ela, sou muito zeloso de que outro possa dar-lhe o mínimo alívio. Eu sozinho, muito sozinho, quero suplir-te por todos e em tudo, o que te aflige? O que queres? Faço tudo para que estejas feliz, estás a ver aquele grão branco que te tirei? Não era outra coisa que um pouco de ansiedade, porque querias saber por meio de outros minha Vontade, te tirei e o lancei a terra para te deixar na santa indiferença, tal como Eu te quero, e agora te digo qual é meu Querer: A missa a amo, a comunhão também; sobre se deves ou não esperar o sacerdote para recuperar-te, serás indiferente, se te sentes adormecida não te esforçarás por recuperar-te, e se estás acordada não te esforçarás por adormecer.

Entretanto deves saber que te quero sempre pronta e sempre no posto de vítima, ainda que nem sempre sofras, te quero como aqueles soldados no campo de batalha, que embora o ato de lutar não seja continuo, estão com as armas preparadas, e se necessário, sentados no quartel, para que cada vez que o inimigo queira empreender a batalha estejam prontos a derrotá-lo. Assim tu, filha minha, estarás sempre pronta, sempre em teu posto, para que cada vez que te queira fazer sofrer para meu alívio ou para perdoar flagelos, ou por outra causa, Eu te encontre sempre pronta, não devo sempre te chamar nem te dispor cada vez ao sacrifício, Mas ficarás como se sempre te chamasse, mesmo que nem sempre te tenha em ato de sofrer.
Então nos entendemos, não é verdade? Fique calma e não tenha medo de nada".

MEDITAÇÃO DO CAPÍTULO

 

 


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5. Nascimento de Maria. A sua virgindade no eterno pensamento do Pai.

26 de agosto de 1944

Vejo Ana sair no pomar. Apóia-se ao braço provavelmente de uma parente, porque se assemelha a ela. Está muito volumosa e parece afadigada talvez pelo afã, parecido com o que eu sinto agora.
Embora o pomar esteja na sombra, o ar ali está quente, pesado. Um ar que se poderia cortar como uma massa mole e quente, de tão denso, sob um impiedoso céu de um azul embaçado pela poeira suspensa nos espaços. Faz tempo que deve ter havido estiagem, porque a terra, onde não é irrigada, está literalmente reduzida a uma poeira finíssima, quase branca. De um branco levemente tendente a um rosa-escuro, mais para o marrom ao pé das plantas ou ao longo dos breves canteiros, onde banhadas crescem fileiras de hortaliças, em torno aos roseirais, aos jasmineiros, outras flores, que estão ao lado de uma parreira bonita cortando pela metade o jardim, até ao início dos campos, despojados de gramináceas. Também a relva do prado, assinalando o fim da propriedade, está chamuscada e rala. Só ás margens dela, onde há uma cerca de espinheiro-alvar selvagem, marcado pelos rubis dos pequenos frutos, a grama é mais verde e espessa. Ali estão as ovelhinhas com um pequeno pastor, à procura de pasto e de sombra.

Joaquim está ao redor das fileiras e das oliveiras. Com ele há dois homens que o ajudam. Mesmo ancião, Joaquim é ágil e trabalha com gosto. Estão abrindo pequenos cercados nos limites de um campo, para dar água às plantas sequiosas. A água abre um caminho borbulhando entre a relva e a terra abrasada, e se estende em anéis, que por um momento parecem de um cristal amarelado e depois são só anéis escuros de terra úmida, em torno aos sarmentos e as oliveiras sobrecarregadas.
Ana lentamente vai na direção de Joaquim que quando a vê se apressa a encontrá-la andando pela parreira sombreada, sob a qual abelhas de ouro zumbem ávidas do açúcar dos grãos de uva branca.
– Chegastes até aqui?
– A casa está quente como um forno.
– E tu sofres.
– O único sofrimento é desta minha última hora de grávida. O sofrimento de todos, homens e animais. Não te acalores demais, Joaquim.
– A água, que esperamos faz tempo e que de três dias para cá parecia bem próxima, ainda não veio, e o campo queima. É bom para nós que temos a nascente próxima e é muito rica de águas. Abri os canais. Um pouco de refrigério para as plantas, que têm as folhas murchas e cobertas de poeira. Mas é suficiente só para mantê-las vivas. Se chovesse!… – Joaquim, com a ânsia de todos os agricultores, perscruta o céu, enquanto Ana, cansada, se abana com um leque que parece feito com uma folha seca de palma, entrelaçada com fios multicolores que a tornara rígida.

A parente diz:
– Lá, além do grande Hermon, surgem nuvens velozes. Vento do norte. Refrescará e talvez trará água.
– Sâo três dias que se levanta e depois cai com o surgir da lua. Será ainda assim. – Joaquim está desanimado.
– Voltemos para casa. Aqui também não se respira, e depois penso que seja bom voltarmos… – diz Ana, que parece ainda mais olivácea por causa de uma palidez que lhe veio sobre o rosto.

– Sofres?
– Não. Mas sinto aquela grande paz que senti no Templo quando me foi dada a graça e que senti ainda quando soube que seria mãe. É como um êxtase. Um doce sono do corpo, enquanto o espírito jubila e se aplaca em uma paz sem comparação humana. Eu te amei, Joaquim, e quando entrei na tua casa e disse a mim mesma: “Sou esposa de um justo”, tive paz, e assim todas as vezes que o teu amor providencial cuidou da tua Ana. Mas esta paz é diferente. Veja, eu creio que é uma paz como aquela que devia invadir, como óleo que se expande e suaviza o espírito de Jacó, nosso pai, depois do seu sonho * de anjos; e, melhor ainda, semelhante à paz jubilosa dos Tobias depois que Rafael se manifestou a eles. Se me abandono a apreciá-la, ela sempre cresce mais. É como se eu subisse pelos espaços azuis do céu… e, não sei por que, desde que eu tenho em mim esta alegria pacífica, eu tenho um cântico no coração, aquele do velho Tobias. Parece-me que tenha sido escrito para esta hora…

para esta alegria… para a terra de Israel que a recebe… para a Jerusalém pecadora e agora perdoada… mas, não rides dos delírios de uma mãe, quando digo: “Agradece o Senhor pelos teus bens e glorifica o Deus dos séculos, a fim de que reedifiques em ti o seu Tabernáculo”, eu penso que aquele que reedificará em Jerusalém o Tabernáculo do Deus verdadeiro será este que está para nascer; penso ainda que não mais do que a Cidade santa, mas pela minha criança seja profetizado o destino quando o cântico diz: “Tu brilharás com uma luz esplêndida, todos os povos da terra se prostrarão a ti, as nações virão a ti trazendo presentes, em ti adorarão o Senhor e julgarão santa a tua terra, porque dentro de ti invocarão o Grande Nome. Tu serás feliz nos teus filhos, porque todos serão abençoados e se reunirão ao lado do Senhor. Bem-aventurados aqueles que te amam e regozijam tua paz!…”; e a primeira a regozijar sou eu, a sua mãe bem-aventurada…”.

Ana empalidece e se inflama como algo trazido pela luz lunar a um grande fogo e vice-versa, ao dizer estas palavras. Doces lágrimas descem sobre suas faces e ela nem as percebe, sorrindo de alegria. E assim vai em direção à casa, entre o esposo e a parente, que a escutam e calam-se comovidos.

Apressam-se porque as nuvens, impelidas por um vento forte galopam e 5.3 crescem pelo céu, e a planície torna-se escura e estremece por um aviso de temporal. Quando alcançam à soleira da casa, um primeiro relâmpago lívido sulca o céu e o barulho do primeiro trovão parece o rufar de um enorme tambor que se mistura ao harpejo dos primeiros pingos sobre as folhas secas.

Entram todos e Ana se retira, enquanto Joaquim, alcançado pelos criados, fala, da porta, desta longa espera pela água, que é uma bênção para a terra sedenta. Mas a alegria se transforma em temor, porque vem um temporal violentíssimo com raios e nuvens carregadas de granizo.

– Se a nuvem rompe, a uva e as oliveiras serão esmagadas como pela moenda. Pobres de nós!
Joaquim tem uma outra ansiedade: pela esposa para a qual chegou a hora de dar à luz o seu filho. A parente o tranqüiliza que Ana não sofre absolutamente nada. Mas ele está ansioso; cada vez que a parente ou outras mulheres, entre as quais a mãe de Alfeu, saem do quarto de Ana para depois voltarem com água quente e bacias e linhos enxutos junto ao fogo da lareira central numa cozinha ampla, Joaquim pergunta algo, não se acalmando com as respostas. Também a ausência de gritos de Ana o preocupa. Diz:

– Eu sou homem e nunca vi um parto. Mas lembro-me de ter ouvido dizer que a ausência de dores é fatal…
Vem a noite, antecipada pela fúria tempestuosa que é violentíssima. Agua torrencial, vento, raios, ali tem de tudo, menos o granizo, que foi cair em outra parte.

Um dos criados percebe a violência e diz:
– Parece que satanás saiu do inferno com seus demônios. Olha que nuvens negras! Sente que cheiro de enxôfre no ar, assobios, sibilos, vozes de lamento e maldição. Se é ele, está furioso esta noite!
O outro criado ri e diz:
– Fugiu-lhe uma grande presa, ou Miguel o espancou com uma nova faísca de Deus, e ele ficou com o chifre e o rabo cortado e queimado”.
Passa correndo uma mulher e grita:
– Joaquim! Está para nascer! E foi tudo rápido e feliz! – e desaparece com uma pequena ânfora entre as mãos.
O temporal pára de improviso depois de um último raio tão violento que arremessa contra as paredes os três homens; e na frente da casa, no chão do horto-jardim, fica como lembrança um buraco preto e fumegante. Ao mesmo tempo um gemido vem de lá da porta de Ana, gemido que parece o lamento de uma rolinha que pela primeira vez não pia, mas arrulha. Um enorme arco-íris estende a sua listra em semicírculo sobre toda a amplidão do céu. Surge, ou pelo menos parece

surgir, do cume do Hermon que beijado por uma lama de sol, parece de alabastro de um branco-rosado delicadíssimo. Este arco- íris levanta-se até o mais claro céu de setembro, e, atravessando por espaços limpos de toda impureza, sobrevoa as colinas da Galiléia e a planície que aparece, entre duas árvores de figo, ao sul e depois ainda um outro monte, indo pousar a sua ponta final no extremo horizonte, lá onde uma áspera cadeia de montanhas fecha qualquer outro panorama.
– Nunca vi isso!
– Olhai, olhai!
– Parece que toda a terra de Israel esteja ligada em um círculo, mas olhai, ali já há uma estrela, enquanto que o sol ainda não desapareceu. Que estrela! Brilha como um enorme diamante!…

– A lua é toda plena, enquanto que ainda faltam três dias para a lua cheia. Mas olhai como resplandece!
As mulheres chegam repentinamente, alegres com um embrulhozinho  rosado entre tecidos alvos.

