ESCOLA DA DIVINA VONTADE - VIGÉSIMA SEXTA SEMANA DE ESTUDOS


VOLUME 1

(181) Então meu doce Jesus não fazia outra coisa que me dispor daquele matrimonio místico o
que me havia prometido, se fazia ver estando eu nesse estado, às vezes três ou quatro vezes ao
dia, como lhe agradava, e às vezes era um contínuo ir e vir, me parecia um apaixonado que não
sabe estar sem sua esposa, assim fazia Jesus comigo, e às vezes chegava a me dizer:
(182) "Olhe, te amo tanto que não sei estar se não venho, sinto-me quase inquieto pensando que
você está sofrendo por Mim e que está sozinha, por isso vim para ver se tem necessidade de
alguma coisa".
(183) E enquanto assim dizia, Ele mesmo me levantava a cabeça, colocava seu braço atrás de
meu pescoço e me abraçava, e enquanto assim me tinha, me beijava, e se era tempo de verão e
fazia calor, de sua boca mandava um alento refrescante, ou bem tomava alguma coisa em sua
mão e me abanava e depois me perguntava:
(184) "Como te sentes? Não se sente melhor?"
(185) Eu lhe dizia: "Em qualquer modo que se está Contigo se está sempre bem". Outras vezes
vinha, e se me via muito fraca pelo contínuo estar naqueles sofrimentos, especialmente se o
confessor vinha na noite, meu amante Jesus vinha, e me vendo naquele estado de extrema
debilidade, tanto que às vezes me sentia morrer, se aproximava a mim e de sua boca vertia na
minha aquele leite, ou bem me fazia pôr-me a seu lado e eu chupava torrentes de doçuras, de
delícias e de fortaleza, e Ele me dizia:
(186) "Quero ser propriamente Eu teu tudo, e também teu alimento da alma e do corpo".
(187) Quem pode dizer o que eu experimentava, tanto na alma como no corpo, por estas graças
que Jesus me fazia? Se fosse eu a dizê-lo, espalhava-me demasiado. Recordo que às vezes
quando não vinha logo, me lamentava com Ele dizendo: "Ah, Esposo Santo, como me fez esperar,
tanto que não podia resistir mais, me sentia morrer sem Ti". E enquanto assim dizia, era tanta a
pena que sentia que chorava, e Ele compadecia-me toda, me enxugava as lágrimas, me beijava,
me abraçava e dizia:
(188) "Não quero que chore. Olhe, agora estou contigo, me diga o que quer".
(189) Eu dizia-lhe: "Não quero outra coisa senão a Ti, e só deixarei de chorar quando me
prometeres que não me farás esperar tanto".
(190) E Ele me dizia: "Sim, sim, te contentarei".

2-28
Junho 2, 1899

Acerca do conhecimento de nós mesmos.

(1) Esta manhã o meu dulcíssimo Jesus quis fazer-me tocar com as minhas próprias mãos o
meu nada. No momento em que se fez ver, as primeiras palavras que me dirigiu foram:
(2) "Quem sou eu, e quem és tu?"
(3) Nestas duas palavras vi duas luzes imensas: Numa compreendia a Deus, na outra via a
minha miséria, o meu nada. Via-me não ser outra coisa que uma sombra, como aquele reflexo
que faz o sol ao iluminar a terra, que depende do sol, e que passando a outros pontos o reflexo
termina de existir. Assim minha sombra, isto é, meu ser, depende do místico Sol Deus, e que
em um simples instante pode desfazer esta sombra. O que dizer além de como deformei esta
sombra que o Senhor me deu, não sendo sequer minha? Dá horror pensar, malcheiroso,
putrefacta, toda aguçada, e no entanto neste estado tão horrendo estava obrigada a estar
diante de um Deus tão santo, oh, como teria estado contente se me fora dado esconder-me
nos mais obscuros abismos!
(4) Depois disto Jesus me disse: "O maior favor que posso fazer a uma alma é fazer-se
conhecer a si mesma. O conhecimento de si e o conhecimento de Deus andam de mãos
dadas, pois quanto te conheceres a ti mesma outro tanto conhecerás a Deus. A alma que se
conheceu a si mesma, vendo que por si mesma não pode fazer nada de bem, esta sombra do
seu ser transforma-a em Deus e disto acontece que em Deus faz todas as suas
operações. Acontece que a alma está em Deus e caminha junto a Ele, sem olhar, sem
investigar, sem falar, em uma palavra, como morta, porque conhecendo a fundo seu nada não
se atreve a fazer nada por si mesma, senão que cegamente segue as operações do Verbo".
(5) Parece-me que a alma que se conhece a si mesma lhe acontece como a essas pessoas
que vão em um transporte, que enquanto passam de um lugar a outro sem dar um passo por
elas mesmas, fazem longas viagens, mas tudo isso em virtude do transporte que as
leva. Assim a alma, entrando em Deus, como as pessoas no transporte, faz sublimes vôos no
caminho da perfeição, mas conhecendo plenamente que não ela, senão em virtude daquele
Deus bendito que a leva em Si mesmo.  Oh! Como o Senhor favorece, enriquece, concede as
maiores graças à alma que sabendo que não a si mesma, mas tudo a Ele atribui. ¡ Oh, alma
que se conhece a si mesma, como é afortunada!

3-28
Janeiro 12, 1900

Diferença entre o conhecimento de si mesmo e a humildade.

(1) Encontrando-me em meu estado habitual, meu amável Jesus veio em um estado que dava
compaixão. Tinha as mãos atadas fortemente e o rosto coberto de salivares, e algumas pessoas
esbofeteavam-no horrivelmente, e Ele permanecia quieto, plácido, sem fazer nem um movimento
nem emitir um lamento, nem sequer um movimento de cílios, para demonstrar que Ele queria sofrer
estes ultrajes, e isto não só externamente, mas também internamente. ¡ Que espetáculo tão
comovente, de fazer despedaçar os corações mais duros! ¡ Quantas coisas dizia aquele rosto com
as cusparadas, manchado de lama! Eu me sentia horrorizada tremia, me via toda soberba diante
de Jesus. Enquanto eu estava neste aspecto, Ele me disse:
(2) "Minha filha, só os pequenos se deixam conduzir como se quer, não aqueles que são pequenos
de razão humana, mas aqueles que são pequenos mas cheios de razão divina. Só Eu posso dizer
que eu sou humilde, porque no homem o que se diz humildade, mas deve-se dizer conhecimento
de si mesmo, e quem não se conhece a si mesmo caminha já na falsidade".

(3) Durante alguns minutos Jesus fez silêncio e eu o contemplava. Enquanto fazia isso, vi uma mão
que trazia uma luz, que, escavando em meu interior, nos mais íntimos esconderijos, queria ver se
havia em mim o conhecimento de mim mesma e o amor às humilhações, às confusões e aos
opróbrios; aquela luz encontrava um vazio em meu interior, e eu também via que devia ser
preenchido com humilhações e confusões a exemplo do bendito Jesus. Oh, quantas coisas me
fazia compreender aquela luz e aquele rosto santo que estava diante de mim! Dizia entre mim: "Um
Deus, humilhado por amor meu, confuso, e eu, pecadora, sem estas divisas. Um Deus estável,
firme em suportar tantas injúrias, tanto que não se move nem um pouquinho para se livrar dessas
cusparadas fétidas, - ah! Parece-me ver seu interior ante a Divindade, e o exterior ante os homens
- no entanto, se quiser pode fazê-lo, porque não são as correntes que o atam, senão sua estável
Vontade, que a qualquer custo quer salvar o gênero humano. E eu? E eu? Onde estão minhas
humilhações, onde a firmeza, a constância em fazer o bem por amor de meu Jesus e por amor de
meu próximo? Ai, que diferentes vítimas somos eu e Jesus, porque de fato não nos parecemos em
nada!" Enquanto meu pequeno cérebro se perdia nisto, meu adorável Jesus me disse:

(4) "Minha humanidade esteve cheia somente de opróbios e humilhações, tanto, de derramar fora,
eis por que diante de minhas virtudes treme o Céu e a terra, e as almas que me amam se servem
de minha Humanidade como escada para subir a provar algumas gotinhas de minhas virtudes. Diz-
me, perante a minha humildade, onde está a tua? Só Eu posso gloriar-me de possuir a verdadeira

humildade, minha Divindade unida a minha Humanidade podia operar prodígios em cada passo,
palavra e obra, em troca voluntariamente me restringia no cerco de minha Humanidade e me
mostrava como o mais pobre, e começava a confundir-me com os mesmos pecadores.
(5) A obra da Redenção em tão pouco tempo podia fazê-la, mesmo com uma só palavra, mas quis
durante tantos anos, com tantos trabalhos e sofrimentos, fazer minhas as misérias do homem, Quis
exercer-me em tantas ações diversas para fazer com que o homem fosse todo renovado,
divinizado, mesmo nas mínimas obras, porque realizadas por Mim, que era Deus e Homem,
recebiam novo esplendor e ficavam com a marca de obras divinas. Minha Divindade escondida em
minha Humanidade, com descer a tanta baixeza, sujeitar-se ao curso das ações humanas
enquanto que com um só ato de Vontade poderia criar infinitos mundos, com sentir as misérias, as
debilidades de outros como se fossem suas, com ver-se coberta de todos os pecados dos homens
ante a divina justiça, e que devia pagar com o preço de penas inauditas e com o desembolso de
todo seu sangue, exercia contínuos atos de profunda e heróica humildade.

(6) Eis, ó minha filha, a grandíssima diferença da minha humildade com a humildade das criaturas,
que perante a minha, é apenas uma sombra; até a de todos os meus santos, porque a criatura é
sempre criatura e não sabe quanto pesa a culpa como eu a conheço, embora sejam almas
heróicas que ao meu exemplo se ofereceram a sofrer as penas de outros, mas estas não são
diferentes daquelas, das outras criaturas, não são coisas novas para elas, porque estão formadas
do mesmo barro. Além disso, só pensar que essas penas são causa de novas aquisições e que
glorificam a Deus, é uma grande honra para elas. Além disso, a criatura está restrita no cerco onde
Deus a colocou, e não pode sair desses limites com os quais Deus a cercou. Oh! se estivesse em
seu poder fazer e desfazer, quantas outras coisas fariam, cada um chegaria às estrelas. Mas
minha Humanidade divinizada não tinha limites, senão que voluntariamente se restringia em Si
mesma, e isto era um entrelaçar todas minhas obras de heroica humildade. Tinha sido esta a
causa de todos os males que inundam a terra, isto é, a falta de humildade, e Eu com o exercício
desta virtude devia atrair da justiça divina todos os bens. Ah, sim, que não partem de meu trono
resgates de graças senão por meio da humildade! Nenhum bilhete pode ser recebido por Mim, se
não contém a assinatura da humildade, nenhuma oração escuta meus ouvidos e move a
compaixão meu coração, se não está perfumado com o aroma da humildade. Se a criatura não
chegar a destruir o germe de honra, de estima, e isto se destrói com chegar a amar o ser
desprezada, humilhada, confundida, sentirá um entrelaçamento de espinhos ao redor de seu
coração, perceberá um vazio em seu coração que lhe dará sempre incômodo e a tornará muito
diferente de minha Santíssima Humanidade, e se não chegar a amar as humilhações, no máximo
poderá conhecer-se um pouco a si mesma, mas não resplandecerá diante de Mim vestida pela
bela e agradável vestidura da humildade".

(7) Quem pode dizer quantas coisas compreendia sobre esta virtude e a diferença entre conhecer-
se a si mesmo e a humildade? Parecia-me tocar com a mão a diferença destas duas virtudes, mas
não tenho palavras para me explicar. Para dizer alguma coisa me sirvo de uma idéia, por exemplo:
Um pobre diz que é pobre, e mesmo a pessoas que não o conhecem e que talvez possam crer que
possui alguma coisa, ele lhes manifesta com franqueza sua pobreza, pode-se dizer que se
conhece a si mesmo e diz a verdade, e por isso é mais amado, move aos demais a compaixão de
seu miserável estado e todos o ajudam, isto é o conhecer-se a si mesmo. Se depois, aquele pobre,
envergonhado de manifestar a sua pobreza, se vangloriasse de que é rico, enquanto todos sabem
que nem sequer tem vestidos para se cobrir e que morre de fome, o que aconteceria? Todos o
desprezam, ninguém o ajuda e chega a ser sujeito de zombaria e de ridículo a qualquer que o
conhece, e o miserável, indo de mal a pior, acaba por perecer. Tal é a soberba diante de Deus e
mesmo diante dos homens, e eis que quem não se conhece a si mesmo, já está fora da verdade e
se precipita pelo caminho da falsidade.
(8) Agora, a diferença com a humildade, embora me pareça que são duas irmãs nascidas no
mesmo parto e que jamais se pode ser humilde se não se conhece a si mesmo, é por exemplo um
rico, que despojando-se por amor das humilhações de suas nobres vestes, cobre-se com
miseráveis trapos, vive desconhecido, a ninguém manifesta quem é ele, confunde-se com os mais
pobres, vive com os pobres como se fosse igual a eles, faz dos desprezos e confusões as suas
delícias, e esta é a bela irmã do conhecimento de si mesmo, isto é a humildade. Ah! Sim, a
humildade chama à graça; a humildade rompe as cadeias mais fortes, como são o pecado; a
humildade supera qualquer muro de divisão entre a alma e Deus, e a Ele a devolve. A humildade é
a pequena planta, mas sempre verde e florida, não sujeita a ser roída pelos vermes, nem os
ventos, nem as granizadas, nem o calor poderão lhe fazer mal nem murchar minimamente. A
humildade, embora seja a mais pequena planta, sempre tira ramos altíssimos que penetram até o
céu e se entrelaçam ao redor do coração de Nosso Senhor, e só os ramos que saem desta
pequena planta têm livre a entrada nesse coração adorável. A humildade é a âncora da paz nas
tempestades das ondas do mar desta vida.

A humildade é sal que tempera todas as virtudes, e preserva a alma da corrupção do pecado.
A humildade é a erva que brota no caminho pisado pelos caminhantes, que enquanto é pisada desaparece,
mas logo se vê surgir de novo mais bela do que antes.
A humildade é como enxerto nobre que enobrece a planta silvestre. A humildade é o ocaso
da culpa. A humildade é a recém-nascida da graça. A humildade é como lua que nos guia nas
trevas da noite desta vida. A humildade é como aquele ganancioso negociante que sabe negociar
bem suas riquezas, e não esbanja nem sequer um centavo da graça que lhe vem dada. A
humildade é a chave da porta do Céu, assim ninguém pode entrar nele se não tiver bem guardada
esta chave. Finalmente, caso contrário eu nunca iria terminar e alongar-me muito, humildade é o
sorriso de Deus e de todo o Empírico, e o choro de todo o inferno.

