ESCOLA DA DIVINA VONTADE - TRIGÉSIMA QUINTA SEMANA DE ESTUDOS

 PARTE 1PARTE 2

-LIVRO DO CEU VOL. 1 - RENOVAÇÃO DO CASAMENTO MÍSTICO NO CÉU

(233) Quem pode dizer o que me ficou depois deste falar de Jesus? Só digo que se acendeu em
mim tal desejo de sofrer, e não só desejo, senão que sinto em mim como uma infusão, como uma
coisa natural, tanto, que tenho para mim como a maior desgraça o não sofrer. Depois disso,
naquela manhã, Jesus, para dispor principalmente meu coração, falou sobre a aniquilação de mim
mesma, também me falou sobre o desejo grandíssimo que devia me excitar para me dispor a
receber a graça. Dizia-me que o desejo supre as faltas e imperfeições que possam existir na alma,
que é como um manto que cobre tudo. Mas isto não era um falar simplesmente, era um infundir em
mim o que dizia.
(234) Enquanto minha alma estava se excitando em ardentes desejos de receber a graça que o
próprio Jesus queria fazer-me, Ele voltou e transportou-me para fora de mim mesma, para o
paraíso, e ali, diante da presença da Santíssima Trindade e de toda a corte celestial renovou o
matrimonio. Jesus tirou o anel adornado com três pedras preciosas, branca, vermelha e verde e o
entregou ao Pai que o abençoou e o devolveu ao Filho, o Espírito Santo me tomou a mão direita e
Jesus me pôs o anel no dedo anular. Depois fui admitida ao beijo da Três Divinas Pessoas e me
abençoaram.
(235) Quem pode dizer minha confusão quando me encontrei diante da Santíssima Trindade? Só
digo que assim que me encontrei ante sua presença caí rosto em terra e ali haveria permanecido
se não tivesse sido por Jesus que me animou para ir a sua presença, tanta era a luz, a Santidade
de Deus. Só digo isto, as outras coisas deixo-as porque as recordo confusamente.
(236) Depois disto, recordo que passaram poucos dias, e ao receber a Comunhão perdi os
sentidos e vi a Santíssima Trindade que tinha visto no Céu presente diante de mim, logo me
prostrei ante sua presença, a adorei, confessei meu nada. Lembro-me que me sentia tão abismada
em mim mesma que não me atrevia a dizer uma só palavra, quando uma voz saiu do meio deles e
disse:
(237) "Não temas, dá-te ânimo, viemos para te confirmar como nossa e tomar posse do teu
coração".

2-36
Junho 16, 1899

Obtém que Jesus perdoe em parte a sua cidade.

(1) Jesus continua fazendo-se ver que quer castigar. Eu lhe roguei que derramasse em mim
suas amarguras para livrar a todos, e se isto não fosse possível, ao menos aqueles que me
pertencem e a minha cidade. A esta intenção parecia que se unia também a intenção do
confessor, assim parecia que Jesus, vencido pelas orações, derramou um pouco de sua boca,
mas não aquela taça descrita antes. Este pouco que derramou, parecia que o fazia para livrar
em algum modo a minha cidade, mas não de todo, e aqueles que me pertencem.
(2) Todavia esta manhã eu fui causa de fazer afligir a Jesus, pois como depois de haver
derramado o tenho visto mais tranqüilo, sem pensar lhe disse: "Meu bom Jesus, peço-Te que
me libertes do incômodo que dou ao confessor, de o fazer vir todos os dias, que te custa a Ti
libertar-me, que Tu mesmo me ponhas nos sofrimentos e Tu mesmo me libertes? Certamente
que não te custa nada e se queres tudo podes". Enquanto lhe dizia isto, Jesus punha um rosto
tão aflito, que essa aflição me sentia penetrar até o íntimo de meu coração e sem me dizer
palavra desapareceu. como fiquei mortificada ao pensar especialmente que não viria mais,
sabe-o só o Senhor, mas pouco depois voltou, mas com maior aflição, trazendo um rosto todo
inchado e cheio de sangue, porque naquele momento lhe tinham feito aquelas ofensas, Jesus
todo triste disse:
(3) . "Vês o que me fizeram, como dizes que não queres que castigue as criaturas? Os castigos
são necessários para humilhá-las e não deixá-las orgulhar-se mais".

3-36
Fevereiro 12, 1900

Os defeitos voluntários formam nuvens.

(1) Encontrando-me num estado de abandono por parte de meu adorável Jesus, a meu pobre
coração sentia-o, pela dor, espremer como sob uma imprensa. ¡ Meu Deus, que pena! Enquanto
me encontrava neste estado, quase como sombra vi o meu amado Bem, mas não claramente, só vi
claramente uma mão que me parecia que levava uma lâmpada acesa, e molhava o dedo no óleo
da lâmpada e ungia-me a parte do coração, exacerbada pela dor da sua privação. Neste momento
ouvi uma voz que dizia:
(2) "A verdade é luz, que levou o Verbo à terra. Assim como o sol ilumina, vivifica e fecunda a terra,
assim a luz da verdade dá vida, luz, e torna fecundas de virtude as almas. Ainda que muitas
nuvens, que são as iniqüidades dos homens, ofuscam esta luz de verdade, mas apesar disso não
deixa, desde detrás das nuvens, de mandar flashes de luz vivificante, e assim aquecer as almas, e
se estas nuvens são nuvens de imperfeições e de defeitos involuntários, esta luz, rasgando-as com
o seu calor as dissipa e livremente se introduz na alma".
(3) Então compreendia que a alma deve estar atenta a não cair na sombra do defeito voluntário,
porque estes são aquelas nuvens perigosas que impedem a entrada à luz divina.

4-40
Dezembro 23, 1900

Diante da Santidade da Divina Vontade, as paixões não ousam apresentar-se, e perdem por si mesmas a vida.

(1) Depois de ter passado longos dias de silêncio entre o bendito Jesus e eu, senti um vazio dentro
de mim; e esta manhã ao vir disse-me:
(2) "Amada minha, o que queres dizer-me que tanto desejas falar Comigo?"
(3) E eu a envergonhar-me Eu disse: "Meu doce Jesus, quero dizer-te que anseio ardentemente|
por te amar a Ti e ao teu Santo Querer, e se isto me concedes me farás totalmente feliz". E Ele
agregou:
(4) "Tu em uma palavra tens agarrado tudo, pedindo-me o maior que há no Céu e na terra, e Eu,
neste Santo Querer desejo e quero principalmente te conformar, e para fazer que te seja mais doce
e agradável meu Querer, põe-te no círculo da minha Vontade e observa nela as suas diversas
virtudes e qualidades, detendo-te agora na Santidade do meu Querer, agora na bondade, agora na
humildade, agora na beleza, agora na pacífica morada que produz o meu Querer, e nestas paradas
que fizer adquirirá sempre mais novas e inauditas notícias de meu Santo Querer, e por isso ficará
tão atada e apaixonada, que não sairá nunca mais Dele, e isto te trará um grande proveito, porque
estando Tu na Minha Vontade não terás necessidade de combater com tuas paixões e de estar
sempre em armas contra elas, pois enquanto parece que morrem renascem novamente mais fortes
e vivas, senão que sem combater, sem estrondo, docemente morrem, porque diante da Santidade
da minha Vontade as paixões não se atrevem a apresentar-se, e perdem por si mesmas a vida, e
se a alma sente os movimentos das suas paixões, é sinal que não faz morada contínua nos confins
do meu Querer, que faz suas saídas, suas escapadinhas a seu próprio querer, e está obrigada a
sentir a peste da natureza corrupta. Enquanto que se estiver fixa em minha Vontade, estará livre de
tudo e sua única ocupação será me amar e ser amada por Mim".
(5) Depois disto, olhando para o bendito Jesus, vi que tinha a coroa de espinhos e a tirei pouco a
pouco e a coloquei sobre a minha cabeça, e Ele me encaixou e desapareceu, e eu me encontrei
em mim mesma, com um desejo ardente de estar sempre em sua Santíssima Vontade.

6-36
Abril 26, 1904

O hábito não faz o monge.