É Maria, a mãe! Uma Maria pequenina que poderia dormir entre o círculo de braços de um menino, uma Maria comprida tanto quanto um braço, uma cabecinha de marfim tingido de um rosa tênue, com a boquinha de carmim, que já não chora mais, mas faz o instintivo ato de sugar, tão pequena que não se sabe como fará para pegar um mamilo, um narizinho diminuto entre duas pequenas faces arredondadas e ao tocá-lo abrem-se os olhinhos, dois pedacinhos do céu, dois pontinhos inocentes e azuis que olham, mas não vêem, entre cílios delicados, de um loiro tão intenso que é quase róseo. Também os cabelinhos sobre a cabecinha arredondada são a cor loiro-rosado de algumas qualidades de mel quase branco.

No lugar de orelhas, duas conchinhas rosadas e transparentes, perfeitas. E por mãozinhas… o que são aquelas duas coisinhas que agitam-se no ar e depois vão à boca? Fechadas como agora, dois botões de rosa musgo que separam o verde das sépalas e lhes estende a seda de um tênue rosa; abertas como agora, duas pequenas jóias de marfim de alabastro ligeiramente rosado, com cinco romãs pálidas no lugar das unhazinhas. Como farão aquelas mãozinhas para enxugar tanto choro?

E os pezinhos? Onde estão? Por enquanto são só um espernear escondido entre os linhos. Mas eis que a parente senta-se e a descobre…

Oh! Os pezinhos! Compridos uns quatro centímetros, têm por planta, uma concha coralina, como dorso uma concha de um branco neve com veiazinhas azuis, têm por dedinhos as obras-primas de escultura liliputiana, são também coroados por pequenos fragmentos de pálida romã. Mas como se encontrarão sandalinhas tão pequenas para poder estar naqueles pezinhos, quando tais pezinhos de boneca derem os primeiros passos? E como estes
mesmos pezinhos farão tão áspero caminho e sustentarão tanta dor, debaixo de uma cruz?

Mas agora isto não se sabe, e se ri e sorri do seu debater-se e espernear, das perninhas bonitas torneadas, das coxas pequenas que fazem covinhas e dobrinhas de tanto que são gorduchas, da barriguinha, uma taça emborcada do pequeno tórax perfeito sob cuja seda cândida se vê o movimento da respiração que certamente se ouve. O pai feliz escuta seu peitinho agora, e o beija ao ouvir bater um coraçãozinho… Um coraçãozinho que é o mais bonito que a terra teve nos séculos dos séculos, o único coração humano imaculado.

E as costas? Eis que a viram, e se vê a forma dos rins e depois os ombros gorduchos e a nuca rosada tão forte que a cabecinha se ergue sobre o arco das pequenas vértebras, parecendo a cabecinha de um pássaro que perscruta ao redor o mundo novo e tem um gritinho de protesto por ser assim mostrada, ela, a pura e casta, aos olhos de tantos, ela que homem nenhum a verá nua, a toda virgem, a santa e imaculada. Cobri, cobri este botão de flor-de-lis que nunca se abrirá sobre a terra e que dará, ainda mais bonita que ela, a sua flor, sempre permanecendo botão.

Só nos Céus o Lírio do Trino Senhor abri rá todas as suas pétalas.

Porque no céu não há poeira de culpa que possa involuntariamente profanar aquele candor. Porque lá em cima deve ser acolhido, à vista de todo o Empíreo, o Deus Trinitário que agora ocultado em um coração sem mácula, entre poucos anos estará nela: Pai, Filho, Esposo.
Eis ali de novo entre os linhos e entre os braços do pai terreno, com quem ela se assemelha. Não agora. Agora é um esboço de homem. Eu digo que se lhe assemelhará quando mulher. Da mãe não tem nada. Do pai, a cor da pele, dos olhos e certamente dos cabelos que, se agora são brancos, na juventude eram certamente loiros como o dizem as sobrancelhas. Do pai, as feições, feitas mais perfeitas e gentis por ser ela mulher, a mulher. Do pai o sorriso, o olhar, o modo de mexer-se e a estatura. Pensando em Jesus, como o vejo, acho que Ana deu a sua estatura ao Neto e a cor marfim mais carregada da pele. Enquanto que Maria não tem aquela imponência de Ana, um palmo mais alta e flexível, mas tem a gentileza do pai.

6As mulheres também falam do temporal e do prodígio da lua, da estrela, 5.6 do imenso arco-íris, enquanto junto ao Joaquim entram onde está a mãe feliz e lhe entregam a criancinha.
Ana sorri a um pensamento:

– É a Estrela – diz.
– O seu sinal está no céu. Maria, arco de paz! Maria, minha estrela! Maria, lua pura! Maria, nossa pérola!
– Chama-se Maria?
– Sim. Maria, estrela, pérola, luz e paz…

– Mas também quer dizer amargura… Não temes trazer-lhe desventura?
– Deus está com ela. Já era Dele antes de ser. Ele a conduzirá pelos seus caminhos e toda amargura se transformará em um paradisíaco mel. Agora sejas da tua mãe… ainda por um pouco, antes de seres toda de Deus…
E a visão termina sobre o primeiro sono de Ana mãe e de Maria criança.

27 de agosto de 1944.

Jesus diz:
Surge e apressa-te pequena amiga. Tenho um desejo ardente de te levar Comigo para o azul paradisíaco da contemplação da Virgindade de Maria. Sairás com a alma jovem como se tu também fosses criada há pouco pelo Pai, uma pequena Eva que ainda não conhece a carne. Sairás com o espírito repleto de luz, porque tu mergulharás, na contemplação da obra-prima de Deus. Sairás com todo o teu ser saturado de amor, porque compreenderás como Deus sabe amar. Falar da concepção de Maria, a sem mácula, quer dizer mergulhar-se no azul, na luz, no amor.

Vem e lê as suas glórias no Livro do Avo: “Deus me possuiu no início de suas obras, desde o princípio, antes da criação. “Ab aeterno” fui predeterminada no princípio.
Antes que fosse feita a terra, ainda não existiam os abismos e eu já era concebida. Nem as nascentes das águas transbordavam, nem os montes tinham-se erguido em suas grandes dimensões, nem as colinas eram cadeias montanhosas ao sol, e eu já tinha sido gerada. Deus ainda não tinha feito a terra, os rios, e as bases do mundo, e eu era. Quando preparava os céus eu estava presente, quando com lei imutável fechou sob a orla celeste o abismo, quando tornou estável no alto a abóbada celeste e suspendeu as fontes das águas, quando fixava ao mar os seus confins e dava leis às águas de não passar os seus limites, quando assentava os fundamentos da terra, eu estava com Ele a dispor todas as coisas. Sempre na alegria brincava diante Dele continuamente, brincava no universo…”.
Aplicaram estas palavras à Sabedoria, mas na realidade elas falam dela: a bela mãe, a santa mãe, a virgem mãe da Sabedoria, que sou Eu que te falo.

Eu quis que tu escrevesses o primeiro verso deste hino no início do livro que fala dela, para que fosse confessada e percebida a consolação e a alegria de Deus; a razão do constante, perfeito, íntimo regozijo deste Deus uno e trino, que vos guia e ama, que do homem teve tantas razões de tristeza; a razão pela qual Deus perpetuou a raça, mesmo quando, à primeira prova, merecia ser *destruída; a razão do perdão que vocês tiveram.

Ter Maria que o amasse. Oh! bem merecia criar o homem, e deixá-lo viver, e decretar perdoá-lo, para ter a virgem bela, a virgem santa, a virgem imaculada, a virgem enamorada, a filha dileta, a mãe puríssima, a esposa amorosa!
Muito e mais ainda vos deu e vos daria Deus para poder possuir a criatura das suas delícias, o sol do seu sol, a flor do seu jardim. E muito continua a dar-vos por ela, a pedido dela, pela alegria dela, porque a sua alegria se derrama na alegria de Deus e a aumenta de esplendor que enche de faíscas a luz, a grande luz do Paraíso; cada centelha é uma graça para o universo, para a raça do homem, para os próprios bem-aventurados, que respondem-lhes com um grito radiante de aleluia a cada geração de milagre divino, criado pelo desejo do Deus Trino de ver o cintilante riso de alegria da Virgem.

Deus quer um rei no universo que Ele havia criado do nada. Um rei que, pela natureza da matéria, fosse o primeiro entre todas as criaturas criadas e dotadas de matéria. Um rei que, pela natureza do espírito, fosse quase divino, fundido na Graça como no seu inocente primeiro dia. Mas a Mente suprema, onde são notórios todos os acontecimentos mais distantes em séculos, cuja vista vê incessantemente tudo quanto era, é, e será, enquanto contempla o passado e observa o presente, eis que aprofunda o olhar no último futuro sem ignorar a morte do último homem, sem confusão nem descontinuidade, esta Mente nunca ignorou o rei criado por Ele, para estar ao seu lado, semidivino, no Céu, herdeiro do Pai. Ao entrar adulto no seu reino, depois de ter vivido na casa da mãe, a terra com a qual foi feito, durante a sua infância de Eterno, na sua jornada sobre a terra, este rei teria cometido contra si mesmo o delito de matar-se na Graça e o latrocínio de furtar-se do Céu.
Por que então o criara? Certamente muitos se perguntam isto. Teríeis preferido não existir? Este dia não merecia ser vivido, por si mesmo, tão pobre, nu e amargo pela vossa maldade, mas para conhecer e admirar a Beleza infinita que a mão de Deus semeou no universo?
Para quem teria feito estes astros e planetas que deslizam como setas e flechas, riscando o arco do firmamento? Ou os aparentemente lentos, majestosos na sua corrida como bólidos, presenteando-vos com luzes e estações como se fossem eternos, imutáveis, ainda que em contínua mudança, oferecendo-vos uma página nova para ser lida sobre o azul, toda noite, todo mês, todo ano, quase como dizendo-vos:

“Esquecei-vos do cárcere, deixai as vossas gravuras repletas de coisas obscuras, podres, sujas venenosas, enganosas, blasfemadoras, corruptoras e elevai, ao menos com o olhar na ilimitada liberdade dos firmamentos. Tende uma alma azul olhando tão grande serenidade, criai-vos uma reserva de luz, para levar à vossa prisão escura. Lede a palavra que nós escrevemos cantando o nosso coro sideral mais harmonioso do que acompanhado por um órgão de catedral. A palavra que nós escrevemos brilhando, a palavra que nós escrevemos amando, visto que sempre temos presente Aquele que nos quis dar a alegria de existir, e o amamos por nos ter dado este ser, este esplendor, este deslizar, este sermos livres e belos em meio ao azul suave, além do qual vemos um azul ainda mais sublime, o Paraíso. E do qual cumprimos a segunda parte do preceito de amor amando a vós, o nosso próximo universal, amando-vos doando guia, luz, calor e beleza. Lede a palavra que nós dizemos, e é aquela sobre a qual regulamos o nosso canto, o nosso resplandecer, o nosso riso: Deus”?

