ESCOLA DA DIVINA VONTADE - TRIGÉSIMA OITAVA SEMANA DE ESTUDOS

 VIDEO DA AULA

Matrimônio da cruz. Fala-lhe deste matrimônio e narra as crucifixões que sofreu.

(245) Regressando ao princípio, quando Jesus se dignava vir, freqüentemente me falava de sua
Paixão e punha atenção a dispor minha alma à imitação de sua Vida e de suas penas, dizendo-me
que além do matrimônio já descrito ficava outro por fazer, e este era o desponsório da cruz.
Lembro-me de me dizer:
(246) "Minha esposa, as virtudes tornam-se fracas se não forem corroboradas, fortificadas pelo
enxerto da cruz. Antes de minha vinda à terra, as penas, as confusões, os opróbrios, as calúnias,
as dores, a pobreza, as enfermidades, especialmente a cruz, eram consideradas como opróbrios,
mas desde que foram levados por Mim, todos ficaram santificados e divinizados por meu contato,
Assim que todos mudaram aspecto e se tornaram doces, gratos, e a alma que tem o bem de ter
algum deles fica honrada, e isto porque recebeu a divisa de Mim, Filho de Deus. E só experimenta
o contrário quem só vê e se detém na casca da cruz, e encontrando o amargo se desgosta, se
lamenta e parece que lhe chegou uma desgraça, mas quem penetra dentro, encontrando o
saboroso, aí forma sua felicidade. Minha filha amada, não desejo outra coisa que o crucificar na
alma e no corpo".
(247) E enquanto dizia isto sentia-me infundir tais desejos de ser crucificada com Jesus Cristo, que
freqüentemente ia repetindo: "Meu Jesus, Meu Amor, faze-o logo, crucifica - me Contigo". E
quando Jesus regressava, as primeiras petições que lhe fazia e que me pareciam mais importantes
eram estas: a dor dos meus pecados e a graça de que me crucificasse com Ele. Parecia-me que se
obtivesse isto teria obtido tudo.
248) Então, uma manhã, o meu amantíssimo Jesus apareceu diante de mim crucificado e disse-me
que queria crucificar-me com Ele, e, enquanto dizia isto, vi que de suas santíssimas chagas saíram
raios de luz, e dentro destes raios os pregos que vinham a mim. Enquanto estava nisto, não sei por
que, enquanto desejava tanto que me crucificasse, tanto que me sentia consumir, fui surpreendida
por um grande temor que me fazia tremer da cabeça aos pés, sentia tal aniquilamento de mim
mesma, me via tão indigna de receber esta graça, que não me atrevia a dizer: "Senhor, faze-me
Contigo". Parecia que Jesus estava em suspenso esperando o meu querer. Quem pode dizer como
no íntimo de minha alma o desejava ardentemente, mas ao mesmo tempo me via indigna? Minha
natureza se assustava e tremia. Enquanto eu estava nisto, meu amado Jesus intelectualmente me
pedia que aceitasse, então com todo o coração lhe disse: "Esposo Santo, crucificado por mim,
peço-te que me concedas a graça de me crucificar, e ao mesmo tempo peço-te que não faças
aparecer nenhum sinal externo. Sim, dá-me a dor, dá-me as chagas, mas que tudo fique oculto
entre nós".
(249) E assim aqueles raios de luz, juntamente com os pregos, trespassaram-me as mãos e os
pés, e o coração foi trespassado por um raio de luz juntamente com uma lança. Quem pode dizer a
dor e a alegria? Quanto mais depressa fui surpreendida pelo temor, mais tarde a minha alma
nadava no mar da paz, da alegria e da dor. Era tanto a dor que sentia nas mãos, nos pés e no
coração, que me sentia morrer; os ossos das mãos e dos pés sentia que me faziam pequenos
pedaços, sentia como se estivesse um prego dentro, mas ao mesmo tempo me causava tal
contentamento, que não sei explicar, e me fornecia tal força, que enquanto me sentia morrer pela
dor, essas mesmas dores me sustentavam para fazer que não morresse. Mas na parte externa do
corpo nada aparecia, mas sentia as dores corporalmente, tão é verdade, que quando vinha o
confessor para me chamar à obediência e me soltava os braços e as mãos contraídas, cada vez
que me tocava nesse ponto das mãos, onde tinha trespassado o raio de luz junto com o prego,
sentia penas mortais. No entanto, quando o confessor ordenava por obediência que cessassem
essas dores, muitas se mitigavam, porque essas dores eram tão fortes que me faziam perder os
sentidos, e se não se tivessem atenuado ante a obediência, dificilmente me teria prestado a
obedecer. ¡ Oh prodígio da santa obediência, você foi tudo para mim! Quantas vezes me encontrei
em contraste com a morte, tanta era a força das dores, e a obediência me restituiu a vida. Seja
sempre bendito o Senhor, seja tudo para sua glória.
(250) Agora, enquanto me sentia em mim mesma, nada via, mas quando perdia os sentidos via as
partes marcadas pelas chagas de Jesus, parecia-me que as chagas do próprio Jesus se tinham
transferido para as minhas mãos. Esta foi a primeira vez que Jesus me crucificou, porque destas
crucifixões tem havido tantas, que é impossível numera-las todas, direi somente as coisas
principais relacionadas com isto.

2-40
Junho 21, 1899

Medos. Jesus promete nunca deixá-la.

(1) Como Jesus não vinha, estava pensando entre mim: "Quem sabe, talvez Jesus não venha
mais e me deixe abandonada". E não dizia outra coisa que: "Vem meu amado, vem!" De
improviso veio e me disse:
(2) "Não te deixarei, jamais te abandonarei, também tu, vem, vem a Mim".
(3) Eu logo corri para me colocar em seus braços, e enquanto estava assim Jesus voltou a
dizer:
(4) "Não só não te deixarei a ti, senão que por amor teu não deixarei Corato".
(5) Depois, quase sem me dar conta, num instante desapareceu e eu fiquei desejando-o mais
que antes e ia dizendo: "O que me fizeste? Quando é que te foste embora sem sequer me
dizeres adeus?"
(6) Enquanto desafogava minha dor, a imagem do Menino Jesus que tenho perto de mim,
parecia que se fazia viva e de vez em quando tirava a cabeça da coberta de cristal para ver que
coisa fazia eu, quando via que me dava conta, logo se metia. Eu disse-lhe: "Vê-se que és
demasiado impertinente e que queres portar-te como menino, eu sinto-me enlouquecer pela
pena de que não vens e Tu te pões a jogar, bom pois, joga e brinca também, que eu terei
paciência".

3-40
Fevereiro 20, 1900

Jesus é a luz do Céu, da qual todos tomam as suas pequenas luzes.

(1) Continua a vir o meu benigno Jesus. Depois de ter recebido a Comunhão me renovou as penas
da crucificação, e eu fiquei tão entorpecida que sentia necessidade de um alívio, mas não me
atrevia a pedi-lo. Depois de um pouco voltou como menino e me beijava toda, e de seus lábios
corria leite, e eu bebi a grandes goles esse leite dulcíssimo de seus puríssimos lábios. Agora,
enquanto fazia isso, me disse:
(2) "Eu sou a flor do Éden celestial, e é tanto o perfume que expando, que diante de mim fragrância
fica atraído todo o empíreo, e como Eu sou a luz que manda luz a todos, tanto, de tê-los
abismados, todos meus santos tomam de Mim suas pequenas luzes, assim que não há luz no Céu
que não tenha sido tomada desta Luz".
(3) Ah sim! não há nem mesmo cheiro de virtude sem Jesus, e não há luz, embora fosse ao mais
alto dos Céus, sem Ele.

4-44
Janeiro 4, 1901

Estado infeliz de uma alma sem Deus.

(1) Depois de ter passado dias amargos de privação e de perturbação, sentia-me dentro de mim
um místico inferno; sem Jesus todas as minhas paixões saíram à luz, e expandindo cada uma as
suas trevas obscureceram-me de tal maneira, que não sabia mais onde me encontrava. Quão
infeliz é o estado de uma alma sem Deus! Basta dizer que sem Deus a alma sente vivo dentro de si
o inferno; tal era meu estado, me sentia dilacerar a alma por penas infernais. Quem pode dizer o
que passei? Para não me alongar passo adiante. Então, esta manhã, tendo comungado e estando
no máximo da aflição, senti mover-me dentro de mim a Nosso Senhor, eu ao ver sua imagem quis
ver se era de madeira, ou estava vivo, de carne; olhei e era o Crucificado vivo, de carne, que
olhando para mim disse:
(2) "Se minha imagem dentro de você fora de madeira, o amor seria aparente, porque só o amor
verdadeiro e sincero, unido à mortificação, me faz renascer vivo, crucificado no coração de quem
me ama".
(3) Eu, ao ver o Senhor, teria querido afastar-me de Sua presença, tão má me via, mas Ele
prosseguiu dizendo:
(4) "Para onde queres ir? Eu sou luz, e minha luz onde quer que vá te investe por todas partes".
(5) À presença de Jesus, ante sua luz, a sua voz, minhas paixões desapareceram, não sei eu
mesma para onde se foram, fiquei como uma menina e retornei em mim mesma, toda mudada.
Seja tudo para glória de Deus e para bem da minha alma.

6-39
Maio 28, 1904

A mortificação derruba tudo e imola tudo a Deus.

(1) Continuando meu habitual estado, e estando com suma amargura pelas contínuas privações de
meu adorável Jesus, fez-se ver-me dizendo:
(2) "Minha filha, a primeira mina que se deve lançar no interior da alma é a mortificação, e quando
esta mina se põe na alma lança por terra tudo, e imola tudo a Deus, porque na alma há como
tantos palácios, mas todos de vícios, como seria o orgulho, a desobediência e tantos outros vícios,
e a mina da mortificação derrubando tudo reedifica muitos outros palácios de virtudes, imolando-os
e sacrificando-os todos à glória de Deus".
(3) Dito isto desapareceu, e depois veio o demônio que só queria molestar-me eu, sem sentir
medo, disse-lhe: "O que ganhas em irritar-me? Quer aparentar ser mais valente, toma um pau e
golpeia-me até não me deixar sequer uma gota de sangue, entendendo no entanto, que cada gota
de sangue que derramo é um testemunho de mais de amor, de reparação e de glória que intento
dar ao meu Deus".
(4) E aquele: "Não encontro paus para poder te golpear, e se vou buscá-lo você não me espera.

(5) E eu: "Vai então que aqui te espero". E assim se foi, ficando eu com a firme vontade de esperá-
lo, quando com minha surpresa vi que tendo encontrado com outro demônio iam dizendo: "É inútil

que voltemos, em que aproveita a golpear se deve servir para nosso dano e com nossa perda? É
bom fazer sofrer quem não quer sofrer, porque este ofende a Deus, mas a quem quer sofrer,
fazemos- nos mal com as nossas mãos". E não voltou, ficando eu mortificada.

7-42
Setembro 12, 1906

Onde Deus não está, não pode haver nem firmeza, nem verdadeiro bem.
(1) Estava pensando em meu estado, em que tudo parece paz, amor, que nada me perturba, que
tudo é bom, nada é pecado, e dizia entre mim: "O que será se no ponto de minha morte se muda
a cena e verei todo o contrário, isto é, que todas as coisas me turbarão, e que tudo o que fiz foi
uma cadeia de males?" Enquanto pensava isto, disse-me:
(2) "Minha filha, parece que queres perturbar-te à força e tirar-me o meu contínuo repouso em ti.
Diga-me, você acredita que é coisa sua a paciência, a constância, a paz deste seu estado, ou
bem fruto e graça de quem habita em você? Só Eu possuo estes dons, e pela constância, paz e
paciência podes conhecer quem é o que obra em ti, porque quando é a natureza ou o demônio,
a alma se sente dominada por contínuas mudanças, assim que agora se sente dominada por um
humor, agora por algum outro, agora toda paciência, agora toda irada; em suma, a pobrezinha é
dominada como uma cana por um vento vigoroso. Ah! Minha filha, onde não está Deus não
pode haver nem firmeza, nem verdadeiro bem, por isso não queira perturbar mais meu e seu
repouso, mas bem seja agradecida.

9-42
Agosto 22, 1910

Jesus foge e procura consolo.

(1) Continuando meu habitual estado, tendo perdido os sentidos via muitas pessoas que punham
em fuga o bendito Jesus, e Jesus fugia, fugia, mas aonde ia não encontrava lugar e fugia.
Finalmente veio a mim, suado, cansado, aflito, lançou-se em meus braços, se estreitou forte, e
disse àqueles que o seguiam: "Desta alma não podeis me fazer fugir". E aqueles, envergonhados
se retiraram, e a mim me disse:
(2)"Filha, não posso mais, dá-me algum alívio".
(3) E começou a sugar meu seio, e depois me encontrei em mim mesma.

10-41
Outubro 26, 1911

Jesus tem necessidade de desabafar no amor, e os desabafos de amor só os pode fazer com quem o ama e é todo amor por Ele.

(1) Continua a fazer-se ver, mas quer esconder-se em mim para não ver os males das criaturas.
Parecia que me encontrava fora de mim mesma, via homens veneráveis, todos consternados que
falavam da guerra e temiam fortemente. Depois se deixava ver a Rainha Mamãe, e eu: "Bela Mãe
minha, que será da guerra?"
(2) E Ela: "Minha filha, reza, oh, quantos ai! Reza, reza minha filha".
(3) Eu fiquei consternada e rogava ao bom Jesus, mas parece que não me quer fazer caso, mas
parece que nem sequer quer que se fale disto, parece que só quer consolo, e consolo de amor; em
vez de derramar amarguras derrama doçuras, e se se disse-lhe: "Tu estás cheio de amargura; e
em mim derramas as doçuras?" Jesus diz:
(4) "Minha filha, as amarguras posso desabafar com todos, mas os desabafos de amor, as doçuras,
só as posso verter em quem me ama e é todo amor por Mim. Não sabes tu que também o amor é
necessidade em Mim, e que tenho necessidade dele mais que de tudo?"
11-37
Setembro 29,1912

Para quem atua na Divina Vontade, Jesus dispõe as intenções.

(3) Outra vez estava pensando como seria melhor oferecer nossas ações, orações, etc., se como
reparos, como adorações, etc. E meu sempre benigno Jesus me disse:
(4) "Minha filha, quem está em minha Vontade e faz suas coisas porque as quero Eu, não é
necessário que ela disponha suas intenções, estando em minha Vontade, conforme obra, reza,
sofre, assim Eu mesmo as disponho como mais me agrada, me agrada a reparação? Tomo-as
por reparação; agrada-me por amor? Tomo-o como amor. Sendo Eu o dono faço com elas o que
quero; não assim com quem não está em Minha Vontade, dispõem eles e Eu fico à vontade
deles".

Uso dos bens naturais na Divina Vontade.