4-27
Novembro 2, 1900

Quem habita em Jesus, nada no oceano de todos os contentamentos

(1) Esta manhã me sentia toda oprimida e aflita, com a adição que o bendito Jesus não se fazia
ver; depois de muito esperar saiu de dentro de meu interior, e abrindo-me seu coração me punha
dentro dizendo:
(2) "Fica dentro de Mim, só aqui encontrarás a verdadeira paz e estável contente, porque dentro de
Mim não penetra nada do que não pertence à paz e felicidade, e quem habita em Mim não faz
outra coisa que nadar no oceano de todos os contentamentos; enquanto ao sair de Mim, ainda que
a alma não se desse ao trabalho de nada, só de ver as ofensas que me fazem e o modo como me
desgostam, já vem a participar nas aflições, e fica perturbada por isso; por isso tu de vez em
quando esquece de tudo, entra dentro de Mim e vem a saborear minha paz e felicidade, depois sai
fora e faz-me o ofício de reparadora minha".
(3) Dito isto, desapareceu

5-26
Outubro 27, 1903

O modo de agir divino é pelo só amor do Pai e dos homens.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, por pouco tempo vi a minha adorável Jesus dizendo-
me:

(2) "Minha filha, aceitar as mortificações e sofrimentos como penitência e como castigo, é louvável,
é bom, mas não tem nenhum nexo com o modo de agir divino, porque Eu fiz muito, sofri muito, mas
o modo que tive em tudo isto foi só o amor do Pai e dos homens. Assim, descobre-se rapidamente
se a criatura tem o modo de agir e de sofrer ao divino, se só o amor e a sofrer a empurra. Se tem
outros modos, embora fossem bons, é sempre modo de criatura, por isso se encontrará o mérito
que pode adquirir uma criatura, não o mérito que pode adquirir o Criador, não havendo união de
modos. Enquanto que se tem meu modo, o fogo do amor destruirá toda disparidade e
desigualdade, e formará uma só coisa entre minha obra e a da criatura.

6-28
Março 20, 1904

Todas as coisas têm origem na fé.

(1) Esta manhã sentia-me desanimada e entristecida pela perda de meu adorável Jesus, e
enquanto estava neste estado, fez ouvir sua dulcíssima voz que me dizia:
(2) "Minha filha, todas as coisas têm origem na fé. Quem é forte na fé é forte no sofrer, a fé faz
encontrar Deus em cada lugar, faz com que se descubra em cada ação, toca em cada movimento,
e cada nova ocasião que se apresenta é uma nova revelação divina que recebe. Por isso, seja
forte na fé, porque se estiver forte nela em todos os estados e vicissitudes, a fé te fornecerá a força
e te fará estar sempre unida com Deus".

7-28
Julho 8, 1906

Jesus a atrai para Ele com uma luz.

(1) Continua quase sempre o mesmo, só sinto um pouco mais de vigor; que Deus seja sempre
bendito, tudo é pouco por seu amor, mesmo sua própria privação, o estar distante do Céu, e só
por obedecer.
(2) Agora a obediência quer que eu escreva alguma coisa sobre a luz que ainda vejo de vez em
quando. Às vezes me parece ver Nosso Senhor dentro de mim, e de sua Humanidade sai uma
imagem toda luz, e a sua humanidade acende sempre mais o fogo, e vejo a imagem da luz de
Cristo, como se peneirasse este fogo, e deste fogo peneirado sai uma luz toda semelhante à sua
imagem de luz, e tudo se compraz e com ânsia a espera para uni-la a Si, e depois incorpora-se
outra vez na sua Humanidade. Outras vezes me encontro fora de mim mesma e me vejo toda
fogo, e uma luz que está por desprender-se do fogo, e Nosso Senhor, com seu fôlego sopra na
luz, e a luz se eleva e toma o caminho para a boca de Jesus Cristo, e Ele com seu alento a
afasta e a atrai, a engrenagem e a torna mais reluzente, e a pobre luz se debate e faz todos os
esforços porque quer ir a sua boca, a mim me parece que se isto acontecesse expiraria, porém
estou obrigada a dizer em meu interior A obediência dada pelo confessor não o quer, apesar de

que dizer isto me custa a própria vida. E o Senhor parece que se deleita em fazer tantos jogos
com esta luz. Agora, parece-me que Nosso Senhor vem e quer voltar a ver tudo o que Ele
mesmo me deu, se está tudo arrumado e sem pó , portanto me pega pela mão e me tira os anéis
que me deu quando me desposei com Ele, um encontrou-o intacto e o resto limpou-os com o seu
fôlego e voltava a pô-los, depois, como se me vestisse toda, põe-se ao meu lado e diz:
(3) "Agora sim que estás bela, vem a Mim, não posso estar sem ti; ou tu vens a Mim ou Eu vou a
ti, és a minha amada, a minha alegria, a minha alegria".
(4) Enquanto isso diz, a luz se debate e faz todos os esforços porque quer estar em Jesus, e
enquanto toma seu vôo vejo que o confessor com suas mãos a para e a quer encerrar dentro de
mim, e a Jesus que se está quieto e o deixa fazer. Oh Deus, que pena! Cada vez que isso
acontece eu acho que eu devo morrer e chegar ao meu porto, e obediência me faz encontrar de
novo no caminho. Se eu quisesse dizer tudo desta luz não terminaria jamais, mas me faz tanto
mal escrever isto, que não posso seguir adiante, ainda mais que muitas coisas não sei dizê-las,
por isso faço silêncio.

+ + + +

7-29
Julho 10, 1906

Quem tudo é doado a Jesus, recebe todo Jesus.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, por pouco tempo nosso Senhor veio e me disse:
(2) "Minha filha, que tudo a Mim se dá, merece que Eu tudo a Ela me dê. Eis-me aqui tudo à tua
disposição, o que quiseres, toma-o".
(3) Eu não lhe pedi nada, só lhe disse: "Meu Bem, não quero nada, só quero a Ti só; só Tu me
bastas para tudo, porque tendo a Ti tenho tudo."
E Ele: "Muito bem, soubeste pedir, pois enquanto não queres nada quiseste tudo".

8-25
Fevereiro 12, 190

Faz mais a alma animada em um dia, do que a tímida em um ano.

(1) Encontrando-me no meu estado habitual, assim que veio o bendito Jesus me disse:

(2) "Minha filha, a timidez reprime a Graça e trava a alma. Uma alma tímida jamais será boa para
realizar coisas grandes, nem para Deus, nem para o próximo, nem para si mesma. Uma alma
tímida é como se tivesse amarradas as pernas, e não podendo caminhar livremente, tem os olhos
postos sempre em si e no esforço que realiza para caminhar. A timidez faz ter os olhos voltados
sempre para o baixo, jamais para o alto; a força para agir não a tomada de Deus mas de si mesma,
e portanto em vez de fortificar-se se enfraquece. A Graça, se semeia, lhe sucede como a esse
pobre agricultor que tendo semeado e trabalhado seu campinho, pouco ou nada recolhe; em troca
uma alma animosa faz mais em um dia que a tímida em um ano".

9-27
Fevereiro 24, 1910

Luisa não pode manifestar-se ao confessor.

(1) Esta manhã, na comunhão, lamentava-me com Jesus de que não sei manifestar o meu estado
a quem devo; sinto-me, sim, muitas vezes cheia d'Ele, parece-me que em toda parte o toco, e
mesmo tocando-me a mim mesma toco a Jesus, mas não sei dizer uma palavra; não queria outra
coisa senão perder-me em Jesus, na profundidade do mais absoluto silêncio, e se sou obrigada a
falar, oh! Deus, que esforço devo fazer, e me sinto como uma menina que tem um sono pesado e a
querem despertar pela força, e por conseqüentemente faz birra.

Então dizia a Jesus: "De tudo me privaste, dos teus sofrimentos, dos teus favores,
de fazer-me ouvir a tua voz harmoniosa, doce e suave, não me reconheço mais por como me reduzi;
se me fazes entender alguma coisa, é tão dentro, que não encontra o caminho para sair fora.
Diga-me vida minha, como devo me comportar?" E Jesus:

(2) "Minha filha, se me tens a Mim, tens tudo, e isto te basta. Se te sentes cheia de Mim, é sinal de
que te tenho na casa da minha Divindade. Se um rico admitisse em sua casa a um pobre, é sinal
de que dará ao pobre tudo o que lhe seja necessário, apesar de que não lhe fale sempre, de que
não o acaricie, de outra maneira seria uma desonra para o rico. E não sou Eu mais que o rico?
Então acalme-se e trate de manifestar à obediência o que possa, o resto deixe tudo a meu
cuidado".

10-24
Junho 21, 1911

Não há santidade se a alma não morre em Jesus.

(1) Estava a pensar na Mãe Celestial, quando tinha o meu sempre amável Jesus morto nos seus
braços, no que fazia e como se ocupava de Jesus. E uma luz acompanhada de uma voz dentro de
mim dizia:
(2) "Minha filha, o amor operava potentemente na minha Mãe. O amor consumia-a toda em Mim,
nas minhas chagas, no meu sangue, na minha própria morte e fazia-a morrer no meu amor; e o
meu amor, consumindo o amor e toda a minha Mãe, fazia-a ressurgir de amor novo, ou seja, toda
do meu amor. Assim que seu amor a fazia morrer, meu amor a fazia ressurgir a uma vida nova toda
em Mim, de uma maior santidade e toda divina. Assim, não há santidade se a alma não morre em
Mim; não há verdadeira vida se não se consome toda em meu amor".

11-27
Julho 23,1912

O coração deve estar vazio de tudo.

(1) Encontrando-me com meu sempre amável Jesus, lamentava com Ele que além de suas
privações sentia meu pobre coração insensível, frio, indiferente a tudo e como se já não tivesse
vida. Que estado lamentável é o meu! Não obstante eu mesma não sei chorar minha desventura,
e já que eu mesma não sei ter compaixão de mim mesma, tenha Tu compaixão deste coração,
que tem amado tanto e que tanto te prometia receber.
(2) E Jesus: "Minha filha, não te aflijas por coisas que não merecem nenhuma aflição, e Eu em
vez de ter compaixão destes lamentos e de teu coração, me deleito neles e te digo: Alegra-te
comigo porque fiz perfeita aquisição de teu coração, e não sentindo mais nada de suas mesmas
alegrias e da vida de seu coração, venho eu mesmo a gozar de sua felicidade e de sua própria
vida. Então, deves saber que quando não sentes nada do teu coração, eu ponho o teu coração
no meu coração e o tenho repousando em doce sono e vou gozando-o se depois o sentes,
então a alegria é entre os dois juntos. Se tu me deixares fazer, Eu, depois de te haver dado
repouso em meu coração e gozado de ti, virei repousar em ti e te farei gozar dos contentamentos
de meu coração. Ah! minha filha, este estado é necessário para você, para Mim e para o mundo.
(3) Para você: Se você estivesse acordada teria sofrido muito ao ver os castigos que estou
mandando e os outros que mandarei, por isso é necessário te adormecer para não te fazer sofrer
tanto.
(4) É necessário para Mim: Quanto teria sofrido se não te contentasse, se não tivesse
condescendido com o que você quer, e você não me tivesse permitido que Eu mandasse os
castigos, então era necessário te anestesiar. Em certos tempos tristes e de necessidade de
castigos, é necessário escolher o caminho intermédio para nos fazer menos infelizes.
(5) É necessário para o mundo: Se Eu quisesse desabafar contigo e fazer-te sofrer como o fazia
anteriormente, e por isso contentar-te não dando ao mundo os castigos, a fé, a religião, a
salvação, teriam quase desaparecido do mundo, especialmente como os ânimos são dispostos
nestes tempos.
(6) Ah! minha filha, deixa-me fazer a Mim, quando te deva manter desperta e quando
adormecida; não me disseste que faça de ti o que Eu quero? Acaso queres retirar a tua palavra?"
(7) E eu: "Jamais! Jesus, mas temo que eu me tenha feito mal e por isso me sinto neste estado".
(8) E Jesus: "Escuta, minha filha, acaso entrou em ti algum pensamento, afeto, desejo, que não
seja para Mim? Se alguma coisa disto tivesse entrado, deverias ter medo, mas se nada disto
existe, é sinal de que o teu coração está em Mim e o faço dormir. Virá, virá o tempo em que o
farei despertar, e então verás que tomarás a atividade de antes, e como tens estado em repouso
a atividade será maior".
(9) Depois acrescentou: "Eu faço de todos os modos, faço as adormecidas de amor, as
ignorantes de amor, as loucas de amor, as doutas de amor, mas de tudo isto sabes qual é a
coisa que mais me importa? Que tudo seja amor, tudo o resto que não é amor nem sequer é
digno de um olhar".


CURE SEU CASAMENTO E SUA FALTA DE CONFIANÇA EM DEUS
27. O edito do censo. Ensinamento do teu Reino.
sobre o amor ao esposo e sobre a confiança em Deus.

4 de junho de 1944.

Vejo ainda a casa de Nazaré e o pequeno quarto onde habitualmente
Maria toma as suas refeições. Agora ela está trabalhando numa Tela Branca.
Pára seu trabalho para acender um candeeiro, porque
a tarde vem chegando, e ela não está mais enxergando bem, com
essa luz esverdeada que está entrando pela porta semi-aberta, do
lado do pomar. Maria também fecha a porta.

Vejo como já está volumosa de corpo. Mas ainda muito bonita.
Seu passo e sempre ligeiro, e gentis são todos os seus gestos. Não há
nada daquele peso próprio da mulher, que está perto de dar à luz.
Só no rosto é que ela está mudada. Agora é “a mulher.” Antes, no
tempo da Anunciação, era uma jovenzinha de rosto sereno e ino-
pente: um rosto inocente de criança. Depois, na casa de Isabel, no
momento do nascimento do Batista, seu rosto já se apresentava com
uma graça mais madura. Agora é um rosto sereno, mas docemente
majestoso, da mulher que atingiu sua plena perfeição na maternidade.

Não faz lembrar mais a sua querida “Annunziata” de Florença,
pai. Quando eu era pequena, a reconhecia ali.
Agora, o rosto está mais longo e magro, e os olhos mais pensativos
e maiores. Em suma, é como Maria hoje no Céu. Porque ela retomou
O aspecto e a idade do momento em que nasceu o Salvador.

A sua eterna juventude, a qual não só não conheceu a corrupção
oi tai, mas nem mesmo murchou com o passar dos anos. O tempo
não teve ação sobre ela, a nossa rainha e mãe do Senhor, que
criou o tempo. Nos tormentos da Paixão (tormentos que começaram
para ela muito antes, pois eu diria que começaram desde o início da evangelização de Jesus,
ela apareceu envelhecida, mas esse envelhecimento era como um véu colocado pela dor
sobre a sua incorruptível pessoa. De fato, desde o momento em que reencontra Jesus
ressuscitado, ela se torna novamente a criatura cheia de vida e perfeita, que era antes da Paixão,
como se tendo beijado as Santíssimas Chagas, tivesse bebido nelas um elixir de juventude, que anulou a
ação do tempo, e mais ainda do que isto, anulou a ação da dor.

Também há oito dias que eu vi a descida do Espírito Santo, no dia
de Pentecostes, vi Maria “extraordinariamente bela, e de repente
rejuvenescida”, como escrevi, e como tinha escrito antes: “Ela aparece
um anjo azul.” Os anjos não conhecem velhice. São eternamente belos
com eterna juventude, do eterno presente que é Deus e que eles
refletem em si.

A juventude angélica de Maria, o anjo azul, se completa e atinge
a idade perfeita (idade que ela levou consigo para os céus, e que conservará
para sempre em seu santo corpo glorificado, quando o Espírito adorna a sua esposa,
coroando-a diante dos olhos de todos.)
Agora ela não está mais no segredo de um quarto desconhecido ne
mundo, sendo testemunhada apenas por um arcanjo.