Para quem teria feito aquele líquido azul, que é um espelho para o céu, um caminho para a terra, sorriso das águas, voz das ondas, palavra também essa que como os sussurros de seda farfalhando, com risadinhas de crianças serenas, com suspiros de velhos que lembram e choram, com bofetões violentos e com chifradas, mugidos e estrondos, sempre fala e diz: “Deus”? O mar é para vós, como o céu e os astros. E com o mar, os lagos, os rios, os pântanos, os riachos e as nascentes puras, que servem a todos para vos transportar, nutrir, dessedentar e purificar, e que vos servem, servindo o Criador, sem saírem para fora dos seus limites, afogando-vos, como mereceis.

Para quem teria feito todas as inumeráveis famílias dos animais, como flores que voam cantando, os servos que correm, que trabalham, nutrem e são recreação para vós, os reis?
Para quem teria feito todas as inumeráveis famílias das plantas, e das flores que parecem borboletas, que parecem jóias e passarinhos imóveis, dos frutos que parecem os cofres de pedras preciosas, como tapetes para vossos pés, proteção para as vossas cabeças, recreação útil, alegria para a vossa mente, membros, vista e olfato?
Para quem teria feito os minerais nas entranhas da terra, os sais dissolvidos nas fontes de águas geladas ou ferventes, as fontes sulfurosas, as iodadas, as alcalinas? Não teria sido para que alguém gozasse de tudo, alguém que não era Deus, mas filho de Deus? O homem.
Para a alegria de Deus, para as necessidades de Deus, nada era preciso. Deus se basta a Si mesmo.
Não tem que se contemplar para alegrar-se, nutrir-se, viver e repousar. Tudo o que foi criado não aumentou um átomo a sua infinita alegria, sua beleza, seu poder. Mas tudo Ele fez pela sua criatura, que Ele quis colocar como rei na Sua obra: o homem.

Para ver tão grandes obras de Deus e por reconhecimento para com o seu poder, vale a pena viver.
Como viventes deveis ser gratos. Deveríeis ter sido gratos, mesmo se não tivésseis sido redimidos, hoje ou no fim dos séculos, porque não obstante tenhais sido os Primeiros, singularmente, sois até hoje prevaricadores, soberbos, luxuriosos, homicidas. Mas Deus ainda vos concede sabor de gozar das belezas do universo e da bondade do universo, e vos trata como se fosseis bons, filhos bons aos quais tudo é ensinado e concedido, a fim de tornar-lhes mais doce e sadia a vida. Quanto sabeis, vós o sabeis pela luz que Deus vos deu. Tudo quanto descobris, vós o descobris porque Deus vô-lo indica no Bem. Porque os outros conhecimentos e descobertas, que têm o sinal do mal, vêm do Mal supremo, satanás.

A Mente suprema, que nada ignora, antes ainda que o homem existisse, sabia que o homem, por si mesmo, teria sido um ladrão e um homicida. E, já que a Bondade eterna não tem limites, antes que acontecesse a Culpa, pensou no meio para anulá-la. E o meio seria: Eu. E o instrumento para fazer do meio um instrumento operante seria: Maria. Assim é que a virgem foi criada no Pensamento sublime de Deus.

Todas as coisas foram criadas para Mim, Filho dileto do Pai. Eu, como Rei, deveria ter tido sob os meus pés de Rei divino tapetes e jóias como nenhum palácio real jamais teve. Cantos, vozes, servos e ministros tão numerosos ao redor de minha pessoa que nenhum soberano jamais teve.
Flores, pedras preciosas, todo o sublime, o grandioso, o gentil, o minucioso, tudo o que é possível buscar no Pensa mento de um Deus.

Mas Eu devia ser Carne, além de ser Espírito. Carne, para salvar a carne. Carne para sublimar a carne, levando-a para o Céu, muitos séculos antes da hora. Porque a carne, habitada pelo espírito, é a obra-prima de Deus, e por ela, o Céu fora feito. Para ser Carne, eu tinha necessidade de uma mãe.
Para ser Deus, eu tinha necessidade de que meu Pai fosse Deus.
Eis que, então, Deus criou para Si uma esposa, e lhe disse: “Vem comigo. A meu lado, vê tudo quanto Eu faço pelo nosso Filho. Olha e jubila-te, virgem eterna, menina eterna, que o teu riso encha todo este empíreo, e dê aos anjos a nota inicial, e ensina ao Paraíso uma harmonia celeste. Eu olho para ti. E te vejo como serás, ó mulher imaculada que, por enquanto, és apenas espírito, o espírito em que me deleito. Olho para ti, e dou o azul do teu olhar ao mar e ao firmamento, a cor dos teus cabelos ao trigo, a tua candura ao lírio, o tom róseo à rosa, semelhante à tua pele de seda. Imito nas pérolas os teus dentes graciosos; olhando tua boca, faço os doces morangos, ponho na voz rouxinóis às tuas notas, e na das rolinhas o teu pranto. Ainda lendo os teus futuros pensamentos, ouvindo as palpitações do teu coração, eu encontrei os modelos de arte para criar. Vem, minha Alegria! Habita os mundos para divertimento teu, enquanto fores a luz que se move em meu Pensamento, teus hão de ser os mundos pelo teu sorriso, tuas as belas formações das estrelas e o colar dos astros todos. Coloca a lua sob os teus pés gentis, cinge-te com o cinto de estrelas da Via Láctea. As estrelas e os planetas são para ti. Vem e diverte-te, vendo as flores que serão o
divertimento do teu Menino, servindo de almofada para o Filho do teu ventre. Vem, e vê como se criam as ovelhas e os cordeiros, as águias e as pombas. Fica perto de mim, enquanto eu faço como uns vasos, os mares e os rios, enquanto ergo as montanhas e as enfeito com a neve e as florestas, enquanto semeio as searas, as árvores, as, videiras, enquanto faço para ti a oliveira, minha rainha de paz, para ti a videira, meu sarmento que levará o Cacho eucarístico. Corre, voa, jubila-te, ó minha beleza, e que o mundo todo, que vai sendo criado de hora em hora, aprenda contigo a me amar, ó amorosa, e se torne mais bonito com o teu sorriso, ó mãe do meu Filho, rainha do meu Paraíso, amor do teu Deus”. Vendo o Erro, e olhando para a Sem Erro diz ainda: “Vem a Mim, tu que anulas a amargura da desobediência, da ingratidão, da fornicação humana com satanás. Eu terei contigo a desforra sobre satanás”.

Deus, Pai Criador, criara o homem e a mulher com uma lei de amor tão perfeita, que não podeis, nem ao menos compreender. E vós vos enganais ao pensar como teria aparecido a raça humana, se o homem não o tivesse alcançado pelo ensinamento de satanás. 
Olhai as plantas que produzem fruto e semente. Por acaso elas conseguem ter semente e fruto por meio de uma fornicação ou de uma fecundação em cada cem encontros conjugais? Não. Da flor masculina sai o pólen, guiado por um complexo de leis meteóricas e magnéticas, vai ao ovário da flor feminina. Esta se abre, o recebe e produz. Não se suja e o rejeita depois, como vós fazeis, para poderdes gozar, no dia seguinte, da mesma sensação. Depois de produzir não floresce, até a próxima estação e, quando floresce, é para reproduzir.

Olhai os animais. Todos. Já vistes algum animal, macho ou fêmea, ir um ao outro para algum abraço estéril, ou só para algum encontro lascivo? Não. De perto ou de longe, voando, rastejando, pulando ou correndo, eles vão, quando chega a hora, ao rito fecundativo, e não se subtraem a isso para ficarem só no prazer, mas vão além, vão até ás conseqüencias sérias e santas, que conduzem à geração da prole, o único escopo
que, no homem, semideus pela origem da Graça que Eu restituí inteira, deveria fazê-lo aceitar a animalidade do ato necessário, uma vez que descestes um grau no nível do animal.

Vós não fazeis como as plantas e os animais. Vós tivestes por mestre satanás, pois o escolhestes e o desejais. As obras que praticais são dignas do mestre que quisestes ter. Mas, se tivésseis sido fiéis a Deus, teríeis tido santamente, sem dor, a alegria de filhos, sem vos esgotardes em cópulas obscenas, indignas, que os próprios animais não conhecem, os animais que não têm alma racional e espiritual.

Ao homem e à mulher, depravados por satanás, Deus quis opor o Homem nascido de mulher tão purificada por Deus, a ponto de poder gerá-Lo sem relação com homem. Flor que gera flor, sem necessidade de semente, mas apenas com o beijo do Sol sobre o cálice inviolado do Lirio que é Maria.

A desforra de Deus!