(5) Outro dia, tendo lido em um livro de uma santa, que primeiro quase não tinha necessidade de
alimento e depois tinha que comer freqüentemente e era tanta a necessidade que chegava a
chorar se nada lhe davam, eu fiquei pensativa meditando em meu estado, Porque antes tomava
pouquíssimo alimento e era obrigada a devolvê-lo, mas agora tomo mais e não o devolvo, e dizia
para mim: "Jesus bendito, como é isso? Isto para mim é como falta de mortificação e é a minha
maldade que me leva a estas misérias". E Jesus abençoado, ao vir, disse-me:
(6) "Minha filha, queres saber porquê? Eis-me aqui para te alegrar. Primeiro, à alma para a fazer
toda minha, para a esvaziar de todo o sensível e colocar tudo o que é celestial, o divino, afasto-a
até da necessidade do alimento, de modo que quase não tem necessidade deste, por isso,
encontrando-se nestas condições, toca com a mão que só Jesus basta, que nada mais lhe é
necessário, e a alma se eleva ao alto, despreza tudo, não se preocupa com nada, sua vida é
celestial. Depois de haver fundado bem por anos e anos, não tendo Eu mais temor de que o
sensível leve a sombra das impressões, porque depois de ter gostado do celestial é quase
impossível que a alma goste dos resíduos, o esterco, então eu a restituo à vida ordinária, porque
quero que meus filhos tomem parte nas coisas criadas por Mim por amor deles segundo minha
Vontade, não segundo a deles, e é só por amor destes filhos que sou obrigado a alimentar os
outros; e não só isto, senão que é para Mim a mais bela reparação por todos aqueles que não
usam das coisas naturais segundo minha Vontade, ver estes filhos celestiais tomar as coisas
necessárias com sacrifício, com desapego e segundo minha Vontade. Como queres dizer que é
por isso que há maldade em ti? Nada em absoluto, que mal há em tomar um pouco de mais ou
de menos em minha Vontade do que não é senão escória? Nada, nada. Na minha Vontade nada
pode haver de mal, senão sempre bem, até nas coisas mais indiferentes".


VIDEO DA AULA
40. O exame de Jesus maior de idade no Templo.
21 de dezembro de 1944.

40.1O Templo está como em dias de festa. A multidão, entra e sai,
atravessa os pátios, os átrios, e pórticos, desaparece nesta ou naquela
construção situada nos diversos patamares, sobre os quais está espalhado o
aglomerado do Templo.
As pessoas da comitiva da família de Jesus entram também, cantando
salmos em voz baixa. Primeiro, todos os homens, depois, as mulheres. A
eles se uniram também outros, que talvez sejam de Nazaré, ou amigos que
moram em Jerusalém. Não sei.
José se afasta, depois de ter, junto com os outros, adorado o Altíssimo,
daquele ponto de onde os homens podiam ficar (as mulheres pararam no
patamar logo abaixo) e com o Filho, José atravessa novamente os pátios,
dobra para um lado, entrando numa grande sala, que parece ser uma
sinagoga. Não sei como pode ser isso. Haveria sinagogas também no
Templo? José fala com um levita e este desaparece atrás de uma cortina
listrada, para voltar depois com uns sacerdotes anciãos, penso que são
sacerdotes, certamente mestres no conhecimento da Lei, designados para
examinar os fiéis.
40.2 José apresenta-lhes Jesus. Primeiramente, os dois se inclinaram
profundamente diante dos dez doutores, que estão sentados com toda a
dignidade sobre baixos bancos de madeira.
– Este aqui –diz ele–. É meu filho. Há três luas e doze dias que ele
completou o tempo que a Lei exige para ser maior de idade. Mas eu quero
que Ele o seja segundo os preceitos de Israel. Peço-vos que observeis que,
pela sua compleição, Ele mostra que já saiu da infância e da menoridade. E
peço-vos que o examineis com benevolência e assim possais julgar como é
verdade tudo o que eu, pai dele, afirmo. Eu o preparei para esta hora e para
esta sua dignidade de filho da Lei. Ele sabe os preceitos, as tradições, as
decisões, os costumes das fímbrias e dos filactérios, sabe recitar as orações
e as bênçãos diárias. Pode, pois, conhecendo a Lei, nos seus três ramos[66]
da Halacá, do Midraxe e da Hagadá, conduzir-se como um homem. Por isso,
eu desejo ficar livre da responsabilidade por suas ações e por seus pecados.
De agora em diante, seja Ele sujeito aos preceitos, e pague por suas faltas
contra eles. Examinai-o.
– Nós o faremos.
40.3Vem para frente, menino. Qual o teu nome?
– Jesus de José, de Nazaré.
– É nazareno. Tu sabes ler?
– Sim, rabi. Sei ler as palavras escritas e as que estão encerradas nas
próprias palavras.
– Que estarias querendo dizer?
– Quero dizer que compreendo também o significado da alegoria ou do
símbolo, que se oculta debaixo de uma aparência, como a pérola, que não
aparece, mas está encerrada numa concha feia e fechada.
– Esta resposta não é comum, e é muito sábia. Raramente se ouve uma
coisa destas, saindo dos lábios de pessoas adultas; imaginem saindo da boca
de um menino, e, além disso, nazareno!
A atenção dos dez despertou. Seus olhos não perdem de vista, nem por
um instante, o belo menino loiro que olha para eles com firmeza, sem
arrogância, mas também sem medo.
– Tu estás honrando o teu mestre, que certamente devia ser muito douto.
– A Sabedoria de Deus fez do coração dele sua morada.
– Mas, escutai bem! Feliz de ti, ó pai de um filho como este!
José, que está lá no fundo da sala, sorri, e se inclina.
40.4Dão a Jesus três rolos diferentes, dizendo:
– Lê aquele que está envolvido com uma fita de ouro.
Jesus abre o rolo e lê. É o Decálogo. Mas, depois das primeiras
palavras, um dos juízes tira o rolo de suas mãos, e lhe diz:
– Continua, agora, de memória.
E Jesus continua, com tal segurança, que parece estar lendo. Cada vez
que fala no Senhor, inclina-se profundamente.
– Quem te ensinou isso? Por que fazes assim?
– Porque santo é esse Nome, e deve ser pronunciado com sinal interno e
externo de respeito. Ao rei, que é rei por breve tempo, seus súditos se
inclinam, mesmo não sendo este mais do que pó. Ao Rei dos reis, ao
Altíssimo Senhor de Israel, presente, ainda que não visível senão ao nosso
espírito, não se deverá inclinar toda criatura, que Dele depende com
sujeição eterna?
– Muito bem! Homem, nós te aconselhamos a fazer que teu filho seja
instruído por Hilel ou Gamaliel. É nazareno… mas as suas respostas nos
fazem esperar que Ele será um novo grande doutor.
– O filho já é maior de idade. Ele fará como quiser. Eu, se ele quiser
uma coisa honesta, não me oporei.
40.5 – Rapaz, escuta. Disseste: “Lembra-te de santificar as festas. Mas não
só por ti, mas pelo teu filho, tua filha, teu servo, tua serva, e até pelo
jumento, pois está dito que ele não fará trabalho no sábado.” Então, diz-me
uma coisa: se uma galinha põe um ovo em dia de sábado, ou se uma ovelha
dá cria, será lícito usar do fruto do ventre delas, ou será isso considerado
uma coisa má?
– Sei que muitos rabinos, o último deles Shamai, que ainda está vivo,
dizem que o ovo posto no sábado está contra o preceito. Mas Eu penso que
uma coisa é o homem, e outra é o animal, e também o que o animal faz, como
parir. Se eu obrigo o jumento a trabalhar, eu é que cometo o pecado pelo que
ele faz, porque eu o chicoteio e obrigo a trabalhar. Mas, se uma galinha põe
um ovo que amadureceu em seu ovário, ou uma ovelha gera um filhote no
sábado, porque ele já está maduro para nascer, isso não é pecado, nem o ovo
é pecado aos olhos de Deus, nem o cordeiro, que vieram à luz no sábado.
– E por que não? Se todo e qualquer trabalho no sábado é pecado?
– Porque o conceber e o gerar correspondem à vontade do Criador, e
estão regulados pelas leis dadas por Ele a toda criatura. Ora, a galinha não
faz mais que obedecer a esta lei que diz que, depois de tantas horas para a
sua formação, o ovo está completo, e é posto. E a ovelha também não faz
mais do que obedecer às leis dadas por Aquele que tudo fez, o qual
estabeleceu que, duas vezes por ano, quando a primavera sorri para os
prados em flor, e quando os bosques estão despojados de suas folhas e o
gelo atormenta o peito do homem, que as ovelhas se acasalem, para dar-nos
depois, no tempo determinado, o leite, a carne e os queijos tão nutritivos,
justamente nos meses, em que os homens se cansam no trabalho da colheita,
ou sofrem mais pelo rigor das geadas. Portanto, se uma ovelha, quando chega
o seu tempo, dá cria, oh! isso bem pode ser uma coisa sagrada, até diante do
altar, pois é fruto da obediência ao Criador.
40.6 – Eu não continuo a examinar mais. A sabedoria dele supera a dos
adultos. E nos assombra.
– Não. Ele diz que é capaz de compreender até os símbolos. Ouçamo-lo.
– Primeiro, diz um salmo, as bênçãos e as orações.
– E também os preceitos.
– Sim. Diz os midrashot.
Jesus diz, então, com segurança, uma ladainha de “Não fazer isso, não
fazer aquilo…” Se nós tivéssemos de ter ainda todas aquelas limitações,
rebeldes como somos, Eu vos garanto que ninguém se salvaria…
– Basta. Abre o rolo da fita verde.
Jesus abre e começa a ler.
– Mais adiante, um pouco mais.
Jesus obedece.
– Basta. Lê agora, e nos explica que é que te parece que é um símbolo.
– Na Palavra santa raramente faltam os símbolos. Nós é que não os
sabemos ver e aplicar. Eu leio
[67]
: 4° livro dos Reis, cap. 22,vers. 10: “Safã,
escriba, continuando a referir-se ao rei, disse: ‘O sumo sacerdote Helcias
me deu um livro.’ E, tendo Safã lido o mesmo na presença do rei, este,
depois de ouvir as palavras da Lei do Senhor, rasgou as vestes e, em
seguida, deu…”
– Continua depois dos nomes.
– “… esta ordem: ‘Ide consultar o Senhor por mim, pelo povo, por toda
Judá, a respeito das palavras deste livro, que foi achado, porque a grande ira
de Deus se acendeu contra nós, pois os nossos pais não ouviram as palavras
deste livro, para cumprirem as suas prescrições’…”
– Basta. O fato aconteceu muitos séculos antes de nós. E, então, que
símbolo encontras em um fato de uma crônica tão antiga?
– Encontro o fato de que vós não tendes tempo para o que é eterno.
Eterno é Deus, e a nossa alma, e as relações entre Deus e a alma. Por isso, o
que havia provocado o castigo naquele tempo é o mesmo que provoca os
castigos agora, e também os efeitos da culpa são iguais.
– Que queres dizer?
– Israel não sabe mais a Sabedoria, que vem de Deus. É a Ele, e não aos
pobres homens, que precisamos pedir a luz. E não se tem luz, se não se tem a
justiça e a fidelidade a Deus. Por isso é que se peca, e Deus, em sua ira,
pune.
– Então, nós não sabemos mais? Que é que estás dizendo, rapaz? E os
seiscentos e treze preceitos?
– Os preceitos existem, mas são palavras. Nós os sabemos, mas não os
colocamos em prática. Por isso não sabemos. O símbolo é este: todo
homem, em qualquer tempo, tem necessidade de consultar o Senhor para
conhecer a sua vontade e de nela confiar para não atrair sua ira.
40.7 – O rapaz é perfeito. Nem mesmo a cilada de uma pergunta insidiosa
foi capaz de perturbar sua resposta. Que ele seja levado à verdadeira
sinagoga.
Passam para uma sala mais ampla e pomposa. Aqui a primeira coisa que
lhe fazem é encurtar-lhe os cabelos. Os grandes caracóis são recolhidos por
José. Depois, apertam-lhe a veste vermelha com uma cinta comprida,
passada em diversas voltas em torno da cintura, amarram-lhe umas fitazinhas
na fronte, no braço e no manto. Elas ficam seguras por uma espécie de
broche. Depois, cantam salmos, e José, com uma longa oração, louva ao
Senhor e invoca sobre o Filho todos os bens.
A cerimônia chega ao fim. Jesus sai com José. Voltam para o lugar onde
estavam e se reúnem aos seus parentes homens, compram e oferecem um
cordeiro; depois, com a vítima já degolada, vão ao encontro das mulheres.
Maria beija o seu Jesus. Parece que havia muitos anos que ela não o via.
Ela olha para Ele, feito agora mais homem, com aquela veste e aqueles
cabelos, e o acaricia.
Saem e tudo termina.
[66] três ramos, poderiam ser, respectivamente, o conjunto das normas de comportamento (Halakah), a série dos comentários
rabínicos da Sagrada Escritura (Midrash), os mesmos comentários expostos de forma mais acessível ao povo (Haggadah).
Encontrá-los-emos em: 197.3 -225.9 -414.4 -625.4. Da obra dos rabinos se falará em 252.10 e 335.9.
[67] Eu leio, com citação segundo a “Vulgata” (como em 35.11) que se usava no tempo da escritora. Na “neo-Vulgata”,
introduzida após o Concílio Vaticano II, os primeiros dois livros dos Reis tomaram o nome de 1 Samuel e 2 Samuel, e os
sucessivos dois livros tomaram o número de ordem de 1 Rei e 2 Reis. Além do mais: Paralipómenos tornou-se Crónicas; o
segundo livro de Esdras (conhecido também por livro de Neemias) tornou-se Neemias; Eclesiastes manteve-se Eclesiastes ou
tornou-se Qohélet; Eclesiástico tornou-se Sirácide ou Ben Sira. Enfim, sempre na neo-Vulgata, o Salmo 9 foi dividido em dois,
fazendo aumentar de uma unidade a numeração dos Salmos seguintes até 145 (transformado 146), enquanto a antiga numeração
retoma com o Salmo 147, que une os Salmos 146-147 da Vulgata. Outras diferenças entre Vulgata e neo-Vulgata vêm assinaladas
com nota onde e quando necessário: 50.9 -68.6 (sobre o nome Betsaida) -266.1 -272.4 -368.6 (sobre o termo gazofilácio) -413.3
-434.6 -439.2 -457.2 -463.2 -476.9 -487.6 -520.9 -544.8 (duas notas). O texto da presente edição da obra, que reproduz
fielmente o manuscrito original de Maria Valtorta, conserva os reenvios bíblicos segundo a “Vulgata”. No lugar das notas, que
devem facilitar a busca por parte do leitor, trazem os reenvios bíblicos segundo a “neo-Vulgata”, mesmo quando esses reenvios
forem retomados por anotações de Maria Valtorta referidas na “Vulgata”. -Na obra de Valtorta o modo de citar a Bíblia (livro,
capítulo, versículos) não é do tempo de Jesus mas do da escritora e nosso, assim como Jesus fala não na língua do seu tempo de
vida terrena, mas na do nosso tempo. Também no modo de citar a Bíblia, por conseguinte, a obra deve ser considerada como
uma “tradução” para utilidade dos seus destinatários.