Quis fazer esta descrição, porque me pareceu necessária. Agora
volto à descrição.
Maria, pois, tornou-se verdadeiramente “mulher”, cheia de dignidade e de graça.
Até seu sorriso é diferente, por sua doçura e majestade. Como é bela!

José vem entrando. Parece que está vindo da cidade, porque está
entrando pela porta da casa, e não da oficina. Maria levanta a cabe-
ça e sorri para ele. José retribui ao sorriso dela. Mas parece que ele
faz isso como quem está cansado, preocupado. Maria observa isso.
Depois, ela se levanta para pegar o manto, que José está tirando, o
dobra e o coloca sobre um baú.
José se assenta junto à mesa. Apóia um cotovelo sobre a mesa e
a cabeça sobre a palma da mão, enquanto com a outra mão, alisa
barba, muito pensativo.

– Tens algum pensamento que te atormenta?, pergunta-lhe Ma-
ria. – Posso te consolar?
-Tu me consolas sempre, Maria. Mas desta vez o meu
pensamento és ..tu.
– Eu, José? O que é?
grande
– Colocaram um edito sobre a porta da sinagoga. Está ordena-
vá recensear-se em seu lugar de origem. Nós temos que ir a Belém.
do o recenseamento de todos os palestinos, E é preciso que cada um vá recensear-se em seu lugar de origem.
Nós temos que ir a Belém…

– Oh!, interrompe Maria, pondo uma mão sobre o ventre.
– Isso te assusta, não é?
– Não, José. Não é isso, Penso nas Sagradas Escrituras: Raquel mãe de Benjamim e mulher de Jacó, da qual
nascerá a Estrela: o Salvador. Raquel está sepultada em Belém, da qual está escrito: ¨E tu Belém Efrata, és a menor
entre as terras de Judá, mas de ti sairá o Dominador.¨

É o Dominador que foi prometido, da estirpe de Davi. Ele vai nascer lá…

Achas… achas que chegou o tempo? E, então, como faremos?

José está completamente perturbado. Ele olha para Maria com
dois olhos cheios de piedade.

Ela percebe isso, e sorri. Sorri mais para si mesma, do que para ele.
E um sorriso que parece dizer: “E um homem justo, sim, mas um homem. Pensa como homem.
Tem compaixão dele, minha alma, e guia-o para que possa ver como espiritual.”
Mas a bondade de Maria a leva a tranqüilizá-lo. Não
mente, porém afasta a sua preocupação.

-Não sei, José. O tempo está muito perto. Mas não poderia o Senhor fazê-lo chegar mais devagar,
para te livrar dessas preocupações? Ele pode tudo. Não tenhas medo.

-Mas, e a viagem? Depois, pensa só na multidão que se vai aglo-
merar… Encontraremos bom alojamento? E poderemos fazer tudo, a
tempo de voltar? E se… se tivesses de dar à luz por lá, como é que fa-
ríamos? Nós não temos casa em Belém… Não conhecemos ninguém lá.

-Nao tenhas medo. Tudo irá sair bem. Deus faz que os animais enco-
trem uma toca para darem cria. Queres que Ele não faça que achemos um lugar
para o nascimento do seu Messias? Nós confiamos
Nele. Não é verdade? Sempre confiamos Nele. Quanto mais forte é a provação,
mais confiamos. Como duas crianças, colocamos nossas mãos nas suas de Pai,
Ele nos guia. Estamos completamente entregues a Ele. Olha como nos conduziu até
aqui com amor. Um Pai, por melhor que seja, não poderia tê-lo feito com maior cuidado.

Somos seus filhos e seus servos. Façamos a Sua Vontade. Nada de mal nos pode acontecer.
Até mesmo esse edito é da vontade Dele. Pois, afinal quem é Cesar? Apenas um instrumento de Deus.
Desde quando o Pai decidiu perdoar aos homens Ele dispôs Os fatos com antecedência para que
seu Cristo nascesse em Belém. Esta, a menor das cidades, ainda não existia, e já a sua Glória estava planejada.

A fim de que essa Glória se realize, e a palavra de Deus não seja desmentida,
com o nascimento do Messias noutro lugar, bem longe daqui surgiu um poderoso, que nos dominou, e que agora
que o mundo está em paz, quer saber quantos são os seus súditos.
O que é toda esta nossa pequena fadiga, se pensarmos na beleza deste doce momento de paz.
Pensa, José. Um tempo em que não há ódio no mundo! Mas que pode ser ainda mais feliz, ao surgir a ¨Estrela¨, cuja  cuja luz é diviną
e cujo influxo é redenção?  Oh! Não tenhas medo, José. Se as estradas são inseguras e a multidão de gente torna difícil a nossa passagem, os anjos nos defenderão , e abrirão caminho para nós. Não propriamente para nós, mas para o Rei deles. Senão encontrarmos abrigo, eles nos farão uma tenda com suas asas. Nada nos acontecerá de mal. Nada pode acontecer: Deus está conosco.

José olha para ela, e a ouve extasiado. As rugas de sua fronte parecem diminuir, e seu sorriso volta. Ele se levanta, já sem cansaço e sem desânimo. Sorri.

Bendita és tu, ó sol do meu espírito! Bendita es tu, que sabes
ver tudo através da graça, da qual estás cheia! Então, não percamos
tempo. Pois é preciso partir quanto antes e… Voltar sem demora
porque aqui já está tudo pronto para o… para o…

– Para o nosso Filho, José. Isso é o que deve ser aos olhos do mun-
do, lembra-te bem disso! O Pai encobriu com mistério esta sua vin-
da, e nós não devemos levantar o véu do mistério. Jesus fará isso
quando chegar a hora…
A beleza do rosto, do olhar, da expressão e da voz de Maria, quan-
do pronuncia o nome de “Jesus”, é indescritível. E em êxtase. E, com
este éxtase, cessa a visão.

Maria diz:
– Não acrescento mais coisas, porque as minhas palavras já são
ensinamento.
Mas quero chamar a atenção das mulheres para um Ponto. Mui-
tas uniões se transformam em desuniões por culpa das mulheres
que não têm aquele amor que é tudo: gentileza, piedade, atenção
para como marido. Sobre o homem mão pesam os sofrimentos físicos que pesam sobre a mulher.
Mas sobre ele pesam todas as preocupações morais: necessidade de trabalho, as decisões a serem tomadas,
a responsabilidade diante dos poderes constituídos e da própria família… Oh! quantas coisas pesam sobre o homem.

E quanto precisa também ele de conforto! Pois bem, o egoísmo chega a tal ponto que ao marido cansado,
desanimado, humilhado e preocupado, a mulher ainda lhe acrescenta o peso de suas lamentações inúteis e, às vezes,
até injustas! Tudo isso, porque ela é egoista, não ama.

Amar não é satisfazer-nos a nós mesmos, buscando a sensualidade e outras vantagens. Amar é contentar a quem amamos,
acima daquelas coisas dos sentidos, que gostaríamos de ter e usar, dando ao espírito da pessoa que amamos aquela ajuda de que ela tem necessidade, a fim de que sempre possa ter as suas asas abertas, para voar pelos céus da esperança e da paz.

Outro ponto sobre o qual chamo de novo a atenção. Já falei dele. Mas eu insisto: é a confiança em Deus.

A confiança resume as virtudes teologais. Quem tem confiança dá sinal de que tem fé. Quem tem confiança, dá sinal de que espera.
Quem tem confiança, mostra que ama. Quando alguém ama, espera e crê em uma pessoa, tem confiança. Do contrário não.
Deus merece esta nossa confiança. Se a damos aos pobres homens capazes de falhar, por que a negamos a Deus que não falha nunca?

A confiança é também humildade. O soberbo diz: “Eu mesmo faço.
Não confio nele, porque ele e um incapaz, um mentiroso, um
violento. Mas o humilde diz: “Eu confio. Por que não haveria de confiar?
Por que haverei de pensar que sou melhor do que ele? E
com maior razão, é assim que ele fala de Deus: “Por que haverei de não
confiar Naquele que é bom? Por que deverei pensar que sou capaz
de tazer tudo, eu mesmo? Deus ao humilde se doa. Mas se afasta
quem é soberbo.

A confiança é também obediência. Deus ama o obediente. A obediência é
sinal de que nós nos reconhecemos Filhos Dele e que O reconhecemos
como nosso Pai. Ora, um pai não pode deixar de amar, quando é um
verdadeiro pai. Deus para nós é Pai verdadeiro e Pai perfeito.

Sobre um terceiro ponto eu quero que medites. Está também fundamentado na Confiança.
Nenhum acontecimento pode suceder, se Deus não o permitir. És tu poderoso? Assim és, porque Deus o permitiu.
És tu súdito? Assim és porque Deus o permitiu. Procura, pois ó poderoso, não fazer deste teu poder o teu mal.
Seria sempre ¨teu mal¨ mesmo quando, a princípio, parece ser um mal para os outros. Porque, se Deus permite, não o permite
além de certos limites, e, se passas desses limites, Deus te fere e te esmaga.
Procura, então, ó sudito, fazer desta tua condição um imã para atrair sobre ti a proteção celeste.
Não maldigas nunca. Deixa os cuidados a Deus.
Ele, que é o Senhor de todos, pode abençoar e amaldiçoar suas criaturas. Vai em paz.


 


CAPÍTULO 21
O FELIZ NASCIMENTO DE MARIA SANTÍSSIMA SENHORA NOSSA. OS FAVORES QUE LOGO RECEBEU DO ALTÍSSIMO. O NOME QUE LHE DERAM NO CÉU E NA TERRA.

 

Nascimento de Maria

Chegou para o mundo o alegre dia do feliz parto de SantAna, e nascimento daquela que vinha santificada e consagrada para Mãe do mesmo Deus. Sucedeu este nascimento aos oito dias de setembro, passados nove meses completos, depois de concepção da alma santíssima de nossa Rainha e Senhora. Sua mãe Ana foi prevenida por interior ilustração, na qual recebeu aviso do Senhor que chegara a hora do parto.
Ouviu sua voz. cheia de gozo do divino Espírito, e prostrada em oração pediu ao Senhor que a assistisse com sua graça e proteção para o feliz sucesso de sua maternidade.
Sentiu o natural movimento que acontece em tal caso, e a mais que ditosa menina Maria foi, por virtude e providência divina, arrebatada num altíssimo êxtase. Abstraída de todas as operações sensitivas, nasceu ao mundo sem o conhecer pelos sentidos, pois por eles poderia ter notado, já que possuía o uso da razão. O poder do Altíssimo dispôs daquele modo, para que a princesa do céu não percebesse o próprio nascimento.

Maria, aurora da graça

Nasceu pura, limpa, formosa e cheia de graças, publicando por elas que vinha livre da lei e tributo do pecado. Em substância, nasceu como os demais filhos de Adão, mas com tais condições e particularidades da graça, que este nascimento foi admirável milagre para toda a natureza e eterno louvor de seu Autor.

Despontou, pois, este divino luzeiro no mundo às doze horas da noite, começando a separar a noite e trevas da antiga lei, do novo dia da graça que já queria amanhecer. Envolveram-na em  panos e foi tratada como as demais crianças, aquela que tinha sua mente na Divindade, e como infante, quem em sabedoria excedia a todos os mortais e aos mesmos anjos. Não consentiu sua mãe que outras mãos cuidassem da menina, e com as suas a envolveu em mantilhas. Seu estado não lhe foi impedimento, porque foi isenta das onerosas conseqüências que ordinariamente sofrem as outras mães em seus partos.

Oração de SantAna

328. Recebeu SantAna em suas mãos aquela que, sendo sua filha, era ao mesmo tempo o maior tesouro do céu e da terra entre as puras criaturas, inferior somente a Deus e superior a toda a criação.
Com fervor e lágrimas a ofereceu a Deus dizendo interiormente: Senhor de infinita sabedoria e poder, Criador de tudo quanto existe: ofereço-vos o fruto do meu seio, recebido de vossa bondade, com eterno agradecimento por mo terdes dado sem eu tê-lo podido merecer. Na filha e mãe cumpri vossa vontade santíssima e do alto de vosso trono e grandeza olhai para nossa pequenez.
Sede eternamente bendito por terdes enriquecido o mundo com criatura tão agradável ao vosso beneplácito, e porque Nela preparastes a morada e tabernáculo (Sb 9,8) para o Verbo Eterno
residir. A meus santos pais e profetas dou felicitações e neles a toda a linhagem humana, pelo seguro penhor que lhes dais de sua redenção.
Entretanto, como tratarei aquela que me dais por filha, se não mereço ser sua serva? Como tocarei a verdadeira arca do testamento? Dai-me, Senhor e Rei meu, a luz que necessito para conhecer vossa vontade, e executá-la para vosso agrado e serviço de minha filha.

Resposta do Senhor

329. Respondeu o Senhor no íntimo da santa matrona, que exteriormente tratasse a divina menina como sua filha, sem mostrar-lhe reverência, mas que conservasse em seu coração essa reverência.
No mais, cumprisse com as obrigações de verdadeira Mãe, criando sua filha com solicitude e amor.
Assim fez a feliz mãe, usando deste direito e permissão, sem perder a devida reverência, deliciava-se com sua Filha Santíssima, tratando-a e acariciando-a como as outras mães, mas atenta à
grandeza do tão oculto e divino segredo que entre ambas havia.
Os anjos de guarda da meiga menina, com grande multidão de outros deles, a reverenciaram nos braços de sua mãe e lhe entoaram celestial música, da qual ouviu um pouco a ditosa Ana.
Os mil anjos nomeados para a custódia da grande Rainha, ofereceram se e dedicaram-se ao seu serviço. Foi esta a primeira vez que a divina Senhora os viu em forma corpórea, com as divisas e vestes que explicarei noutro capítulo. A Menina pediu-lhes louvassem com Ela, e em seu nome, ao Altíssimo.

S. Gabriel anuncia ao limbo o nascimento de Maria

330. No momento em que nasceu nossa princesa Maria, o Altíssimo enviou o santo Arcanjo Gabriel para participar aos santos pais do limbo esta tão alegre nova para eles.
O embaixador celestial desceu logo, iluminando aquela profunda caverna e alegrando aos justos nela detidos.
Noticiou-lhes que já começava a amanhecer o dia da eterna felicidade e redenção do gênero humano, tão desejado e esperado pelos santos e vaticinado pelos profetas.
Já nascera a futura Mãe do Messias prometido, e muito em breve veriam a salvação e glória do Altíssimo.
Deu-lhes notícia o santo Príncipe, das excelências de Maria Santíssima e do que a mão do Onipotente começara a fazer por Ela, para conhecerem melhor o ditoso princípio do mistério que poria fim à sua prolongada prisão.
Todos aqueles pais, profetas e demais justos que estavam no limbo alegraram-se em espírito, e com novos cânticos louvaram o Senhor por este benefício.