Solta os teus silvos de inveja, ó satanás, enquanto ela está nascendo. Esta menina te venceu! Antes que tu fosses o Rebelde, o Tortuoso, o Corruptor, já estavas vencido, e ela é a tua vencedora. Mil exércitos alinhados nada podem contra o teu poder, e contra as tuas couraças caem as armas das mãos dos homens, ó perene, e não há vento que possa dispersar o mau cheiro do teu hálito. No entanto, este calcanharzinho de criança, tão rosado, que parece o interior de uma camélia também rosada, tão liso e tão macio que a seda é áspera comparado a ele, tão pequenino, que poderia caber no cálice de uma tulipa e usá-la como sapatinho, eis que ele te pisa sem medo, e te confina em teu antro. Eis que só o seu vagido já te põe em fuga, a ti que não tens medo dos exércitos. O hálito dela purifica o mundo do teu fedor. Estás derrotado. Só o nome dela, só o seu olhar, só a sua pureza já são uma lança, um fulgor de raio, uma enorme pedra que te transpassam, que te abatem, que te aprisionam no teu covil do inferno, ó Maldito, que tiraste a Deus a alegria de ser Pai de todos os homens criados.

Foi inútil, pois, teres corrompido os que haviam sido criados inocentes, levando-os a conhecer e a conceber sinuosidades da luxúria, privando Deus, de ser o doador dos filhos, em suas diletas criaturas,
dando-lhes regras que, se respeitadas, teriam mantido sobre a terra um equilíbrio entre os sexos e as raças,
capaz de evitar guerras entre os povos e desventuras entre famílias.

Obedecendo, teriam conhecido o amor. Só obedecendo, teriam conhecido e conservado o amor.
Uma posse plena e tranqüila desta emanação de Deus, que do sobrenatural desce ao inferior, para que também a carne se alegre santamente, esta que está ligada ao espírito, criada por Aquele que criou o espírito.

Agora, o vosso amor, ó homens, os vossos amores o que são? Ou libidinagem vestida de amor, ou medo insanável de perder o amor do cônjuge, seja pela libidinagem própria, ou alheia. Já não estais mais seguros quanto à posse do coração do esposo ou da esposa, desde quando a libidinagem entrou neste mundo.


Tremeis, chorais e tornais-vos loucos de ciúmes, até assassinos, às vezes, para vingar
alguma traição, desesperados, ou então abúlicos e até dementes.

Eis o que fizeste, satanás, aos filhos de Deus. Estes, que corrompeste, teriam conhecido a alegria de ter filhos sem sentirem dor, a alegria de nascer sem o medo de morrer. Mas agora estás vencido em uma mulher e por uma mulher. De agora em diante, quem a amar, tornará a ser de Deus, superando as tuas tentações, para poder imitar a sua pureza imaculada. De agora em diante, não mais podendo conceber sem dor, as mães a terão para o seu conforto. De agora em diante, as esposas a terão por guia e os moribundos por mãe, sendo doce para eles morrer sobre aquele seio, que é um escudo contra ti, oh Maldito, e proteção, diante do julgamento de Deus.

Maria, minha cara interlocutora, viste o nascimento do Filho da virgem e o nascimento da virgem no Céu. Viste, pois, que para os sem culpa é desconhecido o castigo de dar a vida e também o sofrimento de dar-se à morte. Mas, se à inocentíssima mãe de Deus foi reservada a perfeição dos dons celestes, a todos, que tivessem permanecido inocentes e filhos de Deus, teria sido possível gerar sem dor e morrer sem afã, por justiça de terem sabido unir-se e conceber sem luxúria.

A sublime desforra de Deus sobre a vingança de satanás foi a de elevar a perfeição da criatura dileta a uma super-perfeição, capaz de anular, ao menos nela, toda lembrança de humanidade, que fosse suscetível ao veneno de satanás, e para a qual, não de um casto abraço de homem, mas de um divino amplexo, que empalidece o espírito num êxtase de Fogo, lhe teria vindo o Filho.

A virgindade da Virgem!… 

Vem. Medita nesta virgindade profunda, que produz em quem a contempla vertigens de abismo! O que é a pobre virgindade forçada da mulher que por nenhum homem foi desposada? É menos do que nada. O que é a virgindade daquela que quer ser virgem, para ser de Deus, mas sabe sé-lo só no corpo e não no espírito, no qual deixa entrar muitos pensamentos estranhos, acaricia e aceita as carícias de pensamentos humanos? Isto já começa a ser uma máscara de virgindade, mas muito pouco ainda. O que é a virgindade de uma enclausurada, que vive só para Deus? É muito. Mas, mesmo assim, ainda não é uma virgindade perfeita, se comparada com a virgindade da minha mãe.

Sempre existiu um enlace, até mesmo no mais santo. O enlace da origem, entre o espírito e a Culpa.
Só o Batismo o desfaz. Mas, é como uma mulher separada do marido pela morte, não restitui mais em si a virgindade total, como a virgindade dos nossos Primeiros, antes do Pecado. Uma cicatriz permanece, e dói ao ser lembrada, e está sempre pronta para reabrir-se em ferida, como certas doenças que periodicamente voltam com seus vírus, ainda mais ativos. Na virgem não fica esse sinal de um enlace dissolvido com a Culpa. Sua alma apresenta-se bonita e intacta, como quando estava na mente do Pai, e reúne em Si todas as Graças.
É a virgem, a única, a perfeita, a completa, foi assim pensada, gerada, querida, coroada. É eternamente a virgem, o abismo da intocabilidade, da pureza, da graça que se perde no Abismo do qual brotou: em Deus, intangibilidade, pureza e graça perfeitíssima.

Aí está a desforra do Deus Trino e Uno. Contra suas criaturas profanadas, Ele ergue esta Estrela de perfeição. Contra a curiosidade doentia, esta se esquiva, recompensada em poder amar somente a Deus. Contra a ciência do mal, esta sublime ignorante. Nela não existe somente a ignorância do que é um amor aviltado; não há também somente a ignorância do amor que Deus havia dado aos esposos. E ainda mais. Nela há a ignorância das concupiscências, herança do pecado. Nela há somente a sabedoria gélida, mas incandescente, do Amor divino. Fogo que protege de gelo a carne, para que se torne espelho transparente no altar onde um Deus desposa uma virgem, e não se avilta, porque sua Perfeição abraça aquela que, como convém a uma esposa, só em um ponto é inferior ao esposo, sendo-lhe sujeita por ser mulher, mas é sem mancha, como Ele”.


MEDITAÇÃO DO CAPÍTULO 3
CAPITULO 3

INTELIGÊNCIA QUE TIVE SOBRE A DIVINDADE E O DECRETO DE DEUS PARA CRIAR TODAS AS COISAS.
Louvor ao Altíssimo
26. Ó altíssimo Rei e sapientíssimo Senhor, quão incompreensíveis são teus juízos (Rm 11, 33) e inescrutáveis teus
caminhos! Deus invencível, que sem ter origem, hás de permanecer para sempre (Eclo 18, 1)! Quem poderá conhecer tua grandeza e contar tuas magníficas obras?

Quem te poderá argüir por que assim fizeste? (Rm 9,20) Pois tu és Altíssimo acima de todos e nossa vista não te pode alcançar, nem o nosso entendimento compreender.

Bendito sejas, magnífico Rei, porque te dignaste mostrar a esta tua escrava e vil bichinho grandes sacramentos e
altíssimos mistérios, elevando e arrebatando meu espírito onde vi o que não saberei explicar.
. Vi ao Senhor e Criador de todos, em si mesmo, antes de criar qualquer coisa;
ignoro o modo como me foi mostrado, mas não o que vi e entendi. Sabe Sua Majestade, que tudo compreende, que para falar de sua deidade, meu pensamento suspende se, minha alma perturba-se, minhas faculdades em suas operações paralisam-se. A parte superior abandona a inferior, deixa os sentidos e voa para quem ama, abandonando a quem anima. Nestes desalentos e delíquios amorosos meus olhos derramam lágrimas e minha língua emudece.
Oh! Altíssimo e incompreensível Senhor meu, sem medida e eterno, objeto infinito do meu entendimento! Como em
tua presença me sinto aniquilada, meu ser apega-se ao pó, quase não percebendo o que sou! Como esta pequenez e miséria se atreve a contemplar tua magnificência e grande majestade? Conforta, Senhor, o meu ser, fortalece a minha visão, encoraja meu temor, para que possa dizer o que vi, em obediência às tuas ordens.

O Mistério da Ssma. Trindade
27. Com o entendimento, vi ao Altíssimo como estava em si mesmo. Tive a clara inteligência e notícia verdadeira de que é um Deus infinito em substância e atributos, eterno, suma trindade: três pessoas e um só Deus verdadeiro. Três, porque realizam as operações de se conhecer, se compreender e se amar; e só um, por conseguir o bem da unidade eterna.

É trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O Pai não é feito, nem criado, nem gerado, nem o pode ser, ou ter origem.
Conheci que o Filho procede somente do Pai por eterna geração e são iguais em duração e eternidade, gerado pela fecundidade do entendimento do Pai. O Espírito Santo procede do Pai e do Filho Nesta indivisível Trindade não há coisa que se possa dizer anterior nem posterior, maior ou menor. As três pessoas, em si, são igualmente eternas e eternamente iguais. É uma unidade de essência em trindade de pessoas, um Deus na indivisível trindade, e três pessoas na unidade de uma substância. Não se confundem as pessoas por ser um só Deus, nem se divide ou separa a substância por serem três pessoas.
Sendo distintas entre si, é a mesma a divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Igual a glória, a majestade, o poder, a eternidade, a imensidade, a sabedoria, a santidade e todos os demais atributos. E, ainda que sejam três as pessoas nas quais subsistem estas infinitas perfeições, é um só Deus verdadeiro, Santo, Justo, Poderoso, Eterno e sem medida.

Operações intratrinitárias

28. Recebi também inteligência de que esta divina Trindade se conhece com uma visão simples, sem que seja necessária nova, nem distinta notícia. Sabe o Pai o mesmo que o Filho, e o Filho e o Espírito Santo o mesmo que o Pai. Amam-se entre si reciprocamente, com um mesmo amor imenso e eterno. E uma unidade de entender, amar, agir, igual e indivisível; uma simples, incorpórea indivisível natureza, um ser de Deus verdadeiro, em quem estão reunidas e concentradas todas as perfeições em supremo e infinito grau.