41. A disputa de Jesus com os doutores no Templo.

28 de janeiro de 1944.
41.1Vejo Jesus. Já é um adolescente. Está vestido com uma túnica muito
branca, que me parece de linho, comprida até os pés. Sobre ela está posto
um manto retangular vermelho claro. Jesus está com a cabeça descoberta, os
longos cabelos descendo até a metade das orelhas, e mais escuros do que
quando o vi menino. É um rapaz robusto, muito alto para a sua idade e que,
como seu rosto está mostrando, é ainda a de um jovem.
Ele olha para mim, sorri, estendendo-me as mãos. É porém, o seu, um
sorriso parecido com aquele que nele vejo quando já homem feito: doce e
um tanto sério. Ele está sozinho. Por enquanto, não vejo outra pessoa. Está
encostado a um muro que fica acima de uma estradinha cheia de altos e
baixos, pedras e com uma cavidade ao centro, por onde certamente se forma
um córrego, no tempo da chuva. Mas agora ela está seca, porque o dia está
claro.
Tenho a idéia de ir-me encostar também ao muro, e de lá olhar ao redor
e para baixo, como Jesus está fazendo. Estou vendo um aglomerado de casas.
É um aglomerado desordenado. As casas são, umas altas, outras baixas, e
foram construídas sem a preocupação de fazê-las num mesmo alinhamento.
Fazendo uma comparação muito simples, mas com muita semelhança, parece
um punhado de pedras brancas, jogadas sobre um terreno escuro. As ruas e
vielas são como veias, no meio daquela brancura. Aqui e ali algumas
árvores estendem suas copas sobre os muros. Muitas delas estão em flor, e
muitas também já estão cobertas de folhas novas. Deve ser primavera.
À esquerda, para quem olhar de onde estou, há um grande aglomerado
disposto em três ordens de terraços repletos de construções e torres, pátios e
séries de pórticos. No centro se ergue uma construção mais alta, majestosa,
com cúpulas redondas que brilham ao sol, como se estivessem cobertas de
metal: cobre ou ouro. O conjunto é cercado por uma muralha guarnecida de
ameias, na forma de um ,
como uma fortaleza. Uma das torres é mais alta do que as outras, e está
construída no fim de uma rua estreita e em aclive, dominando aquele grande
aglomerado. Parece uma sentinela atenta.
Jesus olha fixamente para aquele lugar. Depois, volta à sua posição
anterior, apóia as costas ao muro, como estava, olhando para um pequeno
monte, na frente do aglomerado. O pequeno monte está tomado pelas casas,
de alto a baixo. Vejo que ali termina uma rua com um arco, além do qual só
há uma rua calçada com pedras quadrangulares, irregulares e desconexas.
Não são muito grandes, não são como as pedras das estradas consulares
romanas. Mais parecem as clássicas pedras das ruas de Viareggio (não sei
se ainda existem aquelas pedras) colocadas sem nenhuma ligação entre si. É
uma estrada ruim. O rosto de Jesus fica tão sério, que eu me ponho a
procurar sobre aquele pequeno monte a causa de sua melancolia. Mas não
encontro nada de especial. Vejo somente um monte despido de tudo. E basta.
Enquanto isto, perco de vista Jesus, pois, quando me viro, Ele não está mais
ali. Com esta visão eu adormeço.
41.2… Quando acordo, com a lembrança daquela visão no coração, tendo
recobrado um pouco as forças e a paz, porque todos estão dormindo, me
encontro em um lugar que eu nunca tinha visto antes. Nele há pátios e fontes,
séries de pórticos e casas, ou melhor, pavilhões, pois têm mais
características de pavilhões do que de casas. Há uma grande multidão de
gente, vestida à antiga moda hebraica, num forte vozerio. Olhando ao meu
redor, compreendo que estou dentro daquele aglomerado para o qual Jesus
estava olhando, porque vejo a muralha com ameias que o rodeia, a torre que
o vigia e a imponente construção, que se ergue no centro, e contra a qual
vão-se estreitando os pórticos, muito bonitos e espaçosos, sob os quais há
muita gente, tratando de uma coisa ou de outra.
Compreendo que estou no recinto do Templo de Jerusalém. Vejo fariseus
com suas compridas vestes ondulantes, sacerdotes vestidos de linho e com
uma placa preciosa na parte superior do peito e da fronte, e outros pontos
brilhantes espalhados aqui e ali sobre diversas vestes muito amplas e
brancas, ajustadas à cintura por um cinto precioso. Depois, vejo outros que
estão menos ornados, mas que devem certamente pertencer à classe
sacerdotal, e que estão rodeados por discípulos mais jovens. Compreendo
que eles são os doutores da Lei. Entre todos estes personagens, eu me
encontro desorientada, porque não sei ao certo o que estou fazendo aqui.
41.3Aproximo-me do grupo dos doutores, onde se iniciou uma disputa
teológica. Muita gente faz a mesma coisa.
Entre os “doutores” há um grupo chefiado por um homem chamado
Gamaliel e por um outro, velho e quase cego, que defende Gamaliel na
disputa. Este, que ouço ser chamado de Hilel, (coloco o h porque ouço uma
aspiração ao princípio do nome) parece-me ser mestre ou parente de
Gamaliel, porque este o trata com confiança e respeito, ao mesmo tempo. O
grupo de Gamaliel tem vistas mais largas, enquanto que um outro grupo, mais
numeroso, é dirigido por um homem que chamam de Shamai, dotado daquela
intransigência cheia de ódio retrógrado do qual o Evangelho tão bem nos
mostra.
Gamaliel, rodeado por um grupo numeroso de discípulos, fala da vinda
do Messias e, apoiando-se na profecia de Daniel, sustenta que o Messias já
deve ter nascido, porque já há cerca de dez anos que as setenta semanas
profetizadas se completaram, desde que saiu o decreto da reconstrução do
Templo. Shamai o combate, afirmando que, se é verdade que o Templo foi
reedificado, também é verdade que a escravidão de Israel aumentou, e a paz,
que haveria de trazer consigo Aquele que os Profetas chamavam “Príncipe
da Paz”, está longe de existir no mundo, especialmente em Jerusalém, agora
oprimida por um inimigo, que ousa levar a sua dominação até dentro do
recinto do Templo, que está dominado pela torre Antônia, cheia de
legionários romanos, prontos a reprimir com suas espadas qualquer levante
de independência dos patriotas.
A disputa, cheia de cavilações, dá sinais de que irá prolongar-se. Cada
um dos mestres faz ostentação de erudição, não só para vencer o rival, mas
para impor-se à admiração dos ouvintes. Esta intenção é evidente.
Do numeroso grupo dos fiéis, ouve-se sair a voz jovem de um
rapazinho:
– Gamaliel está certo!
Então começa um movimento no meio da multidão e do grupo dos
doutores. Estão procurando quem foi que disse aquelas palavras. Mas não é
preciso procurá-lo. Ele não se esconde, e vem abrindo caminho por entre a
multidão, aproximando-se do grupo dos “rabinos.” Reconheço nele o meu
Jesus adolescente. Ele está seguro do que diz, com aqueles seus dois olhos
cintilando e cheios de inteligência.
– Quem és tu? –lhe perguntam.
– Sou um filho de Israel, que vim cumprir o que ordena a Lei.
Esta resposta, audaz e firme, agrada e provoca sorrisos de aprovação e
benevolência. Interessam-se pelo pequeno israelita.
– Como te chamas?
– Jesus de Nazaré.
A benevolência diminui no grupo de Shamai. Mas Gamaliel, mais
benigno, prossegue no diálogo com Hilel. Aliás, é Gamaliel que com
deferência diz ao velho:
– Pergunta ao rapazinho alguma coisa.
– Em que é que se baseia a tua segurança? –pergunta Hilel.
(Vou pôr os nomes antes das respostas, para abreviar e tornar-se mais
claro).
Jesus:
– Na profecia, que não pode errar quanto à época e quanto aos sinais
que a acompanham, quando chega o momento da verificação. É uma verdade
que César nos está dominando. Mas o mundo estava tão em paz, e a Palestina
em tão grande calma, quando se cumpriram as setenta semanas, que foi
possível a César ordenar que se fizesse o recenseamento em seus domínios.
Ele não teria podido fazer, se houvesse guerra no Império ou levantes na
Palestina. Como aquele tempo se cumpriu, assim também está se cumprindo
o outro tempo de sessenta e duas semanas mais uma, desde a realização do
Templo, para que o Messias seja ungido e se confirme a continuação da
profecia, para o povo que não o quis. Podeis ter dúvidas? Não vos lembrais
que a estrela foi vista pelos Sábios do Oriente e que foi parar justamente no
céu de Belém de Judá, e que as profecias e as visões, desde Jacó e após ele,
indicam aquele lugar como o destinado a acolher o nascimento do Messias,
filho do filho do filho de Jacó, através de Davi, que era de Belém? Não vos
lembrais de Balaão? “Uma estrela nascerá de Jacó”. Os Sábios do Oriente,
cuja pureza e fé tornavam abertos os seus olhos e seus ouvidos, viram a
estrela e entenderam o seu nome: “Messias”, e vieram adorar a Luz que
desceu ao mundo.
41.5 Shamai, com um olhar rancoroso:
– Tu dizes que o Messias nasceu no tempo da estrela, em Belém-Efrata?
Jesus:
– Eu o digo.
Shamai:
– Então, ele não existe mais. Não sabes, rapaz, que Herodes fez matar
todos os meninos de um dia até dois anos de idade em Belém e nos
arredores? Tu, que és tão sábio na Escritura, deves saber também isto: “Um
grito se ouviu no alto… É Raquel, que está chorando os seus filhos.” Os
vales e as colinas de Belém, que recolheram o pranto de Raquel, que estava
morrendo, ficaram cheios de pranto, e as mães choravam também sobre seus
filhos que foram mortos. Entre elas estava certamente também a mãe do
Messias.
Jesus:
– Estás enganado, ó velho! O pranto de Raquel se transformou em
hosana, porque lá onde ela deu à luz o “filho da sua dor”, a nova Raquel deu
ao mundo o Benjamim do Pai celeste, o Filho da sua destra, Aquele que está
destinado a reunir o povo de Deus sob o seu cetro, e livrá-lo da mais
tremenda escravidão.
Shamai:
– E como, se Ele foi morto?
Jesus:
– Não leste a respeito de Elias? Ele foi arrebatado no carro de fogo. E
não poderá o Senhor Deus ter salvo o seu Emanuel para que fosse o Messias
do seu povo? Ele, que abriu o mar diante de Moisés, para que Israel
passasse a pé seco para a sua terra, não terá podido mandar os seus anjos
para salvarem o seu Filho, o seu Cristo, da ferocidade do homem? Em
verdade, eu vos digo: o Cristo vive, e está entre vós, e, quando chegar a
sua hora, Ele se manifestará em seu poder.
Jesus, ao dizer estas palavras, que eu sublinho, tem na voz um som que
enche o espaço. Os seus olhos cintilam mais ainda e, com um gesto de
império e de promessa, Ele estende o braço e a mão direita, e os abaixa,
como fazendo um juramento. É um rapazinho, mas está solene como um
homem.
41.6Hilel:
– Rapazinho, quem te ensinou estas palavras?
Jesus:
– Espírito de Deus. Eu não tenho mestre humano. Esta é a Palavra do
Senhor, que vos está falando, através dos meus lábios.
Hilel:
– Vem cá entre nós, para que eu te possa ver de perto, ó mocinho, e a
minha esperança se reavive ao contato da tua fé, e a minha alma se ilumine
ao sol da tua.
E Jesus vai, de fato, sentar-se em um banco alto entre Gamaliel e Hilel,
e lhe são levados uns rolos para que os leia e explique. É um exame em
plena regra. A multidão se aglomera e escuta.
A voz juvenil de Jesus lê:
– “Consola-te, ó meu povo! Falai ao coração de Jerusalém, consolai-a
porque a sua escravidão se acabou… Voz do que grita no deserto: preparai
os caminhos do Senhor… Então aparecerá a glória do Senhor…”
Shamai:
– Estás vendo, nazareno! Aqui se fala de escravidão que se acaba.
Nunca fomos escravos como o somos agora. Aqui se fala de um precursor.
Onde está ele? Tu estás delirando.
Jesus:
– Eu te digo que a ti, mais do que a outros, está feito o convite do
Precursor. A ti e aos teus semelhantes. De outra maneira, não verás a glória
do Senhor, nem compreenderás a palavra de Deus, porque as baixezas, as
soberbas, as duplicidades serão para ti um obstáculo para veres e ouvires.
Shamai:
– Falas assim a um mestre?
Jesus:
– Assim falo. E assim falarei até à morte. Porque, acima do que me é
útil, está o interesse do Senhor e o amor à Verdade, da qual sou Filho. E te
digo ainda, ó rabi, que a escravidão, de que fala o Profeta, e da qual Eu falo,
não é aquela que pensas, como a realeza não será aquela que pensas. Mas,
sim, é pelo mérito do Messias que o homem se tornará livre da escravidão
do Mal, que o separa de Deus, e o sinal do Cristo estará sobre os espíritos,
livres de todo jugo, e feitos súditos do Reino eterno. Todas as nações
curvarão suas cabeças, ó estirpe de Davi, diante do Rebento nascido de ti, e
que se tornou árvore que cobre toda a terra, e se levanta até o Céu. E no Céu
e na terra, toda boca louvará o seu Nome, e dobrarão o joelho, diante do
Ungido de Deus, do Príncipe da Paz, do Chefe, Daquele que se dará a si
mesmo para delícia das almas cansadas, saciará a alma faminta, do Santo
que fará uma aliança entre a terra e o Céu. Não como aquela aliança feita
com os Pais de Israel, quando Deus os tirou do Egito, tratando-os ainda
como escravos, mas imprimindo a paternidade celeste no espírito dos
homens, por meio da Graça novamente infundida pelos méritos do Redentor,
pelo qual todos os homens bons conhecerão o Senhor, e o Santuário de Deus
não será mais derribado e destruído.
Shamai:
– Não fiques blasfemando, mocinho! Lembra-te de Daniel. Ele diz que,
depois da morte de Cristo, o Templo e a Cidade serão destruídos por um
povo e por um chefe que virá. E Tu estás dizendo que o Santuário de Deus
não será mais derrubado! Respeita os Profetas!
Jesus:
– Em verdade eu te digo que aqui está Alguém que é mais do que os
Profetas, e tu não o conheces, e não o conhecerás, porque te falta a vontade.
E te digo que tudo o que Eu disse é verdade. Não conhecerá mais a morte o
verdadeiro Santuário. Mas como o seu Santificador, ressurgirá para a vida
eterna e, no fim dos dias do mundo viverá no Céu.
41.7Hilel:
– Escuta, jovenzinho. Ageu diz: “virá o Desejado dos povos. Grande
será, então, a glória desta casa, maior do que a que coube à primeira.”
Estará ele se referindo ao Santuário de que Tu falas?
Jesus:
– Sim, mestre. Quer dizer isso. A tua retidão te leva para a Luz, e Eu te
digo: quando o Sacrifício do Cristo se consumar, terás paz, porque és um
israelita sem malícia.
Gamaliel:
– Diz-me, Jesus. A paz, de que falam os Profetas, como poderá ser
esperada, se a este povo virá a destruição pela guerra? Fala, e dá luz a mim
também.
Jesus:
– Não te lembras, mestre, o que foi que disseram aqueles que estiveram
presentes na noite do nascimento de Cristo? Não te lembras de que os
exércitos celestiais cantavam: “Paz aos homens de boa vontade”? Mas este
povo não tem boa vontade, e não terá paz. Ele desconhecerá o seu Rei, o
Justo, o Salvador, porque espera que Ele seja um rei de poderes humanos,
enquanto que Ele é o Rei do espírito. Este povo não o amará, porque o
Cristo pregará o que a este povo não agrada. O Cristo não debelará os seus
inimigos com seus carros e cavalos, mas, sim, os inimigos da alma, que
dominam, com possessão infernal, o coração do homem criado pelo Senhor.
E esta não é a vitória que Israel está esperando Dele. Ele virá, Jerusalém, o
teu Rei, cavalgando uma “jumenta e um jumentinho”, ou seja, os justos de
Israel e os gentios. Mas o jumentinho, Eu vo-lo digo, será mais fiel a Ele, e o
seguirá precedendo a jumenta, e crescerá no caminho da Verdade e da Vida.
Israel, pela sua má vontade, perderá a paz, e sofrerá em si, através dos
séculos, aquilo que fizer sofrer ao seu Rei, depois de tê-lo reduzido ao Rei
das dores, de que fala Isaías.
41.8 Shamai:
– Tua boca tem, ao mesmo tempo, cheiro de leite e de blasfêmia,
nazareno. Responde-me: E onde está o Precursor? Quando o teremos?
Jesus:
– Ele já está aqui. Não diz Malaquias: “Eis que eu mando o meu anjo a
preparar o caminho diante de Mim; e logo virá ao seu Templo o Dominador,
por vós procurado, e o Anjo do Testamento por vós desejado”? Portanto, o
Precursor virá imediatamente antes de Cristo. Ele já está aqui, como o Cristo
está. Se passassem anos entre aquele que prepara os caminhos do Senhor e o
Cristo, todos os caminhos se tornariam cheios de entulhos e obstáculos. Deus
sabe disso, e predispõe que o Precursor venha uma hora só antes do Mestre.
Quando virdes o Precursor, podereis dizer: “A missão do Cristo começou.”
E a ti Eu te digo: O Cristo abrirá muitos olhos e muitos ouvidos, quando ele
vier por estes caminhos. Mas não os teus, nem os dos iguais a ti, que lhe
dareis a morte, em troca da Vida, que Ele vos oferece. Mas quando, mais
alto do que este Templo, mais alto do que o Tabernáculo, fechado no Santo
dos santos, mais alto do que a Glória sustentada pelos Querubins, o Redentor
estiver sobre o seu trono e sobre o seu altar, fluirão de suas mil e mil feridas
maldições para os deicidas e vida para os gentios, porque Ele, ó mestre, que
disso não sabes, não é, eu repito, Rei de um reino humano, mas de um Reino
espiritual, e os seus súditos serão somente aqueles que por seu amor
souberem regenerar-se no espírito e, como Jonas, depois de terem nascido,
renascerem em outras praias: “as de Deus”, através da geração espiritual
que virá por Cristo, o qual dará à humanidade a verdadeira Vida.
41.9 Shamai e seus acólitos:
– Este nazareno é Satanás!
Hilel e os seus:
– Não. Este jovem é Profeta de Deus. Fica comigo, Menino. A minha
velhice transfundirá tudo o que sabe ao teu saber, e Tu serás Mestre do povo
de Deus.
Jesus:
– Em verdade, te digo que, se muitos fossem como tu és, viria a
salvação para Israel. Mas a minha hora ainda não chegou. A Mim falam as
vozes do Céu, e, na solidão, Eu as devo acolher, enquanto não chegar a
minha hora. Então, com os lábios e com o sangue, falarei a Jerusalém, e
minha sorte será a dos Profetas que foram apedrejados e mortos por esta
cidade. Mas, acima do meu ser, está o Senhor Deus, ao qual Eu submeto a
Mim mesmo, como servo fiel, para que Ele faça de Mim o escabelo à sua
glória, na esperança de que Ele faça do mundo o escabelo aos pés de Cristo.
Esperai-me na minha hora. Estas pedras ouvirão de novo a minha voz, e
tremerão à minha última palavra. Felizes aqueles que naquela voz tiverem
ouvido a Deus, e crerem Nele, através dela. A estes o Cristo dará aquele
Reino que o vosso egoísmo deseja que seja um reino humano, mas que é
celeste e pelo qual Eu digo: “Eis aqui o teu servo, Senhor, que veio para
fazer a tua vontade. Consuma-a, pois Eu anseio para cumpri-la.”
E aqui, com a visão de Jesus com o rosto inflamado pelo ardor
espiritual erguido ao céu, os braços abertos, em pé, no meio dos doutores
atônitos, termina a minha visão.
(Já são 3:30 do dia 29).
29 de janeiro de 1944.
41.10Aqui eu teria que dizer duas coisas, que lhe interessam com certeza, e
que eu havia decidido escrever, logo que saísse da visão. Mas, como há
outra coisa mais urgente, escreverei aquilo depois.
[…].
O que queria lhe dizer no começo é isto.
Ela hoje me perguntou como foi que eu pude saber os nomes de Hilel, de
Gamaliel e de Shamai.
Foi a voz, que eu chamo de “segunda voz”, que me disse estas coisas.
Uma voz ainda menos audível do que a do meu Jesus e dos outros que ditam
para mim. Estas são vozes, como já lhe disse e repito, que o meu ouvido
espiritual percebe iguais a vozes humanas. Eu as ouço doces ou iradas,
fortes ou suaves, risonhas ou tristes. Como se alguém falasse bem perto de
mim. Esta “segunda voz” é como uma luz, uma intuição que fala no meu
espírito. “No”, e não “ao” meu espírito. É uma indicação.
Assim é que, enquanto eu ia me aproximando do grupo dos disputantes, e
não sabia quem era aquele ilustre personagem que, ao lado de um velho,
disputava com tanto calor, este “alguém” me disse: “Gamaliel – Hilel”. Sim.
Primeiro Gamaliel, depois Hilel. Não tenho dúvidas. Enquanto eu pensava
quem seriam esses homens, o indicador interno me indicou o terceiro
antipático indivíduo, exatamente enquanto Gamaliel o chamava pelo nome. E
assim é que eu pude ficar sabendo quem era este de aspecto farisaico.
[…].
[68] disputa, que incidirá sobre os passos bíblicos que listamos (como de norma) segundo ordem canónica e não na ordem das
citações: Génesis 35,16-18; Êxodo 14,21-22; 24; Números 24,17; 2 Reis 2,11; Isaías 9,5; 40,1-5; 52,13-15; 53,1-12; Jeremias
31,15; Daniel 9,24-27; Jonas 2; Miqueias 5,1; Ageu 2,7-9; Zacarias 9,9; Malaquias 3,1.