A Menina é levada ao céu

331. Havendo-se passado rapidamente o que disse a respeito do nascimento de nossa Rainha, conheceu Ela com os sentidos a seus pais naturais e outras criaturas, e este foi o primeiro passo de sua vida ao nascer neste mundo.
O poderoso braço do Altíssimo começou a operar Nela novas maravilhas, acima de todo o pensamento humano. A primeira e mais estupenda foi enviar inumeráveis anjos para que levassem ao céu empíreo, em corpo e alma, a eleita para Mãe do Verbo eterno.
Obedeceram esta ordem os santos príncipes. Tomaram a Menina Maria dos braços de sua mãe Sant*Ana e, ordenados em solene procissão, conduziram com cânticos de incomparável júbilo a
verdadeira arca do Novo testamento. Ela iria permanecer algum tempo, não na casa de Obededon, mas no templo do sumo Rei dos reis e Senhor dos Senhores, onde mais tarde seria colocada eternamente.
Do mundo ao supremo céu, este foi o segundo passo da vida de Maria Santíssima.

Os anjos reconheceram Maria por sua Rainha

332. Quem poderá dignamente exaltar este maravilhoso prodígio da destra do Onipotente? Quem dirá o gozo e admiração dos espíritos celestiais, ao verem e celebrarem com novos cânticos
aquela tão nova maravilha entre as obras do Altíssimo?
Ali reconheceram e reverenciaram a sua Rainha e Senhora, escolhida para Mãe Daquele que seria sua cabeça, causa da graça e da glória que possuíam, pois as deviam aos méritos de Cristo,
previstos na divina aceitação.
Mas, que língua ou que pensamento mortal pôde entrar no segredo do coração daquela tenra Menina, no sucesso e feitos de tão peregrino favor? Deixo-o à piedade católica, e muito mais aos que no Senhor o conhecerão, e a nós quando por sua misericórdia infinita chegarmos a gozá-lo face a face.

Maria vê a Deus claramente pela primeira vez

333. Pela mão dos anjos entrou a menina Maria no céu empíreo. Prostrada, pelo afeto, na presença do real trono do Altíssimo, verificou-se então, ao nosso modo de entender, a realidade do que antes aconteceu em figura entre Betsabé (3Rs 2,19) e seu filho Salomão. Estando este em seu trono a julgar o povo de Israel, entra Betsabé. O monarca levanta-se do trono para receber sua mãe, e com reverência, deu-lhe a honra e o assento de rainha a seu lado.
O mesmo, e mais gloriosa e admirávelmente fez a pessoa do Verbo eterno com a menina Maria, que escolhera para mãe. Recebeu-a em seu trono, dando-lhe a seu lado lugar de Mãe e Rainha da criação, ainda que por então Ela desconhecesse a própria dignidade e a finalidade de tão inefáveis mistérios e favores.
Insuficientes seriam suas forças para recebê-los, se não fossem confortadas pela virtude divina. Para tanto, foram-lhe dadas novas graças e dons para elevar suas potências. Para as interiores,
além de nova graça e luz com que foram preparadas, Deus as elevou e proporcionou ao objeto que lhe seria manifestado.
Comunicando-lhe a luz da glória, descobriu sua Divindade e lha manifestou intuitiva e claramente em grau altíssimo.
Foi esta a primeira vez que a alma santíssima de Maria viu a beatíssima Trindade com visão clara e beatífica.

Maria pede a encarnação do Verbo

334. Da glória que nesta visão recebeu a menina Maria, dos mistérios que lhe foram revelados, dos efeitos que redundaram em sua alma puríssima, foi testemunha somente o autor de tão inaudito milagre, e a admiração dos anjos que, em Deus, conheciam algo deste mistério.
Estando a Rainha à destra do Senhor, que seria seu Filho, e vendo-o face a face, pediu-lhe com mais êxito do que Betsabé (3Rs 2, 21) que desse à intata sunamita Abisaí, sua inacessível Divindade, à natureza humana sua irmã; descesse do céu ao mundo e celebrasse o matrimônio da união hipostática na pessoa do Verbo; cumprisse desse modo sua palavra, tantas vezes dada aos homens por meio dos antigos patriarcas e profetas. Pediu-lhe apressasse a salvação do gênero humano por tantos séculos esperada, pois multiplicavam-se os pecados e a perda das almas.

Ouviu o Altíssimo esta súplica que lhe era agradável, e prometeu à sua Mãe, melhor que Salomão à sua, que logo cumpriria suas promessas e desceria ao mundo, encarnando-se para redimi-lo.

Deus impõe-lhe o nome de Maria

335. Determinou-se naquele divino consistório e tribunal, dar nome à Menina rainha. Como nenhum é legítimo e adequado se não o que é posto no ser imutável de Deus, onde com equidade,
peso, medida e infinita sabedoria se dispensam e ordenam todas as coisas, quis Sua Majestade dá-lo por si mesmo, no céu.
Manifestou aos espíritos angélicos que as três divinas pessoas haviam decretado e formado os dulcíssimos nomes de Jesus e Maria, para Filho e Mãe, ab initio ante saecula. Que desde toda a
eternidade haviam se comprazido neles, gravando-os em sua memória eterna e tendo-os presentes em todas as coisas a que haviam dado existência, pois para o serviço deles tinham sido criadas.
Conhecendo estes e outros mistérios, os santos anjos ouviram sair do trono a voz do Pai Eterno que dizia: - Nossa eleita chamar-se-á Maria, e este nome há de ser maravilhoso e magnífico.
Os que o invocarem com devoção receberão copiosíssimas graças, os que o pronunciarem com reverência serão consolados, e todos acharão nele alívio para suas dores, tesouros com que se enriquecerem, luz para serem guiados à vida eterna. Será terrível contra o inferno, esmagará a cabeça da serpente e obterá insignes vitórias contra os príncipes das trevas.
Mandou o Senhor aos espíritos angélicos que participassem este ditoso nome à SantAna, para ser realizado na terra o que fora confirmado no céu. A divina Menina prostrada pelo afeto ante
o trono, deu humildes graças ao Ser eterno e com admiráveis e dulcíssimos cantos recebeu o nome.
Se se quisesse escrever as prerrogativas e graças que lhe concederam, seria mister compor livro separado em maiores volumes.
Os santos anjos reverenciaram de novo, no trono do Altíssimo, a Maria Santíssima por futura Mãe do Verbo, sua Rainha e Senhora. Veneraram seu nome, prostrando-se ao ser pronunciado pela
voz do eterno Pai, particularmente os que o levavam sobre o peito como divisa. Todos cantaram louvores por mistérios tão grandes e ocultos, mas a Menina Rainha ignorava a causa de quanto presenciava, porque não lhe seria manifestada sua dignidade de Mãe do Verbo até o tempo da Encarnação.
Com o mesmo júbilo e reverência, voltaram os anjos a pô-la nos braços de Sant'Ana, a quem foi oculto este sucesso e a ausência de sua filha, pois fora substituída por um dos seus anjos da
guarda, com um corpo aparente.
Além disso, enquanto a divina Menina esteve no céu empíreo, teve sua mãe Ana um êxtase de altíssima contemplação. Nele, ainda que ignorava o que se passava com sua Menina, lhe foram
manifestados grandes mistérios da dignidade da Mãe de Deus para a qual sua filha era escolhida. A prudente matrona conservou-os sempre em seu coração, meditando-os para, de acordo com eles, proceder com sua filha.

O nascimento de Maria, alegria para o céu e a terra

336. Aos oito dias do nascimento da grande Rainha, desceram das alturas multidão de anjos formosíssimos e roçagantes. Traziam um brasão no qual vinha gravado e resplandecente o nome
de MARIA. Manifestando-se à ditosa mãe Ana disseram-lhe que o nome de sua filha era o que traziam. Que a divina providência lho havia dado e ordenava que ela e Joaquim o impusessem logo.
Chamou a santa seu esposo e conferiram a vontade de Deus em dar à sua filha o nome, que o feliz pai aceitou com júbilo e devoto afeto. Resolveram convidar os parentes e um sacerdote e
com muita solenidade e suntuoso banquete puseram o nome de Maria à recém-nascida. Os anjos o celebraram com dulcíssima e sublime harmonia, ouvida somente por mãe e filha santíssima.
Deste modo recebeu nossa Princesa o nome que lhe foi dado pela Santíssima Trindade, no céu no dia em que nasceu, e na terra oito dias depois.
Foi inscrito no registro dos demais, quando sua mãe foi ao Templo para cumprir a lei, como se dirá.
Este foi o singular nascimento que até então o mundo jamais vira, nem de pura criatura pôde haver outro semelhante.
Foi o mais ditoso que a natureza conheceu, pois uma criancinha de um dia não somente pura das imundícies do pecado, mas ainda mais santa que os supremos serafins.
O nascimento de Moisés, notável pela beleza e graça do menino (Êx 2,2), não passou de aparência transitória.
Oh! quão formosa sois nossa grande Menina! (Ct 7, 6). Toda formosa e suavíssima em vossas delícias, porque tendes todas as graças e formosuras, sem vos faltar nenhuma!
O prometido nascimento de Isaac, concebido por mãe estéril, foi riso (Gn 21,6) e alegria para a casa de Abraão.

Sua importância, porém, lhe provinha da participação de nossa Menina rainha, a quem se referia toda aquela tão desejada alegria. Se aquele parto foi admirável e de tanto gozo para a família do Patriarca, era por ser o exórdio do nascimento de Maria dulcíssima. Neste se devem alegrar céu e terra, pois nasce aquela que há de restaurar o céu e santificar o mundo.
Quando nasceu Noé (Gn 5, 29) consolou-se Lamec, seu pai, porque aquele filho seria o chefe em quem Deus ia assegurar a conservação da linhagem humana pela arca, e a restauração de suas bênçãos, desmerecidas pelos pecados dos homens. Tudo isso, porém, realizou-se para nascer no mundo esta Menina, que seria a verdadeira Reparadora, a mística arca que guardou o novo e verdadeiro Noé, trazendo-o do céu para encher de bênçãos a todos os moradores da terra.
Oh! ditoso nascimento! Fostes o maior aprazimento dos que em todos os séculos passados recebera a Santíssima Trindade. Gozo para os anjos, refrigério para os pecadores, alegria dos justos e singular consolo aos santos que te esperavam no limbo!
337. Oh! preciosa e rica pérola, que viestes à luz na grosseira concha deste mundo! Oh! grande Menina que sendo apenas notada pelos olhos terrenos, aos do supremo Rei e seus cortesãos excedes em dignidade e grandeza a tudo quanto não é o mesmo Deus!
Todas as gerações te bendigam.
Todas as nações reconheçam e louvem tua graça e formosura. A terra seja iluminada por este nascimento, os mortais se alegrem por lhes ter nascido a reparadora, que encherá o caos no qual os lançou o primeiro pecado. Bendita e exaltada seja vossa dignação comigo, que sou o mais baixo pó e cinza.
Se me derdes licença, Senhora minha, para falar em vossa presença, vou expor-vos uma dúvida, que se me deparou no mistério do vosso admirável e santo nascimento, a respeito do que o Altíssimo vos concedeu na hora em que vos colocou à luz material do sol.

A escritora pede esclarecimentos

338. A dúvida é a seguinte: como se há de entender que fostes com o corpo, por mão dos santos anjos, até o céu empíreo e gozastes da visão da Divindade?
Segundo a doutrina da santa Igreja e seus doutores, o céu esteve fechado e interdito aos homens, até que vosso Filho Santíssimo o abriu com sua vida e morte. Como Redentor e cabeça
entrou nele quando ressuscitado. A ele subiu no dia de sua admirável ascensão, e foi o primeiro para quem se abriram aquelas portas eternas, até então fechadas pelo pecado.

RESPOSTA E DOUTRINA DA RAINHA DO CÉU.

O pecado fechou o céu para os homens
339. Caríssima filha, é verdade que a divina justiça fechou o céu aos
mortais desde o primeiro pecado, até que meu Filho Santíssimo o abriu, satisfazendo
superabundantemente, pela sua vida e morte, a dívida dos homens.
Deste modo foi conveniente e justo que o mesmo Redentor, cabeça que
havia unido a si os membros redimidos, para os quais abriu o céu, fosse o primeiro
entre os filhos de Adão a nele entrar. Se não existira o pecado, não fora necessário
observar essa ordem para os homens subirem ao gozo da divindade no céu
empíreo. Em vista da queda do gênero humano, determinou a Santíssima Trindade
o que agora sucede.
Este grande mistério foi encerrado por David no salmo 23, v. 7 quando,
falando com os espíritos celestiais, disse duas vezes: - Abri, príncipes, vossas portas,
levantai-vos. portas eternas, para entrar o Rei da glória. Disse aos anjos que
as portas eram deles, porque só para eles estavam abertas, a para os homens fechadas.
Aqueles cortesãos celestes não ignoravam que o Verbo humanado já lhes
havia tirado os cadeados e ferrolhos da culpa, e que subia rico e glorioso com os
despejos da morte e do pecado, estreando o fruto de sua paixão, na glória dos
santos pais do limbo que levava consigo.
Com tudo isto. perguntam-se os anjos admirados e suspensos pela maravilhosa
novidade: (SI 23, 8) - Quem é este Rei da glória, homem da mesma natureza daquele
que perdeu para si e para toda a linhagem humana o direito de entrar no céu?

Cristo abriu o céu pela redenção

340. Eles mesmos responderam à dúvida, dizendo que é o Senhor forte e
poderoso nas batalhas, o Senhor das virtudes, o Rei da glória. Mostravam
entender que aquele homem, chegado à terra para abrir as portas eternas, não era
apenas homem, nem estava compreendido na lei do pecado, mas era homem e
Deus verdadeiro. Forte e poderoso na batalha, vencera o forte armado (Lc 11,
22) que reinava no mundo, despojando-0 de seu reino e de suas armas.
Era o Senhor das virtudes (SI 23,porque as havia praticado como Senhor
delas, com absoluto domínio, sem a contradição do pecado e seus efeitos. Senhor
das virtudes e Rei da glória, vinha triunfante, distribuindo virtudes e glória a
seus redimidos. Enquanto homem padecera e morrera por eles, e enquanto Deus,
os elevava à Eternidade da visão beatífica.
Quebrava os eternais ferrolhos e obstáculos que lhes pusera o pecado.
Para a Imaculada o céu esteve sempre aberto.

341. Tudo isto foi realizado por meu querido Filho, Deus e homem verdadeiro.
Senhor das virtudes e da graça, quis elevar-me e adornar-me com elas
desde o primeiro instante de minha Imaculada Conceição. Não me havendo
tocado o óbice do primeiro pecado, não tive o impedimento dos demais mortais
para entrar por aquelas portas eternas do céu, e o braço poderoso de meu Filho agiu
comigo como Senhora das virtudes e Rainha do céu.
Pelo fato de que se faria homem, vestindo-se de minha carne e sangue, quis
sua benignidade, de antemão, fazer-me sua semelhante na pureza, isenção da culpa, e
em outros dons e privilégios. Como não fui escrava da culpa, praticava as virtudes,
não como dependente delas, mas como Senhora, com domínio e sem contradição.
Nisto não me assemelhava aos filhos de Adão, mas ao Filho de Deus que
também era meu Filho.