Perfeições divinas
29. Conheci as propriedades destas perfeições do Altíssimo: é formoso sem fealdade, grande sem medida, bom sem comparação, eterno sem tempo, forte sem fraqueza, vida sem mortalidade, verdadeiro sem falsidade; presente em todos os lugares enchendo-os sem os ocupar, estando em todas as coisas, sem extensão; não tem contradição na bondade, nem defeito na sabedoria; nela é inestimável, terrível nos conselhos, justo nos julgamentos, secretíssimo nos pensamentos; verdadeiro nas palavras, santo nas obras, rico em tesouros; a quem nem o espaço limita, nem a estreiteza do lugar aperta; não muda a vontade, não se perturba com o triste, as coisas passadas não lhe desaparecem nem as futuras sucedem; a quem nem a origem deu princípio, nem o tempo dará fim.

Oh! eterna imensidade, que intermináveis espaços vi em ti! Que infinidade reconheço em vosso infinito ser! Não há fronteiras para a visão, ao contemplar e se ilimitado objeto. É o ser imutável, o ser acima de todo o ser, a antidade perfeitíssima, a verdade constantíssima;  o infinito, a latitude, a longitude, a altura, a profundidade, a glória c sua causa, o descanso sem fadiga, a bondade cm grau imenso. Vi tudo juntamente e não acerto explicar o que vi.

30. Vi ao Senhor como estava antes de criar qualquer coisa. Com admiração reparei onde se encontrava o Altíssimo, porque não havia céu empíreo, nem os outros inferiores, nem sol, lua, estrelas e elementos, e somente existia o Criador sem nada haver criado. Tudo estava deserto, sem o ser dos anjos, dos homens e dos animais.

Conheci - necessariamente se há de concordar que estava Deus em seu mesmo ser, e que não teve necessidade nem precisão de tudo quanto criou. Tanto antes como depois da criação, infinito em seus atributos, sempre os possuiu e possuirá por toda a eternidade, em virtude de seu ser independente e incriado.

Nenhuma perfeição completa e simples pode faltar à sua divindade, porque somente ela é a que é, e contém em si, por inefável e eminente modo, todas as perfeições que se encontram nas criaturas. Tudo quanto existe, encontra-se naquele ser infinito como efeitos em sua causa.

Conhecimento de uma coisa para outra, como nós procedemos, raciocinando e conhecendo primeiro uma, com um ato de entendimento, e depois outra com um outro ato.
Deus tudo conhece juntamente, de uma só vez, sem que haja em seu infinito entendimento, anterior e posterior. Nele todas as coisas estão juntas no conhecimento e ciência divina incriada, como o estão no ser de Deus, onde se encontram contidas e encerradas como em primeiro princípio.

Deus antes da Criação
32. Esta ciência que se chama de simples inteligência, por motivo do entendimento naturalmente preceder à vontade, há de se considerar em Deus, não por ordem de tempo, mas de natureza. Segundo esta ordem, supomos que exercitou primeiro o ato de entendimento e depois o da vontade, porque estamos a considerar só o ato de entender, antes do decreto de criar qualquer coisa.
Neste estado ou instante, portanto, conferiram as três pessoas divinas, com aquele ato de entender, a conveniência das obras ad extra, a saber, todas as criaturas que existiram e existirão no futuro.

Ciência de simples inteligência

31. Conheci, pois, que estando o Altíssimo em si mesmo, decretou-se entre as três divinas pessoas - a nosso modo de entender - a comunicação e dom de suas perfeições.
Deve-se advertir, para melhor me explicar, que Deus entende todas as coisas com um ato indivisível e simplicíssimo, sem sucessão de raciocínio. Não passa do co-Ciência de visão.
33. Apesar de indigna, manifestei a Sua Majestade o desejo de saber qual foi o lugar que na mente divina teve a Mãe de Deus, Rainha nossa, quando Ele determinou criar todas as coisas, segundo a ordem que estabeleceu, ou que nós podemos entender.

Como puder, explicarei o que me foi respondido, como também a ordem que entendi nesta idéias em Deus, reduzindo as a instantes. Sem isto, a nossa capacidade não se pode acomodar à notícia desta ciência divina, chamada aqui ciência de visão. A ela pertencem as idéias ou imagens das criaturas que decretou criar e conserva ideadas em sua mente, conhecendo-as infinitamente melhor que nós ao vê-las agora.

34. Esta divina ciência é una, simpíicíssima e indivisível, mas como as coisas a que se refere são muitas, existe entre elas ordem de sucessão; umas são anteriores, outras posteriores, umas recebem existência de outras com a conseqüente e mútua dependência entre si.

Por esta razão nos é necessário dividir a ciência de Deus, e outro tanto a vontade, em muitos atos correspondentes a diversos instantes, segundo a ordem dos objetos. Deste modo dizemos que Deus entendeu e determinou primeiro isto e aquilo, e uma coisa por causa de outra, e que se primeiro não quisesse ou conhecesse com ciência de visão uma coisa, não quereria outra.
Com isto não se deve pensar que Deus teve muitos atos de entender e querer, mas queremos significar que as coisas estão entre si encadeadas e sucedem-se umas às outras. Imaginando-as com esta ordem objetiva, para melhor entendê-la, transpomos a mesma ordem aos atos da divina ciência e vontade.


MEDITAÇÃO DO ESTUDO 5

ADVERTE SUA SERVA.

Não te admires, esposa caríssima, se em alguma dúvida a respeito de quanto até agora te disse e ainda te direi. Porque, como se trata de coisas por ti inteiramente ignoradas, o inimigo do gênero humano se esforça por excitar em tua mente muitas duvidas, a fim que te enfastie a obra começada por minha ordem.
Assim procura entorpecer a paz e à serenidade de espírito de que desfrutas ao escrever o que a mim, unicamente por bondade e misericórdia, me compraz comunicar-te. Sê forte e constante, portanto, rejeitando tudo o que contra esta obra te sugerir, e acredite firmemente no que eu te sugiro, porque eu sou a verdade infalível: não sei, nem posso mentir.

CONHECIMENTO DA VIRGEM. A CORREDENTORA. 

Antes de terminar este capitulo deves saber como minha dileta Mãe já estava informada a respeito de tudo o que eu devia sofrer, enquanto na eleição que dela fez o Pai eterno para minha Mãe. Ele lhe deu tantas luzes e conhecimento que ela viu e previu todos os meus sofrimentos; pelo Mensageiro celeste que meu Pai lhe enviou foi claramente informada acerca de tudo. Por isso, inflamada do vivo desejo de imitar-me para mais perfeitamente assemelhar-se a mim, suplicou ao Pai que a fizesse sentir todos os sofrimentos que eu sentia na minha humanidade enquanto de tal ela fosse capaz. Com isto ficou plenamente consolada. Assim, enquanto eu sofria muito nas vísceras maternas, também ela sofria parte dessas aflições, sentindo em seu próprio corpo a privação de todas as coisas das quais eu era privado. Embora ela conservasse o livre ato e movimento dos próprios sentidos corpóreos, não obstante experimentava a minha pena pela privação dos meus, pois enquanto estava em seu seio eu lhe estava unido tão intimamente que parecia sermos uma só e mesma coisa.

PENA E SÚPLICA DE JESUS.
Eu sentia a pena que minha inocente Mãe sofria e isto me causava maior afã. Oferecia esta pena a meu Pai e suplicava-lhe que desse virtude e graça a todas as almas inocentes que
se afligem e padecem para se tornarem semelhantes a mim, para imitar-me. Meu Pai se comprazia muito nisto e prometeu-me uma graça superabundante para todas as almas acima mencionadas, até mesmo ter por elas cuidado mais especial e dar-lhes particular proteção, manifestando querer premiar e remunerar-lhes os padecimentos com imensa glória e aceitá-las
e recebê-las com toda a complacência própria de sua infinita bondade e condescendência. Falarei em outro lugar de quanto mereceu nestes sofrimentos minha dileta Mãe.

DESEJO E REPUGNÂNCIA DE JESUS.

Havia já passado o tempo determinado para estar nas vísceras maternas e tendo de vir à luz e viver fora daquelas estreitezas, encontrei-me animado de desejos e repugnâncias.
Queria vir à luz e começar a sofrer mais para a salvação do gênero humano; repugnavam, no entanto, à minha humanidade tantos padecimentos que via preparados para mim. Desejava sair dessas limitações, mas experimentava repugnância em deixar o abrigo que aceitara e me era grato.
Entre a repugnância e o temor, o desejo de padecer mais e de fazer a vontade do Pai, fiquei aflito e angustiado e ofereci ao Pai em favor de meus irmãos que estivessem em excitação semelhante pelas vicissitudes em que se encontram enquanto vivem neste exílio, e rogava que lhes desse graça e virtude, a fim de poderem escolher tudo o que fosse de Seu agrado e de Sua vontade, para Sua maior glória e o proveito deles.

VALOR DE SUA VIDA NO SEIO DE MARIA.

Sabe, pois, esposa caríssima, que nesses nove meses no seio materno, essa foi a minha ocupação interna, enquanto no exterior não era apto a fazer obra alguma. Somente no interior agia então. Sofria, porém, quanto a minha humanidade, aquilo que neste capítulo te disse. Parecer-te-á que tudo o que te mostrei seja muito pouco em relação ao período de nove meses; mas sabe, caríssima esposa, que minhas orações, minhas súplicas e meus oferecimentos feitos a meu Pai, não eram como os teus é dos outros. Não! Poucas horas de oração vos parecem muitas. Com poucas súplicas e poucos a mentos parece-vos terdes satisfeito. Pensa, caríssima, se os santos não apenas passaram horas, mas dias inteiros em oração, sem o perceberem sequer, considera como passavam o tempo, os que tratava com meu Pai, de um modo mais admirável do que os outros, sendo eu o Filho Unigênito e unido a Ele tão estreita .

CONSOLAÇÕES E AMARGURAS.
Eis. esposa caríssima, O que se dou em meu interior enquanto vivia no seio de minha Mão e quanto eu sofria sabe que em tudo eu agia com alegria e sofria do bom grado pela salvação do gênero humano e pela glória de meu Pal. Mas, como não devia ter consolação alguma que não fosse repleta de amargura, ficava amargurado por ver meu amor tão pouco correspondido e a pouca conta em que tinham meus irmãos o que eu sofria e fazia em seu favor e que, se podiam adquirir imensos tesouros, se eles se prevalecessem de meus méritos, não O fazem por culpa própria e por descuido. Digo-te tudo isto agora, reservando o restante para o capítulo seguinte.