VIDEO DA AULA
CAPÍTULO 8
A VIRTUDE DA CARIDADE E MARIA SANTÍSSIMA, SENHORA NOSSA.

Elogio da caridade

516. A sobreexcelentíssima virtude da caridade é senhora, rainha, mãe,
alma, vida e beleza de todas as outras virtudes. A caridade é que as governa,
move e dirige para seu verdadeiro e último fim. Ela as gera em seu perfeito ser, aumenta-as,
conserva-as, esclarece-as e adorna, dá-lhes vida e eficácia.
Se todas as demais virtudes comunicam à criatura alguma perfeição ou
ornato, é da caridade que recebem esta perfeição porque, sem caridade, todas são
defeituosas, obscuras, lânguidas, mortas e sem proveito, por não possuírem perfeito
movimento de vida e sentido.
A caridade é benigna (ICor 13,4), paciente, mansíssima, sem inveja, de
nada se apropria, tudo dá, produz todos os bens e, quanto lhe é possível, não consente em nenhum mal,
por ser a participação do verdadeiro e sumo bem!
Oh! virtude das virtudes, resumo dos tesouros do céu! Só tu tens a chave do
paraíso; és a aurora da eterna luz, sol do eterno dia, fogo que purifica, vinho que
inebria e dá novo sentir; néctar que alegra, doçura que sacia sem enfastiar; tálamo em
que repousa a alma e vínculo tão estreito que nos faz uma só coisa com Deus (Jo 17,21),
como o Pai e o Filho são um com o Espírito Santo.

A caridade, participação da essência divina
517. Pela incomparável nobreza desta senhora das virtudes, o mesmo Deus
e Senhor - a nosso modo de entender - quis honrar-se com seu nome, ou honrar a ela,
chamando-se caridade, como disse São João (ljo 4,16).
Diversas razões tem a Igreja católica quando, ao falar das perfeições divinas,
atribui ao Pai a onipotência, ao Filho a sabedoria, e ao Espírito Santo o amor. O Pai
é princípio sem princípio, o Filho é gerado pelo Pai por via do entendimento e o Espírito Santo procede de ambos pela vontade.
O nome, porém, de caridade e sua perfeição, o Senhor aplica-se a si sem diferença
e distinção de pessoas, conforme disse o Evangelista: Deus é caridade,
No Senhor esta virtude tem a plenitude do ser. É o fim de todas as
operações ad intra e ad extra, porque as divinas processões - as operações de
Deus em si mesmo - acabam na união de amor e caridade recíproca entre as três
divinas Pessoas. Isto forma entre as Pessoas Divinas vínculo indissolúvel,
depois da unidade indivisa da natureza, pela qual são um só Deus.
Todas as obras ad extra, que são as criaturas, nasceram da caridade divina e
a ela se ordenam, para que, saindo do mar imenso daquela bondade infinita, voltem
pela caridade e amor à origem donde brotaram. Este predicado da caridade é singular
entre todas as outras virtudes e dons, e constitui perfeita participação da caridade
divina. Nasce do mesmo princípio, visa o mesmo fim, e com ele tem mais semelhança do que as outras virtudes.
Se chamamos a Deus nossa esperança, nossa paciência e nossa sabedoria,
é porque as recebemos de sua mão, e não porque estas virtudes estejam em Deus
como em nós. A caridade, porém, não somente a recebemos do Senhor, nem Ele se
chama caridade apenas pelo fato de nô-la comunicar, mas Ele a possui em si mesmo,
essencialmente. Dessa divina perfeição que imaginamos como forma e atributo em sua
natureza divina, redunda nossa caridade, com mais perfeição e semelhança do que
qualquer outra virtude.

A caridade divina por nós

518. A caridade tem outras propriedades admiráveis da parte de Deus, em
ralação a nós. Sendo ela o princípio pelo qual nos comunicou todo o ser, e depois o
sumo bem que é o mesmo Deus, vem a ser o estímulo e exemplar de nossa caridade e
amor para com o mesmo Senhor. Se para amá-lo não nos desperta, nem move saber
que em si mesmo é infinito e sumo bem, pelo menos nos obrigue e cative saber que
é o sumo bem para nós. Se não podíamos nem sabíamos amá-lo antes (1 Jo 4,10) que
nos desse seu Filho Unigênito, não tenhamos desculpas, nem ousadia, para O deixar de
amar, depois de nô-lo ter dado. Se nos cabe desculpas, por não saber adquirir o benefício, nenhuma podemos aduzir para não o
agradecer com amor, depois de o haver recebido sem o merecer.

O sol, exemplo da generosidade e desinteresse da caridade divina.

O modelo de nossa caridade  encontrado na de Deus, manifesta intensamente a excelência desta virtude, ainda que
dificilmente eu possa explicar meu conceito.
Quando Cristo, Senhor nosso, fundava sua perfeitíssima lei de amor e
graça, ensinou-nos a ser perfeitos, à imitação de nosso Pai Celestial, que faz nascer
seu sol sobre justos e injustos (Mt 5,45), sem diferença. Tal doutrina e exemplo só o
Filho do eterno Pai podia propor aos homens.
Entre todas as criaturas visíveis, nenhuma quanto o sol nos manifesta a
caridade divina e nô-la mostra para a imitarmos. Este nobilíssimo astro, por sua mesma
natureza, sem outra deliberação mais do que sua inata propensão, comunica luz a
toda parte e a quantos são capazes de recebê-la, sem distinção. Quanto dele depende, nunca a nega, nem a suspende
(Dion. de div. nom. cap. IV). Assim procede, sem dever obrigação a ninguém, sem
receber paga ou recompensa de que necessite, sem encontrar, nas coisas que ilumina
e fecunda, alguma bondade antecedente para o mover e atrair. Nem pretende outro
interesse, mais do que derramar a mesma virtude que em si contém, para todos serem
dela participantes.

Amar desinteressadamente

Considerando, pois, os predicados de tão generosa criatura, quem
há que nela não veja um retrato da caridade incriada, para a copiar? Quem há que não
se confunda por não imitá-la? Quem imaginará que tem caridade verdadeira se não a imitar?
Não pode nossa caridade e amor produzir alguma bondade no objeto que
ama, como o faz a caridade incriada do Senhor. Todavia, se não podemos melhorar o que amamos, pelo menos podemos
amar a todos sem interesse de nos melhorarmos, e sem andar deliberando e
escolhendo a quem amar e fazer o bem, com a esperança de ser correspondido.
Não digo que a caridade não é livre, nem que Deus haja feito alguma coisa
fora de si por ter dela necessidade. Não vale aqui o exemplo: porque todas as obras
adextra - as dacriação - são livres em Deus.
A vontade livre, porém, não deve desviar nem forçar a inclinação e impulso
da caridade. Antes, deve segui-la à imitação do Sumo Bem que, pedindo sua
natureza comunicar-se, não foi impedida pela divina vontade. Deixou-se levar e
mover por sua inclinação, para comunicar os raios de sua luz inacessível a todas as
criaturas, segundo a capacidade de cada uma para recebê-la. Isto, sem haver
precedido de nossa parte bondade alguma,
serviço ou benefício, e ainda sem esperá-los depois, porque de ninguém tem
necessidade.