(1) Esta manhã, encontrando-me fora de mim mesma encontrei-me com o menino Jesus nos
braços, rodeada de várias pessoas devotas, sacerdotes, muitos dos quais estavam atentos à
vaidade, ao luxo e à moda, e parecia que diziam entre eles aquele ditado antigo O hábito não faz o
monge". E o bendito Jesus me disse:
(2) "Amada minha, oh! como me sinto desiludido pela glória que a criatura me deve, e que com
tanta desfaçatez me nega, e até pelas pessoas que se dizem devotas".
(3) Eu ao ouvir isto disse: "Querido do meu coração, recitemos três Glória ao Pai pondo a intenção
de dar toda a glória que a criatura deve à vossa Divindade, assim receberá pelo menos uma
reparação".
(4) E ele: "Sim, sim, recitemos".
(5) E recitámo-las juntos, depois recitámos uma Ave Maria, pondo também a intenção de dar à
Rainha Mãe toda a glória que lhe devem as criaturas. Oh! como era belo rezar com o bendito
Jesus, encontrava-me tão bem que continuei: "Meu amado, como gostaria de fazer a profissão de
fé nas tuas mãos ao recitar juntamente contigo o Credo".
(6) E Ele: "O Credo o recitarás sozinha, porque a ti te corresponde, não a Mim, e o dirás a nome de
todas as criaturas para me dar mais glória e honra".
(7) Então eu pus as minhas mãos nas suas e recitei o Credo, depois disto o bendito Jesus me
disse:
(8) "Minha filha, parece que me sinto mais aliviado e afastada aquela nuvem negra da ingratidão
humana, especialmente das devotas. ¡ Ah! minha filha, a ação externa tem tanta força de penetrar
no interior, que forma um vestido material à alma, e quando o toque divino a toca, não o sentem
vivo, porque têm a vestidura lamacenta revestindo a alma, e não sentindo a vivacidade da graça, a
graça, ou é rejeitada ou fica infrutífera. Oh! como é difícil gozar os prazeres, vestir-se de luxo
externamente, e desprezá-los internamente, acontece o contrário, isto é, amar no interior e gozar
do que externamente nos rodeia. Minha filha, considera tu mesma qual não é a dor de meu
coração nestes tempos, ver minha graça rejeitada por todo tipo de gente, enquanto todo meu
consolo é o socorrer às criaturas, e toda a vida das criaturas é a ajuda divina, e as criaturas
rejeitam o meu socorro e a minha ajuda. Entra tu a tomar parte de minha dor e compadece minhas
amarguras".
(9) Dito isto desapareceu, ficando toda afligida pelas penas de meu adorável Jesus.

7-38
Agosto 11, 1906

Jesus diz-lhe que a cruz é um tesouro.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, via a minha adorável Jesus com uma cruz na mão,
toda cheia de pérolas brancas, e fazendo-me dom dela, apoiava-a sobre o meu peito, a cruz
internou-se dentro do meu coração, como dentro de uma permanência, e disse-me:
(2) "Minha filha, a cruz é um tesouro, e o lugar mais seguro para pôr a salvo este precioso
tesouro é a própria alma; ou seja, é lugar seguro quando a alma está disposta com a paciência,
com a resignação, e com as outras virtudes a receber este tesouro, porque as virtudes são
tantas chaves que o guardam para não desperdiçá-lo e expô-lo aos ladrões, mas se não tem,
especial a chave dourada da paciência, este tesouro encontrará tantos ladrões que o roubarão e
farão desperdício dele".

9-39
Agosto 3, 1910

O pecado voluntário decompõe os humores na alma.

(1) Encontrando-me não meu estado habitual, assim que Jesus me disse:
(2) "Escuta, minha Ilha, as misérias, as fraquezas, são meios para encontrar-se não porto da
Divindade, porque a alma sentindo o fardo das misérias humanas, aborrece-se, si enfastia e
procura desembaraçar-se de si, e desembaraçando de si já se encontra em Deus".
3) Depois de ter posto o meu braço à volta do seu pescoço, estreitava-me e rosto e desapareceu.
Depois, ao retornar eu voltei a lamentar-me porque fugia como um relâmpago, e sem dar-me tempo
me disse:
(4) "Já que te desagrada, aceita-me, experimenta-me como queiras e não me deixes fugir".
(5) E eu: "Bravo, bravo Jesus, que bela proposta me fazes, mas contigo se pode fazer isto?
Enquanto te deixas atar, estreitar-te por quanto mais se pode, no melhor desapareces e não te
deixas encontrar mais, bravo por Jesus que quer zombar de mim; mas do resto faz o que Tu
queiras, o que me importa é que me digas em que te ofendo, em que coisa te desagradei que já
não vens como antes".
(6) E Jesus acrescentou: "Minha filha, não te esforces, quando há verdadeira culpa não é
necessário que o diga Eu, a alma por si só o adverte, porque o pecado, quando é voluntário,
transtorna os humores naturais, e o homem recebe como uma transformação no mal, sente como
uma impregnação da culpa que voluntariamente é cometida, bem como também a verdadeira
virtude transforma a alma no bem e os humores ficam todos combinados entre eles, a natureza
sente como impregnar-se de doçura, de caridade, de paz; assim é o pecado. Então, já alguma vez
notaste esta confusão? Sentiste-te como se estivesse impregnada de impaciência, de ira, de
distúrbios?"
(7) E enquanto dizia isto, parecia que me olhava até muito fundo para ver se algo disso havia em
mim, e parecia que não havia nada, e continuou:
(8) "Viste tu mesma?"
9) E não sei por que, mas enquanto dizia isso me fazia ver terremotos com destruição de cidades
inteiras, revoluções, e tantas outras desgraças, e desapareceu.

 



37. Primeira lição de trabalho dada a Jesus, que não saiu da regra da idade.
21 de março de 1944.

37.1 Vejo aparecer, como um doce raio de sol em um dia de chuva, o meu
Jesus, pequeno menino beirando os seus cinco anos, todo loiro e bonito, na
sua simples vestezinha azul-clara que lhe desce até o meio da barriga da
perna.
Ele está brincando com terra na horta. Está fazendo montinhos e, em
cima deles, vai fincando raminhos, como se estivesse formando bosques em
miniatura. Com pedrinhas faz pequenas estradas, e depois queria fazer um
pequeno lago, aos pés de suas minúsculas colinas, e, para isso, pega o fundo
de uma vasilha velha e o enterra até a beira, depois o enche d’água com um
jarro que ele mergulha em um tanque, certamente usado como lavatório ou
para regar a pequena horta. Mas não consegue nada mais do que molhar toda
a roupa, especialmente as mangas. A água escapa da vasilha, que está toda
esburacada… e o lago continua seco.
José aparece à porta e, em silêncio, fica a olhar, por algum tempo, a
trabalheira do Menino, e sorri. De fato, é um espetáculo que faz sorrir de
alegria. Depois, para que Jesus não continue a se molhar, ele o chama. Jesus
se vira sorrindo e, vendo José, corre para ele com os bracinhos estendidos.
José, com a ponta de sua veste de trabalho enxuga as pequenas mãos
molhadas e cheias de terra, e as beija. E um doce diálogo se inicia entre os
dois.
Jesus explica o seu trabalho e o seu brinquedo, e as dificuldades que
encontrou para executá-los. Ele queria fazer um lago, como aquele de
Genezaré (Deste eu suponho que lhe haviam falado, ou que o tinham já
levado até lá). Ele queria fazer aquele lago em miniatura para seu
divertimento. Aqui, neste ponto era Tiberíades, ali Magdala, lá adiante
Cafarnaum. Esta era a estrada que, passando por Caná, ia para Nazaré. Ele
queria lançar pequenos barcos no lago — estas folhas são os barcos — e
passar para a outra margem. Mas a água está escapando…
José observa, e se interessa, como se fosse uma coisa séria. Depois ele
se propõe a fazer, no dia seguinte, um pequeno lago, não com aquela vasilha
furada, mas com um pequeno tanque de madeira, bem calafetado com breu,
sobre o qual Jesus poderia lançar verdadeiros barquinhos de madeira que
José o ensinaria a fazer. 37.2Agora mesmo ele já estava trazendo pequenas
ferramentas de trabalho, apropriadas para Jesus, a fim de que Ele pudesse
aprender a usá-las, sem se cansar muito.
– Assim eu te ajudarei! –diz Jesus, com um sorriso.
– Sim, vais me ajudar, e depois te tornarás um bom carpinteiro. Vem vêlas!
E entram na oficina. José lhe mostra um pequeno martelo, uma serrinha,
pequenas chaves de fenda, uma plaina de boneca, tudo colocado sobre um
banco de carpinteiro na relva: um banco adaptado à altura do pequeno Jesus.
– Olha: para serrar, coloca-se esta madeira apoiada assim. Pega-se
depois a serra assim, e prestando atenção para não ir com ela sobre os
dedos, se serra. Experimenta…
E a lição começa. Jesus tornando-se vermelho, pelo esforço feito, e
apertando os lábios, vai serrando com atenção e, depois, alisa a pequena
tábua com a plaina e, ainda que tenha ficado um pouco torta, parece-lhe
bonita, e José o elogia, e o ensina a trabalhar com paciência e amor.