Os anjos reconhecem os privilégios de Maria

342. Por esta razão, os espíritos celestiais me abriram as portas eternas,
que eles consideravam suas, reconhecendo que o Senhor me criara mais pura que
os supremos anjos do céu, para Rainha e Senhora deles e de todas criaturas.
Além disso, o aulor da lei pode dispensá-la sem sc contradizer. Assim o
fez comigo o Supremo Senhor e Legislador, estendendo o cetro de sua clemência,
mais do que Assuero a Ester (Est 4, 11):
as leis relativas à culpa, comuns aos outros, não atingiram a mim que seria Mãe
do Autor da graça. Ainda que eu, pura criatura, não poderia merecer estes benefícios,
contudo a bondade divina inclinou-se liberalmente, e olhou sua humilde
serva, para que eternamente louvasse o Autor de tais favores. Quero
que também tu, minha filha, o enalteças e o bendigas.

Oferta matutina

343. Já que, com liberal piedade, te escolhi por discípula e companheira,
sendo tu pobre, desamparada e desvalida, a doutrina que te dou agora é a
seguinte: põe todo o esforço em praticar o exercício que fiz durante toda minha
vida desde que nasci. Nunca o omiti, por mais cuidados e trabalhos que tivesse.
Ao amanhecer de cada dia, prostrava-me na presença do Altíssimo e lhe
dava graças e louvores pelas infinitas perfeições de seu Ser imutável, e por me haver
criado do nada. Reconhecendo-me criatura sua bendizia-o, adorava-o, dando-lhe
honra, magnificência e divindade, como a supremo Senhor e Criador meu, e de tudo
quanto existe. Elevava meu espírito para colocá-lo em suas mãos e com profunda
humildade e submissão, nelas me abandonava.
Pedia-lhe que usasse de mim conforme sua vontade, naquele dia e em
todos os que me restassem de vida, ensinando-me que fosse de seu maior agrado
para cumpri-lo.

Devoção ao nome de Maria

344. Do meu dulcíssimo nome serás muito devota. Quero que saibas terem
sido tantas as prerrogativas e graças que lhe concedeu o Todo-poderoso, que
ao conhecê-las na visão da divindade, fiquei empenhada e cuidadosa para lhe
corresponder. Sempre que me ocorria à memória MARIA - e era muitas vezes - e
quando ouvia-me nomear, despertava-me a gratidão e o desejo de realizar árduas
empresas para o serviço do Senhor que mo dera.
O mesmo nome tens tu, e na devida proporção, quero produza em ti os
mesmos efeitos, e que me imites pontualmente na doutrina deste capítulo, sem faltar,
desde hoje, por razão nenhuma.
Se por fraqueza te descuidares, volta logo à presença do Senhor e minha,
contrita reconhece e confessa tua culpa.
Com este cuidado, e repetindo muitos atos deste santo exercício, evitarás imperfeições
e te irás acostumando ao mais elevado das virtudes e do agrado do Altíssimo.
Ele não te negará sua divina graça para o praticares, se fores fiel à sua luz.
O mais agradável e desejável aos teus e meus afetos, seja estar atenta a ouvir e
obedecer ao teu Esposo e Senhor. Ele quer de ti o mais puro, santo e perfeito, e
a vontade pronta e diligente para executa-lo

AS VERDADES MAIS DIFICEIS DE FALAR


A MÃE COMEÇA DELICADAMENTE A DESMAMÁ-LO

Chegara também a hora em que devia privar-me de tomar o leite, devendo começar a sustentar-me com alimento comum, do que se nutrem os outros, quando desmamados. Disse-o à minha Mãe, mas com tanta graça e e tais maneiras que ela não sentiu pesar que, de fato teria devido experimentar, ao ver retirar-se-lhe tanta consolação, Havia contudo, já pedido ao Pai que a confortasse com a sua graça. E abracei-a com amor, de encontro a seu peite virginal, e com grande afeto agradeci-lhe pelo leite puríssimo que até aquela hora me havia subministrado com tamanho amor. Com os joelhos em terra, a querida Mãe adorou o Pai e agradeceu-lhe pelo leite miraculoso que lho havia dado para aleitar-me a mim, seu Filho, e pediu-lhe perdão, pelo que teria podido faltar ao subministrar-me aquele puro alimento.

Depois pediu-me perdão se acaso não havia cumprido o seu dever ao aleitar-me e agradeceu-me por me ter dignado receber aquele alimento de sua pessoa o, enquanto filho de Deus, não ter desdenhado ser aleitado por uma simples criatura, qual ela era. Humilhou-se muito na presença de meu Pai e na minha. Oh, quanto! Minha esposa, foram gratos e aceitos estes atos feitos ao meu Pai e e mim! Ficou o Pai conquistado pelo seu amor e sua humildade, e fê-la entender que, fosse o que fosse que lhe pedisse, estava pronto a conceder-lhe tudo. Ela outra coisa não pediu senão tornar-se digne de Imitar-me perfeitamente e de jamais se separar de mim. Obteve-o de meu Pai, com toda aquela perfeição que ela desejava. Eu, pois, tendo ferido o seu coração de amor, abraçando-a apertadamente e beijando-a docemente, agradeci-lhe pelo serviço que até aquela hora me havia prestado, e pedi-lhe continuasse, qual mãe amorosa, a amar-me a mim, seu Filhe único e dileto. Confortei-a muito nesta ocasião e pedi-lhe que me alimentasse no futuro com o mesmo alimento com o qual ela se nutria. Assegurei-lhe que não tomando mais seu leite, não devia por isto ter receio do que em mim diminuísse o amor para com ela. Com o meu crescimento, cresceria para com ela meu amor, e nela aumentariam a graça e o mérito, A querida Mãe ficou resignada inteiramente à vontade do Pai e à minha, e muito confortada com minhas palavras. Ofereci depois todos esses atos ao pai e todos os agradecimentos, em suplência por meus irmãos e máxime por aqueles que, havendo recebido muitas graças de meu Pai, não lhe agradecem e não se servem delas em vista do fim pelo qual meu Pai lhas concede. Roguei-lhe ainda se dignasse dar virtude, espirito e graça a todos aqueles que, por sua disposição, devem sentir falta dos alimentos espirituais, para que e es se acomodem ao que o Pai dispõe e não dêem as costas à virtude, Efetivamente, a alma, sem este sustento, fica em grande perigo de não avançar na perfeição. Pedi muito a meu Pai que, permitindo esta privação ã graça o ajuda especial, de alimentar as não deixasse de suprir com a sua graça e ajuda especial de alimentar as almas com outra comida que lhe aprouvesse, mantê-las em seu espirito e fervor e fazê-las crescer na virtude e na perfeição, O Pai prometeu fazer tudo, como de fato vai realizando.

Com todos esses meus atos e súplicas ao Pai,  muito se comprazia  ao ver-me continuamente pedindo graças e favores para os meus irmãos. Conhecendo eu esta sua complacência, não deixava de praticar incessantemente atos semelhantes. Suplicava ao Pai que, do mesmo modo que se comprazia em ouvir-me, sem jamais se enfastiar, e suplicava-lhe que com grande gosto ainda me dignasse ouvir de bom grado as súplicas de meus irmãos; jamais lhe causaste tédio ou fastio, por mais que eles lhe fossem pouco amorosos e gratos e se dignasse atende-los, principalmente quando lhe pedissem as graças em meu Nome e por meus méritos.

O Pai mostrou-se nisto liberal, prometeu-me e assegurou-me que tudo o que lhe pedissem em meu Nome e por meus méritos, tudo haveria de conceder-lhes, se o pedido fosse em assunto de proveito e não de detrimento para eles, porque em tal caso o Pai lhes concederia outras graças proveitosas, adequadas à salvação deles e á sua glória. Havendo eu já praticado todos esses atos, oferecido ao Pai todas aquelas minhas obras e obtido dele todas as graças que lhe pedia para a salvação de meus irmãos, punha-me a louvado, bendize-lo e agradecer-lhe. Fazia-o em nome e por parte de todos os meus irmãos. Convidava, depois, ainda minha dileta Mãe a unir-se a mim para cantar os louvores divinos, dos quais muito gostava, e que alegravam a meu Pai. Eu lhe suplicava se dignasse ensinar a todas as criaturas, por meio de dons e graças, o modo mais adequado de louvá-lo. Em realidade, de fato meu Pai e ainda o faz. Por intermédio de seu divino Espirito vai insinuando à mente e ao coração das criaturas seus louvores e suas glórias. Na verdade, muito bem o aprendem, e não só louvam e bendizem elas a seu Criador, mas são causa de que seja igualmente louvado e glorificado por outros, por meio de suas egrégias composições em louvor do Pai e em meu louvor. Agradecia por isto ao Pai, e fazia-o em nome e por parte de todos aqueles que assim eram prevenidos por sua graça.

AMOR E BENEVOLÉNCIA PARA COM SÃO JOSÉ.

Estando, pois, ali com minha dileta Mãe e José, seu esposo, não deixava de fazer-lhe também aqueles atos de gratidão, de amor e de benevolência que, de fato, merecia, tendo sido fiel e afeiçoado a minha Mãe e a mim, tratando-nos com tanto obséquio, respeito e submissão que realmente mereceu um amor muito grande da parte de meu Pai, de mim e de minha querida Mãe. Ao começar a proferir palavras, falava-lhe com amor, agradecia-lhe quanto sofria e se afadigava por meu amor: ao dirigir-lhe estas palavras enchia-lhe a alma de tal consolo que se desfazia em lágrimas de suavidade, e uma só palavra, ouvida de minha boca, convertia em alegria todas as amarguras experimentadas naquele duro exílio e em tamanha pobreza. Na verdade, afligia-se muito ao ver-se pobre e necessitado a ponto de não poder manter a sua esposa e a minha pessoa com o conforto desejado e tido por indispensável. Eu, contudo, e minha querida Mãe não deixávamos de consolá-lo, declarando ser esta a vontade do Pai e a minha. Em conseqüência. ele se consolava, liquefazia-se-lhe o coração de amor para comigo e para com minha Mãe dileta. Por sua vez, era por nós correspondido com amor igual e considerado sempre guarda fiel e provedor de nossas necessidades. Impetrava-lhe de meu Pai numerosas graças, e fazia que sua alma crescesse Sempre em virtude e insignes méritos. la freqüentemente a seus braços, acariciava-o, dava-lhe demonstrações de afeto muito intenso. Ele ficava cada vez mais consolado e confirmado na graça, e ardoroso na aquisição das virtudes e do amor divino. Oferecia depois esses mútuos afetos ao Pai, e suplicava-lhe que justamente daquele modo se dignasse consolar as almas fiéis que me seguem. imitando meus exemplos.

Ele as consolasse, confortasse e acariciasse, fazendo-as experimentar as delicias de sou amor, abrançando-as e estreitando-as ao seu divino coração, a fim de se. rem mais confirmadas na graça e no amor. O Pai tudo me prometia fazer e com muita liberalidade, como efetivamente o vai realizando. No entanto, existem poucas destas almas tão fiéis e afeiçoadas como a cirna (110 José, que verdadeiramente fora prevenida pelo Pai com a doçura de gilas bênçãos em tal medida que. depois de minha querida Mãe, não houve, nem existiu no mundo alma semelhante à sua, tão favorecida e amada por meu Pai, por mim e por minha dileta Mãe, e por isto tão favorecida e agraciada por nós.

PRECES COMUNS E AÇÕES DE GRAÇAS.

Continuando a morar ali, íamos praticando eu, a querida Mãe e José, os habituais exercícios de virtude, louvor e ações de graças ao Pai, e em benefício do próximo que qui-sesse receber a verdadeira luz, isto e. conhecer e adorar o verdadeiro Deus. Pedi muito ao dileto Pai, mas não tiveram então pleno efeito o meu desejo e o meu pedido, porque seria preciso que tivesse lhes pregado publica. mente a verdadeira fé e o verdadeiro Deus. Fiquei, não obstante, em parte satisfeito, vendo que aquelas almas iam, todavia, se dispondo, e algumas das quais haviam já abraçado a verdadeira fé: por meio destas, com o correr do tempo, e outros auxílios, haveriam de se converter e seriam iluminadas ainda outra.

MORTE DE HERODES.

Estando assim de algum modo consolado, não me faltavam, contudo. preocupações e aflições, uma das quais foi ver que o ímpio Herodes morria em sua obstinação, e depois de haver mandado matar tanto inocentes, finalmente, ia se encerrar a perseguição pelo sepultamento da alma criminosa no profundo dos abismos infernais, Oh! quanto me afligia a sorte infeliz daquela alma desgraçada! e como pela perfídia, ambição, dureza e avareza daquele coração rebelde, havia se precipitado a alma infeliz no báratro infernal. Sentia, realmente, enorme pesar quando se perdia alguma alma, depois de minha vinda ao mundo; e ao ver, en• quanto estava no mundo a sua salvação, elas se precipitarem no abismo infernal. Oh! isto, sim. era-me insuportável! Não podia deixar de chorar a sua desgraça que, efetivamente, era imensa. Morto o ímpio Herodes, roguei ao Pai não permitisse mais que no mundo surgisse tirano semelhante àquele. Via, todavia, que muitos tiranos cruéis surgiriam no mundo e afligiriam e atormentariam os meus seguidores. Por este motivo sentia grande pesar. Mas consolava-me ver que a crueldade e tirania seriam causa de que tantas almas se salvassem com grande mérito e adquirissem a palma e a coroa do martírio. Pelo breve sofrimento desta vida frágil seriam eternamente bem-aventuradas e felizes no céu. Pedia então com grande instância ao Pai lhes desse graça e virtude e as assistisse até o fim dos padecimentos e dos martírios, e depois as levasse consigo ao repouso eterno. Fazia-o com tanta instância e insistência porque sofriam por minha causa todas aquelas penas, isto é, para serem-me fiéis e devido ao amor que me dedicavam. Meu Pai se mostrava muito benigno e cortês e assegurou-me haver não só de assisti-las e consolá-Ias mas de combater ele próprio com elas, a saber, dar-lhes força e virtude para vencerem e superarem não só o tirano, mas toda espécie do sofrimento e martírio, e depois conduzi-las ao eterno repouso e felicidade.

O ANJO FALA A JOSÉ.

Neste ínterim, chegado o tempo do retorno a Nazaré, por haver cessado inteiramente a perseguição de Herodes, devido a sua morte, enviou meu Pai um anjo no sono a José, para avisá-lo de que podia voltar à pátria por ter Já morrido aquele que procurava matar-me. José, havendo despertado do sono, avisou a minha Mãe querida e ordenou a partida do Egito.

EXORTAÇÃO.
Por isso, não deixeis, esposa minha, de imitar-me o mais possível em tudo o que eu vos mostrei reste capitulo. Aproveitai meus exemplos, certa de que jamais vos faltarão minha ajuda e a graça de meu Pai.



Parte 1Parte 2 Parte3
12-27
Novembro 27, 1917

A Santidade de viver no Divino Querer está isenta de interesse pessoal e de perda de tempo.

12-27
Novembro 27, 1917

A Santidade de viver no Divino Querer está isenta de interesse pessoal e de perda de tempo.