Meditação dos Trechos

12-5
Abril 12, 1917
Não é o sofrer que torna a criatura infeliz, torna-se infeliz quando falta alguma coisa ao seu amor por Deus.

(1) Encontrando-me em meu habitual estado, meu sempre amável Jesus veio, e como eu estava sofrendo um pouco me tomou em seus braços dizendo:
(2) "Querida filha minha, amada filha minha, repousa-te em Mim, antes, tuas penas não as tenhas consigo, envia-as sobre minha cruz a fim de que façam cortejo às minhas penas e me aliviem, e minhas penas cortejem às tuas e te sustentem, ardam de um mesmo fogo e se consumam juntas, e eu olharei para as tuas dores como minhas, dar-lhes-ei os mesmos efeitos, o mesmo valor, e farão os mesmos ofícios que eu fiz sobre a cruz para o Pai e para as almas; aliás, vem tu mesma sobre a cruz, como seremos felizes estando juntos, mesmo sofrendo, porque não é o sofrer que torna a criatura infeliz, mas sim o sofrer a torna vitoriosa, gloriosa, rica, bela, faz-se infeliz quando falta alguma coisa ao seu amor. Tu, unida Comigo sobre a cruz serás preenchida em tudo no amor, tuas penas serão amor, tua vida será amor, toda amor, e por isso serás feliz".

13-5
Junho 12, 1921
Onde encontrar a sua Vida, Deus parará e habitará ali para sempre, e então repousará não na obra da Criação, mas na sua própria Vida. A alma deve ser centro do Divino Querer.

(1) Continuando meu habitual estado, meu sempre amável Jesus continua me falando de seu Santo Querer dizendo-me:
(2) "Minha querida filha, parto de minha Vontade, Eu não quero céu tachado de estrelas, me agradaria, encontraria minha obra, mas não me satisfaria, porque não me encontraria a Mim
mesmo; não te quero sol, se bem me agradaria, encontraria a sombra de minha luz e de meu calor, mas não encontrando a minha Vida passaria por muito; não te quero terra cheia de flores, de plantas e de frutos, pois se bem me poderia agradar porque encontraria o fôlego dos meus perfumes, as pegadas da minha doçura, a maestria da minha mão criadora, em suma, encontraria as minhas obras, mas não a minha Vida, por isso passaria adiante de tudo, continuaria a girar sem me deter, para encontrar o quê? Minha Vida. E onde encontrarei esta minha Vida? Na alma que vive da minha Vontade. Eis por que não te quero nem céu, nem sol, nem terra florida, senão centro de meu Querer. Onde encontrar a minha Vida deter-me-ei e ali habitarei para sempre, e então estarei contente, repousarei não na minha obra como na Criação, mas na minha própria Vida.
(3) Tens de saber que a tua vida deve ser o Fiat, o meu Fiat trouxe-te à luz, e qual nobre rainha levando no teu seio o Fiat Criador, deves caminhar o campo da vida sobre as asas do mesmo Fiat, lançando por toda a parte a semente da minha Vontade, para poder formar outros tantos centros de minha Vida sobre a terra, e depois voltar em meu próprio Fiat ao Céu. Seja fiel e minha Vontade te será vida, mão para te conduzir, pés para caminhar, boca para falar, em suma, se substituirá a tudo".

14-6
Fevereiro 24, 1922
A nossa cruz sofrida na Vontade de Deus se faz tão grande como a de Jesus.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, o meu sempre adorável Jesus fazia-se ver no momento de tomar a cruz para colocá-la sobre o seu santíssimo ombro, e disse-me:
(2) "Minha filha, quando recebi a cruz olhei-a de cima a baixo para ver o lugar que tomava em minha cruz cada alma, e entre tantas, olhei com mais amor e pus atenção especial àquelas que teriam estado resignadas e teriam feito vida em minha Vontade, Olhei para elas e vi sua cruz larga e comprida como a minha, porque minha Vontade suplantava o que faltava à sua cruz, e a alargava e expandia como a minha. ¡ Oh! como sobressaía sua cruz longa, longa por tantos anos de cama, sofrida só para cumprir minha Vontade. A minha era somente para cumprir a Vontade de meu Pai Celestial, a tua para cumprir a minha; uma fazia honra à outra, e como uma e outra continham a mesma medida se confundiam juntas.

(3) Agora, minha Vontade tem a virtude de amaciar a dureza, de adoçar a amargura, de alargar e ampliar as coisas pequenas, por isso quando senti a cruz sobre meu ombro, senti também a suavidade, a doçura da cruz das almas que teriam sofrido em meu Querer, ah! meu coração teve um respiro de alívio, e a suavidade das cruzes delas fez adaptar a cruz sobre meu ombro, e se afundou tanto que me fez uma chaga profunda, e se bem me deu uma dor acerbada, sentia ao mesmo tempo a suavidade e a doçura das almas que teriam sofrido em meu Querer.

E como a minha Vontade é eterna, o seu sofrer, as suas reparações, as suas ações corriam em cada gota do meu sangue, corriam em cada chaga, em cada ofensa; meu querer as fazia parecer presentes às ofensas passadas, desde que o primeiro homem pecou; às presentes e às futuras; eram elas propriamente as que me davam novamente os direitos de meu Querer, e eu, por amor delas, decretava a Redenção, e se os outros tomam parte dela, é por causa destas que podem fazê-lo. Não há bem que eu conceda, nem no Céu nem na terra, que não seja por causa delas."

15-6
Fevereiro 13, 1923

O bem que leva o ser fiel e atento. 

(1) Sentia-me muito aflita, e meu doce Jesus fazendo-se ver me disse:
(2) "Minha filha, coragem, sê-me fiel e atenta, porque a fidelidade e a atenção produzem a igualdade dos humores na alma, e nela formam um só humor e estabelecem a perfeita paz, e esta a torna dominadora, de modo que faz o que quer e chega onde quer. Especialmente para quem vive em meu Querer acontece como ao sol, não se muda jamais, um é seu ato, fazer sair de sua esfera luz e calor; não faz hoje uma coisa e amanhã outra, é sempre fiel e constante em fazer a mesma coisa, mas enquanto seu ato é um, À medida que este ato desce e toca a superfície da terra, quantos atos diversos não acontecem?

Quase inumeráveis: Se encontra a flor fechada, com o beijo de sua luz e com o calor a abre, dá-lhe a cor e o perfume; se encontra o fruto imaturo, o amadurece e lhe dá a doçura; se encontra os campos verdes, os torna dourados; se encontra o ar sujo, com o beijo da sua luz o purifica; em suma, a todas as coisas dá o que é necessário para a sua existência nesta terra, e para poder produzir a utilidade que as coisas contêm, como está estabelecido por Deus. Assim, o sol com sua fidelidade e com fazer sempre a mesma coisa, é o
cumprimento da Vontade Divina sobre todas as coisas criadas. ¡Oh! , se o sol não fosse sempre igual em dar sua luz, quantas oscilações, quantas desordens haveria sobre a terra? E o homem não poderia fazer nenhum cálculo nem sobre seus campos, nem sobre suas plantas e diria: Se o sol não me manda sua luz e seu calor, não sei quando devo colher, nem quando amadurecerão os frutos'. Assim acontece para a alma fiel e atenta, em minha Vontade um é seu ato, mas os efeitos são inumeráveis. Em troca se é inconstante e desatenta, nem ela nem Eu podemos fazer nenhum cálculo, nem fixar o bem que pode produzir".

16-4
Julho 18, 1923

Sobre a Concepção do Verbo Eterno.

(1) Estava a pensar no ato no qual o Verbo Eterno desceu do Céu e ficou concebido no seio da Imaculada Rainha, e meu sempre amável Jesus, desde dentro de meu interior puxou um braço, me cercou o pescoço, e em meu interior me dizia:

(2) "Minha querida filha, se a Concepção da minha Mãe Celestial foi prodigiosa e foi concebida no mar que saiu das Três Divinas Pessoas, minha concepção não foi no mar que saiu de Nós, mas no grande mar que residia em Nós, nossa própria Divindade que descia no seio virginal desta Virgem, e fiquei concebido. É verdade que se diz que o Verbo foi concebido, mas meu Pai Celestial e o Espírito Santo eram inseparáveis de Mim; é verdade que Eu tive a parte atuante, mas Eles a tiveram concorrente. Imagine dois refletores, que um reflita no outro o mesmo sujeito, estes sujeitos são três, o do meio toma a parte obrante, sofredor, suplicante, os outros dois estão juntos, concorrem e são espectadores, então eu poderia dizer que um dos dois refletores era a Trindade Sacrossanta, O outro, minha querida mãe. Ela, no breve curso de sua vida, com viver sempre em meu querer me preparou em seu virginal seio o pequeno terreno divino onde Eu, Verbo Eterno, devia me vestir de carne humana, porque jamais teria descido dentro de um terreno humano, e a Trindade refletindo nela ficou concebida. Então, aquela mesma Trindade, enquanto ficava em Céu, foi concebido no seio desta nobre Rainha.

(3) Todas as outras coisas, por quão grandes, nobres, sublimes, prodigiosas, até a mesma Concepção da Virgem Rainha, todas ficam para trás, não há nada que se possa equiparar, nem amor, nem grandeza, nem potência à minha Concepção; aqui não se trata de formar uma vida, mas de encerrar a Vida que dá vida a todos; não se trata de ampliação, mas de restringir-me para poder me conceber, não para receber mas para dar, quem criou tudo encerrar-se em uma criada e pequeníssima Humanidade. Estas são obras só de um Deus, e de um Deus que ama, que a qualquer custo quer atar com seu amor à criatura para fazer-se amar. Mas isto é nada ainda, você sabe onde todo o meu amor, todo o meu poder e sabedoria refulgiu? Assim como a potência divina formou esta pequeníssima Humanidade, tão pequena que podia comparar-se ao tamanho de uma avelã, mas com os membros todos fornecidos e formados, o Verbo foi concebido nela, a imensidão da minha Vontade encerrando todas as criaturas passadas, presentes e futuras, concebeu nela todas as vidas das criaturas, e conforme crescia a minha, assim cresciam elas em Mim, assim enquanto aparentemente parecia sozinho, visto com o microscópio da minha Vontade se viam em Mim concebidas todas as criaturas; sucedia de Mim como quando se veem águas cristalinas, que enquanto parecem claras, vistas com o microscópio, quantos micróbios não se veem? Foi tal e tanta a grandeza de minha Concepção, que a grande roda da eternidade ficou comovida e estática ao ver os inumeráveis excessos do meu amor, e todos os prodígios unidos juntos; todo a massa do universo estremeceu ao ver fechar-se à Aquele que dá vida a tudo, restringir-se, diminuir-se, fechar tudo, para fazer o que? Para tirar a vida de todos e fazer renascer a todos".