37.3Maria retorna, pois certamente estava fora, e ao chegar à porta
olha. Os dois não a vêem, porque estão de costas. A mamãe sorri, ao ver
o cuidado com que Jesus trabalha com a plaina, e o afeto com que José o
ensina.
Mas Jesus deve estar sentindo aquele sorriso. Ele se vira, vê a mamãe, e
corre para ela com a sua tabuinha semi-aplainada, e lhe mostra. Maria fica
admirada, e se inclina para beijar Jesus. Ela compõe os cachinhos do cabelo
desalinhado, enxuga-lhe o suor do rosto afogueado, escuta com afeto que Ele
lhe promete fazer-lhe um banquinho, para ficar mais cômodo para ela
trabalhar.
José, em pé junto ao pequeno banco, com as mãos nas ilhargas, olha e
sorri.
Eu assisti à primeira lição de trabalho do meu Jesus. E toda a paz desta
Família santa está em mim.
37.4 Jesus diz:
– Eu te consolei, alma querida, com uma visão da minha infância, feliz
em sua pobreza, porque ela estava cercada do afeto dos dois maiores santos
do mundo.
37.5 Dizem que José foi o meu sustento. Oh! Se ele não pôde, por ser
homem, dar-me o leite, que Maria me nutriu, se desdobrou em pedaços no
trabalho, para me dar pão e conforto, tendo para comigo a gentileza de afetos
de uma verdadeira mãe. Eu aprendi dele — e nenhum aluno jamais teve um
mestre melhor — tudo o que faz de um menino, um homem. E um homem que
tem que ganhar o seu pão.
Mesmo se a minha inteligência de Filho de Deus fosse perfeita, é
preciso refletir que eu não quis sair insolitamente dos limites da minha
idade. Por isso, rebaixando a minha perfeição intelectual de Deus ao nível
de uma perfeição intelectual humana, sujeitei-me a ter um homem por mestre,
com a necessidade de alguém para me ensinar. Mesmo se tenha aprendido
com rapidez e boa vontade, isso não me tira o merecimento de ter-me
sujeitado a um homem, ao homem justo, que ensinou à minha pequena mente,
as noções necessárias para a vida.
As horas saudosas, passadas ao lado de José, para o qual foi um
brinquedo ensinar-me a ser capaz de trabalhar, Eu não me esqueço, nem
agora que estou no Céu. E, quando olho para o meu pai putativo, revejo o
pequeno pomar e a oficina fumacenta, e me parece estar vendo a mamãe
chegar com aquele seu sorriso, que transformava em ouro aquele lugar, e nos
tornava felizes.
37.6Quanto teriam que aprender as famílias com a perfeição destes
esposos que se amaram como nenhum outro casal!
José era o chefe. A sua autoridade familiar era evidente e não discutida,
diante da qual se inclinava respeitosamente a da esposa e mãe de Deus e se
sujeitava o Filho de Deus. Tudo estaria bem, se José resolvia fazê-lo, sem
discussões, sem teimosia, sem resistências. A sua palavra era a nossa
pequena lei. E, não obstante isso, quanta humildade nele! Nunca um abuso de
poder, nunca uma vontade contra a razão, só por ser ele o chefe. A esposa
era a sua suave conselheira. E se, em sua humildade também profunda, ela se
julgava a serva de seu consorte, o consorte ia buscar na sabedoria dela, que
era a cheia de Graça, a luz que o guiava em todos os acontecimentos.
Eu crescia como uma flor protegida por duas árvores vigorosas, entre
estes dois amores, que se entrelaçavam sobre Mim para me proteger e me
amar.
Enquanto a idade me fez ignorar o mundo, Eu não tive saudades do
Paraíso. Deus Pai e o Divino Espírito não estavam ausentes, porque Maria
estava repleta Deles. E os anjos ali moravam, porque nada os afastava
daquela casa. Um deles, pode-se dizer assim, havia assumido a carne. Era
José, alma angélica, libertada do peso da carne, somente ocupada em servir
a Deus e à sua causa, amando-O, como amam os serafins. O olhar de José!
Plácido e puro como uma estrela que não conhece as concupiscências
terrenas. Ele era o nosso repouso e a nossa força.
37.7Muitos acham que Eu não tenha humanamente sofrido, quando a morte
veio apagar aquele olhar santo, que vigiava a nossa casa. Se Eu era Deus e,
como tal, conhecedor da feliz sorte que esperava José, não entristecido,
portanto, pela sua partida que, depois de uma breve parada no Limbo, lhe
teria aberto o Céu, contudo, como Homem chorei naquela casa, que ficou
para nós vazia da sua amorosa presença. Chorei sobre o amigo falecido. Não
teria devido chorar por este meu santo, sobre cujo peito Eu tinha dormido,
quando era pequenino, e durante tantos anos, tinha recebido amor?
37.8Enfim, faço observar aos pais como, sem o auxílio de uma erudição
pedagógica, José soube fazer de Mim um hábil operário. Logo que cheguei à
idade em que já podia manejar as ferramentas, sem deixar que Eu me
entregasse à ociosidade, ele me encaminhou para o trabalho, valendo-se do
meu amor por Maria para me estimular a trabalhar. Fazer objetos úteis à
mamãe. Era assim que ele me inculcava o devido respeito para com a
mamãe, que todo filho deveria ter, e sobre esta respeitosa e poderosa
alavanca, ele se apoiava ao ensinar o futuro carpinteiro.
Onde estão hoje as famílias nas quais se ensina os pequenos a amar o
trabalho, como meio de fazer algo agradável aos pais? Os filhos, agora, são
os tiranos da casa. Crescem duros, indiferentes, grosseiros para com os seus
pais. Acham que seus pais são seus servos, seus escravos. Não os amam e
são pouco amados. Porque, ao mesmo tempo que fazeis de vossos filhos uns
prepotentes caprichosos, também ficais longe deles, com um desinteresse
vergonhoso.
Os filhos são de todos, menos de vós, ó pais do século vinte. Eles são
da babá, da governanta, do colégio, se sois ricos. E são dos colegas de rua,
das escolas, se sois pobres. Mas, já não são vossos. Vós, ó mamães, os
gerais, e isso basta. Vós, ó pais, fazeis o mesmo. Mas o filhonão é só carne.
Ele é mente, coração, espírito. Crede, pois, que ninguém, mais do que um pai
ou uma mãe, tem o dever e o direito de formar esta mente, este coração, este
espírito.
37.9 A família existe, e deve existir. Não existe nenhuma teoria ou
progresso que seja capaz de destruir esta verdade, sem provocar ruína. De
um instituto familiar desfeito, só podem vir futuros homens e futuras
mulheres cada vez mais depravados, e que serão causa de ruínas cada vez
maiores. Eu vos digo, em verdade, que seria melhor que não houvessem mais
casamentos e mais filhos sobre a terra, do que famílias menos unidas do que
as tribos dos macacos, famílias que não são escolas de virtude, de trabalho,
de amor e de religião, mas são caos, cada um vivendo como engrenagens
desmanteladas, que acabam se despedaçando.
Quebrai. Despedaçai. Os frutos desse vosso ato de despedaçar a forma
mais santa de vida social, vós os estais vendo e suportando. Continuai,
então, se quiserdes. Mas não vos lamenteis, se esta terra vai-se tornando
cada vez mais um inferno, morada de monstros, que devoram famílias e
nações. Vós o estais querendo. Que, então, isto vos aconteça!”



CAPÍTULO 5
GRAU PERFEITÍSSIMO DAS VIRTUDES D E MARIA SANTÍSSIMA, E M G E R A L , E MODO COMO AS PRATICAVA.

Definição da virtude* Como as possuía Maria Santíssima

481. A virtude é um hábito que adorna e enobrece a faculdade racional da
criatura, inclinando-a aos bons atos. Chama-se hábito, por ser uma qualidade
permanente, que dificilmente se separa cuja potência, diferente do ato transitório que
não permanece. Inclina as faculdades espirituais para a virtude e facilita-lhes os atos,
tornando-os bons, o que por si só não faz a potência, porquanto ela é indiferente,
para as obras boas ou más.
Desde o primeiro instante de sua existência, Maria Santíssima foi adornada com os hábitos de todas as virtudes
em grau eminentíssimo. Continuamente foram aumentando, com nova graça e
com os atos perfeitos com que as exercitava. Cresciam também os altíssimos
merecimentos, procedentes dessas mesmas virtudes que o Senhor lhe infundira.
Nossa Senhora não tinha que vencer más inclinações, mas pôde progredir na virtude

482. As potências desta soberana Senhora não eram desordenadas, nem
tinham que vencer repugnâncias, como temos todos nós, os demais filhos de Adão,
porque não foi atingida nem pela culpa, nem pelo fomes que inclina ao mal e se opõe
ao bem. Suas ordenadas faculdades, tinham, porém, capacidade para, mediante
os hábitos virtuosos, se inclinarem ao melhor e mais perfeito, ao mais santo e
louvável.
Além disto, era criatura passível e pura. Estava sujeita a sentir pena, a inclinar-se ao descanso lícito, a deixar de fazer
algumas obras, pelo menos as de superrogação e, sem culpa, poderia sentir alguma
propensão a não fazê-las. Para vencer esta natural propensão e apetite, ajudaram-na
os perfeitíssimos hábitos das virtudes. Com as inclinações destas, a Rainha do céu
cooperou tão varonilmente, que em nenhum ato frustrou ou impediu a força com
que a moviam e aperfeiçoavam em todas as ações.