A ordem na comunicação da caridade divina. Cristo ocupa o primeiro lugar nessa ordem

521. Temos conhecido um pouco as Propriedades da caridade, em seu princípio que é Deus. Fora Dele, será em Maria
Santíssima que a encontraremos, com toda perfeição possível em pura criatura, por
quem mais de perto poderemos modelar a nossa.
É óbvio que, partindo os raios desta luz e caridade do Sol incriado onde se
encontra sem termo nem fim, vai-se comunicando a todas as criaturas, até a mais
distante, com ordem, medida e modo, segundo o grau de proximidade de cada uma
ao seu princípio.
Esta ordem traduz a plenitude e perfeição da divina Providência, pois sem
a harmonia das criaturas criadas para a participação de sua bondade e amor, resultaria imperfeita, confusa e incompleta.
O primeiro lugar nesta ordem, depois do mesmo Deus, seria daquela alma
e pessoa que fosse juntamente Deus incriado e homem criado; porque à suma e
suprema união de naturezas, deveria seguir a suma graça e participação de amor,
como aconteceu em Cristo Senhor nosso.

Maria Santíssima ocupa o segundo lugar na ordem da caridade divina

522. O segundo lugar pertence à sua Mãe Maria Santíssima, em quem repousa, por singular modo, a caridade e
amor divino. A nosso modo de entender, a caridade divina não estaria suficientemente satisfeita enquanto não se comunicasse
a uma pura criatura, com tanta plenitude, que nela estivesse reunido o amor e caridade de todo o gênero humano. Só ela poderia
suprir, pelo restante da humanidade. Daria toda a correspondência possível e participaria da caridade incriada, sem as falhas e
defeitos que nela mesclam os demais mortais infetos pelo pecado.
Somente Maria Santíssima, entre todas as criaturas, foi escolhida como o
Sol de justiça (Ct 6, 9), para imitá-lo na caridade, e ser nesta virtude, uma cópia fiel
do original. Somente Ela soube e pôde amar mais e melhor que todas juntas, amando a
Deus pura, perfeita, íntima e sumamente por ele só, e às criaturas pelo mesmo Deus,
e como Ele as ama. Somente Ela seguiu verdadeiramente o impulso da caridade e
sua inclinação, amando ao sumo bem por sumo bem, sem outra atenção, e amando às
criaturas pela participação que têm de Deus, e não para delas receber compensações.
Reproduzindo em tudo a caridade incriada, somente Maria Santíssima pôde e
soube amar, para melhorar a quem amava, pois com seu amor, agiu de sorte que
melhorou o céu e a terra e tudo quanto existe, fora do mesmo Deus.

Paralelo entre a caridade de Maria e das demais criaturas

523. Se a caridade desta grande Senhora fosse colocada numa balança, e a
de todos os homens e anjos em outra pesaria mais a de Maria puríssima que a de
todo o resto das criaturas.
Todas elas não chegaram ao conhecimento que só Ela teve da natureza e
propriedades da caridade de Deus, por conseqüência, somente Maria soube imitá-la com adequada perfeição, mais que toda
a natureza das puras criaturas intelectuais.
Neste excesso de amor e caridade, satisfez e retribuiu a dívida das criaturas
pelo infinito amor do Senhor, tanto quanto delas se lhes podia exigir, não, porém, em
equivalência infinita, pois isto não era possível.
Como o amor e caridade da alma santíssima de Jesus Cristo teve, no grau
possível, certa proporção com a união hipostática, assim a caridade de Maria teve
outra proporção semelhante: a que resultou do privilégio que o Eterno Pai lhe
conferiu, dando-lhe seu Filho Santíssimo, fazendo-a sua Mãe que o concebeu e o deu
à luz para a salvação do mundo.

A caridade de Maria, princípio de nossa felicidade

524. Daqui entenderemos que todo o bem e felicidade das criaturas vem
a se originar, de algum modo, na caridade e amor que Maria Santíssima teve a Deus.
Nela esta virtude e participação do amor divino esteve, dentre as criaturas, em sua
última e suma perfeição.
Ela pagou esta dívida por todos, inteiramente, quando ninguém acertava
fazer a devida retribuição e nem sequer a conhecia. Com esta perfeitíssima caridade,
Ela obrigou, no modo possível, ao eterno Pai a dar seu Filho Santíssimo tanto para
Ela, como para todo o gênero humano. Se Maria houvesse amado menos, e sua caridade tivesse alguma falha,
não haveria na natureza a necessária disposição para o Verbo se encarnar. Encontrando-se, porém, entre as criaturas,
alguma que houvesse chegado a imitar a caridade divina em grau tão supremo, já era como razoável que Deus a ela descesse,
como realmente o fez.

Mãe do amor formoso

525. Tudo isto foi significado, ao
chamá-la o Espírito Santo, Mãe da formosa
dileção ou amor (Eclo 24,24), atribuindo lhe estas palavras, conforme fica dito sobre a santa esperança,
Maria é mãe de nosso suavíssimo amor, Jesus, Senhor e Redentor nosso,
formosíssimo entre todos os filhos dos homens pela divindade, de infinita e
incriada beleza, e pela humanidade, que não teve culpa nem dolo (lPd 2,22), mas
possui todas as graças que lhe pôde comunicar a Divindade.
É também Mãe do amor formoso, porque só Ela concebeu em sua mente o
amor e caridade perfeita, formosíssima dileção, que todas as demais criaturas não
souberam conceber em toda sua beleza, sem falha alguma, de modo que pudesse
ser chamada absolutamente formosa.
É Mãe de nosso amor, porque nô lo trouxe ao mundo, nô-lo conquistou, nos
ensinou a conhecê-lo e praticá-lo. Sem Maria Santíssima, não existiria outra pura
criatura, nem no céu, nem na terra, de quem pudessem os homens e anjos se fazer discípulos do amor formoso.
Sendo assim, todos os santos são como raios deste sol, e como arroios
deste mar. Tanto mais saberão amar, quanto mais participarem do amor e caridade de
Maria Santíssima, imitando-a, copiando-a e assemelhando-se a Ela.

Causas de sua caridade

526. As causas desta caridade e amor de nossa princesa Maria foram: a
profundidade de seu altíssimo conhecimento e sabedoria, assim pela fé infusa
como pelos dons do Espírito Santo, de ciência, entendimento e sabedoria; e as
visões intuitivas e abstrativas da divindade.
Por todos estes meios, adquiriu altíssimo conhecimento da caridade
incriada, bebendo-a em sua mesma fonte.
Conhecendo que Deus devia ser amado por si mesmo, e a criatura por Deus, assim
o praticou com intensíssimo e fervente amor. Não encontrando o poder divino, na
vontade desta Rainha, impedimento, óbice de culpa, inadvertência, ignorância, imperfeição ou tardança, pôde nela realizar tudo
o que quis, e quanto não pode fazer com o resto das criaturas, pois nenhuma outra
teve as disposições de Maria Santíssima.
Maria realizou perfeitamente o mandamento da caridade e supriu as falhas das demais criaturas
Foi Maria prodígio do poder divino, o maior ensaio e demonstração, em
pura criatura, da caridade incriada, e a plena realização daquele grande preceito
natural e divino: Amarás a teu Deus de todo teu coração, mente e alma e com
todas as tuas forças (Dt 6, 5). Só Maria saldou esta dívida e obrigação das criaturas que, nesta vida, antes de ver a Deus,
não saberiam nem poderiam pagar inteiramente.
Sendo viadora, esta Senhora a satisfez mais perfeitamente, do que os mesmos serafins sendo compreensores.
Satisfez também este preceito em relação a Deus, para que não fosse defraudado por
parte dos viadores, pois só Maria Puríssima o santificou e realizou plenamente por todos, suprindo abundantemente o que lhes
faltou.
Se Deus não tivesse presente Maria, nossa Rainha, ao intimar aos mortais este mandato de tanto amor e caridade,
talvez não lhe haveria dado esta forma.
Comprazeu-se, porém, em dá-lo assim, só por esta Senhora, de modo que a Ela devemos, tanto o mandamento da caridade
perfeita como seu adequado cumprimento.

Louvores e exortação

528. Ó doce e formosíssima Mãe da formosa dileção e caridade! Todas as
nações te conheçam, todas as gerações te bendigam, todas as criaturas te glorifiquem e louvem. Tu somente és perfeita, tu
a única dileta, tu a escolhida para mãe da caridade incriada. Ela te formou singular,
única (Ct 6,9) e escolhida como o sol, para resplandecer em teu belíssimo e perfeitíssimo amor!
Aproximemo-nos deste Sol, nós os míseros filhos de Eva, para sermos iluminados e aquecidos. Cheguemos a esta
Mãe, para que nos torne a conceber no amor. Vamos a esta Mestra, para aprendermos o amor, dileção e caridade formosa e
sem defeitos.
Amor significa afeto que se compraz e repousa no amado; dileção quer
dizer preferir e separar o que se ama de tudo o mais; caridade inclui, além de tudo
isso, íntimo apreço e estima do bem amado.
Tudo nos ensinará a Mãe deste amor formoso, que o é, por ter todas estas perfeições. Com Ela, aprenderemos a amar a
Deus, descansando Nele todo nosso coração e afetos.
Aprenderemos a separar nosso amor de tudo o que não é o mesmo sumo
bem, pois menos o ama quem, com ele quer amar outra coisa. Saberemos aprecia
lo e estimá-lo mais do que o ouro. e acima de tudo quanto é precioso. Em sua comparação, todo o precioso é vil, toda beleza '
fealdade. Tudo o que é grande e estimável aos olhos carnais vem a ser desprezível e sem valor.

Dos efeitos da caridade de Maria Santíssima falo em toda esta história e deles está cheio o céu e a terra. Não me
detenho, portanto, a descrever, em particular, o que não pode caber em língua, nem
em palavras humanas ou angélicas.

DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU.

Sinais do amor de Deus

529. Minha filha, com afeto de mãe, desejo que me sigas e imites em todas
as virtudes. Mas nesta da caridade, que é o fim e coroa de todas elas, declaro-te
minha absoluta vontade, que te esforces o mais possível em copiar na tua alma, com a
maior perfeição, quanto conheceste na minha. Acende a luz da fé e da razão para
encontrar esta dracma (Lc 15,8) de infinito valor, e havendo-a achado esquece e despreza todo o terrestre e corruptível. Em tua
mente considera muitas vezes, medita e pesa as infinitas razões e motivos para
Deus ser amado sobre todas as coisas.
Para saberes amá-lo com a perfeição que desejas, estes são os sinais e
efeitos do verdadeiro e perfeito amor: se continuamente meditas e pensas em Deus;
se cumpres seus mandamentos e conselhos, sem tédio nem desgosto; se temes
ofendê-lo; se, ofendendo-o, procuras logo desagravá-lo; se te dói vê-lo ofendido e se
te alegras de que todas as criaturas sirvam; se desejas e gostas de falar continuamente de seu amor; se gozas com sua
presença e lembrança; se te contrista sua ausência e esquecimento; se amas o que
Ele ama e aborreces o que Ele aborrece; se procuras atrair todos à sua amizade e graça; se lhe súplicas com confiança; se
recebes seus benefícios com gratidão; se não os dissipas e se os fazes reverter à sua
honra e glória; se trabalhas por extinguir em ti mesma os movimentos das paixões,
que te retardam e impedem o afeto do amor e as obras virtuosas.

A inabitação da Trindade na alma

530. Estes, e outros efeitos, são indícios da caridade que está na alma, e de
sua maior ou menor perfeição. Acima de tudo, quando é forte e fervorosa, não suporta ociosidade nas potências, nem
consente mácula na vontade, porque logo as purifica. Só descansa quando saboreia
a doçura do sumo bem que ama. Sem ele desfalece (Ct 2, 5), fica ferida e enferma,
sedenta daquele vinho que inebria o coração (Ct 5,1), produzindo o olvido de todo
o corruptível, terreno e transitório.
Como a caridade é mãe e raiz de todas as outras virtudes, logo se percebe
sua fecundidade na alma onde permanece e vive. Enche-a e adorna-a dos hábitos das
demais virtudes que, por repetidos atos, vai gerando, como o descreveu o Apóstolo (ICor 13,4). O efeito do amor divino é
recíproco. A alma que está em caridade, não somente recebe os efeitos desta virtude, pela qual ama o Senhor, mas é também
amada por Ele. Deus permanece naquele que ama e nele vem residir, como em seu
templo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo: graça tão soberana que, por nenhuma
palavra ou comparação, se poderá compreender na vida mortal.

Ordem e motivo da caridade

531. A ordem a ser guardada na prática desta virtude é a seguinte: primeiro,
amar a Deus, que está acima de toda a criatura; em seguida, amar-se a criatura a si
mesma, e depois de si, amar a quem lhe é semelhante, o próximo (IJo 4). A Deus se
deve amar com todo o entendimento, sem erro; com toda a vontade, sem partilhas;
com toda a mente, sem esquecimento; com todas as forças, sem remissão, tibieza ou
negligência.
O motivo que a caridade tem para amar a Deus, e aos mais que a Ele se
relaciona, é o mesmo Deus. Deve ser amado por si mesmo, por ser o sumo bem,
infinitamente perfeito e santo. Amando a Deus por este motivo, é conseqüente que
a criatura ame-se a si, e ao próximo como a si mesma, porque ela e seu próximo não
pertencem tanto a si mesmos quanto ao Senhor, de cuja participação recebem o ser,
vida e movimento.
Quem verdadeiramente ama a Deus por ser quem é, ama também tudo o
que é de Deus e goza de alguma participação de sua bondade, e não faz diferenças
entre amigo e inimigo. Vendo na criatura apenas o que ela tem de Deus e que e a Ele
pertence, não repara esta virtude se é amigo ou inimigo, benfeitor ou malfeitor; nota
somente o grau em que cada qual participa, mais ou menos, da bondade infinita do
Altíssimo, e com a devida ordem ama a todos em Deus e por Deus.