17-5 Julho 16, 1924

Ao criar o homem Deus infundiu-lhe a alma com seu alento, querendo Infundir-lhe a parte mais profunda de seu interior, qual é sua Vontade.
Agora, querendo dispô-lo de novo a receber esta sua Vontade, é necessário que volte a infundir-lhe seu alento.

(1) Continuando meu estado habitual, meu adorável Jesus me transportou para fora de mim mesma e me disse:.
(2) "Minha filha, o Criador vai em busca da criatura para depor em seu regaço os bens que Ele tirou de Si na Criação, e por isso dispõe sempre em todos os séculos que haja almas que vão só em busca dEle, a fim de que deponha seus bens em quem o busca e quer receber seus dons. Então o Criador se move do Céu e a criatura se move da terra para se encontrar, um para dar e o outro para receber. Sinto toda a necessidade de dar; preparar os bens para dá-los e não ter a quem os poder dar e tê-los inativos por incorrespondência de quem não se preocupa em querer recebê-los, é sempre uma grande pena. Mas você sabe em quem posso depor os bens saídos de Mim na Criação? em quem faz sua a minha Vontade, porque Ela sozinha lhe dá a capacidade, o apreço e as verdadeiras disposições para receber os dons do seu Criador, e lhe fornece a correspondência, a gratidão, o agradecimento, o amor que a alma está obrigada a dar pelos dons que por tanta bondade recebeu. Por isso vem junto Comigo e giremos juntos pela terra e pelo Céu, a fim de que deponha em ti o amor que tirei por amor das criaturas em todas as coisas criadas, e tu me dês a correspondência, e junto Comigo ames a todos com meu amor, e daremos amor a todos, seremos dois para amar a todos, não estarei mais só"..

(3) Então giramos por tudo, e Jesus depositava em mim seu amor que continham as coisas criadas, e eu fazendo eco a seu amor, repetia com Ele o te amo de todas as criaturas. Depois acrescentou:.
(4) "Minha filha, ao criar o homem lhe infundi a alma com meu alento, querendo infundir-lhe a parte mais profunda de nosso interior, que é nossa Vontade, a qual lhe dava junto todas as partículas de nossa Divindade que o homem como criatura podia conter, tanto, de fazê-lo uma imagem nossa; mas o homem ingrato quis romper com nossa Vontade, e se bem lhe ficou a alma, mas a vontade humana que tomou lugar em vez da Divina ofuscou-o, infectou-o e fez inativas todas as partículas divinas, tanto, que bagunçou tudo e o desfigurou. Agora, querendo Eu disponho-o de novo a receber esta minha Vontade, é necessário que volte de novo a dar-lhe meu alento, a fim de que meu fôlego lhe ponha em fuga as trevas, as infecções, e faça de novo obrantes as partículas de nossa Divindade que lhe demos ao criá-lo. Oh! como gostaria de vê-lo belo, restabelecido como o criei, e só minha Vontade pode operar este grande prodígio. Por isso quero infundir-te meu alento, a fim de que recebas este grande bem, que minha Vontade reine em ti e te volte a dar todos os bens, os direitos que dei ao homem na sua criação".

(5) E enquanto dizia isto, aproximando-se de mim dava-me seu alento, olhava-me, me estreitava e depois desapareceu..

18-5
Outubro 4, 1925
Repetir o mesmo bem serve para formar a água para regar as sementes das virtudes. Tudo o que fez Nosso Senhor está suspenso na Divina Vontade

(1) Estava segundo meu costume fundindo-me na Santíssima Vontade de Deus, e enquanto girava nela para pôr meu te amo sobre todas as coisas, teria querido que meu Jesus nada visse ou
ouvisse senão meu te amo, ou bem que tudo visse e ouvisse através deste meu amo te. E enquanto repetia o refrão de meu te amo pensava entre mim: "Vê-se que sou verdadeiramente uma pequena menina que não sei dizer outra coisa que o estribilho aprendido; e além disso, para que me serve repetir e sempre repetir te amo, te amo?" Enquanto isto pensava, meu adorável Jesus saiu de dentro de mim, fazendo ver em toda sua Divina Pessoa impresso por toda parte meu amo: Sobre os lábios, sobre o rosto, na testa, nos olhos, no meio do peito, sobre o dorso e no meio da palma das mãos, na ponta de seus dedos, em suma, em qualquer lugar; e com um sotaque terno me disse:.

(2) "Minha filha, não está contente de que nenhum te amo que sai de você fique perdido, mas que todos fiquem impressos em Mim? E além disso, sabes de que te serve repeti-los? Você deve saber que quando a alma se decide a fazer um bem, a exercitar uma virtude, forma a semente daquela virtude; com repetir aqueles atos forma a água para regar essa semente na terra do próprio coração, e quanto mais freqüentemente os repete, mais rega essa semente e a planta cresce bela, verde, de maneira que logo produz os frutos daquela semente. Ao contrário, se é lenta em repeti-los, muitas vezes essa semente fica sufocada, e se cresce, cresce débil e jamais dá fruto; pobre semente, sem água suficiente para crescer, e meu Sol não surge sobre essa semente para dar-lhe a fecundidade, a maturidade e a bela cor a seus frutos, Porque ela é infecunda. Em vez de repetir sempre os mesmos atos, a alma contém muita água para regar aquela semente, meu Sol surge sobre ela cada vez que é regada, e se alegra muito ao ver que tem tanta força para crescer que faz chegar seus ramos até Mim, E, vendo os seus muitos frutos, tomo-os com prazer e repouso à sua sombra. Portanto, repetir o teu Eu te amo para Mim, fornece-te água para regar e formar a árvore do amor; repetir a paciência, rega e forma a árvore da paciência; repetir os teus atos na Minha Vontade, forma a água para regar e formar a árvore divina e eterna da Minha Vontade; Nenhuma coisa se forma com um só ato, senão com muitos e muitos atos repetidos. Só o teu Jesus contém esta virtude, de formar todas as coisas, até as maiores com um ato só, porque contenho a potência criadora, mas a criatura, à força de repetir o mesmo ato, forma passo a passo o bem que quer fazer. Com o costume torna-se natureza aquele bem ou aquela virtude, e a criatura torna-se possuidora, formando com elas toda sua fortuna. Também na ordem natural acontece assim, ninguém se torna mestre com ter lido uma vez ou poucas vezes as vogais e as consoantes, senão quem constantemente repete até encher-se a mente, a vontade e o coração de toda aquela ciência que convém para poder fazer de mestre aos demais; ninguém se vê saciado se não comer bocado a pouco o alimento que se necessita para saciar-se; ninguém recolhe a semente se não repetir, quem sabe quantas vezes, o seu trabalho no seu campo; e assim de tantas outras coisas. Repetir o mesmo ato é sinal de que se ama, se aprecia e se quer possuir o mesmo ato que faz. “Por isso, repete, e incessantemente repete sem nunca se cansar".

(3) Depois me encontrei fora de mim mesma, e meu doce Jesus me levou girando em todos aqueles lugares onde havia, estando Ele na terra, obrado, sofrido, orado e também chorando; tudo
o que tinha feito, tudo estava em ação e meu amado Bem me disse:
(4) "Minha filha, filha de meu Querer Supremo, minha Vontade quer te fazer participar em tudo. Tudo o que você vê são todas as minhas obras que fiz estando na terra, as quais minha Vontade as tem suspensas nela porque as criaturas não se dispõem a querer recebê-las, em parte porque não conhecem ainda o que Eu fiz. Veja, aqui estão minhas orações que de noite fazia, cobertas de lágrimas amargas e de suspiros ardentes pela salvação de todos, estão todas em espera para dar-se às criaturas, para dar-lhes os frutos que contêm. Filha, entra tu nelas, cobre-te com minhas lágrimas, veste-te com minhas orações, a fim de que minha Vontade cumpra em ti os efeitos que há em minhas lágrimas, orações e suspiros. Minha Vontade tem como alinhadas em Si as penas de minha infância, todos meus atos internos de minha Vida oculta, que são prodígios de graça e de santidade, todas as humilhações, glória e penas de minha Vida pública, as penas mais escondidas de minha Paixão, tudo está suspenso, o fruto completo não foi tomado pelas criaturas e espero a quem deve viver em meu Querer a fim de que não estejam mais suspensos, mas que se derramem sobre eles para dar-lhes o fruto completo. Só quem deve viver em minha Vontade fará que não continuem suspensos meus bens, por isso entra em cada um de meus atos e de minhas penas, a fim de que minha Vontade se cumpra em ti. Entre tu e eu não quero coisas suspensas, nem tolero não poder dar-te o que quero, por isso quero encontrar em ti a minha própria Vontade, a fim de que nada possa opor-se ao que quer dar-te a minha própria Vontade".

(5) E enquanto Jesus dizia isto, eu passava de um ato para outro de Jesus e ficava como transformada, coberta com seus mesmos atos, orações, lágrimas e penas. Mas quem pode dizer o
que sentia? Espero que o bendito Jesus me dê a graça de corresponder e de cumprir em mim sua adorável Vontade, e em todos. Amém..

19-5
Março 9, 1926

A Criação forma a glória muda de Deus. Ao criar o homem Foi um jogo de azar, o qual falhou, mas deve-se refazer.