Perfeição de suas virtudes infusas e adquiridas

483. Com esta harmonia e beleza de todos os hábitos virtuosos, achava-se
a alma santíssima de Maria tão iluminada, enobrecida e dirigida ao bem e último fim da
criatura; tão fácil, pronta, eficaz e alegre em fazer o bem que, se fôra possível penetrar
com nossa fraca vista aquele sagrado recesso de seu peito, seria para as criaturas
o objeto mais belo, admirável e de maior gozo depois do mesmo Deus.
Tudo estava em Maria Santíssima, como em seu próprio centro e esfera. Suas
virtudes possuíam inteira perfeição, sem que se pudesse dizer; falta-lhe isto para ser
belo e completo. Além das virtudes que recebeu por modo infuso, teve também as
que adquiriu pelo exercício. Nas demais almas, costuma-se dizer que um ato não
pode se chamar virtude, por serem necessários muitos repetidos para adquiri-la. Os
atos de Maria Santíssima, porém, eram tão eficazes, intensos e perfeitos, que um só
deles excedia a todos os das demais criaturas.

De acordo com isto, quais seriam os hábitos que esta divina Senhora adquiriu com suas próprias obras, se seus atos
virtuosos foram tão freqüentes e cada qual no mais perfeito grau de eficiência? A
finalidade do agir também torna o ato virtuoso - porque deve ser bom e bem-feito -
em Maria Senhora nossa, foi Deus o supremo fim de todas as suas obras. Nada fez
sem ser movida pela graça, e sem ter em vista a maior glória e beneplácito do Senhor.

trecho incopíavel do pdf
o quanto possível, o conhecimento de Deus que por elas podia receber, e não o detivessem
de chegar ao Criador e Autor de tudo.

As virtudes teologais e morais em Maria

485, As virtudes infusas são de duas ordens ou classes: na primeira ordem
entram somente as que têm Deus por objeto imediato. Por isto chamam-se teologais:
são a fé, a esperança e a caridade.
Na segunda ordem estão todas as outras virtudes que têm por objeto próximo
algum meio ou bem honesto que conduz a alma ao último fim, a saber, o mesmo Deus.
Estas chamam-se virtudes morais, porque pertencem aos costumes. Ainda que sejam
muitas, ligam-se a quatro centrais, que por isto se denominam cardeais: são a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.
Sobre todas estas virtudes e suas espécies falarei adiante, o que puder, declarando como todas, em geral e em
particular, encontravam-se nas potências da soberana Rainha.
Agora advirto em geral, que nenhuma lhe faltou em grau perfeitíssimo e, com elas, todos os dons do Espírito Santo,
seus frutos e bem-aventuranças. Nenhum gênero de graça e favor necessário para a
belíssima perfeição de sua alma e potências deixou Deus de lhe infundir, desde o
primeiro instante de sua conceição, tanto na vontade como no entendimento, onde
possuiu os hábitos e espécies das ciências.
Para dizê-Io de uma vez, tudo o que de bom lhe pôde dar o Altíssimo, como
à Mãe de seu Filho, sendo Ela pura criatura, tudo lhe foi dado em supremo grau. A isto,
acrescentou-se ainda o crescimento de todas suas virtudes: as infusas, porque as
aumentava com seus merecimentos, e as adquiridas, porque as concebeu e adquiriu
com os intensíssimos e meritórios atos que praticava.

DOUTRINA DA MÃE DE DEUS E VIRGEM SANTÍSSIMA.

Dons conferidos por Deus às criaturas

Minha filha, a todos os mortais, sem exceção, o Altíssimo comunica a
luz das virtudes naturais. Aos que com elas e o auxílio divino se dispõem, lhes concede
as infusas, ao justificá-los pelo batismo.
Autor da natureza e da graça, distribui estes dons, mais ou menos, segundo sua
equidade e beneplácito. No batismo infunde as virtudes da fé, esperança e caridade,
seguidas de outras para que, colaborando com elas, a criatura pratique o bem.
Deste modo, não só conservará os dons recebidos em virtude do sacramento, mas ainda adquirirá outros com
suas próprias obras e merecimentos. Esta seria a suma felicidade dos homens, se
correspondessem ao amor que seu Criador e Redentor lhes manifesta. Aformoseia suas
almas e facilita-lhes, com os hábitos infusos, o virtuoso exercício da vontade. A falta de
correspondência, porém, a tão inestimável benefício, torna-os extremamente infelizes,
pois esta deslealdade constitui a primeira e maior vitória do demônio sobre eles.

Felicidade e recompensa da virtude

487. Quanto a ti, quero que exercites, com incessante diligência, as
virtudes naturais e sobrenaturais. Isto te levará a adquirir os hábitos de outras
virtudes que podes conquistar, mediante freqüentes atos daqueles que, graciosa e
liberalmente, Deus te comunicou. Os dons infusos, unidos aos que a alma
adquire, formam um conjunto de admirável beleza, e adorno de sumo agrado aos
olhos do Altíssimo.
Advirto-te, caríssima, que tendo sido teu Senhor, em tais benefícios,
tão liberal para com tua alma, e tendo-a enriquecido com as ricas jóias de sua
graça, se fores ingrata, tua culpa e responsabilidade serão maiores do que a de
muitas gerações. Pondera a nobreza das virtudes, o quanto ilustram e embelezarn
a alma. Se não tivessem outra utilidade e se não lhes seguisse outra recompensa, somente o possuí-las seria grande
prêmio, em vista de sua própria excelência. O que engrandece, entretanto, as
virtudes é terem por fim último o próprio Deus, a quem conduzem pela perfeição e
verdade que encerram. Alcançando o tão alto prêmio da posse de Deus, fazem a
criatura feliz e bem-aventurada.


VIVENDO A VIDA OCULTA EM NAZARÉ APÓS VOLTAR DO EGITO. (continuação do Capítulo 8 Tomo 3)

DOR DE MARIA.

Concluída a minha oração, voltava para junto da querida Mãe a qual, vendo-me, na maioria dos casos, muito aflito e triste, sem ousar perguntar-me a causa da dor, afligia-se bastante. Embora já soubesse o que eu tinha, pela mútua correspondência entre nossos corações, às vezes eu o escondia, para dar-lhe ocasião de mérito, porque muito mais se afligia quando ela não sabia a causa de minha dor, e tinha dúvida se teria sido ela que por inadvertência dera-me ocasião de sofrimento. Às vezes, pois, consolava-a, descobrindo-lhe o motivo de minha dor; em outras ocasiões, porém ocultava-o para que sofresse também ela e merecesse mais. De outras, entretinha-me com ela, desafogando a minha pena, chorando amargamente (pelas ofensas das criaturas ao Pai), e ela fazia-me companhia. Nós dois oferecíamos ao Pai nossas lágrimas, nossa dor, em desconto de tantas ofensas que recebia do gênero humano. Como a companhia de minha querida Mãe e o desabafo com ela de minha dor me proporcionavam algum consolo, pedia ao Pai se dignasse providenciar pessoas que se compadecessem de meus irmãos angustiados, e dessem-lhes algum conforto nas aflições. Sabia que o Pai me ouvia e conhecia bem que jamais deixaria de tomar tal providência em favor de qualquer um que dela tivesse necessidade. De fato, não há pessoa, por aflita e angustiada que seja, que não encontre quem lhe dê alívio. Aqueles que não o encontram nas criaturas, venham a mim, porque estou sempre pronto a consolá-los; se não ouvem as minhas palavras sensíveis, sentirão, contudo, em seus corações o consolo e a minha visita por meio da graça, a qual pode consolá-los melhor do que qualquer outra criatura.

COM JOSÉ.
Terminadas minhas súplicas e ofertas, pedia licença à querida Mãe e ia procurar José, que estava se cansando no trabalho. Encontrando-o em geral muito cansado e aflito, consolava-o com minha doce presença, olhava-o com olhos compassivos e animava-o à fadiga que bom de grado suportava por meu amor. Considerava-se feliz de poder dispender- se pela minha manutenção e a de sua dileta esposa, embora ficasse as vezes muito cansado e aflito. Consolava-se muito ao ver-me em sua companhia. Eu então pedia ao Pai concedesse graça semelhante a todos os meus irmãos, que se afadigam por meu amor, pela própria subsistência e ainda por questões concernentes à honra e glória de sua divina Majestade, a fim de que com este consolo, embora invisível, se consolem e animem diante do cansaço. Tudo me prometia o amoroso Pai, como de fato o realiza. Com a divina graça e a presença invisível os consola —embora muitos fiquem privados deste consolo por culpa própria, porque as fadigas não são assumidas por um fim reto, nem endereçadas à glória de meu Pai, mas aceitas por finalidades tortuosas, interesseiras ou vaidosas, que os privam de mérito e de Consolo divino.