Amor imperfeito

532. Amar por outros fins e motivos, esperando algum interesse, proveito
ou retribuição; amar com amor de concupiscência desordenada, ou com amor
humano e natural; mesmo o amor virtuoso e bem ordenado, estes amores não pertencem à caridade infusa. Sendo ordinário aos
homens moverem-se por estes bens particulares e fins interesseiros e terrenos, há
mui poucos que conheçam e abracem a nobreza desta generosa virtude, e a pratiquem em sua devida perfeição.
Até ao mesmo Deus buscam, esperando bens temporais ou benefícios e
prazer espiritual. Deste desordenado amor, quero, minha filha, que afastes teu coração. Nele só viva a caridade bem ordenada,
para a qual o Altíssimo inclinou os teus desejos. Se tantas vezes repetes que esta
virtude é a formosa, agraciada e digna de ser querida e estimada por todas as criaturas, estuda muito para conhecê-la. Tendo-a
conhecido, compra tão preciosa pérola, esquecendo e extinguindo em teu coração
todo o amor que não seja caridade perfeitíssima.
A nenhuma criatura amarás não só por Deus; ou porque O representou porque é coisa sua, assim como a
esposa ama a todos os servos e familiares da casa de seu esposo, por serem dele. Se esqueceres disso e amares alguma criatura
sem atender a Deus nela, não a amando por este Senhor, saibas que não amas com caridade, nem como de ti quero, e o
Altíssimo te mandou.
Também conhecerás que não amas com caridade, se fizeres distinção
entre amigo ou inimigo, agradável ou desagradável, mais ou menos cortês, entre quem
possui, ou não, graças naturais. A verdadeira caridade não faz todas estas
diferenças, mas sim a inclinação natural ou as paixões dos apetites que tu, com esta virtude, deves governar e extinguir.

VIDEO DA AULA

CONSOLA A MAE.

Obtido do Pai o quanto ansiava em prol de meus irmãos, fui consolar a querida Mãe que se achava em grande angústia, por ter-me visto retirar-me sozinho com aquela cruz, comigo, embora o amor muito a impelisse. Retinha-a contudo o respeito a Majestade. Deixei a a cruz e fui procura-la. Vendo-a traspassada de dor, olhei-a com rosto amoroso e olhos compassivos, e ao contempla-la, infundi em sua alma sumo gaudio, que a consolou inteiramente. Conheceu a amorosa Mãe o favor que lhe comuniquei e logo, genuflexa, agradeceu-me com palavras verdadeiramente dignas de tal mãe. Manifestou-me quanto me amava, e por isso que dor sofria por ver-me padecer. A amorosa Mae percebia quando eu estava mais aflito do que de costume, e muito se atormentava, pois me amava muito. Sendo eu mais do que a sua própria vida, muito mais se afligia com minhas angústias do que se tivessem sido suas. Aliás, eram de certa maneira suas, porque tanto sangue como o amor faziam com que sentisse todas as penas que eu, seu Filho amado, padecia. Naquele instante roguei ao Pai que, assim como eu havia consolado a Mãe naquela angústia, se dignasse consolar todos aqueles que se afligem por ver próximo em tribulação e angústia. É bem justo ser consolado quem por verdadeira caridade se aflige com as tribulações dos outros, imitando-me nisto, pois muito me afligia ver meus irmãos em tribulações e aflições, como muitas vezes o demonstrei no tempo em que vivi na terra, e principalmente em relação à aflição das irmãs de Lázaro pela morte do mesmo, as quais eu consolei. O Pai me prometeu fazer e mostrou aprazerem-lhe muito aqueles que assim agem. O Pai demonstrava grande complacência em todas as obras virtuosas de meus irmãos, mas em particular naquelas com as quais mais se me assemelham, naquelas obras nas quais eu continuamente me exercitava. Se bem que não existe obra virtuosa e perfeita na qual se exercitam meus irmãos que antes eu não tenha praticado, não obstante há algumas mais agradáveis ao Pai e são as que eu, com maior humilhação de minha pessoa, praticava, isto é, as obras que indicam humildade, caridade, desprezo de si, abaixamento, mortificação, pobreza, obediência, com as outras que trazem consigo conhecimento de minha Majestade esvaziada e aniquilada, por amor do homem, e para Ihe ensinar o caminho da virtude. Não há obra boa e virtuosa, praticada por meus irmãos, acerca da qual não tenha impetrado anteriormente de meu Pai para eles a graça de faze-la com toda a perfeição, oferecendo-Ihe todas as minhas obras para obter-lhes a graça mencionada.

CONSOLA A JOSE.

Tendo consolado a querida Mãe, ia a Jose, o qual realmente estava em aflição, apesar de não entender o mistério ali oculto. Com olhar amoroso, consolei-o e serenei o seu espirito turbado pelas dúvidas que lhe surgiam na mente ao ver-me executar aquela cruz. Logo, porem, aquietava-se-Ihe o espírito, porque vendo-me de fisionomia serena e amorosa, sentia sumo prazer, e assim a sua alma inebriada não procurava outra coisa, entregando-se inteiramente ao querer divino. Algumas vezes, porém, se não via em mim esses efeitos, ia a sua querida esposa e com ela desafogava sua pena, e ela o consolava. Eu rezava ao Pai. Se não quisesse consolar as almas aflitas com as suas graças e palavras internas, fizesse com que fossem consoladas por outros, com palavras e consolos externos. Desse às palavras dos últimos a virtude e a grata para que fossem consolados também no Intimo, conforme exigir a necessidade na qual se ache a pessoa aflita. O Pai não o omite, comunicando graça e assistência a todos aqueles que se empenham neste ato de caridade.

VIDA LABORIOSA E DE ZELO.

Por mais que pareça a todos que eu, no tempo em que vivi em casa, com minha Mae e Jose, não me cansasse muito, por não ter tido um exercício de contínua fadiga, não foi assim. Tive uma vida muito dificultosa e sempre que afadiguei, ora a trabalhar, ora a rezar, ora a cantar os louvores divinos, ora a exercitar-me em obras manuais de diversas espécies, conforme requerido pelas necessidades e a pobreza em que me achava. Além disso, deveis saber que eu tratava com o Pai a respeito da salvação de todo o gênero humano; digo de todos em geral, e depois, de cada um em particular. Quanto me afadigava por todos, para os quais impetrava a graça de meu Pai segundo o estado e condição de cada um; vendo aquilo de que precisava, tanto rogava ao Pai que tudo Ihe obtinha. Quanto, esposa minha, me afadigava pelos pecadores! Como eram inumeráveis! Não tinha tempo de repousar, a fim de poder pensar em cada um deles e aplacar o Pai irado, para que esperasse a penitência e desse-lhe a luz e graça, com o fito de ressurgirem da queda e das misérias. Quantas lágrimas derramava no silencio da noite! Quantos suspiros ardentes exalavam-me do peito! Quantos atos de arrependimento fazia pelos pecados dos meus irmãos, oferecendo-os ao Pai! Quanto tempo ficava prostrado no chão para impetrar graças em favor daqueles que se mostravam tão ingratos aos benefícios de meu Pai! Quantas vezes me oferecia ao Pai em sacrifício e apresentava-me para sofrer todos os tormentos merecidos pelos pecadores! Quantas vezes sentia em mim as angústias e as aflições que deviam sentir todos os meus irmãos, querendo assim ter mais motivo de compadecer-me deles e de pedir ao Pai por eles! Quantas vezes experimentava em mim as fraquezas deles para socorre-los melhor e para que um dia chegassem a compreender não existir mal, ou angústia sofridas por eles que eu não a tenha tido primeiro, e não haja procurado para cada um deles o remédio e o consolo! Só não sentia pena proveniente de culpa; mas desta tinha uma contrição tão grande que muitas teria morrido, se a divindade não me tivesse sustentado em vida. Foi este um contínuo exercício enquanto vivi na terra. Jamais o diminui um momento, perseverando sempre nestes atos tão agradáveis ao Pai e tão satisfatórios e úteis aos meus irmãos. Tanto fiz junto do Pai, e tanto rezei que obtive quanto desejava, a saber, que meu Pai fosse o Deus das misericórdias, enquanto antes era o Deus da Vingança, castigando os transgressores da Lei com rigor de Justiça.

Tanta forca tiveram minhas obras e as minhas súplicas junto do Pai que fi-lo tornar-se inteiramente misericórdia relativamente aos pecadores. Não castiga, mas espera que façam penitência; suporta com muita paciência os seus erros e as transgressões de sua lei. Quanto me alegrava depois, ao ver o Pai assim aplacado e inteiramente misericordioso e amoroso para com meus irmãos! Esta consolação, porém, era muito amargurada ao ver como muitos abusam de tamanha misericórdia e amor, servindo-se destes para mais ofender ao amoroso Pai, pela continuação do seus maus costumes, pecando livremente, quase como se Deus não visse, nem desse importância às ofensas que recebe. No entanto, o Pai é o mesmo que antes, e zeloso por sua honra. E só mitiga os rigores da justiça diante de minhas súplicas. Mas, ai de quem abusa de sua misericórdia! Virá depois, o tempo em que não encontrara mais misericórdia, e sim somente o rigor de justiça. Não o experimentarão mais como Pai amoroso, e sim como juiz severo. Vendo eu que muitos de meus irmãos abusariam da misericórdia e por fim sentiriam o rigor da justiça, tive sumo desprazer e apresentava novas suplicas ao Pai. Este fez-me ver a obstinação deles, e como eles mesmos queriam experimentar os rigores da justiça por perseverarem no mal, e ainda que, por mais que o Pai faça para salva-los, nada adianta, pois querem obstinadamente permanecer no pecado; então eu, todo aflito, ao verificar tal maldade e obstinação, agradecia ao Pai pelas misericórdias que havia empregado para com eles, uma vez que eles neste ponto falham inteiramente. Depois, cheio de confusão e de dor por causa deles, procurava dar ao Pai aquela glória e honra que eles lhe recusam. Louvava-o, bendizia-o e exaltava-a na medida em que eles o desprezam e desonram. O dileto Pai tinha sumo gosto nisto, e muito se comprazia em mim, vendo por meu intermédio reintegradas a sua honra e glória.

AOS DOZE ANOS.

Havendo passado alguns anos na maneira de viver supracitada, e tendo chegado aos meus doze anos, devia a querida Mae com seu es José ir ao Templo, segundo costume e obrigação. Resolveram ir e levar-me também, de acordo com uso, conforme explicarei no capitulo seguinte; Pois minha querida Mãe, aonde ia levava me consigo, sem jamais me deixar. Atingira uma idade na qual não tinha mais necessidade de companhia e de assistência, mas o seu amor nunca lhe permitia deixar-me ou distanciar-se de mim.

EXORTAÇÃO SUA ESPOSA.

Já, esposa minha, entendeste quanto até aquela idade agi no meu íntimo, junto ao Pai em prol do gênero humano. Não te dou outra doutrina, a fim de que nisto possas imitar-me. Segundo requer teu estado e condição, pois são tão claras as obras que te vou manifestando que bem podes apreender e entender como te deves portar no íntimo em relação a meu Pai e a mim, pois sou eu uma mesma coisa com o Pai, e como deves estar sempre orando e, afadigando-te não só por tua salvação, mas também pela do próximo. Embora haja eu feito tudo junto do Pai, contudo apraz-Ihe muito que alguém se afadigue pela salvação do próximo. Este disposto a conceder graças aos que fazem isto em vista de quanto obrei e das súplicas deles. Também muito me alegro por ver que há quem me invite neste exercício tão agradável ao Pai e tão benefício ao próximo. As orações e as súplicas feitas por eles são junto do Pai de grande mérito, por serem obras de caridade interna, onde não estão sujeitas a vanglória, mas tendem todas a uma verdadeira e perfeita caridade, na qual consiste o maior gosto que uma alma pode dar ao Criador. Ele é a própria Caridade. Procura, portanto, imitar-me neste exercício, e além do mérito que terás e do gosto que darás ao Pai e a mim, obterás igualmente muitas graças em prol do próximo. Praticando tão santo exercício, terás grande consolo a hora da morte, por ter gasto tão frutuosamente o tempo a ti concedido. Não terás a pena irremediável, que muitos sofrem naquela hora, de terem gasto mal a tempo, e não terem tratado com seu Deus a respeito da própria salvação eterna e acerca da salvação do próximo.

PARTE 1
12-40
Março 27, 1918
Vivendo no Divino Querer, a alma encontra tudo em modo divino e infinito.

(1) Lamentava-me com Jesus porque nem sequer a santa missa podia ouvir, e Jesus me disse:
(2) "Minha filha, quem forma o sacrifício, não sou eu? Agora, a alma que vive Comigo e em meu
Querer, encontrando-me Eu em cada sacrifício, ela fica como sacrificada junto Comigo, não em
uma missa, senão em todas as missas, e vivendo em meu Querer fica consagrada Comigo em
todas as hóstias. Não saias jamais do meu Querer e Eu te farei chegar onde quiseres; antes,
entre Eu e tu passará tal corrente elétrica de comunicação, que tu não farás nenhum ato sem
Mim, e Eu não farei nenhum ato sem ti. Assim, quando te faltar alguma coisa, entra em minha
Vontade e encontrarás logo o que queres, quantas missas queiras, quantas comunhões
queiras, quanto amor queiras; em minha Vontade nada falta, e não só, senão que encontrarás
as coisas em modo divino e infinito".

12-41
Abril 8, 1918

Diferença entre viver unido com Jesus, e viver no Divino Querer.

(1) Voltando ao ponto de viver no Divino Querer, foi-me dito que é como viver no estado de
união com Deus, e meu sempre amável Jesus ao vir me disse:
(2) "Minha filha, há grande diferença entre viver unido Comigo, e viver no meu Querer".
(3) E enquanto dizia isto, estendeu-me os braços e disse-me:
(4) "Vem no meu Querer nem que seja por um só instante e verás a grande diferença".
(5) Eu me encontrei em Jesus, meu pequeno átomo nadava no Querer Eterno, e como este
Querer Eterno é um ato só que contém todos os atos juntos, passados, presentes e futuros, eu,
estando no Querer Eterno tomava parte naquele ato único que contém todos os atos, quanto a
criatura é possível. Eu tomava parte também nos atos que ainda não existem e que deverão
existir até o fim dos séculos, e até que Deus seja Deus, e também por estes eu o amava,
agradecia, o abençoava, etc., não havia nem um só ato que me escapasse, e agora tomava o
amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, fazia-o meu, como era meu o seu Querer, e dava-o a
eles como meu. Como estava contente por poder dar-lhes o amor deles como meu, e porque
Eles encontravam seu pleno contentamento e seu desabafo completo ao receber de mim seu
amor como meu; mas quem pode dizer tudo? Faltam-me as palavras. Então o bendito Jesus me
disse:
(6) "Viste o que é viver em meu Querer? É desaparecer, é entrar no âmbito da Eternidade; é
penetrar na onividência do Eterno, na mente increada, e tomar parte em tudo quanto a criatura
é possível, e em cada ato divino; é desfrutar ainda estando na terra de todas as qualidades
divinas; é odiar o mal em modo divino; é expandir-se a todos sem esgotar-se, porque a Vontade
que anima esta criatura é Divina; é a santidade ainda não conhecida, que farei conhecer, que
porá o último adorno e o mais belo e o mais resplandecente de todas as outras santidades, e
será coroa e cumprimento de todas elas.
(7) Agora, viver unido Comigo não é desaparecer, se vêem dois seres juntos, e quem não
desaparece não pode entrar no âmbito da eternidade para tomar parte em todos os atos
divinos. Pondera bem e verás a grande diferença".

13-37
Novembro 28, 1921

O mar da Divina Vontade e o barquinho de luz.