(1) Minha pobre alma nadava no mar interminável do Querer Divino, e meu sempre amável Jesus me fazia ver em ato toda a Criação; que ordem, que harmonia, quantas belezas variadas, cada
coisa tinha o selo de um amor incriado que corria para as criaturas, que descendo no fundo de cada coração gritavam em sua linguagem muda: "Ama, ama Aquele que tanto ama". Eu sentia um
doce encanto ao ver toda a Criação, seu mutismo amoroso, que mais que voz potente feria meu pobre coração, tanto que me sentia vir a menos, e meu doce Jesus me segurando em seus braços me disse:.
(2) "Minha filha, toda a Criação diz: realize Glória, adoração ao nosso Criador, amor às criaturas'. Então a Criação é uma glória, uma adoração muda para nós, porque não lhe foi concedida nenhuma liberdade, nem de crescer nem de decrescer, a tiramos fora de nós, mas a deixamos em Nós, isto é, dentro de nossa Vontade a louvar, ainda que em forma muda, nossa potência, beleza, magnificência e glória, assim que somos Nós mesmos que nos louvamos nossa potência, nossa glória, o infinito amor, nossa potência, bondade, harmonia e beleza; a Criação nada nos dá por si mesma, embora ela seja o alívio de todo o nosso Ser Divino, serve de espelho ao homem para olhar e conhecer o seu Criador, e dá-lhe lições sublimes de ordem, de harmonia, de santidade e de amor, pode-se dizer que o mesmo Criador, pondo-se em atitude de Mestre Divino, dá tantas lições por quantas coisas criou, da maior à mais pequena obra que saiu de suas mãos criadoras. Não foi assim ao criar o homem, nosso amor foi tanto por ele, que superou todo o amor que tivemos na Criação, por isso o dotamos de razão, de memória e de vontade, e pondo nossa Vontade como em um banco na sua, a multiplicasse, a centuplicasse, não para nós que não tínhamos necessidade, mas para seu bem, a fim de que não ficasse como as outras coisas criadas, mudas e naquele ponto como Nós as trazemos à luz, senão que crescesse sempre, sempre, em glória, em riquezas, em amor e em semelhança com seu Criador, e para fazer com que ele pudesse encontrar todas as ajudas possíveis e imagináveis, demos-lhe à sua disposição a nossa Vontade, a fim de que operasse com a nossa mesma potência o bem, o crescimento, a semelhança que queria adquirir com o seu Criador. Nosso amor ao criar o homem quis fazer um jogo de azar, pondo nossas coisas no pequeno cerco da vontade humana como no banco, nossa beleza, sabedoria, santidade, amor, etc., e nossa Vontade que devia fazer-se guia e ator de seu agir, a fim de que não só o fizesse crescer à nossa semelhança, mas que lhe desse a forma de um pequeno deus. Por isso nossa dor foi grande ao ver-nos rejeitar estes grandes bens pela criatura, e nosso jogo de azar ficou malogrado, mas mesmo fracassado, era sempre um jogo divino que podia e devia refazer-se de sua falha. Por isso, depois de tantos anos quis de novo meu amor jogar ao azar, e foi com minha Mamãe Imaculada, Nela nosso jogo não ficou malogrado, teve seu pleno efeito, e por isso tudo lhe demos e tudo a Ela confiamos, melhor, se formava uma competição, Nós a dar e Ela a receber..

(3) Agora, você deve saber que nosso amor também quer fazer este jogo de azar, a fim de que você, unida com a Mãe Celestial nos faça vencer no jogo refazendo-nos da falha que nos conseguiu o primeiro homem, Adão, assim nossa Vontade refeita em suas vitórias pode pôr de novo em campo seus bens que com tanto amor quer dar às criaturas; e assim como por meio da
Virgem Santa, porque estava refeito em meu jogo, fiz surgir o Sol da Redenção para salvar a humanidade perdida, assim por meio de ti farei ressurgir o Sol da minha Vontade, para que faça o
seu caminho entre as criaturas. Eis a causa de tantas graças minhas que derramo em ti, os tantos conhecimentos sobre minha Vontade, isto não é outra coisa que meu jogo de azar que estou
formando em ti, Por isso esteja atenta, a fim de que não me dês o maior dos sofrimentos que poderia receber em toda a história do mundo, que meu segundo jogo seja fracassado. ¡ Ah, não, não o farás, meu amor sairá vitorioso e minha Vontade encontrará seu cumprimento!"..

(4) Jesus desapareceu e eu fiquei pensativa sobre o que me havia dito, mas toda abandonada no Querer Supremo. Por isso, em tudo o que escrevo, só Jesus sabe o rasgo da minha alma e a
grande repugnância a colocar no papel estas coisas que teria querido sepultar-me sentia lutar com a mesma obediência, mas o Fiat de Jesus venceu, e continuo a escrever o que eu não queria.
Então meu doce Jesus voltou e me viu pensativa e me disse:.
(5) "Minha filha, por que temes? Não queres que eu brinque contigo? Tu não porás outra coisa tua que a pequena chama de tua vontade que Eu mesmo te dei ao criar-te, assim que todo o azar de meus bens será meu, não queres ser tu a cópia de minha Mamãe? Por isso vêem junto Comigo diante do trono divino e aí encontrará a chama da vontade da Rainha do Céu aos pés da Majestade Suprema, que Ela colocou no jogo divino, porque para jogar se necessita pôr sempre alguma coisa própria, De outra forma quem vence não tem o que tomar, e quem perde não tem o que deixar. E como eu venci o jogo com a minha mãe, ela perdeu a chaminha da sua vontade, mas, feliz perda!

Com o ter perdido sua pequena chama, deixando-a como homenagem contínua aos pés de seu Criador, formou sua Vida no grande fogo divino, crescendo no oceano dos bens divinos, e por isso pôde obter ao Redentor suspirado. Agora cabe-te a ti colocar a chama da tua pequena vontade ao lado da minha inseparável Mãe, a fim de que também tu te formes no fogo divino e cresças com os reflexos do teu Criador, e assim possas obter graça ante a Suprema Majestade de poder obter o suspirado Fiat. Estas duas chaminhas se verão aos pés do trono supremo, por toda a eternidade, que não tiveram vida própria e que uma obteve a Redenção e a outra o cumprimento da minha Vontade, único fim da Criação, da Redenção e da minha desforra do meu jogo de azar ao criar o homem"..

(6) Num instante encontrei-me diante daquela luz inacessível, e a minha vontade, sob a forma de uma chaminha, pôs-se ao lado daquela da minha Mãe Celestial para fazer o que ela fazia, mas
quem pode dizer o que se via, compreendia e fazia? Faltam-me as palavras e por isso ponho ponto. E meu doce Jesus adicionou:.

(7) "Minha filha, a chama da tua vontade a venci e tu venceste a minha; se tu não perdias a tua não podias vencer a minha, agora os dois somos felizes, ambos somos vitoriosos, mas olha a grande diferença que há, em minha Vontade basta fazer uma vez um ato, uma oração, um te amo, porque tomando o seu lugar no Querer Supremo fica sempre a fazer o mesmo ato, a oração, o te amo, sem interrompê-lo jamais, porque quando se faz um ato em minha Vontade, esse ato não está sujeito a interrupção, feito uma vez fica feito para sempre, é como se estivesse sempre a fazê-lo. O obrar da alma em minha Vontade entra a tomar parte nos modos do obrar divino, que quando obra sempre o mesmo ato sem ter necessidade de repeti-lo. O que serão os teus tantos te amo na minha Vontade que sempre repetirão o seu refrão, te amo, te amo? Serão tantas feridas para Mim e me prepararão a conceder a graça maior: que minha Vontade seja conhecida, amada e cumprida.

Por isso em minha Vontade as orações, as obras, o amor, entram na ordem divina e se pode dizer que sou Eu mesmo que rogo, que faço, que amo, e que coisa poderia negar-me a Mim mesmo? Em que coisa não poderia me agradar?".

20-5
Setembro 28, 1926

Sua grande aflição pela publicação dos escritos. Jesus quer a entrega. Jesus incita ao padre que deve ocupar-se disto.

(1) Sentia-me oprimida e como esmagada sob o peso de uma humilhação profunda, porque me tinha sido dito que não só se publicaria o que se refere à Vontade de Deus, mas também o que se refere a todas as outras coisas que me disse o meu amável Jesus; era tanto a dor, que me tirava até as palavras para poder aduzir razões para que não o fizessem, nem sabia rogar ao meu amado Jesus para que não permitisse isto, tudo era silêncio dentro e fora de mim. Então o meu amável Jesus, movendo-se dentro de mim, estreitou-me a Ele para me dar ânimo e força e disse-me:
(2) "Minha filha, não quero que vejas como coisa tua o que escreveste, mas que o vejas como coisa minha e como coisa que não te pertence, tu de fato não deves entrar no meio, Eu me encarregarei de tudo, e por isso que quero que me entregues tudo, e à medida que escreves quero que me dês tudo como um dom, a fim de que Eu fique livre de fazer o que quero e para ti fique só aquilo que te convém para viver na minha Vontade. Eu te fiz tantos dons preciosos por quantos conhecimentos te manifestei, e tu nenhum dom me queres dar?"

(3) E eu: "Meu Jesus, perdoa-me, eu não gostaria de sentir o que sinto, o pensar que o que aconteceu entre Tu e eu devem sabê-lo os demais, deixa-me inquieta e dá-me tanta pena, que eu
mesma não sei explicar, por isso dá-me a força, em Ti me abandono e tudo a Ti o doo". E Jesus acrescentou:

(4) "Minha filha, assim está bem, tudo isto requer a minha glória e o triunfo da minha Vontade, mas o primeiro triunfo o quer, exige-o sobre ti. Não estás contente por te tornares a vitória, o triunfo
desta Suprema Vontade? Você não quer então fazer qualquer sacrifício para fazer que este Reino supremo seja conhecido e possuído pelas criaturas? Também Eu sei que você sofre muito ao ver que depois de tantos anos de segredo entre você e Eu e que com tanto zelo te mantive escondida, agora ao ver sair fora nossos segredos sente fortes impressões, mas quando o quero Eu deves querer também você, por isso nos ponhamos de acordo e não se preocupe".

(5) Depois disto me fazia ver ao reverendo padre, e Jesus estando junto a ele punha sua santa mão direita sobre sua cabeça para infundir-lhe firmeza, ajuda e vontade dizendo-lhe: "Meu filho,
faze-o logo, não percas tempo, eu te ajudarei, estarei ao teu lado para que tudo corra bem e segundo a minha Vontade. Assim como me interessa que a minha Vontade seja conhecida e assim
como com paterna bondade ditei os escritos que se referem ao Reino do Fiat Supremo, assim ajudarei à publicação, estarei no meio daqueles que se ocuparão, a fim de que o todo seja
regulado por Mim. Por isso em breve, em breve".

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