Sentia grande desprazer a respeito deles e angustiava-me muito. Na verdade, toda a minha vida foi um contínuo sofrimento; era tanto mais tormentoso na alma, a parte mais nobre e sensível. E como amava muito a todos os meus irmãos e desejava-lhes todo bem, ao vê-los perderem todas aquelas graças e favores que eu lhes merecia com tanta diligência e solicitude, sentia imenso pesar. Era-me contínuo e penoso exercício. Sofria pois martírio bem mais cruel, a dilacerar-me o Coração: ver as ofensas feitas ao querido Pai. O amor que lhe devotava era infinito e por isso era assaz grande a dor a traspassar-me a alma e manter-me em contínua aflição. Não existe intelecto que possa compreender. quanto sentia na alma martírio! Como somente eu tinha Claro conhecimento este grande do mérito de meu Pai, e só eu conhecia a grandeza das ofensas infligidas, por isso somente eu sei quanto maior era minha dor e meu pesar. Oferecia, portanto, a todo instante este grande martírio de penas ao Pai, em desconto das numerosas ofensas que continuamente recebia a fim de ser aplicada a justiça divina, sumamente irritada pela multidão de  iniquidades, o que mais me aumentava a aflição era ver que meus irmãos não se incomodavam e pouca conta faziam das ofensas que incessantemente estavam infligindo. Pedia ao Pai retirasse os castigos e usasse para com eles de sua infinita misericórdia, perdoando-os, esperando a penitência, estimulando-lhes as consciências ao arrependimento, à emenda dos próprios erros e à devida estima de sua graça e de sua honra. Reconhecessem a obrigação em que incorrem de honrarem e amarem o Criador. Estas súplicas apraziam a meu amoroso e dileto Pai, que se mostrava, também Ele, desejoso de ser por todos temido e amado, não já por interesse próprio, pois Ele disto não tem necessidade alguma, mas pelo bem daqueles que, portando-se quais verdadeiros filhos, tornam-se dignos de sua graça e de seu amor. Sendo, portanto, por Ele amados e estando em sua graça, tornam-se por conseguinte dignos da eterna glória, que meu Pai lhes preparou. Feitas todas essas preces e obtidas as mencionadas graças para meus irmãos, agradecia ao dileto Pai por quanto me concedia em prol de meus irmãos. Agradecia-lhe ainda pelo amor com o qual se dignava ouvir-me, pelo agrado que encontrava em mim. Rogava-lhe atendesse igualmente os meus irmãos, ouvindo e escutando seus justos pedidos. Agradecia-lhe também por parte daqueles nos quais Ele se comprazia por bondade e que sem refletir nisto, deixam freqüentemente de agradecer ao Pai a complacência que neles deposita. Supri esta omissão.

Agradecia-lhe pois por todos os respiros que davam as criaturas, porque tudo era dom de sua beneficência. A criatura não pode por si respirar sem a graça de meu Pai. Agradecia-lhe pelo ar que lhes concedia para nutri-las e conservá-las, pelo alimento para Pai criou para o bem e a manutenção das criaturas. Por tudo agradecia e suplicava, em suma, por tudo que o Pai havia criado que lhe se dignasse manter e conservar  para o bem e a subsistência das criaturas. Agradecia por tudo e suplicava-lhe se dignasse manter e conservar o que Ele havia criado para benefício e utilidade do homem. Fazia amiúde estes agradecimentos em parte de cada um, em preces por parte de todos em geral, e em particular. Isto agradava muito a meu Pai, e assim dava lhe gosto e satisfação pela obrigação de meus irmãos. Depois de ter praticado todos esses atos no meu íntimo, relativamente ao Pai, sentia grande consolação pelo prazer Dele, e pela utilidade de todos. Mas quão amargurada, era esta minha consolação quando depois, ao volver o olhar para meus irmãos ingratos e desagradecidos para comigo e pageiam-me (cuidam-me) com ingratidão.Esta sua ingratidão, esposa minha, traspassava-me o coração de pesar, pois enquanto eu me consumia todo inteiro em seu favor, eles não tem um só pensamento de gratidão para comigo, ao menos para agradecer-me. Como ficava aflito por vezes, ao representar-me ao vivo, mentalmente todas as ingratidões de meus irmãos, tão beneficiados por mim, e tão ingratos para comigo.  Via como entre eles mesmos, empregavam tantas afeições, tantos agradecimentos, tanto empenho pelos mútuos serviços, com os quais me alegrava. Mas ao ver que só de mim, vivem esquecidos, como seu eu nada tivesse feito por eles, afligia-me muito, e assim temperava-se-me com amargura toda consolação e à medida mesma em que me regozijava de tratar com meu amoroso Pai dos interesses de meus irmãos, afligia-me depois vê-los tão esquecidos e desafeiçoados para comigo.

A BÊNÇÃO DOS SEUS.

Terminados todos os atos de súplica e de do com José agradecimento, ia me entretendo com José, enquanto o ajudava no trabalho. Depois de algum tempo, deixava-o para ir conversar com minha querida Mãe, que vivia em ardente desejo de amor, quando não me tinha à vista, a mim, seu amado Filho. José ficava muito confortado por ter usufruído de minha companhia por algum tempo, e ele mesmo me mandava ir consolar a sua amada esposa, ciente da pena que lhe advinha de minha ausência. Tinha a caridade perfeita, pois se alegrava de privar-se da consolação para ser consolada a esposa amada. Quando me afastava deles, procurava seu beneplácito e pedia a bênção tanto à querida Mãe como a José. Causava-lhes este ato de submissão e humildade muita confusão, e uma vez que eu o reclamava, depressa abençoavam-me, mas primeiro prostravam-se em terra, pedindo a graça e a bênção de meu Pai. Depois abençoavam-me com grande amor e humanidade. Também eu humildemente recebia a bênção, e depois de havê-la recebido, invocava sobre eles a bênção de meu Pai, o qual a concedia em abundância. Com esta bênção impetrada por mim, ficavam muito confortados e consolados, de modo que depois não sentiam tanto pesar por minha ausência, que seria insofrível, mesmo de um só momento, por ser tão grande a consolação e a alegria causadas a sua alma por minha presença visível. Assim, ficar privados dela por um momento, ser-lhes-ia tormento e pena insofrível. Oferecia, por conseguinte, esta submissão e ato de humildade a meu Pai e pedia-lhe, em virtude deste ato, se dignasse dar muita a graça a todos os meus irmãos, a fim de que, a minha imitação, não desdenhassem humilhar-se e sujeitar- se não só a seus maiores e iguais, mas ainda aos inferiores. Pedi-o para todos; mais especialmente, contudo, para os religiosos, porque esta virtude lhes é muito necessária. Assim como a soberba e a ambição têm para abatê-las e dominá-las. Por isso, procurei obter-lhes essa graça de meu Pai, o qual se mostrou muito pródigo, prometendo conceder-me a cada um, quantas fossem precisas, segundo o respectivo estado. Então, apresentou-se-me ao meu espírito toda a graça que meu Pai haveria de dar a meus irmãos. Ao ver tamanha abundância de graça, dada com tão grande amor, a criaturas de tal modo ingratas, fiquei muito confundido, por parte de meus irmãos e muito admirado, da bondade de meu Pai. Agradeci-lhe com afeto assaz grande, enquanto por meu amor mostrava-se tão pródigo de suas graças para com meus irmãos, os quais via, um a um. Por causa daqueles que aproveitavam, alegrava-me muito e relativamente aos que abusavam dela, sentia grande desgosto. Por uns, rendia graças ao meu Pai, e impetrava-lhes graça maior; para outros pedia perdão por sua negligência, e suplicava não retirasse deles a sua graça, contanto que resolvessem prevalecer-se dela. Para alguns, via que era muito útil essa súplica, porque no fim se emendavam; mas para outros não; porque devido à obstinação, a graça divina não produzia em sua mente impressão alguma, e assim acabam mal, sob o reinado da soberba e da ambição. Estes deixavam-me muito amargurado e principalmente se eram pessoas dedicadas ao serviço divino. Estas últimas me afligiam mais, por estarem mais estreitamente unidas à mim. Daí ser imenso o meu pesar, assim sempre me achava angustiado, devido aos meus irmãos desobedientes e ingratos. Oferecia essa aflição ao Pai, para que se aplacasse a sua ira e ficasse satisfeita a sua Justiça.



12-37
Março 16, 1918

O alimento de Jesus.