(1) Continuo só por obedecer. Meu sempre amável Jesus parece que tem vontade de falar do
viver em seu Santíssimo Querer; parece que enquanto fala de sua Santíssima Vontade esquece
tudo e faz esquecer tudo; a alma não encontra outra coisa que a necessidade, outro bem, que
viver em seu Querer. Então meu doce Jesus, depois de ter escrito no dia 20 de Novembro
acerca do seu Querer, desagradando-se comigo me disse:

(2) "Minha filha, não disse tudo, quero que não deixe de escrever nada quando Eu te falo de
meu Querer, ainda as mais pequenas coisas, porque todas servirão para bem dos que virão.
Em todas as santidades houve sempre os santos que deram início às diferentes espécies de
santidade, assim houve o santo que iniciou a santidade dos penitentes, outro que iniciou a
santidade da obediência, outro a da humildade e assim de todas as outras santidades. Agora, o
início da santidade de viver no meu querer quero que sejas tu. Minha filha, todas as outras
santidades não estão isentas de perda de tempo e de interesse pessoal, como por exemplo:
Uma alma que vive em tudo à obediência tem muita perda de tempo; aquele falar e falar
continuado a distraem de Mim, põe a virtude em meu lugar, e se não tiver a oportunidade de
tomar todas as ordens, vive inquieta.

Outra que sofre tentações, oh! quanta perda de tempo,
não se cansa de dizer todos os seus obstáculos e põe a virtude do sofrimento em meu lugar, e
muitas vezes estas santidades se esfumam. Mas a santidade de viver em meu Querer está
isenta de interesse pessoal, de perda de tempo, não há perigo de que Me mudem pela virtude,
porque viver em meu Querer sou Eu mesmo. Esta foi a santidade da minha humanidade na
terra, e por isso fez tudo e por todos, e sem a sombra do interesse. O interesse próprio tira o
selo da santidade divina, por isso jamais pode ser sol, no máximo, por mais bela que seja, pode
ser uma estrela. Por isso quero a santidade de viver em meu Querer; nestes tempos tão tristes
a geração tem necessidade destes sóis que a aqueçam, a iluminem, a fecundem; o
desinteresse destes anjos terrestres, tudo para bem dos demais, sem a sombra de interesse
próprio, abrirá o caminho nos corações de todos para receber a minha graça.

(3) Além disso, as igrejas são poucas, muitas serão destruídas; muitas vezes não encontro
sacerdotes que me consagrem, outras vezes permitem que almas indignas me recebam, e que
almas dignas não me recebam, outras vezes as almas não podem receber-me, assim que meu
amor se encontra obstruído. Por isso quero fazer a santidade de viver em meu Querer, nela não
terei necessidade de sacerdotes para me consagrar, nem de igrejas, nem de tabernáculos, nem
de hóstias, senão que estas almas serão tudo junto: Sacerdotes, igrejas, tabernáculos e
hóstias. Meu amor estará mais livre, cada vez que me consagrar o poderei fazer, a cada
momento, de dia, de noite, em qualquer lugar onde essas almas se encontrem, oh, como meu
amor terá seu desabafo completo! ¡ Ah, minha filha, a presente geração merece ser destruída
de todo, e se permitirei que pouco reste dela, é para formar estes sóis da santidade de viver em
meu Querer, que a exemplo meu me refarão de tudo o que me devem as outras criaturas,
passadas, presentes e futuras. Então a terra me dará verdadeira glória e meu Fiat Voluntas Tua
como no Céu assim na terra, terá seu cumprimento e conclusão".

13-28
Outubro 27, 1921

A Divina Vontade deve ser como alma ao corpo.

(1) Estava dizendo a meu sempre amável Jesus: "Há muito tempo que não me pões dentro de
Ti, eu ali me sentia mais segura, participava mais de tua Divindade, e era como se a terra não
me pertencesse, e o Céu fosse minha morada; quantas lágrimas não derramava quando teu
Querer me punha fora de Ti! Só sentir o ar da terra era insuportável para mim, mas seu Querer
vencia e eu inclinando a testa me resignava. Agora sinto-te sempre dentro de mim, e quando
deliro por te ver, só com mover-te em meu interior, ou bem tirando um braço me acalmas e me
dás a vida; diz-me, qual é a causa?"

(2) E Jesus: "Minha filha, é justo, depois de te ter levado dentro de mim toda a minha Vida, é teu
dever que me leves dentro de ti toda a tua vida; e se te colocava dentro de mim era para
perfumar a tua alma e estender em ti um novo céu para a tornar digna habitação da minha
pessoa. É verdade que se sentia mais segura, e as alegrias choviam sobre você, mas a terra
não é lugar de delícias, senão que a dor é sua herança, e a cruz é o pão dos fortes. Muito mais
que devendo estabelecer em ti o centro de meu Querer, era necessário que vivesse em ti e que
te servisse como alma ao corpo. Minha Vontade jamais podia descer em uma alma em modo
singular e fora do ordinário, se não tivesse suas prerrogativas distintas, como com minha
amada Mamãe, não podia descer Eu, Verbo Eterno, se Ela não tivesse tido suas prerrogativas
distintas e o sopro divino não tivesse soprado nela como a nova criação, para torná-la admirável
a todos e superior a todas as coisas criadas.

Assim em ti, primeiro minha Humanidade quis
fazer estável morada em ti para te preparar, e depois está te dando a Vida de minha Vontade
como alma ao corpo. Tu deves saber que minha Vontade deve ser como alma ao corpo; olha,
também em Nós acontece isto, entre as Três Divinas Pessoas, nosso amor é grande, infinito,
eterno, mas se não tivéssemos uma Vontade que anima e dá vida a este amor, nosso amor
estaria sem vida, sem obras; nossa sabedoria chega ao incrível, nosso poder pode pulverizar
tudo em um minuto, e em outro minuto pode refazer tudo, mas se não tivéssemos uma Vontade
que quisesse manifestar a maestria de nossa sabedoria, como a manifestou na Criação, na qual
tudo ordenou e harmonizou juntamente, e com o seu poder lhe deu o seu lugar de tal modo qu
não se pode afastar nem um pouquinho, tanto a minha sabedoria como o meu poder teriam
estado sem fazer nada, e assim de todos os nossos outros atributos.

(3) Agora, assim o quero, que minha Vontade seja como alma ao corpo; o corpo sem a alma
está sem vida, apesar de que contém todos os sentidos, mas não vê, nem fala, nem sente, nem
obra, é quase uma coisa inutilizável e talvez ainda insuportável, mas se está animado, quantas
coisas ele não pode fazer? E, oh! quantos se tornam inúteis e insuportáveis porque não são
animados por minha Vontade, parecem como instalações elétricas sem luz, como máquinas
sem movimento, cobertas de ferrugem e de pó e quase impotentes ao movimento, ah, como
dão piedade! Então, cada coisa que não está animada por minha Vontade é uma vida de
santidade que vem a faltar, por isso quero ser em ti como alma ao corpo, e minha Vontade fará
novas surpresas de criações, dá nova vida a meu amor, novas obras e maestria de minha
sabedoria, e dá novo movimento a meu poder, por isso seja atenta e deixe-me fazer, a fim de
que cumpra meu grande desígnio: que a criatura seja animada por minha Vontade".

14-26
Abril 29, 1922

Quem vive no Divino Querer vive de uma batida de coração, eterna.

(1) Encontrando-me em meu estado habitual, via minha alma e todo meu interior: pensamentos,
afetos, batimentos, tendências, mudados em tantos fios de luz, e estes se alongavam e se
ampliavam tanto, que saindo de meu interior harmonizavam com o sol, subiam mais alto e
tocavam o céu, se difundiam sobre toda a terra, e enquanto olhava isto vi a meu doce Jesus
que tinha em sua mão todos aqueles fios de luz, e com uma maestria encantadora os dirigia, os
alongava, os multiplicava e alargava quanto quisesse. Ao toque daquela luz todas as coisas
criadas se abaixavam e harmonizavam juntas, e faziam festa. Então meu Jesus me disse:
(2) "Minha filha, viste com que amor me divirto e dirijo os atos feitos em meu Querer?

É tal meu zelo que não os confio a ninguém, nem sequer à própria alma, nem um pensamento, nem uma
fibra deixo sem encerrar nela toda a potência de minha Vontade, cada ato destes contém uma
Vida Divina, por isso ao toque destes atos todas as coisas criadas sentem a Vida de seu
Criador, sentem de novo a força daquele Fiat Onipotente do qual tiveram a existência e fazem
festa, assim que estes atos são para elas nova glória e nova festa. Agora, esta bela harmonia,
estes fios de luz que saem de teu interior, se teu coração não corresse em meu Querer senão
em tua vontade ou em outra vontade, em teu coração faltariam tantos batimentos de Vida
Divina, ficando tantos batimentos humanos por quantos faltam à Divina, e assim também das
fibras, dos afetos, e como o humano não é capaz de formar luz, senão trevas, por tanto se
formariam tantos fios de trevas, e meu Querer ficaria entristecido, não podendo desenvolver em
ti toda a potência de minha Vontade".
(3) Enquanto dizia isto, eu queria ver se em minha alma havia estes batimentos humanos que
interrompessem a vida do batido divino, e por quanto olhava não os encontrava.
(4) E Jesus: "Por agora não há nada, já to disse para te fazer atenta e te fazer conhecer o que
significa viver no meu Querer, significa viver de um batimento eterno e divino, viver com o meu
sopro onipotente".

+

15-27
Junho 6, 1923
O sinal de que a alma é toda de Deus, é se não sente gosto por nada do que existe.

(1) Estava pensativa sobre por que meu doce Jesus não vinha e dizia entre mim: "Quem sabe o
que haverá de mal em meu interior, que Jesus para não desagradar se oculta?" E Ele, movendo-se
dentro de mim, disse-me:
(2) "Minha filha, o sinal de que não há nada de mal e que o interior da alma está todo cheio de
Deus, é que nada lhe tenha ficado que não seja todo meu, e que em tudo o que possa acontecer
dentro e fora dela, não sente mais gosto de nada, senão que seu gosto é só por Mim e de Mim, e
não só das coisas profanas ou indiferentes, mas também de coisas santas, de pessoas piedosas,
de funções, de músicas, etc., tudo para ela é frio, indiferente, e como coisas que não lhe
pertencem, e a razão é natural, se a alma está toda cheia de Mim, então está cheia também de
meus gostos, o gosto meu é o seu, os demais gostos não encontram lugar onde se pôr, por isso
por quanto belos possam ser, para a alma não têm nenhum atrativo, mas bem para ela estão como
mortos. Mas a alma que não é toda minha, está vazia, e à medida que as coisas a circundam,
assim sente nela tantos gostos se são coisas que lhe agradam; se são coisas que não lhe
agradam, sente desgosto, assim que está em contínua alternância de gostos e de desgostos, e
como o gosto que não saiu de Mim não é duradouro, muitas vezes os gostos se convertem em
desgostos, e por isso se notam tantas variações de caráter, agora demasiado triste, agora
demasiado alegre, agora todo irado, em outra ocasião todo afável, é o vazio que tem de Mim na
alma o que lhe dá tantas variações de caráter, nada semelhante ao meu, que sou sempre igual e
jamais me mudo. Agora, você sente algum gosto do que existe aqui embaixo? Por que teme que
haja algum mal em você, pelo qual Eu desagradado me oculte? Onde estou Eu, males não pode
haver".
(3) E eu: "Meu amor, eu não sinto gosto de nada, por quão boa fosse, e além disso Você sabe
melhor que eu, como posso sentir gosto por outras coisas, se a pena de sua privação me absorve,
me amarga até a medula dos ossos, me faz esquecer tudo, e só me está presente e fixo no
coração o cravo de que estou privada de Ti?"
(4) E Jesus: "E isto te diz que és minha e que estás cheia de Mim, porque o gosto tem este poder:
Se é meu gosto transforma a criatura em Mim, se é gosto natural a envolve nas coisas humanas,
se é gosto de paixões a lança na corrente do mal. O gosto parece que seja coisa de nada, porém
não é assim, é o ato primeiro, ou do bem, ou do mal, veja como é assim: Adão, por que
pecou?
Porque separou o seu olhar do encanto divino, e quando Eva lhe apresentou o fruto para o
fazer comer, olhou o fruto e a vista sentiu prazer ao olhá-lo, o ouvido sentiu deleite ao ouvir as
palavras de Eva, de que se comesse o fruto se tornaria semelhante a Deus, A garganta sentiu
gosto ao comê-lo, assim que o gosto foi o primeiro ato de sua ruína. Se ao contrário tivesse sentido
desagrado ao olhá-lo, tédio, aborrecimento ao ouvir as palavras de Eva, desgosto ao comê-lo,
Adão não teria pecado, mas teria feito o primeiro ato heróico em sua vida, resistindo e corrigindo a
Eva por ter feito isso, e ele teria permanecido com a coroa imperecível da fidelidade Àquele a quem
tanto devia e que tinha todos os direitos de sua sujeição. Oh! como é necessário estar atento sobre
os diversos gostos que surgem na alma, se são gostos puramente divinos, dar-lhes vida; se são
gostos humanos ou de paixões, dar-lhes a morte, de outra maneira há perigo de precipitar-se na
corrente do mal".

16-27
Novembro 5, 1923

Os atos feitos no Divino Querer formam os acidentes que aprisionam a Jesus na alma, e formam nela sua Vida real.

(1) Sentia-me oprimida pela privação do meu doce Jesus, com a adição de que o confessor, como
não tinha tido a confiança de me abrir com ele e porque sou má, tinha-me negado a absolvição.
Depois, tendo recebido a Santa Comunhão, me abandonava em braços de meu dulcíssimo Jesus e
lhe dizia:

(2) "Meu amor, ajuda-me, não me abandones, Tu sabes em que estado me encontro pela tua pri-
vação, não obstante por parte das criaturas, em vez de ajuda acrescentam penas a penas, bem

que sem Ti não tenho ninguém, ou Contigo ou sozinha a chorar minha dura sorte de te ter perdido.
Isto deveria te incitar principalmente a não me deixar sozinha, ao menos para fazer companhia a
uma pobre abandonada que vive morrendo em seu duro exílio, por isso Você que é o Sumo entre
os sacerdotes, dá-me Tu a absolvição, dize-me que me perdoas as culpas que há em minha alma,
me faça ouvir sua voz dulcíssima que me dá vida e perdão". Enquanto desafogava minha dor com
Jesus, se fez ver em meu interior, e os véus sacramentais formavam como um espelho em o qual
Jesus estava dentro, vivo e verdadeiro; e meu doce Jesus me disse:
(3) "Minha filha, este espelho são os acidentes do pão que me aprisionaram neles. Eu formo minha
Vida na hóstia, mas ela nada me dá, nem um afeto, nem um batimento cardíaco, nem o menor te
amo', ela está como morta para mim, permaneço só, sem a sombra de alguma correspondência, e
por isso meu amor está quase impaciente por sair, por romper este espelho e descer aos corações,
para encontrar neles a correspondência que a hóstia nem sabe nem pode me dar. Mas você sabe

onde encontro minha verdadeira correspondência? Na alma que vive em minha Vontade, Eu enquanto
descendo em seu coração, logo consumo os acidentes de hóstia, porque eu sei que acidentes
mais nobres e a Mim mais queridos estão prontos para me aprisionar, para não me fazer sair
daquele coração que me dará não só vida nele, mas vida por vida; não estarei só, senão que esta-
rei com minha mais fiel companhia, seremos dois corações pulsando juntos, amaremos unidos,
nossos desejos serão um só, assim que eu permaneço nela e nela faço vida, vivo e verdadeiro,
como a faço no Santíssimo Sacramento. Mas sabe quais são esses acidentes que encontro na alma
que faz minha Vontade? São seus atos feitos em meu Querer, que mais do que acidentes se
estendem em ao redor de Mim e me aprisionam, mas dentro de uma prisão nobre, divina, não
escura, porque seus atos feitos no meu Querer, mais do que o sol iluminam-na e aquecem-na.
OH! como eu me sinto feliz de fazer a Vida real nela, porque me sinto como se me encontrasse em
minha morada celestial. Olhe em seu coração, como estou contente, como me deleito e provo as
alegrias mais puras".
(4) E eu: "Meu amado Jesus, não é uma coisa nova e singular o que Tu dizes, que em quem vive
na tua Vontade Tu fazes a Vida real nele? Não é mais essa Vida mística que Tu fazes nos
corações que possuem a tua graça?"