(1) Continuando o meu habitual estado, encontrei-me num mar imenso de luz, não se via nem
onde terminava nem onde começava, havia um barquinho, mas formado também ele de luz, de
luz era o fundo do barco, de luz as velas, em suma era todo luz, no entanto, as várias partes
necessárias para formar o barco distinguiam-se entre si pela diversidade da luz, uma mais
resplandecente que a outra; este barquinho navegava este mar de luz com uma velocidade
incrível. Eu fiquei encantada, e muito mais ao ver que o barquinho agora se perdia no mar e não
aparecia mais, agora saía e enquanto estava distante, mergulhando no mar se encontrava no
mesmo ponto onde tinha saído antes. Por isso o meu sempre amável Jesus divertia-se muito ao
ver este barquinho, e chamando-me disse-me:
(2) "Minha filha, o mar que tu vês é a minha Vontade, Ela é luz e ninguém pode navegar este
mar senão quem quer viver de luz. O barco que vê com tanta graça navegar este mar é a alma
que vive em meu Querer; com o seu contínuo viver no meu Querer tem respirado o ar da minha
Vontade e minha Vontade a tem esvaziado da madeira, das velas, da âncora, do mastro e a
converteu toda em luz, assim que a alma, conforme vai fazendo seus atos em meu Querer, se
esvazia de si e se enche de luz. O capitão deste barco sou Eu, Eu o guio de acordo com sua
velocidade, Eu o submerjo para dar-lhe repouso e ter tempo para confiar-lhe os segredos de
meu Querer, nenhum poderia ser hábil em guiá-lo, porque não conhecendo o mar não podem
conhecer o modo como guiá-la, Eu não confiaria em ninguém, mas escolho um guia como
espectador e ouvinte dos grandes prodígios que faz o meu Querer. Quem pode ser hábil para
guiar a carreira em meu Querer? Em troca Eu, em um só instante a faço fazer a corrida que
outro guia a faria em um século".
(3) Depois acrescentou: "Olha como é bela, corre, submerge-se e encontra-se no princípio, é o
âmbito da eternidade que a envolve, sempre presa num ponto só; é a minha Vontade imutável
que a faz correr no seu âmbito que não tem princípio nem fim, que enquanto corre se encontra
naquele ponto fixo de minha imutabilidade. Olha o sol, está fixo, não se move, mas sua luz em
um instante percorre toda a terra, assim este barco, ela é imutável Comigo, não se move
daquele ponto de onde meu Querer a tirou, de um ponto eterno saiu e aí está fixa, e se o vê
correr, são seus atos que correm, que como luz solar correm por toda parte e em qualquer
lugar, esta é a maravilha, correr e estar fixo, assim sou Eu e assim devo fazer a quem vive em
meu Querer, mas queres saber quem é este barco? É a alma que vive em meu Querer, ela
conforme faz seus atos em meu Querer faz suas carreiras, dá a ocasião a minha Vontade de
fazer sair de dentro de seu centro tantos outros atos vitais de graça, de amor, de glória, e Eu,
seu capitão, guio esse ato, corro junto a fim de que seja um ato ao qual nada lhe falte e que
seja digno de meu Querer; nestas coisas Eu me divirto muito, vejo a pequena filha de meu
Querer que junto Comigo corre e está detida, não tem pés mas é o passo de todos, não tem
mãos e é o movimento de todas as obras, não tem olhos e na luz de meu Querer é mais que
olho e luz de tudo. Oh, como imita bem o seu Criador! Como se faz semelhante a Mim! Só em
meu Querer pode haver verdadeira imitação, sinto ressoar em meu ouvido minha voz
dulcíssima e criadora: "Façamos ao homem a nossa imagem e semelhança". E com alegria
interminável exclamo: "Eis as minhas imagens, os direitos da Criação me são dados
novamente, a finalidade para a qual criei o homem está cumprida". Como estou contente, e
chamo a todo o Céu a fazer festa".

14-41
Julho 10, 1922

Viver no Divino Querer é repetir a Vida real de Jesus não somente na alma, mas também no corpo.

(1) Continuando o meu estado habitual, sentia o meu Jesus sempre gentil dentro de mim, mas
tão real, que ora sentia que me apertava tão forte o coração que me fazia sofrer, ora estreitava
os seus braços ao meu pescoço e sufocava-me, ora sentava-se sobre o meu coração, tomando
um ar imperante e de mando, e eu me sentia como aniquilar e logo ressurgir a nova vida sob
seu mandato, mas quem pode dizer o que Ele fazia em meu interior e o que eu sentia? Acho
que é melhor ficar em silencio. Então enquanto sentia sua presença real em meu interior me
dizia:
(2) "Minha filha, eleve-se, eleve-se mais, mas tanto de chegar ao seio da Divindade, entre as
Divinas Pessoas será sua vida. Olha, para te fazer chegar a isto formei minha Vida em ti,
encerrei meu Querer eterno no que tu fazes, e aí corre em modo maravilhoso e
surpreendente; meu Querer está obrante em ti em contínuo ato imediato. Agora, depois de ter
formado a minha vida em ti, com o meu Querer que opera em ti, em teus atos, o teu querer
ficou impregnado, transfundido no meu, de modo que meu Querer tem uma vida sobre a
terra. Agora é necessário que te eleves e leves contigo minha Vida, meu Querer, a fim de que
meu Querer da terra e o do Céu se fundam juntos e tu faças vida por algum tempo no seio da
Divindade, onde teu querer será obrante no meu para poder expandir por quanto a criatura seja
capaz, depois descerás de novo sobre a terra levando a potência, os prodígios de meu Querer,
pelos quais as criaturas serão sacudidas, abrirão os olhos e muitos conhecerão o que significa
viver em meu Querer, viver à semelhança de seu Criador. Isto será o princípio de que meu reino
venha sobre a terra e que meu Querer tenha seu último cumprimento.
(3) Você acha que não tem nada a ver com viver no meu Querer? Não há coisa que o iguale,
nem santidade que o iguale; é a Vida real, não fantástica como algum pode imaginar, e esta
minha Vida está não só na alma, mas também no corpo, mas você sabe como é formada esta
minha Vida? Meu querer eterno é o da alma, e meu bater, pulsando em seu coração forma
minha concepção; seu amor, suas penas e todos seus atos feitos em meu Querer formam
minha Humanidade, e me fazem crescer tanto que não posso me manter escondido, nem ela
pode fazer menos que me sentir. Você não me sente, vivo em seu interior? Por isso te disse
que à santidade do viver em meu Querer não há nada que a iguale, todas as outras santidades
serão as pequenas luzes, e ela será o grande sol transfundido em seu Criador".
(4) Agora, por obedecer e com grande repugnância digo como sinto a Jesus em meu interior:
Sinto-o no lugar de meu coração, quase em modo visível, agora ouço que reza e muitas vezes
o ouço com os ouvidos do corpo, e eu rezo junto com Ele; ora que sofre e me faz sentir seu
respiro entrecortado, afanoso, e o sinto em meu respiro, tanto que estou obrigada a me afanar
junto com Ele, e como nele estão contidas todas as criaturas, sinto seu respiro que como vida
se difunde em todos os movimentos e respiros humanos, e eu me difundo junto com Ele. Ora o
sinto gemer, agonizar; ora o sinto mover os braços e os estende nos meus; ora que dorme,
ficando em meu interior um profundo silêncio; mas quem pode dizer tudo? Só Jesus pode dizer
o que faz em mim, porque eu não tenho palavras suficientes para o manifestar. Eu só fiz isso

49
para obedecer, com o máximo rasgo de minha alma e por temor de que meu Jesus pudesse
desgostar-se, porque Ele me tolera sempre que a obediência não me mande, mas se a
obediência manda, só me resta Fiat, de outra maneira me aniquilaria. Espero que seja tudo
para sua glória e para minha confusão.

+ + + +

14-42
Julho 14, 1922
Deus é levado a gerar seres semelhantes a Ele. Luisa, geradora do Reino da Divina Vontade nos demais.

(1) Encontrando-me em meu habitual estado, meu doce Jesus me transportou para fora de mim
mesma, até o seio do Eterno; mas enquanto nadava naquele seio, sem saber dizer o que sentia
e compreendia, porque me faltam as palavras para expressar-me, meu sempre amável Jesus
me disse:
(2) "Filha amada de nossa Vontade, trouxe-te ao seio de nossa Divindade a fim de que teu
querer se estenda principalmente no nosso e tome parte em nosso modo de agir. Nossa
Divindade é levada naturalmente à geração, não faz outra coisa que gerar continuamente, e
todas as coisas criadas por Nós levam consigo a virtude de gerar: O sol gera a luz em cada
olho humano, em cada obra e passo, parece que se multiplica por cada homem, por cada
planta e por cada ponto da terra, se não tivesse a virtude, a conexão com seu Criador gerador,
o sol jamais poderia dar luz a todos nem estar à disposição de cada um; a flor gera outra flor
toda igual a ela; a semente gera outra semente; o homem gera outro homem; assim que todas
as coisas levam consigo a virtude de seu Criador de gerar, assim que somos levados
naturalmente a gerar e a reproduzir seres semelhantes a Nós, por isso chamei-te no nosso seio,
a fim de que, vivendo conosco, o teu querer, difundindo-se no nosso se amplie, gere juntamente
conosco santidade, luz, amor e multiplicando-se juntamente conosco em todos, gere nos outros
aquilo que recebeu de nós. A única coisa que nos resta fazer a respeito da Criação, é que
nossa Vontade opere na criatura como obra nossa; nosso amor quer fazer sair de nosso seio a
nossa Vontade para colocá-la na criatura, mas vai buscando a quem esteja disposta, quem a
conheça e a aprecia, e gera nela o que gera em Nós. Eis por que tantas graças, tantas
manifestações sobre minha Vontade, é a santidade de meu Querer que o exige, que antes que
seja posta na alma seja conhecida, amada e reverenciada, e que possa desenvolver nela toda a
sua virtude e poder, e seja cortejada por nossas mesmas graças. Assim, tudo o que faço a
você, não é outra coisa que mobiliar e adornar a habitação à minha Vontade, por isso seja
atenta, aqui em nosso seio aprenderás melhor nossos modos e receberás todas as
prerrogativas que convém aos desígnios que temos formado sobre ti".

 

+ + + +

14-43
Julho 16, 1922

Para reinar, a Santidade de viver no Divino Querer deve ser conhecida.

(1) Havendo-me dito o confessor que devia fazer copiar de meus escritos o que sobre as
diversas virtudes o bendito Jesus me fez escrever, sentia em mim uma pena, um martírio por
fazer sair o que Jesus me tinha dito; então, ao vir o bendito Jesus lhe disse: "Meu amor, só para
mim este martírio, que eu mesma deva ser instrumento para fazer sair o que Você me
manifestou, muito mais porque, devendo fazer sair o que me disse, vejo-me obrigada em certas
coisas a pôr-me fora também a mim mesma. Meu Jesus, que martírio, no entanto, embora com
grande dor de minha alma estou obrigada a obedecer. Dá-me a força, ajuda-me, só para mim
isto; disseste tantas coisas a outros, fizeste-lhes tantas graças e ninguém soube nada, e
embora depois da sua morte se tenha conhecido alguma coisa, o resto ficou tudo sepultado
com eles, só a mim me toca este martírio". E Jesus me disse toda bondade:
(2) "Minha filha, coragem, não te abatas demasiado, Eu estarei contigo também nisto. Ante meu
Querer o teu deve desaparecer, e além disso é a santidade de meu Querer que quer ser
conhecida, esta é a causa. A santidade de viver em meu Querer não tem caminho, nem portas,
nem chaves, nem quartos, invade tudo, é como o ar que se respira, que todos devem e podem
respirá-lo, basta que o queiram e que façam de lado o querer humano, Querer Divino se fará
respirar pela alma e lhe dará a vida, os efeitos, o valor da Vida de meu Querer, e se não é
conhecido, como poderão amar e querer um viver tão santo, que é a maior glória que a criatura
pode me dar? A santidade das outras virtudes é bastante conhecida em toda a Igreja, e quem
quer pode copiá-la, por isso não tenho pressa em multiplicar seu conhecimento; mas a
santidade de viver em meu Querer, os efeitos, o valor que contém, a última pincelada que dará
minha mão criadora à criatura para torná-la semelhante a Mim, ainda não é conhecida, eis por
que toda minha pressa de que se publique tudo o que te tenho dito, e se isto não fizesse viria
como a restringir meu Querer, a aprisionar em Mim as chamas que me devoram, e a fazer-me
retardar a completa glória que me deve a Criação. Só quero que as coisas saiam ordenadas,
porque uma palavra que falte, um nexo, uma conexão, um período truncado, em vez de dar luz
lançará trevas, e em vez de fazer que me dêem glória e amor, as criaturas ficarão indiferentes,
por isso seja atenta, o que eu disse Eu quero que saia inteiro".
(3) E eu: "Mas para pôr a tua parte inteira, sou obrigada a pôr parte da minha."
(4) E Jesus: "E com isto que queres dizer? Se o caminho foi feito juntos, queres que saia só eu?
Além disso, a quem devo apontar e dar como exemplo para imitar, se aquela a quem ensinei e
tem a prática do modo de viver em meu Querer não quer ser conhecida? Minha filha, isto é absurdo".
(5) "Ah! Jesus, em que labirinto me pões, sinto-me morrer. Espero que o teu Fiat me dê a
força".
(6) "É por isso que tira o teu amor, e o meu Fiat fará tudo".

20-42
Dezembro 27, 1926

Quem não faz a Vontade Divina é como se quisesse rasgar a luz e formar as trevas. O
verdadeiro bem deve ter seu princípio em Deus. Quem vive no Supremo Querer recebe em si
o equilíbrio d’Ele e encontra-se em toda a Criação a fazer vida junto com Ele.