(1) Sentia uma grande necessidade e dirigia a Jesus os meus dolorosos lamentos e Ele, todo
bondade saiu de dentro de mim, vestido com uma vestidura adornada de diamantes
fulgidíssimos, e como despertando de um profundo sono, todo ternura me disse:

(2) "Minha filha, que queres? Seus lamentos feriram meu coração e me despertei para
responder de imediato a suas necessidades. Tu deves saber que eu estava no teu coração, e tu
fazias as tuas obras, as tuas orações, as reparações, conforme te vias no meu Querer e me
amavas, eu tomava tudo para mim, e me servia disso para me alimentar e embelezar a minha
veste de diamantes preciosos; tanto é verdade isto, que enquanto você me amava, rogava e
ademais, Eu não ficava em jejum como se nada fizesse, Eu tomava tudo para Mim, pois você
me deu plena liberdade. Agora, quando a alma faz isso, Eu não sei estar em repouso em suas
necessidades, e eu faço tudo para ela. Diga-me então, o que você quer?

(3) Eu lhe disse minhas extremas necessidades, derramando amargas lágrimas, tanto que
banhava as mãos santíssimas de Jesus, e o doce Jesus me estreitou a seu coração, do qual
derramava no meu uma água dulcíssima que toda me restaurava e logo acrescentou:

(4) "Minha filha, não temas, Eu serei tudo para ti, se as criaturas te vierem a faltar, Eu farei tudo,
te atarei e te desamarrarei, não te faltarei jamais, te amo muito, te fiz crescer em meu Querer,
és parte de Mim mesmo, te farei de guarda e direi a todos: "Ninguém me toque". Por isso te
tranqüilize, que seu Jesus não te deixa".

13-34
Novembro 19, 1921

Os dois apoios. Para conhecer as verdades é necessário que haja a vontade e o desejo de conhecê-las. As verdades devem ser simples.

(1) Estava fazendo companhia ao meu Jesus agonizante no Horto do Getsêmani, e por quanto
me era possível compadecia-o, estreitava-o forte ao meu coração tratando de secá-lo o suor
mortal, e meu sofredor Jesus, com voz apagada e agonizante me disse:
(2) "Minha filha, dura e penosa foi minha agonia no Horto, talvez mais penosa que a da cruz,
porque se esta foi o cumprimento e o triunfo sobre todos, aqui no Horto foi o princípio, e os
males se sentem mais ao princípio do que quando estão por terminar, nesta agonia, a pena
mais dilacerante foi quando todos os pecados me foram trazidos um a um, a minha humanidade
compreendeu toda a enormidade deles e cada delito levava o selo de "morte a um Deus", e
estava armado com espada para me matar. Diante da Divindade a culpa me aparecia tão
horrenda e mais horrível que a própria morte; só ao compreender o que significa pecado, Eu me
sentia morrer e morria em realidade, gritei ao Pai e foi inexorável, não houve um só que ao
menos me desse uma ajuda para não me fazer morrer, gritei a todas as criaturas que tivessem
piedade de Mim, mas em vão, assim que minha Humanidade definhava e estava por receber o
último golpe da morte. Mas sabes quem impediu a execução e sustentou a minha humanidade
para não morrer? Primeiro foi minha inseparável Mamãe, Ela ao ouvir-me pedir ajuda voou a
meu lado e me sustentou, e Eu apoiei meu braço direito nela, olhei-a quase agonizante e
encontrei nela a imensidão de minha Vontade íntegra, sem ter havido nunca ruptura alguma
entre minha Vontade e a sua. Minha Vontade é Vida, e como a Vontade do Pai era inamovível,
e a morte me vinha das criaturas, outra criatura que encerrava a Vida de minha Vontade me
dava a vida. E eis que a minha Mãe, que no portento da minha Vontade me concebeu e me fez
nascer no tempo, e agora me dá pela segunda vez a vida para fazer-me cumprir a obra da
Redenção. Depois olhei para a esquerda e encontrei a pequena filha de meu Querer, te
encontrei como primeira, com o séquito das outras filhas de minha Vontade, e assim como a
minha Mamãe a quis Comigo como primeiro elo da misericórdia, com o qual devíamos abrir as
portas a todas as criaturas, por isso quis apoiar nela a direita; Eu te quis como primeiro elo da
justiça, para impedir que se descarregasse sobre todas as criaturas como merecem, por isso
quis apoiar a esquerda, a fim de que a segurasse junto Comigo. Então, com estes dois apoios
Eu me senti dar novamente a vida, e como se nada tivesse sofrido, com passo firme fui ao
encontro de meus inimigos, e em todas as penas que sofri em minha Paixão, muitas delas
capazes de me dar a morte, estes dois apoios não me deixavam jamais, e quando me viam a
ponto de morrer, com minha Vontade que continham me sustentavam e me davam como tantos
goles de vida. ¡ Oh! os prodígios de meu Querer, quem pode jamais numerá-los e calcular seu
valor? Por isso amo tanto a quem vive de meu Querer, reconheço nela meu retrato, meus
nobres traços, sinto nela meu mesmo alento, minha voz, e se não a amasse me defraudaria a
Mim mesmo, seria como um pai sem geração, sem o nobre cortejo de sua corte e sem a coroa
de seus filhos, E se eu não tivesse a geração, a corte, a coroa, como poderia chamar-me
Rei? Então o meu reino é formado por aqueles que vivem na minha Vontade, e deste reino eu
escolho a Mãe, a Rainha, os filhos, os ministros, o exército, o povo, Eu sou tudo para eles e
eles são tudo para Mim".

(3) Depois estava a pensar no que Jesus me dizia, e dizia entre mim: "Como se faz para pôr em
prática isto?" E Jesus regressando acrescentou:

(4) "Minha filha, as verdades para as conhecer, é necessário que haja vontade e o desejo de as
conhecer. Supõe uma estadia com as persianas fechadas, por quanto sol haja fora a
permanência está sempre em escuridão; agora, abrir as persianas significa querer a luz, mas
isto não basta se não se aproveita a luz para reordenar a permanência, sacudi-la, pôr-se a
trabalhar, porque se não, é como matar essa luz e fazer-se ingrato pela luz recebida. Assim não
basta ter vontade de conhecer as verdades, se à luz da verdade que o ilumina não busca
sacudir-se de suas fraquezas e reordenar-se segundo a luz da verdade que conhece, e junto
com a luz da verdade pôr-se a trabalhar fazendo dela substância própria," em modo de
transparecer por sua boca, por suas mãos, por seu comportamento, a luz da verdade que tem
absorvido, então seria como se matasse a verdade, e não pondo-a em prática seria estar em
plena desordem diante dessa luz. Pobre estadia, cheia de luz mas toda desordenada,
transtornada e em plena desordem, e uma pessoa dentro que não se preocupa em reordená-la,
que compaixão não daria? Tal é quem conhece as verdades e não as põe em prática.
(5) Deve saber que em todas as verdades, como primeiro alimento entra a simplicidade, se as
verdades não fossem simples, não seriam luz e não poderiam penetrar nas mentes humanas
para iluminá-las, e onde não há luz não se podem distinguir os objetos; a simplicidade não só é
luz, mas é como o ar que se respira, que embora não se veja dá a respiração a tudo, e se não
fosse pelo ar, a terra e todos ficariam sem movimento, assim que se as virtudes, as verdades,
não levam a marca da simplicidade, serão sem luz e sem ar".

14-38
Junho 23, 1922
As verdades são mais que sóis. Quem não está vazio de tudo de seu querer, não pode ter certo conhecimento do Querer Divino.

(1) Estava pensando entre mim: "Jesus diz tantas coisas de seu Santíssimo Querer, mas
parece que não é compreendido, e mesmo os próprios confessores parecem duvidosos, e
diante de uma luz tão imensa não ficam nem iluminados, nem movidos a amar a um Querer tão
amável". Agora, enquanto isso eu pensava, meu sempre amável Jesus, colocando um braço no
meu pescoço me disse:

(2) "Minha filha, não te admires por isto, quem não está vazio de tudo do seu querer, não pode
ter certo conhecimento do meu, porque o querer humano forma as nuvens entre o meu Querer
e o seu, e impede o conhecimento do valor e efeitos que o meu contém; Mas apesar disso não
podem dizer que não é luz. Olhe, nem as coisas que se vêem aqui na terra são compreendidas
pelo homem, quem pode dizer como fiz para criar o sol, quanta luz e calor contém? No entanto
o vêem, gozam de seus efeitos, todo o dia está com eles, seu calor e luz os seguem por todos
lados, e com tudo isso nem sabem nem podem dizer sua altura, a luz e o calor que possui, e se
alguém quiser se elevar para conhecer isto, a luz o eclipsaria e o calor o queimaria, assim que o
homem está obrigado a ter os olhos baixos e se alegrar com a luz sem poder investigá-lo, e
contentar-se em dizer: É sol". Então, se isto acontece com o sol que se vê e que Eu criei para o
bem natural do homem, muito mais com as verdades que contêm, oh! quanto mais luz e calor
do que o próprio sol, especialmente as verdades que se referem à minha Vontade, que contêm
efeitos, bens e valor eternos; quem pode medir tudo o que Ela contém?