(5) E Jesus: "Não, não, não é Vida mística como para aqueles que possuem a minha Graça mas
não vivem com seus atos fundidos em meu Querer, e por isso não têm matéria suficiente para me
formar os acidentes para me prender; seria como se faltasse a hóstia ao sacerdote e gostaria de
pronunciar as palavras da consagração, poderia dizê-las, mas as diria no vazio e certamente minha
Vida Sacramental não teria existência. Assim me encontro nos corações, que enquanto podem
possuir minha Graça, mas não vivem de todo em meu Querer, estou neles por Graça, mas não
realmente".
(6) E eu: "Meu amor, mas como pode ser que Tu possas realmente viver na alma que Vive no teu
Querer?"
(7) E Jesus: "Minha filha, não vivo porventura na hóstia sacramental vivo e verdadeiro, na alma,
corpo, sangue e Divindade? E por que vivo na hóstia em alma, corpo, sangue e Divindade? Porque

não há uma vontade que se oponha à minha; se eu encontrar na hóstia uma vontade que se opun-
ha à minha, Eu não faria nela nem Vida real, nem perene, e é também esta a causa pela qual os

acidentes sacramentais se consomem quando me recebem, porque não encontro uma vontade
humana unida Comigo, de maneira que queiram perder a sua para fazer aquisição da minha, mas
eu encontro uma vontade que quer agir, que quer fazer por si mesma, e eu faço minha breve visita
e parto. Em vez disso, para quem vive em mim Vontade, meu Querer e o seu são um só; e se o
faço na hóstia, muito mais o posso fazer nele muito mais, pois encontro uma batida, um afeto, a
minha correspondência e a minha utilidade, o que não encontro na hóstia.

A alma que vive em minha Vontade é necessária minha Vida real nela, de outra forma, como eu poderia viver de meu
Querer? ! Ah! você não quer entender, que a santidade de viver no meu Querer é uma santidade
totalmente diferente das outras santidades, e tiradas as cruzes, as mortificações e os atos ne-
cessários da vida, que feitos em mim Não é outra coisa senão a vida dos bem-aventurados do Céu,
que como vivem em meu Querer, em virtude Dele cada um me tem neles como se fosse para um
só, vivo e verdadeiro, não misticamente, mas realmente habitante neles; e assim como não se po-
deria dizer vida de Céu se não me tivessem neles como vida própria, e se faltasse ainda uma pe-
quena parte de minha Vida neles não seria nem completa nem perfeita sua felicidade, assim quem
vive em meu Querer não seria nem plena nem perfeita minha Vontade nela, porque faltaria minha
Vida real que emite esta Vontade. É verdade que são todos prodígios do meu amor, antes o prodí-
gio dos prodígios, que até agora meu Querer tem retido nele e que agora quer fazê-lo sair para al-
cançar a finalidade primária da criação do homem. Por isso a minha primeira Vida real a quero for-
mar em ti".

(8) E eu ao ouvir isto disse: "Ai! meu amor, Jesus, apesar disto sinto-me tão mal por todas estas
circunstâncias, e Tu o sabes; é verdade que isto me serve para abandonar-me mais em teus
braços e pedir a Ti o que não me dão; mas com tudo e isto sinto um hálito de turbação que pertur-
ba a paz de minha alma, e Você diz que quer formar Vida real em mim? " Oh, Quão longe estou disso!"

(9) E Jesus de novo: "Filha, não se preocupe com isso, o que eu quero é que você não coloque
nada do seu e que obedeça por quanto possa. se sabe que todas as demais santidades, isto é, a
da obediência e das outras virtudes, não estão isentas de insignificâncias, de perturbações, de con-
tendas e de perda de tempo que impedem formar um belo sol, na melhor das hipóteses formam
uma pequena estrela; só a santidade do meu Querer é a que está isenta destas misérias. E além
disso, a minha Vontade encerra todos os Sacramentos e os efeitos deles, por isso abandona-te de
todo em minha Vontade, faz toda tua e receberás os efeitos de absolvição ou de alguma outra
coisa que lhe foi negada. Portanto, eu recomendo que não perca tempo, pois com perdê-lo vem a
dificultar minha Vida real que estou formando em ti".

17-26
Dezembro 24, 1924

A pena de morte foi a primeira pena que Jesus sofreu e durou toda sua Vida. A Encarnação não foi outra coisa que um dar-se em
poder da criatura. A firmeza no obrar.

(1) Meus dias são sempre mais dolorosos, estão sob a prensa da dura privação de meu doce
Jesus, que como arma mortífera está sobre mim para me matar continuamente; mas enquanto
prepara o último golpe, o deixa suspenso sobre minha cabeça, e eu espero como refrigério este
último golpe para ir com meu Jesus, mas em vão espero, e minha pobre alma e também minha
natureza me sinto consumi-las e desfazer. Ah! meus grandes pecados não me fazem merecer
morrer. Que pena, que longa agonia! Ah, meu Jesus, tenha piedade de mim! Tu, que és o único
que conhece o meu estado de dor, não me abandones nem me deixes à mercê de mim mesma.
Agora, enquanto me encontrava neste estado senti-me fora de mim mesma, dentro de uma luz
puríssima, e nesta luz descobria a Rainha Mãe e o pequeno menino Jesus em seu seio virginal.
Oh Deus, em que estado tão doloroso se encontrava meu amável menino! Sua pequena
Humanidade estava imobilizada, estava com os pés e as mãos imóveis, sem o menor movimento,
não havia espaço nem para poder abrir os olhos nem para poder livremente respirar; era tanta a
imobilidade que parecia morto enquanto estava vivo, e pensava entre mim:
"Quem sabe quanto sofre o meu Jesus neste estado, e a querida Mãe ao ver no seu próprio seio tão imobilizado o
menino Jesus!" Agora, enquanto isto pensava, meu pequeno menino, soluçando me disse:.

(2) "Minha filha, as penas que sofri neste seio virginal de minha Mãe são incalculáveis à mente
humana, mas sabe você qual foi a primeira pena que sofri desde o primeiro instante de minha
Concepção e que me durou toda a vida? A pena de morte. Minha Divindade descia do Céu
plenamente feliz, intangível de qualquer pena e de qualquer morte, e quando vi a minha pequena
Humanidade sujeita à morte e às penas por amor às criaturas, senti tão ao vivo a pena da morte,
que por pura pena teria morrido de verdade se a potência de minha Divindade não me tivesse
sustentado com um prodígio, fazendo-me sentir a pena da morte e a continuação da vida, assim
que para Mim foi sempre morte, sentia a morte do pecado, a morte do bem nas criaturas e também
sua morte natural. ¡ Que duro rasgo foi para Mim toda a minha Vida! Eu, que continha a vida e era
o dono absoluto da própria vida, devia sujeitar-me à pena de morte. Não vês a minha pequena
humanidade imóvel e moribunda no seio da minha querida Mãe? E não a sentes em ti mesma
como é dura e dilacerante a pena de sentir morrer e não morrer? Minha filha, é teu viver em minha
Vontade que te faz partícipe da contínua morte de minha Humanidade".

(3) Então passei quase toda a manhã junto a meu Jesus no seio de minha Mãe e o via que
enquanto estava em ato de morrer, voltava a tomar vida para abandonar-se de novo a morrer. ¡
Que pena ver nesse estado o menino Jesus! Depois disto, na noite estava pensando no ato quando
o doce menino saiu do ventre materno para nascer no meio de nós; minha pobre mente se perdia
em um mistério tão profundo e todo de amor, e meu doce Jesus movendo-se em meu interior tirou
suas mãozinhas para me abraçar e me disse:.

(4) "Minha filha, o ato de meu nascimento foi o ato mais solene de toda a Criação, Céu e terra
sentiam-se imersos na mais profunda adoração à vista de minha pequena Humanidade, que tinha
como amuralho a minha Divindade, Assim, no ato do meu nascimento houve um ato de silêncio e
de profunda adoração e oração: Minha mãe orou e foi arrebatada pela força do prodígio que saía
dela, rezou São José, rezaram os anjos e toda a Criação; sentiam a força do amor da minha
potência criadora renovada neles, todos se sentiam honrados e recebiam a verdadeira honra,
porque Aquele que os tinha criado devia servir-se deles para o que era necessário à sua
humanidade. Sentiu-se honrado o sol ao ter que dar sua luz e calor a seu Criador, reconhecia
Aquele que o havia criado, a seu verdadeiro Senhor e fazia-lhe festa e honra com lhe dar sua luz;
sentiu-se honrada a terra quando me sentiu que estava deitado em uma manjedoura, se sentiu
tocada por meus ternos membros e exultou de alegria com sinais prodigiosos; todas as coisas
criadas viam a seu verdadeiro Rei e Senhor no meio delas, e sentindo-se honradas, cada uma
queria me dar seu ofício:
A água queria tirar-me a sede, Os pássaros com seus trinos e gorjeios
queriam me recrear, o vento queria me acariciar, o ar queria me beijar, todos queriam me dar seu
inocente tributo. Só o homem ingrato, embora todos sentissem neles uma coisa insólita, uma
alegria, uma força potente, foram relutantes, e sufocando tudo não se moveram, e embora os
chamasse com lágrimas, com gemidos e soluços, não se moveram, com exceção de poucos
pastores. Não obstante era pelo homem que vinha à terra, vinha para dar-me a ele, para salvá-lo e
para levá-lo comigo à pátria celestial. Por isso Eu era todo olhos para ver se vinha diante de Mim
para receber o grande dom de minha Vida Divina e humana, assim que a Encarnação não foi outra
coisa que me dar em poder da criatura. Na Encarnação dei-me em poder da minha amada Mãe; no
meu nascimento acrescentou-se São José, ao qual fiz dom da minha Vida, e como as minhas
obras são eternas e não estão sujeitas a terminar, esta Divindade, este Verbo que desceu do Céu,
não se retirou mais da terra, para ter ocasião de me dar continuamente a todas as criaturas.
Enquanto vivi dei-me desveladamente e depois, poucas horas antes de morrer realizei o grande
prodígio de me deixar Sacramentado, para que quem quisesse pudesse receber o grande dom da
minha Vida; não prestei atenção nem às ofensas que me fizeram, nem às rejeições de não me
querer receber, Eu disse entre Mim: me dei, não quero me retirar mais, mesmo que me façam o
que quiserem, mas serei sempre deles e estarei sempre à sua disposição". Filha, esta é a natureza
do verdadeiro Amor, este é o agir como Deus: a firmeza e o não retirar-se à custa de qualquer
sacrifício.

Esta firmeza nas minhas obras é a minha vitória e a minha maior glória, e este é o sinal
se a criatura trabalha para Deus: a firmeza. A alma não olha para ninguém, nem para as penas,
nem para si mesma, nem para a sua estima, nem para as criaturas, e apesar de lhe custar a
própria vida ela olha só para Deus, para o Qual decidiu agir por amor d'Ele, e sente-se vitoriosa de
pôr o sacrifício da sua vida por amor a Deus. O não ser firme é da natureza humana e do agir
humanamente, o não ser firme é o obrar das paixões e com paixão, a mutabilidade é debilidade, é
vileza, e não é da natureza do verdadeiro amor, por isso a firmeza deve ser a guia do agir por Mim.
Por isso em minhas obras não me mudo jamais, sejam quais forem os eventos, feita uma vez é
feita para sempre".

19-30
Junho 26, 1926

Quem possui o Reino da Divina Vontade trabalha em modo universal e possuirá a glória universal.

(1) Estava segundo meu costume, fazendo meus acostumados atos no Querer Supremo, isto é,
abraçando tudo, Criação, Redenção e a todos, para poder dar a meu Criador a correspondência do
amor e da glória que todos lhe devem, e meu doce Jesus movendo-se em meu interior me disse:.
(2) "Minha filha, a pequena filha de minha Vontade não somente deve pensar e ocupar-se em como
defender os direitos universais de seu Criador, retribuí-lo do amor e da glória que todos lhe devem
como se fossem um só, de modo que tudo deve encontrar nela, porque a nossa Vontade envolve
tudo e todos, e quem nela vive possui os modos universais, por isso tudo pode dar-nos e de tudo
podemos refazer-nos; mas também como nossa filha deves defender os direitos da Soberana
Rainha, Ela operou em modo universal e por isso teve um amor, uma glória, uma oração, uma
reparação, uma dor por seu Criador, e por todos e por cada uma das criaturas, Ela não deixou
escapar nenhum ato que as criaturas deviam a seu Criador, e fechando a todos em seu materno
coração amava em modo universal a todos e a cada um, assim que nela encontramos toda nossa
glória, não nos negou nada, não só o que lhe competia dar-nos diretamente, mas deu-nos o que as
outras criaturas nos negaram, e para a fazer de Mãe magnânima, amantíssima, que se abre as
entranhas por seus próprios filhos, gerou a todos em seu doloroso coração; cada fibra dele era uma
dor transpassando na qual dava a vida a cada seu filho, até chegar ao golpe fatal da morte de seu
Filho Deus; a dor desta morte pôs o selo da regeneração da vida aos novos filhos desta Mãe
sofredora..
(3) Agora, uma Virgem Rainha que tanto nos amou, defendeu todos os nossos direitos, uma Mãe
tão terna que teve amor e dores por todos, merece que nossa pequena recém nascida de nosso
Supremo Querer a ame por todos, a corresponda de tudo, e abraçando todos os seus atos em
nosso Querer, ponha teu ato unido ao seu, porque Ela é inseparável de Nós, sua glória é nossa, a
nossa é a sua, muito mais que nosso Querer põe tudo em comum"..

(4) Então eu fiquei um pouco confusa ao ouvir isto, e como se não soubesse fazer o que Jesus me
dizia lhe rogava que me desse a capacidade de fazê-lo, e Jesus voltando a falar me disse:.
(5) "Minha filha, meu Querer contém tudo, e assim como zeloso conserva todos seus atos como se
fossem um só, assim conserva todos os atos da Soberana Rainha como se todos fossem seus,
porque tudo o fez nele; por isso meu próprio Querer os fará presentes. Agora, tu deves saber que
quem fez bem a todos, amou a todos e operou de modo universal para Deus e para todos, tem com
justiça os direitos sobre tudo e sobre todos. O agir em modo universal é o modo divino, e minha
Mãe Celestial pôde obrar com os modos de seu Criador porque possuía o reino de nossa Vontade;
agora Ela, tendo atuado em nosso Querer Supremo, tem os direitos de possessão que formou em
nosso Reino.