(1) Enquanto minha mente nadava no Sol do Eterno Querer, meu amado Jesus me disse:
(2) "Minha filha, a afronta que faz a criatura ao não fazer minha Vontade é grande. Ela é mais que
luz solar, invade a todos e tudo, não podem fugir d‟Ela, de sua luz interminável! Agora, a criatura
com a sua vontade quer rasgar esta luz e nela forma as trevas, mas a minha se levanta e faz seu
curso de luz deixando a criatura nas trevas de sua vontade. Não se diria louco e que faria um
grande mal a quem rasgasse a luz do sol e se formasse uma longa noite? Pobrezinho, morreria de

frio não recebendo mais o calor da luz do sol, morreria de tédio não podendo mais operar faltando-
lhe o bem da luz, morreria de fome não tendo nem luz nem calor para fazer crescer as plantas e

fecundar seu pequeno terreno coberto pelas trevas de sua vontade, dir-se-ia dele: Melhor que
jamais houvesse nascido um ser tão infeliz! Tudo isto acontece à alma que faz a sua vontade, por
isso o mal que é mais deplorável é não fazer a minha Vontade, porque tirada Ela morre de frio para
todos os bens celestiais, morre de tédio, de cansaço, de debilidade, porque falta a minha Vontade
que faz surgir a alegria, a força e a vida do agir Divino, morre de fome porque falta a sua luz que
faz crescer as plantas e fecundar o pequeno terreno da alma, para formar o alimento pelo qual
deve viver. As criaturas acreditam que não é um grande mal não fazer a minha Vontade, enquanto
isso encerra todos os males juntos".
(3) Depois disso ele adicionou: "Minha filha, todo bem, para ser verdadeiro bem, deve ter seu
princípio em Deus, assim que o amor, o fazer o bem, o sofrer, o heroísmo daqueles que se dão até
a morte para alcançar uma meta, o estudo das ciências sagradas e profanas, em suma, tudo o que
não tem princípio em Deus, enche a criatura, a esvazia de graça, e todos estes bens que não têm
princípio em Deus, que começam com princípio humano, são como obras levadas pelo vento
impetuoso, que com sua força reduz a pó cidades, vilas, coisas suntuosas e delas faz um montão
de ruínas. Quantas vezes um vento impetuoso destrói, lança por terra as obras mais belas de arte,
de engenho, fazendo-se com essas obras tão elogiadas e admiradas, com sua ira, um jogo?
Quantas vezes o vento impetuoso da própria estima, da própria glória, o vento furioso de agradar
às criaturas, derrubam as obras mais belas, e Eu sinto a náusea desse mesmo bem? Por isso não
há remédio mais eficaz, mais apropriado, que mais previne, que impede o furor destes ventos na
alma, que a força, o eclipse da luz da minha Vontade. Onde está esta força, este eclipse de luz
divina, estes ventos vêm impedidos de soprar, e a criatura vive sob o influxo vital de uma Vontade
Divina, de modo que se vê em todos seus atos, pequenos e grandes, o selo do Fiat, assim que seu
movimento é: „O quer Deus, eu o quero, e se não quiser, eu também não quero.‟ Além disso minha
Vontade mantém o equilíbrio perfeito em toda a Criação, mantém o equilíbrio do amor, da bondade,
da misericórdia, da fortaleza, da potência e até da justiça, por isso quando ouves de flagelos e
desgraças, não é outra coisa que efeito de minha Vontade equilibrada, que, como ama a criatura
não está sujeita a desequilibrar-se, de outra forma seria defeituosa e fraca se perdesse o seu
equilíbrio. Porque aqui está toda a ordem e santidade d‟Ela: No seu perfeito equilíbrio, sempre
igual, sem jamais mudar.

(4) Agora minha filha, primogênita de meu Querer, escuta uma coisa bela sobre meu Fiat Supremo,
a alma que vive n‟Ele e o faz reinar para fazê-lo formar seu reino, minha Vontade, bilocando-se,
transfere nela seu perfeito equilíbrio. Assim, a alma sente-se equilibrada no amor, na bondade, na
misericórdia, na força, poder e justiça. E como a Criação é vastíssima, onde meu Querer exercita
em cada uma das coisas seu ato distinto de equilíbrio, agora a alma possuindo este seu equilíbrio,
minha Vontade a eleva, a engrandece tanto, de lhe fazer encontrar em todos seus atos o equilíbrio
de uma e da outra, as unificam e as tornam inseparáveis; então a criatura se encontra ao sol para
fazer os atos equilibrados que meu Querer faz nele, encontra-se no mar, no céu, na flor que se
abre para exalar junto com seu perfume; no passarinho que canta para alegrar toda a Criação com
o equilíbrio da alegria; encontra-se no furor do vento, da água, das tempestades pelo equilíbrio da
justiça; em suma, a minha Vontade não sabe estar sem esta criatura, são inseparáveis e fazem

vida juntas. E parece-te pouco que a alma possa dizer: „Eu estou estendida no céu para conservá-
lo para o bem de meus irmãos, estou no sol para fazer germinar, para fecundar, dar luz e preparar

o alimento a todo o gênero humano', e assim em todo o resto? Quem pode dizer: „Amo o meu Deus
como se ama a Si mesmo e amo a todos e faço todo o bem que faz o meu Criador a toda a família
humana'? Só quem recebe este equilíbrio do Fiat Divino e o faz reinar nela".

21-8
Março 19, 1927

Como quem não cumpre sua missão na terra a cumprirá no Céu. Como a missão do Fiat será longuíssima. Ordem da Sabedoria Infinita.

(1) Estava preocupada com a saúde do reverendo padre Di Francia, as cartas que me tinham
chegado dele eram quase alarmantes, pensava no destino dos meus escritos que tanto interesse
tinha tido de levá-los todos, Onde iriam parar se Nosso Senhor o levasse consigo para a pátria
celestial? E além disso, sua missão para a publicação dos conhecimentos sobre o Fiat ficaria sem
fruto, porque se pode dizer que nada fez ainda, no máximo se pode dizer o início, a vontade que
tem de fazer a publicação, mas para fazer sair uma obra tão extensa, Quem sabe quanto tempo
levará? E como para o pai, se no belo princípio Jesus o leva, será uma missão sem fruto, e assim
será também para mim se for afortunada de ir à minha Pátria, qual será o fruto da minha missão,
de ter-me sacrificado tanto, de estar a escrever todas as noites? E também os muitos interesses de
Jesus ficariam sem fruto, porque um bem, disse Ele mesmo, só produz o seu fruto quando é
conhecido, então, se não serão conhecidos, ficarão como frutos escondidos, sem que ninguém
receba o bem que contêm. Agora, enquanto pensava nisto, o meu doce Jesus mexeu-se dentro de
mim e disse-me:
(2) "Minha filha, quem teve uma missão e apenas a iniciou, ou não a desenvolveu de todo, e no
melhor mo levo ao Céu, continuará desde lá de cima sua missão, porque levará no fundo de sua
alma o depósito do bem, dos conhecimentos que adquiriu em vida e no Céu os compreenderá com
mais clareza, e compreendendo o grande bem destes conhecimentos do Fiat Supremo, rogará ele
e fará rogar a todo o Céu para que se conheçam na terra, e conseguirá luz mais clara a quem
deverá encarregar-se. Muito mais que cada conhecimento sobre minha Vontade lhe dará uma
glória de mais, uma felicidade maior, e à medida que se conhecerem na terra será duplicado na
glória e na felicidade, porque será o cumprimento da sua missão, que tinha em sua vontade fazer,
e é justo que, à medida que se desenvolve na terra, receba o fruto da sua missão, por isso lhe dizia
que o fizesse rapidamente, o impelia tanto a que não perdesse o tempo, Porque eu queria que ele
não só tivesse o início da sua missão, mas que se aprofundasse em grande parte na publicação
dos conhecimentos do eterno Fiat, a fim de que não fizesse tudo do Céu. Em vez disso, quem
cumpre sua missão na terra pode dizer: Minha missão terminou. 'Mas quem não a cumpriu deve
continuar do Céu. Para você, sua missão é longa, não poderás cumpri-la na terra, até que todos os
conhecimentos não sejam conhecidos e o Reino de minha Vontade não seja estabelecido sobre a
terra, tua missão jamais poderá dizer-se terminada, no Céu terás muito que fazer, Minha Vontade
que te teve na terra ocupada para seu Reino, não te deixará sem trabalhar junto com Ela no Céu,
te terá sempre em sua companhia. Então não farás outra coisa senão descer e subir do Céu à terra
para ajudar e estabelecer com decoro, honra e glória o meu reino. Isto te será de grande
complacência, felicidade e suma glória, ao ver sua pequenez, que unida com meu Querer tem
transportado o Céu à terra e a terra ao Céu, alegria maior não poderias receber, muito mais porque
verás a glória de teu Criador completada por parte das criaturas, a ordem restabelecida, toda a
Criação com seu pleno esplendor, ao homem, nossa querida joia em seu posto de honra. O que
não será nosso e seu sumo contentamento, a suma glória e a felicidade sem fim ao ver a finalidade
da Criação realizada? Além disso, a ti te daremos o nome de redentora de nossa Vontade,
constituindo-te mãe de todos os filhos de nosso Fiat, não está contente?"
(3) Depois disto estava seguindo os atos da Divina Vontade, e não encontrando a meu doce Jesus
pensava entre mim que não me amava como antes, porque antes parecia que não sabia estar sem
mim, não fazia outra coisa que ir e vir, agora me deixa sozinha sem Ele ainda dias inteiros; antes
frequentemente me levava ao Céu e me fazia voltar à terra com grande dor minha, agora tudo
terminou. Mas enquanto isso pensava, movendo-se em meu interior me disse:
(4) "Minha filha, tu me ofendes ao pensar que não te quero como antes, isto não é outra coisa que
a ordem de minha infinita sabedoria. Tu deves saber que também a minha inseparável Mãe, em
sua tenra idade, estava mais no Céu que na terra porque devia tomar de nós os mares de graça,
de amor, de luz, para formar nela o seu céu onde o Verbo Eterno devia conceber-se e ter o seu
quarto. Por isso quando este céu foi formado na Soberana Rainha, não foi mais necessário que
fosse frequentemente à Pátria Celestial, pois já tinha nela o que estava no Céu. Assim fiz com
você, o que era necessário antes não é necessário hoje, e além disso, o que é mais? Possuir-me
dentro do fundo da alma, sob o belo céu da minha Vontade formada em ti, ou então visitar
frequentemente a Pátria Celestial? Creio que é mais possuí-lo, por isso tudo o que fiz antes em ti,
por tantos anos, não foi outra coisa que formar meu céu em ti; depois de formado é justo que o
desfrute, e deves gozar também junto Comigo que teu Jesus tem seu céu em tua alma".

+ + + +

21-9
Março 22, 1927

Como quem vive no Querer Divino vive no eco da voz de Jesus. Efeitos de quando surge o Sol da Divina Vontade na alma.

(1) Continuando meu habitual estado, estava seguindo o Querer Divino na Criação, e passando de
uma coisa criada a outra, chamava a minha doce Vida, a meu amado Jesus, que viesse junto
comigo a seguir os atos de sua Vontade em todas as coisas criadas, e não vindo, sentia o prego de
sua privação que me trespassava e em minha dor lhe dizia: "Meu Jesus, eu não sei o que fazer
para reencontrar-te, faço-te chamar pela tua justiça no mar, pela tua potência nas suas ondas
fragorosas e Tu não me ouves, faço-te chamar pela tua luz no sol, pela intensidade do seu calor
que simboliza o teu amor e não vens, faço-te chamar pela tua imensidade, em todas as tuas obras,
na vastidão da abóbada do céu e parece que não é a Ti que chamo. Mas diz-me pelo menos como
posso encontrar-te. Se não te encontro no meio de tuas obras, em tua mesma Vontade, que são
teus confins, onde poderei encontrar minha vida?" Mas enquanto desafogava minha dor se moveu
dentro de mim dizendo-me:
(2) "Como é bela minha filha, como é bonito ver sua pequenez como perdida em minha Vontade
buscar-me no meio de minhas obras e não encontrar-me".
(3) E eu: "Jesus meu, Tu me fazes morrer, diz-me, onde te escondes?"
(4) E Jesus: "Escondo-me em ti; olha, se tu ouves a voz de uma pessoa, dizes que ouvir a sua voz
é que já está perto de ti; agora, a minha Vontade é o eco da minha voz, se tu estás nela e giras por
todas as obras do meu Fiat, já estás no eco da minha voz, e estando nela estou junto a ti, ou bem
dentro de ti, que com o meu fôlego te dou o voo para girar até onde chega a minha voz e até onde
o meu Fiat se estende".
(5) E eu, surpreendida, disse: "Meu amor, assim que tua voz se faz grande e longa porque tua
Vontade não há ponto onde não se encontre".
(6) E Jesus acrescentou: "Minha filha, não há vontade, nem voz se não está a pessoa que a emite,
e assim como minha Vontade se encontra por toda parte, assim não há ponto onde não chegue
minha voz que leva meu Fiat a todas as coisas, por isso se encontra em minha Vontade no meio de
suas obras, pode estar mais que segura de que seu Jesus está contigo".
(7) Depois de tudo isto estava pensando no grande bem que nos traz a Divina Vontade, e enquanto
estava toda imersa nela, meu doce Jesus acrescentou:

(8) "Minha filha, assim como o sol, que quando surge faz fugir as trevas e faz surgir a luz, muda a
umidade da noite da qual as plantas foram investidas, de modo que jaziam oprimidas, adormecidas
e melancólicas, e assim que surge o sol muda essa umidade em pérolas, embelezando tudo,
plantas, flores e sobre toda a natureza sua luz, como voz agradável dá de novo a alegria, a beleza,
tira o entorpecimento da noite e com seu encanto de luz parece que dá a mão a toda a natureza
para vivificá-la, embelezá-la e dar-lhe a vida. O mar, os rios, as fontes, dão medo na noite, mas
assim que surge o sol, os raios solares fazem fugir esse temor e investindo-os até o fundo forma
neles um fundo de ouro e de prata, cristaliza às águas e delas forma o encanto mais belo; assim
que toda a natureza ressurge por meio do sol, se não fosse pelo sol se poderia chamar obra sem
vida. Mais que sol é minha Vontade, assim que surge na alma a veste de luz, todos seus atos são
embelezados com luz divina, de modo que se convertem em mais que fulgidíssimos brilhantes e
em adornos preciosos, enquanto que antes que surgisse o Sol de meu Querer eram como o
orvalho noturno, que oprime as plantas e não lhes dá nenhum corante de beleza, em vez disso, ao
surgir o sol aquele orvalho forma o mais belo ornamento a todas as plantas e dá a cada uma a sua
tinta de beleza e faz ressaltar a diversidade e vivacidade das cores. Assim, assim que surge meu
Querer, todos os atos humanos ficam revestidos de luz, tomam seu lugar de honra em minha
Vontade, cada um recebe seu especial corante de beleza e a vivacidade das cores divinas, de
modo que a alma fica transfigurada e coberta de uma beleza indescritível. Conforme surge o Sol de
meu Querer põe em fuga todos os males da alma, tira o torpor que produziram as paixões, antes
ante a luz do Fiat Divino as mesmas paixões beijam aquela luz e ambicionam converter-se em
virtudes para fazer homenagem a meu eterno Querer; enquanto Ele surge tudo é alegria, e as
mesmas penas que, como mares à noite dão medo às pobres criaturas, se surgir o meu Querer
põe em fuga a noite da vontade humana e tirando todo o temor forma o seu fundo de ouro
naquelas penas e com a sua luz investe as águas amargas das penas e cristaliza-as em mares de
doçura, de modo a formar um horizonte encantador e admirável, O que meu Querer não pode
fazer? Tudo pode fazer e tudo pode dar, e onde surge faz coisas dignas de nossas mãos
criadoras".



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