Seria querer eclipsar-se, seria melhor baixar a testa e alegrar-se a luz que leva minha verdade, amá-la e fazer sua
aquela pequena luz que a inteligência humana compreende e não fazer que, porque não
compreendem toda a plenitude da luz, assim que o sol não compreendido se alegra de sua luz
por quanto mais se pode, serve-se dela para operar, para caminhar, para olhar, e oh! como se
suspira o dia para que a luz lhes faça companhia e viva com eles. Além disso, minhas
verdades, que são mais que luz, que fazem despontar o sol do dia nas mentes humanas, não
são tomadas em conta, nem amadas, nem suspiradas e se têm como nada, que dor! Mas Eu
quando vejo que eles põem de lado as minhas verdades, Eu os ponho de lado, e faço o curso
das minhas verdades com as almas que as amam e suspiram por elas, e servem-se da luz
delas para modelar as suas vidas e fazer com elas uma só coisa. Você acha que eu te disse
tudo sobre as verdades, os efeitos e valor que minha verdade contém? Oh! Quantos outros sóis
devo fazer surgir, não te surpreendas se não compreendes tudo, aceita-te com viver de sua luz,
e isto me basta".

16-44
Fevereiro 5, 1924

Privações. Penas de Jesus, tristeza da alma. Efeitos da alegria. A alma não pode sair da Divina Vontade, porque\
sua vontade está encadeada com a imutabilidade da Divina.

(1) Sentia-me amarga pela privação do meu sumo e único bem, sentia-me extenuada, sentia que
não devia mais vir Aquele que era toda minha vida, sentia que todo o passado tinha sido um jogo
de fantasia. Oh! se estivesse em meu poder teria queimado todos os escritos para fim de que não
ficasse nenhum vestígio de mim. Também minha natureza sentia os dolorosos efeitos de sua privação,
mas é inútil escrever o que aconteceu, porque também o papel é cruel e não tem nenhuma
palavra de consolo para mim, e não me dá Aquele por quem tanto suspiro, mas bem o dizê-lo
agrava mais minhas penas, por isso melhor sigo adiante. Agora, enquanto eu estava em tão duro
estado, meu sempre amável Jesus se fazia ver com um varinha de fogo na mão e me dizia:

(2) "Minha filha, onde queres que te bata com esta varinha? Quero castigar o mundo, por isso vim a
ti para ver quantos golpes queres receber tu, para dar o resto às criaturas, por isso diz-me onde
queres que te bata.
(3) E eu amarga como estava disse: "Onde você quiser me bater, eu não quero saber nada, não
quero outra coisa que sua Vontade".
(4) E Ele de novo: Quero saber por ti onde queres que te golpeie".
(5) E eu: "Não, não, eu jamais o direi, quero onde tu quiseres".
(6) E Jesus perguntou-me de novo, e vendo que eu sempre respondia, não quero outra coisa que a
tua vontade repetiu:
(7) "Portanto, nem sequer queres dizer onde queres que te bata".

(8) Então sem me dizer outra coisa me golpeava; aqueles golpes eram dolorosos, mas como par-
tiam das mãos de Jesus infundiam-me a vida, a força, a confiança. Depois que me golpeou, de
maneira que me sentia toda maltratada, me pus perto de seu pescoço e me aproximando de sua
boca tentei sugar, mas enquanto fazia isto vinha à minha boca um líquido dulcíssimo que me fortalecia
toda, mas não era essa minha vontade, mas bem queria sua amargura que as tinha em demasia
no seu santíssimo coração, e depois lhe disse:

(9) "Meu amor, que dura sorte é a minha, a tua privação mata-me, o medo de que possa sair de tua
Vontade me esmaga, diz-me, em que te ofendi? Por que me deixas? E embora que Agora está
comigo, não me parece que tenha vindo para ficar comigo como antes, para estar juntos, mas de
passagem. Ah! como estarei sem Ti, vida minha? Diga você mesmo se é que posso fazê-lo, e en-
quanto isto dizia rompi em pranto, e Jesus apertando-me a Ele me tem dito:

(10) "Pobre minha filha, pobre minha filha, coragem, teu Jesus não te deixa, nem temas que pudesses
sair de minha Vontade, porque tua vontade está encadeada com a imutabilidade da minha,
ao máximo serão pensamentos, impressões que sentirá, mas não verdadeiros atos, porque estando
em você a imutabilidade de minha Vontade, quando a sua estivesse por sair da minha, sentirá a
firmeza, a força da minha imutabilidade e ficarás mais acorrentada. E além disso, tens-te esquecido
que não só estou Eu em teu coração, mas todo o mundo, e que de dentro de ti dirijo a sorte de todas as criaturas?
O que você sente não é outra coisa que a forma em como Está o mundo comigo,
e as penas que me dão, estando eu em ti, repercutem sobre ti; ah minha filha, quanto nos faz so-
frer o mundo! Mas ânimo, quando vejo que não pode mais Eu Deixo tudo e venho para estar com
minha filha para reanimar-te e reanimar-me das tristezas que me dão".

(11) Disse isso e desapareceu. Eu fui reanimada, sim, mas com uma tristeza de sentir-me morta,
senti-me mergulhada num banho de amarguras e aflições, tanto que não sentia a força de dizer a
Jesus: Vem. Logo, enquanto fazia minhas habituais orações, meu amado Jesus voltou dizendo:

(12) "Minha filha, diz-me, porque estás tão triste? Olha, eu venho do meio das criaturas com as lágrimas
nos olhos, com o coração trespassado, traído por muitos e por isso tenho dito entre Mim: Eu
vou com a minha filha, com a minha pequena recém-nascida da Minha Vontade, a fim de que
enxugue-me as lágrimas, com seus atos que fez em minha Vontade me dará o amor e tudo o que
os demais não me dão, me repousarei nela e a reanimarei com minha presença, e você em troca
faz-te sentir tão triste que tenho de pôr de lado as minhas mágoas para aliviar as tuas. Não sabes
tu que a alegria à alma é como o perfume às flores, como o tempero aos alimentos, como o colorido
para as pessoas, como a maturação para os frutos, como o sol para as plantas? Então com esta
tristeza você não me deixou encontrar um perfume que eu recreei, nem um alimento saboroso,
nem um fruto maduro, está toda descolorida, tanto, que me dá piedade. Pobre filha, anime-se,
abrace-me, não tema".

(13) Eu estreitava-me a Jesus, teria querido explodir em pranto, sentia que me estava a sufocar a
voz, mas fiz-me violência e a sufocar o choro disse-lhe:

(14) "Jesus, meu amor, as minhas dores não são nada em comparação com as tuas, por isso pensemos
em suas dores se você não quiser me adicionar outras amarguras. Deixe-me enxugar suas
lágrimas e Parte-me as dores do teu coração".
(15) Assim, tive a oportunidade de participar nas suas penas e de me fazer ver os graves males
que existem o mundo e os que virão, desapareceu".

17-39
Abril 26, 1925

O bem que farão os escritos acerca da Divina Vontade. Jesus e Sua Vontade são inseparáveis,
e Ela torna-se inseparável de Jesus a quem se deixa dominar por Ela.

(1) Estava pensando entre mim sobre certas coisas sobre a Vontade de Deus, que o bom Jesus me
havia dito e que as publicaram, e em conseqüência correm entre as mãos de quem as quer ler.
Sentia tal vergonha em mim que me dava uma pena indescritível e dizia:.

(2) "Amado bem meu, como permitiste isto? Nossos segredos, que por obediência escrevi e só por
amor de você, já estão à vista dos demais, e se continuarem publicando outras coisas eu morrerei
de vergonha e de pena. E depois de tudo isso, como um prêmio para o meu duro sacrifício que
você me deixou tão dolorosamente. ¡Ah! se Tu tivesses estado comigo terias tido piedade de minha
pena e me terias dado a força".

(3) Mas enquanto pensava assim, o meu doce Jesus saiu de dentro de mim, e pondo uma mão na
minha testa e outra na minha boca, como se quisesse deter tantos pensamentos desconsoladores
que me vinham, disse-me:.