E quem mais a poderá corresponder senão quem vive no mesmo Reino? Porque só
neste Reino está o agir universal, o amor que ama a todos, que tudo abraça e nada lhe foge. Tu
deves saber que quem possui o Reino de minha Vontade na terra tem direito à glória universal no
Céu, e isto em modo conatural e simples; minha Vontade abraça tudo e envolve a todos, assim que
quem a possui, dela saem todos os bens unidos à glória que estes bens contêm, E, ao sair dela a
glória universal, recebe-a; e parece-te pouco possuir a glória universal na Pátria Celestial? Por isso
sê atenta, o Reino do Supremo Querer é riquíssimo, nele estão as moedas que surgem, por isso
todos esperam de ti, também a minha própria Mãe quer a correspondência do amor universal que
teve por todas as gerações. E a ti por correspondência, na Pátria Celestial te tocará a glória
universal, herança que será somente de quem tenha possuído o Reino de minha Vontade sobre a
terra"..

20-27
Novembro 20, 1926

Como todos os atributos divinos fazem seu ofício para formar na alma o novo mar de suas qualidades.
Como todos temos um movimento.

(1) Estava segundo meu costume fazendo meu giro na Criação para seguir os atos da Vontade
Suprema n‟Ela, mas enquanto isso fazia, meu sempre amável Jesus me fazendo ouvir sua voz
dulcíssima em cada uma das coisas criadas me dizia:
(2) "Quem chama ao meu amor para fazer, ou que meu amor desça nela ou que o seu suba no
meu para fundir-se juntos, e formar um só amor e dar o campo de ação ao meu amor para fazer
surgir na alma o novo marzinho de seu amor, faz triunfar ao meu amor, e este festeja porque lhe é
dado seu desabafo e seu campo de ação".
(3) E conforme passava pelo sol, pelo céu, pelo mar, assim ouvia a sua voz que dizia:
(4) "Quem chama a minha luz eterna, a minha doçura infinita, a minha beleza inigualável, a minha
firmeza irremovível, a minha imensidão, para cortejá-las e dar-lhes o campo de ação para fazer

surgir na criatura outros tantos mares de luz, de doçura, de beleza, de firmeza e demais, para dar-
lhe o prazer de não fazê-la estar inativa e servir-se da pequenez da criatura para encerrar nela

suas qualidades? Quem é então aquela? Ah, é a pequena filha de nosso Querer!"
(5) Então, depois que em cada coisa criada ouvia me dizer: "Quem é a que me chama?" Meu doce
Jesus saiu de dentro de mim e me apertando toda a Si me disse:
(6) "Minha filha, conforme gira em minha Vontade para segui-la em cada coisa criada, assim todos
meus atributos escutam sua chamada e saem ao campo de ação para formar cada um o marzinho
de suas qualidades. Oh! assim como triunfam ao verem-se trabalhadores e poder formar cada um
seu marzinho, assim cresce seu sumo gosto e deleite ao poder formar na pequena criatura seus
mares de amor, de luz, de beleza, de ternura, de potência e demais. Minha sabedoria faz de artífice
perito e de engenho maravilhoso ao pôr na pequenez suas qualidades imensas e infinitas, oh!
como harmoniza a alma que vive em meu Querer com meus atributos, cada um deles se põe em
seu ofício para estabelecer suas qualidades divinas; se tu soubesses o grande bem que te vem ao
seguir minha Vontade em todos seus atos e o trabalho que desenvolve em ti, também tu sentirias a
alegria de uma festa contínua".

(7) Depois disto eu continuava seguindo a Criação, e por toda parte via correr aquele movimento
eterno que jamais se detém e pensava em mim: "Como posso seguir em tudo ao Supremo Querer
se Ele corre tão rápido em todas as coisas? Eu não tenho sua virtude nem sua rapidez, portanto
natural que eu fique para trás sem poder seguir em todo seu eterno murmúrio". Então, enquanto
pensava nisso, o meu doce Jesus, movendo-se dentro de mim, disse-me:

(8) "Minha filha, todas as coisas têm um movimento contínuo, porque tendo saído de um Ente
Supremo que contém um movimento cheio de vida, vinha por consequência que todas as coisas
saídas de Deus deviam conter um movimento vital que nunca cessa, e se cessar significa que
cessa a vida. Olhe, você mesma tem um murmúrio, um movimento contínuo em seu interior; mais
bem a Divindade ao criar à criatura lhe dava a semelhança das Três Divinas Pessoas, punha nela
três movimentos que deviam murmurar continuamente para unir-se àquele movimento contínuo e
murmúrio de amor de seu Criador, e estes são: O movimento do batimento do coração que jamais
cessa, a circulação do sangue que sempre gira sem jamais deter-se, a respiração que jamais se
detém, isto no corpo, e na alma há outros três movimentos que murmuram continuamente: a
inteligência, a memória e a vontade. Por isso o todo está em que teu movimento esteja atado ao
movimento de teu Criador para murmurar junto com seu movimento eterno, assim seguirá a minha
Vontade em seu movimento que jamais se detém, em seus atos que jamais cessam e fará retornar
teu movimento ao seio de teu Criador, que com tanto amor espera o retorno de suas obras, de seu
Amor e de seu murmúrio.
A Divindade ao criar as criaturas faz como um pai que manda a seus
filhos, para seu bem, um a um país, outro a outras terras, quem para fazê-lo navegar o mar e quem
a um ponto próximo e quem a um distante, dando a cada um, um trabalho que fazer, mas enquanto
os manda espera com ânsia seu retorno, está sempre vigiando para ver se vêm, se fala, fala dos
filhos; se ama, seu amor corre aos filhos, seus pensamentos voam aos filhos; pobre pai, sente-se
na cruz porque mandou os seus filhos para longe dele e suspira mais que a própria vida o seu
regresso, e se, jamais, os vê regressar a todos ou em parte, ele está inconsolável, chora e emite
gemidos e gritos de dor até arrancar lágrimas até aos mais duros, e só se alegra quando os vê
retornar a todos a seu colo paterno para apertá-los a seu seio que arde de amor por seus filhos.
Oh! Como nosso Pai Celestial mais que pai suspira, arde, delira por seus filhos, porque, tendo-os
parido de seu seio espera seu retorno para gozá-los em seus braços amorosos. E é propriamente
isto o Reino do Fiat Supremo, o retorno de nossos filhos a nossos braços paternos, e por isso o
suspiramos tanto".
(9) Depois disto, sentia-me toda imersa na adorável Vontade de Deus, e pensava em mim no
grande bem se todos conhecessem e cumprissem este Fiat tão santo e o grande contentamento
que dariam a nosso Pai Celestial, e meu doce Jesus voltando a falar acrescentou:
(10) "Minha filha, Nós ao criar a criatura, conforme nossas mãos criadoras a íamos formando,
assim nos sentíamos sair de nosso seio uma alegria, um contento, porque devia servir para manter
nosso entretenimento sobre a face da terra e nossa festa contínua, por isso conforme formávamos
os pés, assim pensávamos que deviam servir a nossos beijos, porque deviam fechar os nossos
passos e ser meio de encontro para nos entreter juntos; à medida que formávamos as mãos, assim
pensávamos que deviam servir aos nossos beijos e abraços, porque devíamos ver nelas as
repetidoras de nossas obras; à medida que formávamos a boca, o coração, que devia servir o eco
da nossa palavra e do nosso amor, e conforme o nosso alento lhe infundimos a vida, vendo que
essa vida tinha saído de nós, que era vida toda nossa, o estreitamos a nosso seio beijando-o como
confirmação de nossa obra e de nosso amor, e para fazer que se mantivesse íntegro em nossos
passos, em nossas obras, no eco de nossa palavra e amor e da vida de nossa imagem impressa
nele, lhe demos como herança nosso Divino Querer, a fim de que o conservasse tal como o
havíamos tirado para poder continuar nossos entretenimentos, nossos beijos afetuosos, nossas
doces conversas com a obra de nossas mãos.

Quando vemos na criatura nossa Vontade, Nós vemos nela nossos passos, nossas obras,
nosso Amor, nossas palavras, nossa memória e inteligência, porque sabemos que nossa
Suprema Vontade nada deixará entrar que não seja nosso, e por isso como coisa nossa tudo lhe damos,
beijos, carícias, favores, amor, ternura mais que paternal, não toleramos estar com ela nem sequer a
um passo de distância, porque mesmo as pequenas distâncias não permitem formar entretenimentos contínuos, nem dar-se beijos, nem
participar das alegrias mais íntimas e secretas. Ao contrário, na alma na qual não vemos a nossa
Vontade, não podemos entreter-nos porque nada vemos que seja nosso, nela se sente tal
perplexidade, uma tal angústia de passos, de obras, de palavras, de amor, que por si mesma se
põe à distância do seu Criador, e Nós onde vemos que não está o ímã potente do nosso Querer,
que nos faz como esquecer a infinita distância que há entre o Criador e a criatura, desdenhamos
entreter-nos com ela, enchê-la de nossos beijos e favores. Eis por que o homem ao subtrair-se de
nossa Vontade despedaçou nossos entretenimentos e destruiu nossos desígnios que tínhamos ao
formar a Criação, e somente ao reinar nosso Fiat Supremo, ao estabelecer seu Reino, serão
realizados os nossos desígnios e retomados os nossos entretenimentos sobre a face da terra".

21-2
Fevereiro 26, 1927

Onde reina a Divina Vontade forma três cordas de ouro puríssimo. A Divina Vontade faz sua exposição em toda a Criação.

(1) O meu amável Jesus faz-me esperar muito o seu regresso, oh! como suspira minha pequena
alma, reduzida sem Ele como terra sem água e sem sol, que enquanto me queimo pela sede, é
tanta a escuridão que não sei para onde dirigir meus passos para encontrar Aquele que é o único
que me pode dar a água que me tira a sede, e faz-me surgir o sol que dá luz aos meus passos
para reencontrar Aquele que de mim se afasta. Ah Jesus, Jesus, volte! Não sentes o meu
batimento cardíaco no teu que te chama, e que não tendo mais humor vital, cansadamente bate e
não tem mais força para continuar a chamar-te? Mas enquanto isso e mais eu dizia, meu sumo
bem Jesus se moveu dentro de mim, e me fazia ver três cordas, que unidas entre si estavam
atadas no fundo de minha alma, estas cordas desciam do Céu, as quais estavam atadas a três
sinos. Jesus era um pequeno menino e com uma graça que não se pode dizer, e tudo rapidamente
pegava as cordas em suas mãozinhas e as puxava forte, mas tanto, que parecia que no Céu
aquelas campainhas formavam uma música tão forte que todo o Céu saía para ver quem era
Aquele que tocava com tanta pressa e imponência, de chamar a atenção de todo o Céu, também
eu fiquei surpresa e meu doce Jesus me disse:

(2) "Minha filha, a alma onde reina meu Querer tem as cordas de ouro puríssimo que descendem
da potência do Pai, da sabedoria de Mim, Filho, e do amor do Espírito Santo. Conforme a alma
trabalha, ama, reza, sofre, assim eu tomo as cordas em minhas mãos e ponho em movimento
nosso poder, sabedoria e amor, para o bem, para glória de todos os bem-aventurados e de todas
as criaturas. O som destes sinos é tão forte e harmonioso, que chamam a todos como convidando-
os a festejar, por isso todos saíram para gozar a festa de seu ato. Então, como você vê, os atos da
alma onde meu Querer reina são formados no Céu, no seio de seu Criador, descem à terra pelas
três cordas de nossa força, sabedoria e amor, e sobem novamente até sua fonte para levar-nos
glória devida, E eu me deleito muito em puxar as cordas para fazer ouvir a todos o som destes
misteriosos sinos".

(3) Depois disto tinha ouvido falar da exposição que se tinha feito do Santíssimo Sacramento na
igreja, e eu pensava entre mim: "Para mim não há exposições nem funções". E meu doce Jesus
não me dando tempo para pensar em outras coisas, saiu de dentro de mim e me disse:
(4) "Minha filha, para ti não há necessidade de exposições, porque para quem faz minha Vontade
tem a exposição maior e contínua que minha Vontade tem em toda a Criação, mas bem cada coisa
criada, como estão animadas por Ela, São inúmeras as exposições por quantas coisas existem.
Quem forma minha Vida Divina na Eucaristia? Minha Vontade. Se não fosse porque a hóstia
sacramental está animada por minha Vontade Suprema, a Vida Divina não existiria nela, seria uma
simples hóstia branca que não mereceria a adoração dos fiéis. Agora, minha filha, minha Vontade
faz sua exposição no sol, e assim como minha Vontade tem os véus da hóstia que escondem
minha Vida, assim tem os véus da luz que a escondem no sol, porém, quem faz uma genuflexão,
quem manda um beijo de adoração, quem diz um obrigado a minha Vontade exposta no sol?
Ninguém!
Que ingratidão! Mas apesar disso Ela não se detém, é sempre estável em fazer o bem,
em seus véus de luz segue os passos do homem, investe suas ações, por qualquer caminho que
tome, sua luz se faz encontrar diante e atrás, levando-o como em triunfo em seu seio de luz para
lhe fazer o bem, disposta a lhe fazer o bem e lhe dar a luz embora não a queira. Oh minha vontade,
quão invisível és, amável e admirável, imutável no bem, incansável sem jamais retroceder! Vê a
grande diferença entre a exposição da Eucaristia e aquela que a minha própria Vontade tem em
ato contínuo nas coisas criadas, à da Eucaristia o homem deve incomodar-se, ir ele, aproximar-se,
dispor-se para receber o bem, de outra maneira nada recebe; em troca a exposição de minha
Vontade nas coisas criadas, é Ela que vai ao homem, que se incomoda e apesar de que não esteja
disposto, minha Vontade é generosa e o afoga de seus bens, porém não há quem adore a minha
eterna Vontade em tantas exposições suas.

Ela faz sua exposição no mar, e se bem que no sol,
símbolo da Eucaristia, dá sua luz, seu calor, dá bens inumeráveis, mas sempre em silêncio, não diz
jamais uma palavra, não faz jamais uma reprovação por quantos males horrendos possa ver; no
mar, ao contrário, nos véus da água faz sua exposição de modo diferente, parece que fala ao
formar seu murmúrio, nos véus da água infunde temor em suas ondas tumultuosas e nas ondas
fragorosas, que, ao embater navios ou pessoas, as enterre no fundo do mar, sem que ninguém o
possa resistir; minha vontade no mar faz a exposição do seu poder e fala no murmúrio, fala nas
ondas, fala nas ondas altíssimas chamando o homem a amá-la e a possuí-la, e não vendo-se
ouvida faz a exposição da justiça divina, e mudando aqueles véus em tempestade lança-se contra
o homem inexoravelmente.

Oh! se as criaturas prestassem atenção a todas as exposições que
fazem a minha Vontade em toda a Criação, deveriam estar sempre em ato de adoração, para
adorar a minha Vontade exposta nos campos floridos onde expande os seus perfumes, nas árvores
carregadas de frutos onde expande a variedade de suas doçuras, assim que não há coisa criada
onde não faça sua exposição divina e especial, e como as criaturas não lhe tributam as honras
devidas, Cabe a você manter a adoração perpétua às exposições que tem o Fiat Supremo em toda
a Criação. És tua filha minha, a que deves oferecer-te como adoradora perpétua desta Vontade
sem adoradores e sem correspondência de amor por parte das criaturas".

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