(4) "Cala-te, cala-te, não queiras ir mais longe, não são coisas tuas mas sim minhas, é a minha
Vontade que quer fazer o seu caminho para se fazer conhecer. Minha Vontade é mais que sol, e
para esconder a luz do sol se necessita muito, mas bem é de todo impossível, e se a detiverem por
um lado, ela supera o obstáculo que lhe puseram frente, e conduzindo-se por outros lados, com
majestade faz seu caminho, deixando confusos aqueles que queriam impedir seu curso, porque a
viram escapar por todas as partes sem poder detê-la. Se pode esconder uma lâmpada, mas o sol
jamais; tal é minha Vontade, mais que sol, e querê-la você te resultará impossível. Por isso cala
minha filha, e faze que o Sol eterno da minha Vontade faça seu curso, seja por meio dos escritos,
da publicação, de tuas palavras e de teus modos; faze que Ela fuja como luz e percorra todo o
mundo, Eu o suspiro, o quero. E além disso, o que fizeram sair das verdades de minha Vontade?
Pode-se dizer que apenas os átomos de sua luz, e embora átomos ainda, se soubesse o bem que
fazem, o que será quando reunidas todas as verdades que te disse de minha Vontade, a
fecundidade de sua luz, os bens que contém, unidos todos juntos formarão não os átomos, ou o sol
que desponta, senão o seu pleno meio-dia? Que bem não produzirá este Sol eterno no meio das
criaturas? E tu e eu ficaremos mais felizes em ver a minha Vontade conhecida, amada e cumprida,
por isso deixa-me fazer.

E além disso, não, não é verdade que te deixei, como, não me sentes em
ti? Não ouves o eco da minha oração no teu íntimo, que abraço tudo e todos, sem que ninguém me
escape, porque todas as coisas e todas as gerações são como um ponto só para Mim, e por todos
Eu rezo, amo, Adoro e reparo, e tu, ao ecoares a minha oração, sentes-te como se tomasses na
mão de todos e de tudo, e repetes o que faço? Por acaso é você quem o faz, ou bem sua
capacidade? Ah não, não! Eu sou Eu que estou em você, é minha Vontade que faz você tomar
como um punho a tudo e a todos e continua seu curso em sua alma. E além disso, você quer
alguma coisa fora de minha Vontade? Que temes? Que poderia te deixar? Não sabes que o sinal
mais certo de que eu habito em ti, é que a minha Vontade tenha o seu lugar de honra, que te
domine e que faça de ti o que quer? “Eu e Minha Vontade somos inseparáveis, e torna inseparável
de Mim a quem se deixa dominar por Ela".

19-36
Julho 11, 1926

Assim como se soube que para formar o Reino da Redenção os que mais sofreram foram Jesus e sua Mãe,
assim será necessário conhecer quem sofreu pelo Reino do Fiat Supremo.

(1) Há alguns dias, o meu doce Jesus não me tinha dito nada acerca da sua Santíssima Vontade,
mas fazia-se parecer triste, em ato de bater nas criaturas. Hoje, como se quisesse sair de sua
tristeza, porque quando fala de sua Vontade parece que se põe em festa, ao sair de dentro de meu
interior me disse:.
(2) "Minha filha, quero me consolar, me faça falar do Reino do meu Supremo Querer"..

(3) E eu: "Meu amor e minha vida, Jesus, se Tu não me dizes todos os segredos que há nele, eu,
não conhecendo tudo, não gozarei a plenitude dos bens que este Reino possui, nem poderei dar-te
a correspondência do amor, dos bens que Tu escondes, e me sentiria infeliz em meio a tanta
felicidade, porque em tudo o que le Tu possuis não corre meu amo-te', será pequeno, mas é o
amo-te' de tua pequena filha que Tu amas tanto". E Jesus, tomando a minha palavra, disse-me:.

(4) "Minha pequena filha, tu mesma o dizes, quanto é necessário o conhecimento; se é necessário
para ti, muito mais para os demais. Agora, você deve saber que para formar o Reino da Redenção,
aqueles que se distinguiram mais no sofrer, foi minha Mamãe, e embora Ela aparentemente não
sofreu nenhuma pena que conhecessem as outras criaturas, com exceção de minha morte que foi
conhecida por todos e que foi para seu materno coração o golpe fatal e mais dilacerante, mais que
qualquer morte dolorosíssima, mas como Ela possuía a unidade da luz de meu Querer, esta luz
levou o seu coração trespassado não só as sete espadas que diz a Igreja, mas todas as espadas,
as lanças, os furos de todas as culpas e penas das criaturas, que martirizavam de modo
dilacerante seu materno coração; mas isto é nada, esta luz levava-lhe todas minhas penas, minhas
humilhações, minhas aflições, meus espinhos, meus cravos, as penas mais íntimas de meu
coração. O coração de minha Mãe era o verdadeiro sol, que enquanto se vê só luz, esta luz contém
todos os bens e efeitos que recebe e possui a terra, assim que se pode dizer que a terra está
encerrada no sol; assim a Soberana Rainha, se via somente sua pessoa, mas a luz do meu
Supremo Querer encerrava nela todas as penas possíveis e imagináveis, e por quanto mais íntimas
e desconhecidas estas penas, tanto mais estimáveis e mais potentes sobre o Coração Divino para
implorar o suspirado Redentor, e mais do que luz solar desciam nos corações das criaturas para
conquistá-las e atá-las no Reino da Redenção. Assim que a Igreja das penas da Celestial
Soberana conhece tão pouco, que se pode dizer que são só as penas aparentes, e por isso dá o
número de sete espadas, mas se soubesse que seu materno coração era o refúgio, o depósito de
todas as penas, que a luz da minha Vontade tudo lhe levava e nada lhe poupava, não teria dito
sete espadas, mas milhões de espadas, muito mais que sendo penas íntimas, só Deus conhece a
intensidade da dor delas, e por isso com direito foi constituída Rainha dos mártires e de todas as
dores; as criaturas sabem dar o peso, o valor às penas externas, mas das internas não atingem a
dar-lhes o justo valor.

 

Agora, para formar em minha Mãe primeiro o Reino de minha Vontade e
depois o da Redenção, não eram necessárias tantas penas, porque não tendo culpas, a herança
das penas não era para Ela, sua herança era o Reino de minha Vontade, mas para dar o reino da
Redenção às criaturas, Ela teve que se sujeitar a tantas penas, assim os frutos da Redenção foram
amadurecidos no Reino de minha Vontade possuído por Mim e por minha Mãe. Não há coisa bela,
boa e útil que não saia de minha Vontade. Agora, unida à Soberana Rainha veio minha
Humanidade, Ela ficou escondida em Mim, em minhas dores, em minhas penas, por isso pouco se
conheceu dela, mas de minha Humanidade foi necessário que se soubesse o que Eu fiz, quanto
sofri e quanto amei, se nada fosse conhecido não teria podido formar o Reino da Redenção, o
conhecimento de minhas penas e de meu Amor é ímã e estímulo, incitação, luz para atrair as
almas a tomar os remédios, os bens que nela há; o saber quanto me custam suas culpas, sua
salvação, é cadeia que os ata a Mim e impede novas culpas. Se em vez disso nada tivessem
sabido de minhas penas e de minha morte, não conhecendo quanto me custou sua salvação,
nenhum teria tido o pensamento de me amar e de salvar sua alma. Vês então quanto é necessário
fazer conhecer quanto fez e sofreu aquele ou aquela que formou em si um bem universal para dá-
lo aos outros?.

(5) Agora minha filha, assim como foi necessário fazer conhecer quem foi Aquele e Aquela e
quanto lhes custou formar o Reino da Redenção, assim é necessário fazer conhecer aquela à qual
minha paterna bondade escolheu primeira para formar nela o Reino do Fiat Supremo, e depois dar
o princípio da transmissão aos outros, assim como foi para a Redenção, que primeiro foi formada
entre Eu e minha Mãe Celestial e depois foi conhecida pelas criaturas, assim será do Fiat Supremo,
portanto é necessário fazer conhecer quanto me custa este Reino de minha Vontade, e para fazer
que o homem pudesse entrar de novo em seu Reino perdido, tive que sacrificar a menor das
criaturas, tê-la cravada por quarenta anos e mais dentro de um leito, sem ar, sem a plenitude da luz
do sol que todos gozam, como seu pequeno coração tem sido o refúgio de minhas penas e
daquelas das criaturas, como amou a todos, rogado por todos, defendido a todos e quantas vezes
se expôs aos golpes da Justiça Divina para defender a todos seus irmãos, e além disso suas penas
íntimas, minhas mesmas privações que martirizavam seu pequeno coração, dando-lhe morte
contínua, porque não conhecendo outra vida que a minha, outro querer que o meu, todas estas
penas lançavam os fundamentos do Reino da minha vontade, e como raios solares amadureciam
os frutos do Fiat Supremo, por isso é necessário fazer saber quanto te custou a ti e a mim este
Reino, e assim pelo custo possam conhecer quanto amo o que façam aquisição dele, e pelo custo
possam apreciá-lo e amá-lo e aspirar a entrar a viver no Reino de minha Suprema Vontade".

(6) Isto eu escrevi por obedecer, mas foi tanto o esforço, que apenas pude assinalar algo de minha
pobre existência, já que pela grande relutância me sinto gelar o sangue nas veias, mas convém-me
repetir sempre: Fiat, Fiat, Fiat!. .



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